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"et quasi flos rosarum in diebus vernis" (Sir. 50,8) 

 

 

 

MAGISTÉRIO DOS SANTOS - Orígenes

 

Homilias sobre o Levítico, nº 7

 

Homilias sobre S. Lucas
 

7ª homilia sobre S. Lucas
 

Homilias sobre São Lucas, nº 22, 1-3
 

Homilia 27 sobre São Lucas, 2-4

 

Homilias sobre Josué, nº 15


Homilias sobre Ezequiel I, 7

 

Comentário sobre São João, § 32,

 

Comentário ao Cântico dos Cânticos, III

 

Contra Celso, I, 62

 

Tratado sobre a oração

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Orígenes (c. 185-253), sacerdote e teólogo
Homilias sobre o Levítico, nº 7

“Muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugar com Abraão, Isaac e Jacob no festim do Reino dos Céus”

“Não beberei mais deste produto da videira até ao dia em que o hei-de beber de novo convosco no Reino de meu Pai” (Mt 26, 29). O que escutar com os ouvidos purificados, será capaz de entrever o mistério inefável […]: o Salvador espera por nós, para connosco beber o vinho; espera por nós para se alegrar. Até quando esperará? Até ter consumado a sua obra, até estarmos todos submetidos a Cristo, e Cristo a seu Pai (1Cor 15, 28). Dado que somos todos membros do seu Corpo, podemos dizer que, de certa maneira, Ele não estará submetido enquanto nós não estivermos submetidos com uma submissão perfeita, enquanto eu, o último dos pecadores, não estiver submetido. Mas quando Ele tiver consumado a sua obra e conduzido toda a criatura à sua realização perfeita, poderemos então dizer que “Ele foi submetido” naqueles que submete a seu Pai, naqueles em quem consumou a obra que o Pai lhe tinha confiado, a fim de que Deus seja tudo em todas as coisas (1Cor 15, 28) […].

Também os santos que nos precederam esperam por nós, que somos lentos e preguiçosos; a sua alegria não será perfeita enquanto houver razão para chorar pelos nossos pecados. Minha testemunha é o apóstolo, que afirma: Deus dispôs “que não chegassem sem nós a perfeição” (Hb 11, 40). Repara, pois: Abraão espera! Isaac, Jacob e todos os profetas esperam por nós, a fim de possuírem connosco a beatitude perfeita […]. Se fores santo, encontrarás a alegria ao saíres desta vida, mas essa alegria só se tornará plena quando não faltar nenhum membro ao Corpo que devemos formar todos juntos. Também tu ficarás à espera dos outros, tal como foste esperado. Ora, se tu, que és um membro, não podes ter uma alegria perfeita quando outro membro está ausente, como poderá tê-la Nosso Senhor e Salvador, que é autor e cabeça de todo o Corpo? […] Então, teremos atingido essa maturidade acerca da qual afirma o apóstolo Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Ga 2, 20). Nessa altura, o nosso Sumo-Sacerdote beberá o vinho novo no novo céu, na nova terra, no homem novo, com os homens novos, com aqueles que cantam o cântico novo.
 

 

Orígenes (c. 185-253), sacerdote e teólogo

Homilias sobre São Lucas, nº 22, 1-3



“Preparai o caminho do Senhor”


Está escrito sobre João: “Uma voz grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitar as suas veredas”. Mas o que vem a seguir diz respeito exclusivamente ao Senhor, nosso Salvador. Porque não foi João quem “aplanou os vales”, mas o Senhor, nosso Salvador. Considere cada um o que era antes de ter fé; e constatará que era um vale profundo, a pique, mergulhado nos abismos. Mas veio o Senhor Jesus, e enviou o Espírito Santo em seu lugar; foi então que “os vales foram aplanados”. Foram aplanados com as boas obras e os frutos do Espírito Santo. A caridade não deixa subsistir em ti vale algum e, se possuíres a paz, a paciência e a bondade, para além de deixares de ser vale, também começarás a ser montanha de Deus. […]

“As montanhas e as colinas serão abaixadas”. Nestas montanhas e nestas colinas abaixadas, podemos ver os poderes inimigos que se erguiam contra os homens. Com efeito, para que os vales de que falamos sejam aplanados, os poderes inimigos, as montanhas e as colinas, terão de ser abaixados.

