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CATEQUESES I

Catequeses

Encíclicas

Exortação Apostólica

Mensagens

Diversos


 

Sobre o mistério da relação entre Cristo e a Igreja

15 de março de 2006

 

Os apóstolos, testemunhas e enviados de Cristo

22 de março de 2006

 

O dom da "Comunhão"

29 de março de 2006

 

O serviço à comunhão

05 de abril de 2006

 

A comunhão no tempo: a Tradição

26 de abril de 2006

 

A Tradição Apostólica 

03 de Maio de 2006

 

A sucessão apostólica 

10 de Maio de 2006

 

Pedro, o pescador

17 de Maio de 2006

 

Pedro, o apóstolo

24 de Maio de 2006

 

Pedro, a rocha sobre a qual Cristo fundou a Igreja

7 de Junho de 2006

 

André, o Protóklitos

14 de Junho de 2006

 

Tiago, o Maior

21 de Junho de 2006

 

Tiago, o Menor

28 de Junho de 2006

 

João, filho de Zebedeu

05 de Julho de 2006

 

João, o teólogo

09 de Agosto de 2006

 

João, o vidente de Patmos

23 de Agosto de 2006

 

Mateus

30 de Agosto de 2006

 

Filipe

06 de Setembro de 2006

 

Tomé

17 de Setembro de 2006

 

Bartolomeu

4 de Outubro de 2006

 

Simão o Cananeu e Judas Tadeu

11 de Outubro de 2006
 

Judas Iscariotes e Matias

18 de Outubro de 2006
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 


 

 

Sobre o mistério da relação entre Cristo e a Igreja

15 de março de 2006


Queridos irmãos e irmãs


Depois das catequeses sobre os salmos e os cânticos das Laudes e Vésperas, quero dedicar os próximos encontros de quarta-feira ao mistério da relação entre Cristo e a Igreja, considerando-o a partir da experiência dos apóstolos, à luz da tarefa que lhes foi confiada. A Igreja foi constituída sobre o alicerce dos apóstolos como comunidade de fé, de esperança e de caridade. Através dos apóstolos, remontamos ao próprio Jesus. A Igreja começou a constituir-se quando alguns pescadores da Galiléia encontrando Jesus, se deixaram conquistar pelo seu olhar e pela sua voz, pelo seu convite cálido e forte: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens» (Marcos 1, 17; Mateus 4, 19).


O meu querido predecessor, João Paulo II, propôs à Igreja, no início do terceiro milênio, a contemplação do rosto de Cristo (Cf. «Novo millennio ineunte», 16 seguintes). Seguindo nessa direção, nas catequeses que hoje começo, quero mostrar precisamente que a luz desse Rosto se reflete no rosto da Igreja (Cf. «Lumen gentium», 1), apesar dos limites e das sombras da nossa humanidade frágil e pecadora. Depois de Maria, reflexo puro da luz de Cristo, os apóstolos, com a sua palavra e testemunho, entregam-nos a verdade de Cristo. A sua missão não é isolada, insere-se no mistério de comunhão que envolve todo o Povo de Deus e se realiza por etapas, da antiga à nova Aliança.
 
Neste sentido, há que notar que se transforma totalmente a mensagem de Jesus se ela é separada do contexto da fé e da esperança do povo eleito: como o Baptista, o seu imediato precursor, Jesus dirige-se antes de tudo a Israel (Cf. Mateus 15, 24), para «reuni-lo» no tempo escatológico que com Ele chegou. E, tal como a pregação de João, também a pregação de Jesus é ao mesmo tempo um chamamento à graça e um sinal de contradição e de julgamento para todo o povo de Deus. Portanto, desde o primeiro momento da sua actividade salvadora, Jesus de Nazaré tende a reunir, a purificar o Povo de Deus. Ainda que a sua pregação seja sempre um chamamento à conversão pessoal, na realidade tende continuamente a constituir o Povo de Deus que Ele veio reunir e a salvar.

Por este motivo, é unilateral e carece de fundamento a interpretação individualista proposta pela teologia liberal do anúncio do Reino feito por Cristo. Esta interpretação foi resumida, no ano de 1900, pelo grande teólogo liberal Adolf von Harnack nas suas conferências sobre «O que é o cristianismo?»: «O reino de Deus chega na medida em que chega a homens concretos, encontra eco nas suas almas e estes O acolhem. O reino de Deus é o senhorio de Deus, ou seja, o senhorio do Deus santo nos diferentes corações» (Terceira Conferência, 100s).
Este individualismo da teologia liberal é acentuado particularmente na modernidade. Na perspectiva da tradição bíblica e no horizonte do judaísmo, no qual a obra de Jesus se situa apesar de toda a sua novidade, fica claro que toda a missão do Filho feito carne tem uma finalidade comunicativa: veio precisamente para unir a humanidade dispersa, veio precisamente para reunir o Povo de Deus.


Um sinal evidente da intenção do Nazareno de reunir a comunidade da Aliança para manifestar nela o cumprimento das promessas feitas aos Padres, que sempre falam de convocação, de unificação, de unidade, é a “escolha” dos Doze. Escutemos o Evangelho da “eleição” dos Doze. Volto a ler agora a passagem central: «Subiu ao monte e chamou os que ele quis; e foram até ele. Escolheu doze, para que estivessem com ele, e para enviá-los a pregar com poder de expulsar os demónios. Escolheu os Doze...» (Marcos 3, 13-16; Cf. Mateus 10, 1-4; Lucas 6, 12-16). No lugar da revelação, o «monte», Jesus, com uma iniciativa que manifesta absoluta consciência e determinação, designa os Doze para que sejam com Ele testemunhas e arautos da chegada do Reino de Deus. Sobre o caráter histórico desta chamada não existem dúvidas, não só pela antiguidade e multiplicidade de testemunhos, mas também pelo simples facto de que aparece o nome de Judas, o apóstolo traidor, apesar das dificuldades que esta presença podia implicar para a comunidade nascente. O número Doze, que evidentemente faz referência às doze tribos de Israel, revela o significado da acção profético-simbólica implícita na nova iniciativa de voltar a fundar o povo santo. Após o ocaso do sistema das doze tribos, Israel tinha esperança na sua reconstituição como sinal da chegada do tempo escatológico (pode ler-se a conclusão do livro de Ezequiel: 37, 15-19; 39, 23-29; 40-48). Elegendo os Doze, introduzindo-os numa comunhão de vida com Ele e fazendo-os partícipes da sua própria missão de anúncio do Reino, com palavras e obras (Cf. Marcos 6, 7-13; Mateus 10, 5-8; Lucas 9, 1-6; Lucas 6, 13), Jesus quer dizer que chegou o tempo definitivo no qual reconstituiu o povo de Deus, o povo das doze tribos, que se converte agora num povo universal, a sua Igreja.
 
Com a sua própria existência, os Doze - vindos de origens diferentes - convertem-se no chamamento de todo o Israel à conversão, a deixar-se reunir na nova Aliança, cumprimento pleno e perfeito da antiga. Ao ter-lhes confiado a tarefa de celebrar o seu memorial na Ceia, antes da Paixão, Jesus mostrou que queria transferir para toda a comunidade na pessoa dos seus líderes o mandato de ser, na história, sinal e instrumento da reunião escatológica começada por Ele. Em certo sentido, podemos dizer que precisamente a Última Ceia é o acto de fundação da Igreja, pois Ele entrega-se a si mesmo e cria deste modo uma nova comunidade, uma comunidade unida na comunhão com Ele mesmo. Nesta perspectiva, compreende-se que o Ressuscitado lhes tenha conferido - com a efusão do Espírito - o poder de perdoar os pecados (Cf. João 20, 23). Os doze apóstolos são, deste modo, o sinal mais evidente da vontade de Jesus sobre a existência e a missão Igreja, a garantia de que entre Cristo e a Igreja não há contradição: são inseparáveis, apesar dos pecados dos homens que formam a Igreja. E, portanto, não pode conciliar-se com as intenções de Cristo um slogan que há alguns anos estava na moda: «Jesus sim, Igreja não». O Jesus individualista é um Jesus fantasia. Não podemos encontrar Jesus sem a realidade que Ele criou e na qual se comunica.
Entre o Filho de Deus feito carne e sua Igreja existe uma continuidade profunda, inseparável e misteriosa, em virtude da qual Cristo se faz presente, hoje, no seu povo. Cristo é, sempre, nosso contemporâneo; contemporâneo na Igreja constituída sobre o fundamento dos apóstolos, Ele está vivo na sucessão dos apóstolos. E esta Sua presença na comunidade, na qual Ele sempre se nos dá, é o motivo de nossa alegria. Sim, Cristo está conosco, o Reino de Deus vem até nós.
 

Os apóstolos, testemunhas e enviados de Cristo

22 de março de 2006


Queridos irmãos e irmãs:

A Carta aos Efésios apresenta-nos a Igreja como uma construção edificada «sobre o alicerce dos apóstolos e profetas, tendo como pedra angular o próprio Jesus Cristo» (2, 29). No Apocalipse, o papel dos apóstolos, e mais especificamente dos Doze, esclarece-se na perspectiva escatológica da Jerusalém celeste, apresentada como uma cidade cuja muralha «assenta sobre doze pedras, que têm os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro» (21, 14). Os Evangelhos coincidem na afirmação de que o chamamento dos apóstolos marcou os primeiros passos do ministério de Jesus, após o baptismo recebido do Batista nas águas do Jordão.