Mas vejamos se a profecia seguinte, que diz respeito ao advento de Cristo, se realizou. Com efeito, o texto diz em seguida: “E todos os caminhos tortuosos serão endireitados”. Todos nós éramos tortuosos – pelo menos se estivermos a falar do que éramos e não daquilo que somos hoje – e a vinda de Cristo que se realizou na nossa alma endireitou tudo quanto era tortuoso. […] Rezemos para que o seu advento se realize todos os dias em nós, e para que possamos dizer: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20).
 

 

Orígenes (c. 185-235), padre e teólogo
Homilias sobre Josué, nº 15

«Aquele que não junta a mim, dispersa»

Na guerra contra os Moabitas e os Amonitas, Josué [que tem o mesmo nome que
Jesus] «matou todos os seus reis ao fio da espada» (Js 11,12). Nós
estávamos todos «sob o reino do pecado» (Rom 6,12); todos nós estávamos
sujeitos ao reinado das más paixões... Em cada um, no entanto, havia um rei
particular que nele reinava e nele dominava. Por exemplo, num era a avareza
que ocupava o reino, noutro era o orgulho, noutro ainda, a mentira; um
estava dominado pelos desejos carnais, o outro suportava o reino da
cólera... havia, pois, em cada um de nós, um reino de pecado antes de
termos fé.Mas logo que Jesus veio, matou todos os reis que detinham em nós
os reinos do pecado, ensinou-nos a matá-los todos e a não deixar escapar
nenhum. Se mantivermos vivo um só, não poderemos pertencer ao exército de
Jesus... É que o Senhor Jesus purificou-nos de toda a espécie de pecado;
destruiu-os a todos. Com efeito, «todos nós éramos insensatos, rebeldes,
extraviados, escravos de uma série de cobiças, vivendo na malícia e no
desejo, execráveis, odiando-nos uns aos outros» (Tt 3,3), com todos os
géneros de pecados que se encontram nos homens, antes de crerem. Há razão
para dizer que Jesus matou todos aqueles que saíram para fazer a guerra;
pois não existe pecado tão grande que Jesus não consiga dominar, Ele que é
o Verbo e a «Sabedoria de Deus« (1Cor 1,24). Ele triunfa sobre tudo, é
vencedor de tudo.Não acreditamos que os pecados de todas as espécies nos
são retirados quando vimos ao Baptismo? É o que diz o apóstolo Paulo que,
depois de ter enumerado toda a espécie de pecados, acrescenta, finalmente:
«eis o que éreis, mas fostes lavados, fostes santificados, fostes
justificados, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo» (1 Cor 6,11).

 

 

Orígenes (c. 185-253), presbítero e teólogo
7ª homilia sobre S. Lucas

"Donde me vem esta graça de que a mãe do meu Senhor venha até mim?"

"Tu és bendita entre as mulheres e o fruto do teu ventre é bendito. Donde
me vem esta graça de que a mãe do meu Senhor venha até mim?" Estas
palavras: "Donde me vem esta graça?" não são sinal de ignorância como se
Isabel, toda cheia do Espírito Santo, não soubesse que a mãe do Senhor
tinha vindo até ela de acordo com a vontade de Deus. Eis o sentido das suas
palavras: "Que fiz eu de bom? Em que é que as minhas obras são tão
importantes que a mãe do Senhor venha ver-me? Serei uma santa? Que
perfeição, que fidelidade me mereceram esta graça, a visita da mãe do
Senhor?" "Porque ainda a tua voz não tinha aflorado os meus ouvidos e já o
meu filho exultava de alegria no meu seio". Ele tinha sentido que o Senhor
viera para santificar o seu servo ainda antes do seu nascimento. Pode
acontecer que me chamem louco os que não têm fé por eu ter acreditado
nestes mistérios!... Porque o que é considerado loucura por essa gente é
para mim ocasião de salvação. Na verdade, se o nascimento do Salvador não
tivesse sido celeste e bem-aventurado, se não tivesse tido nada de divino e
de superior à natureza humana, nunca a sua doutrina teria atingido toda a
terra. Se, no seio de Maria, tivesse havido apenas um homem e não o Filho
de Deus, como teria sido possível que nesse tempo, e ainda hoje, fossem
curadas todas as espécies de doenças, não só do corpo mas também da
alma?... Se reunirmos tudo o que se diz acerca de Jesus, podemos constatar
que tudo o que foi escrito a seu respeito é considerado divino e digno de
admiração, porque o seu nascimento, a sua educação, o seu poder, a sua
Paixão, a sua Ressurreição não são apenas factos que ocorreram naquele
tempo: eles agem em nós ainda hoje.
 

 

Orígenes (c. 185-253), sacerdote e teólogo
Comentário sobre São João, § 32, 25-35.77-83

“Se Eu não te lavar, não terás parte Comigo”

“Sabendo Jesus que o Pai depositara nas Suas mãos todas as coisas e que
havia saído de Deus e ia para Deus, levantou-Se da mesa.” O que não
estivera outrora nas mãos de Jesus é colocado pelo Pai nas Suas mãos: não
certas coisas, à excepção de outras, mas todas as coisas. David tinha dito:
“Palavra do Senhor ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita enquanto ponho
os teus inimigos por escabelo dos teus pés’.” (Sl 109, 1). Com efeito, os
inimigos de Jesus faziam parte deste tudo que Ele sabia que o Pai Lhe dava.
[…] Por causa daqueles que se tinham afastado de Deus, Ele afastou-Se de
Deus, Ele que, por natureza, não quer sair do Pai. Ele saiu de Deus a fim
de que tudo quanto se afastou de Deus regresse com Ele às Suas mãos, para
junto de Deus, segundo o Seu desígnio eterno. […]O que fazia, pois, Jesus,
lavando os pés dos discípulos? Lavando-lhos e enxugando-lhos com a toalha
que tinha posto à cintura, Jesus embelezava-lhes os pés para o momento em
que eles teriam de anunciar a boa nova. Foi então que se cumpriu, segundo
me parece, a palavra profética: “Que formosos são os pés do mensageiro que
traz a boa nova!” (Is 52, 7; Rom 10, 15). Mas se, ao lavar os pés aos
discípulos, Jesus os embeleza, como exprimir a verdadeira beleza daqueles
que Ele mergulha por completo no “fogo do Espírito Santo” (Mt 3, 11)? Os
pés dos apóstolos tornaram-se belos a fim […] de que eles pudessem avançar
pela via santa, caminhando naquele que disse “Eu sou o Caminho” (Jo, 14,
6). Porque só aquele a quem Jesus lavou os pés segue este caminho vivo que
conduz ao Pai; caminho onde não há lugar para pés manchados. […] Para
seguir este caminho vivo e espiritual (Heb 10, 20) […], há que ter os pés
lavados por Jesus, que Se despiu das Suas vestes […] a fim de tomar no Seu
próprio corpo a impureza dos seus pés, com essa toalha que era a Sua única
veste, pois “ele tomou sobre si as nossas doenças” (Is 53, 4).
 

 

Orígenes (cerca de 185 – 253), presbítero e teólogo
Comentário ao Cântico dos Cânticos, III, 11,10 s

«Maria pôs-se rapidamente a caminho, em direcção a uma cidade nas montanhas da Judeia»

«Ei-lo que vem, saltando as montanhas» (Ct 2,8). Primeiro que tudo, Cristo
faz-se conhecer à Igreja pela sua voz. Começou por lançar a sua voz por
intermédio dos profetas; fazia-se ouvir sem se deixar ver. A sua voz
erguia-se nas mensagens que dele davam notícia e, durante esse tempo, a
Igreja-Esposa, reunida desde o princípio do mundo, apenas o ouvia. Mas, um
dia, ela viu-o com os seus olhos e disse: «Ei-lo que vem, saltando as
montanhas!»…E cada alma, se ao menos o amor do Verbo de Deus a impele…,
fica feliz e consolada quando sente a presença do Esposo, ela que até
então se encontrava apenas diante das palavras difíceis da Lei e dos
profetas. À medida que ele se aproxima dos seus pensamentos para a
esclarecer na sua fé, ela vê-o saltar por cima de montanhas e colinas…, e
pode bem dizer: «Ei-lo que vem!»… É certo que o Esposo prometeu à Esposa,
quer dizer, aos seus discípulos: «Estarei convosco todos os dias, até ao
fim do mundo» (Mt 28,20). Mas isso não o impede de dizer também que se vai
embora para tomar posse do Reino (Lc 19,12); então, de novo em plena noite,
ergue-se o grito: «Eis o Esposo que vem» (Mt 25,6). Portanto, umas vezes o
Esposo está presente e ensina; outras, dizem-no ausente e deseja-se que
chegue… Deste modo, quando a alma procura compreender e não consegue, para
ela o Verbo de Deus está ausente. Mas quando encontra quem procura, ele
está presente sem dúvida nenhuma e ilumina-a com a sua luz… Portanto, se
quisermos também nós ver o Verbo de Deus, o Esposo da alma, «saltando por
cima das colinas», escutemos primeiro a sua voz e, depois, poderemos
também vê-lo.
 

 

Origenes (c. 185-253), presbítero e teólogo

Homilias sobre S. Lucas

Fundado sobre o rochedo, Cristo

Quando enfrentais corajosamente as tentações, não é a tentação que vos torna fiéis e constantes; ela apenas revela as virtudes de constância e coragem que já existiam em vós, mas escondidas. «Pensas, diz o Senhor, que eu tinha outro objectivo, ao falar assim, para além de tornar visível a tua justiça?» (Job 40,3 LXX) E diz noutro lugar: «Afligi-te e fiz-te sentir a fome para manifestar aquilo que tinhas no coração» (Dt 8,3-5).

Da mesma maneira, a tempestade não torna sólido o edifício construído sobre areia. Se queres construir, que seja sobre pedra. Então, quando a tempestade se levantar, não derruba o que estiver fundado sobre pedra; mas ao que vacila na areia ela mostra logo que as fundações não valem nada. Por isso, antes que se levante a tempestade, que se soltem as rajadas de vento, que transbordem as torrentes, enquanto tudo permanece ainda em silêncio, voltemos toda a nossa atenção para as fundações do edifício, construamos a nossa casa com as pedras variadas e sólidas dos Mandamentos de Deus. E quando se desencadear a perseguição e uma torrente cruel se elevar contra os cristãos, poderemos mostrar que o nosso edifício está fundado sobre a pedra, Jesus Cristo (1Cor 3,11).

 

Orígenes (cerca de 185 - 253), presbítero e teólogo

Homilias sobre Ezequiel I, 7


"Os seus exércitos, servidores dos seus desejos" (Sl 102, 21)

Os anjos descem sobre aqueles que devem ser salvos. "Os anjos subiam e desciam por cima do Filho do homem" (Jo 1,51) e "aproximaram-se dele e o serviam" (Mt 4,11). Ora os anjos descem porque Cristo desceu primeiro; receavam descer antes que o Senhor dos exércitos celestes e de todas as coisas (Col 1,16) o tivesse ordenado. Mas, quando viram o Príncipe do exército celeste habitar na terra, então, por esse caminho que tinha sido aberto, saíram atrás do seu Senhor, obedecendo à vontade daquele que os repartiu como guardas dos que acreditam no seu nome.

Ontem, tu estavas sob a dependência do demónio; hoje, estás sob a de um anjo. "Guardai-vos, diz o Senhor, de desprezar qualquer destes pequeninos" que estão na Igreja, "porque, em verdade vos digo, os seus anjos vêem constantemente a face de meu Pai que está nos céus". Os anjos dedicam-se à tua salvação, declararam-se ao serviço do Filho de Deus e dizem entre si: "Se Ele desceu num corpo, se se revestiu de carne mortal, se suportou a cruz, se morreu por todos os homens, porque havemos de repousar, sim, porque nos havemos de poupar? Vamos, todos os anjos, desçamos do céu!" Foi por isso que, quando Cristo nasceu, havia "uma multidão do exército celeste louvando e glorificando a Deus" (Lc 2,13).

 

 

Orígenes (c. 185-253), sacerdote e teólogo

Contra Celso, I, 62

A palavra dos apóstolos Simão e Judas ressoou por toda a terra

Se Jesus tivesse escolhido para ministros dos seus ensinamentos homens sábios segundo a opinião pública, capazes de compreender e de exprimir idéias caras à multidão, poderiam tê-lo acusado de pregar segundo o método dos filósofos de escola, e o carácter divino da sua doutrina não se teria mostrado com toda a sua evidência. A sua doutrina e a sua pregação teriam consistido “em sabedoria de palavras” (1 Cor 1, 17) […]; e a nossa fé, semelhante àquela com que se adere às doutrinas dos filósofos deste mundo, assentaria na sabedoria dos homens e não no poder de Deus (cf. 1 Cor 2, 5). Mas, quando vemos pescadores e publicanos sem instrução terem a ousadia de discutir com os judeus a fé em Jesus Cristo, de a pregar ao resto do mundo, e de conseguir lá chegar, não podemos deixar de procurar a origem deste poder de persuasão. Como não podemos deixar de confessar que Jesus cumpriu a sua palavra – “Vinde após Mim e Eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4, 19) – nos seus apóstolos por meio de um poder divino.

Também Paulo manifesta este poder quando escreve: “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em discursos persuasivos da sabedoria humana, mas na manifestação do Espírito e do poder divino” (1 Cor 2, 4) […]. O mesmo haviam já dito os profetas, quando anunciavam antecipadamente a pregação do Evangelho: “O Senhor dá a palavra e os anunciadores da Boa Nova são uma multidão”, a fim de que “rápida corra a sua palavra” (Sl 67, 12; 147, 4). E, de facto, vemos que “a voz” dos apóstolos de Jesus ressoa “por toda a terra, até aos confins do universo a sua palavra” (Sl 18, 5; Rom 10, 18). Eis por que motivo aqueles que escutam a palavra de Deus poderosamente enunciada se enchem, eles mesmos, de poder; e manifestam-no pela sua conduta e pela sua luta em prol da verdade até à morte.
 

 

Orígenes (cerca de 185 - 253), presbítero e teólogo

Tratado sobre a oração

"O Reino de Deus está no meio de nós e dentro de nós"

Tal como disse o nosso Senhor e Salvador: "O Reino de Deus vem sem que se possa notar. Não se dirá: 'Ei-lo, está aqui' ou 'Está ali'. Porque o Reino de Deus está dentro de vós". Com efeito, "está bem perto de nós, essa Palavra, está na nossa boca e no nosso coração" (Dt 30,14). Sendo assim, é evidente que aquele que reza para que venha o Reino de Deus tem razão em pedir que esse reino de Deus germine, dê fruto e se realize dentro de si próprio. Em todos os santos em quem Deus reina e que obedecem às suas leis espirituais, ele habita como que numa cidade bem organizada. O Pai está presente nele e Cristo reina com o Pai nessa alma perfeita, tal como Ele mesmo disse: "Viremos a ele e faremos nele a nossa morada" (Jo 14,23).

Uma vez que estamos sempre a progredir, o Reino de Deus que está em nós atingirá a sua perfeição quando a palavra do apóstolo Paulo se cumprir: Cristo, "depois de ter submetido" todos os seus inimigos, "deporá o seu poder real nas mãos de Deus Pai, para que Deus seja tudo em todos" (1Co 15,28). É por isso que, rezando sem desanimar, com disposições divinizadas pelo Verbo, nós dizemos: "Pai nosso que estás nos céus, que o teu nome seja santificado, que o teu Reino venha" (Mt 6,9).

 

Orígenes (c. 185-253), sacerdote e teólogo
Homilia 27 sobre São Lucas, 2-4

Precursor de Cristo no nascimento e na morte

Admiremos João Baptista sobretudo por causa do seguinte testemunho: “Entre
os nascidos de mulher, não há profeta maior do que João” (Lc 7, 28); ele
teve o mérito de se elevar a tão grande fama de virtude, que muitos
pensavam que era o Cristo 8Lc 3, 15). Mas há outra coisa ainda mais
admirável: o tetrarca Herodes, que detinha o poder real, podia matá-lo
quando quisesse. Ora, ele tinha cometido uma acção injusta e contrária à
lei de Moisés, tomando para si a mulher de seu irmão. João, que não tinha
medo dele nem fazia acepção de pessoas, que não temia o poder real nem
receava a morte, mas tinha consciência de todos estes perigos, repreendeu
Herodes com a liberdade dos profetas, censurando-lhe o casamento em que se
envolvera. Preso por semelhante audácia, não o preocupa a morte nem um
julgamento de resultado incerto; apesar das correntes que o sujeitam, os
seus pensamentos vão para o Cristo que tinha anunciado.

Não podendo ir pessoalmente ter com Ele, manda os seus discípulos
perguntar-lhe: “És Tu o que está para vir ou devemos esperar outro?” (Lc 7,
19). Reparai bem como até na prisão João ensinava. Até aqui tinha
discípulos; até na prisão João cumpria o seu dever de mestre, instruindo os
seus discípulos com conversas sobre Deus. Nestas circunstâncias, estava
colocado o problema de Jesus, pelo que João Lhe envia alguns dos seus
discípulos.

Os discípulos vêm dizer ao mestre o que o Salvador os tinha encarregado de
anunciar, resposta que é para João uma arma para o combate: ele morre com
segurança, deixando-se decapitar de coração ao largo, seguro pela palavra
do próprio Senhor, de que Aquele em Quem havia acreditado era
verdadeiramente o Filho de Deus. Tal foi a liberdade de João Baptista, tal
foi a loucura de Herodes, que aos seus numerosos crimes acrescentou,
primeiro a prisão, depois o assassínio de João Baptista.





Fonte: www.evangelhoquotidiano.org