Segundo a narração de Marcos (1, 16-20) e de Mateus (4, 18-22), o cenário da chamada dos primeiros apóstolos é o lago da Galiléia. Jesus tinha apenas começado a pregação do Reino de Deus, quando o seu olhar se dirigiu a dois pares de irmãos: Simão e André, Tiago e João. São pescadores, empenhados no seu trabalho quotidiano. Lançam as redes, reparam-nas. Mas uma outra pesca os espera. Jesus chama-os com decisão e eles seguem-no com prontidão: a partir de agora serão «pescadores de homens» (Cf. Marcos 1, 17; Mateus 4, 19). Lucas, apesar de seguir a mesma tradição, tem uma narração mais elaborada (5, 1-11). Mostra o caminho de fé dos primeiros discípulos, precisando que o convite a segui-Lo lhes chega depois de terem escutado a primeira pregação de Jesus, e depois de terem experimentado os primeiros sinais prodigiosos realizados por Ele. Em particular, a pesca milagrosa constitui o contexto imediato e oferece o símbolo da missão de pescadores de homens que lhes é confiado. O destino destes «chamados», a partir de agora, ficará intimamente ligado ao de Jesus. O apóstolo é um enviado, mas antes ainda é um «especialista» em Jesus.
 
Justamente este aspecto é posto em evidência pelo evangelista João depois do primeiro encontro de Jesus com os futuros apóstolos. Aqui o cenário é diferente. O encontro acontece nas margens do Jordão. A presença dos futuros discípulos, vindo também eles, como Jesus, da Galiléia para viver a experiência do batismo ministrado por João, deixa entender o seu mundo espiritual. Eram homens à espera do Reino de Deus, desejosos de conhecer o Messias, cuja vinda era anunciada como eminente. Basta que João Batista assinale Jesus como o Cordeiro de Deus (Cf. João 1, 36), para que surja neles o desejo de um encontro pessoal com o Mestre. O diálogo de Jesus com os seus primeiros dois futuros apóstolos é muito expressivo. À pergunta: «Que buscais?», eles respondem com outra pergunta: «Rabbi --que quer dizer “Mestre” -- onde moras?». A resposta de Jesus é um convite «Vinde e vede» (Cf. João 1, 38-39). Vinde para poder ver. A aventura dos apóstolos começa assim, como um encontro de pessoas que se abrem reciprocamente. Para os discípulos começa um conhecimento direto do Mestre. Vêem onde vive e começam a conhecê-lo. Não terão de ser arautos de uma idéia, mas testemunhas de uma pessoa. Antes de serem enviados a evangelizar, terão de «estar» com Jesus (Cf. Marcos 3, 14), estabelecendo com ele uma relação pessoal. Com este fundamento, a evangelização não é mais que um anúncio do que se experimentou e um convite a entrar no mistério da comunhão com Cristo (Cf. 1 João 13).


A quem serão enviados os apóstolos? No Evangelho, Jesus parece restringir a Israel a sua missão: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mateus 15, 24). Do mesmo modo parece circunscrever a missão confiada aos Doze: «A estes doze enviou Jesus, depois de lhes ter dado as instruções seguintes: «Não vades à terra dos gentios nem entreis nas cidades dos samaritanos; Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mateus 10, 5). Uma certa crítica moderna de inspiração racionalista tinha visto nestas expressões a falta de uma consciência universalista do Nazareno. Na realidade, isto compreende-se à luz da sua relação especial com Israel, comunidade da Aliança, na continuidade da história da salvação. Segundo a espera messiânica, as promessas divinas, feitas imediatamente a Israel, chegariam ao seu cumprimento quando o próprio Deus, através de seu Eleito, tivesse reunido o seu povo como faz um pastor com seu rebanho: «Eu salvarei as minhas ovelhas e não estarão mais expostas ao perigo... Eu suscitarei para elas um pastor que as apascentará, David meu servo: ele as apascentará e será seu pastor. Eu, o Senhor, serei o seu Deus, e meu o servo David será príncipe no meio deles» (Ezequiel 34, 22-24). Jesus é o pastor escatológico que reúne as ovelhas perdidas da casa de Israel e as procura, porque as conhece e ama (Cf. Lucas 15, 4-7 e Mateus 18, 12-14; Cf. também a figura do bom pastor em João 10, 11 e seguintes). Através desta «reunião» anuncia-se o Reino de Deus a todos os povos: «A minha glória manifestou-se entre as nações, e todas as nações verão o juízo que vou executar e a mão que porei sobre elas» (Ezequiel 39, 21).


E Jesus segue precisamente este perfil profético. O primeiro passo é a «reunião» do povo de Israel, para que, assim, todos os povos chamados a reunir-se na comunhão com o Senhor possam ver e crer. Deste modo, os doze, chamados a participar da própria missão de Jesus, cooperam com o Pastor dos últimos tempos, dirigindo-se também eles, antes de tudo, às ovelhas perdidas da casa de Israel, ou seja, ao povo da promessa, cuja reunião é o sinal de salvação para todos os povos, o inicio da universalização da Aliança. Longe de contradizer a abertura universalista da ação messiânica do Nazareno, o ter restringido, ao início, a sua missão e a dos doze a Israel torna-se um sinal profético mais eficaz. Após a paixão e a ressurreição de Cristo, este sinal será esclarecido: o caráter universal da missão dos apóstolos ficará explícito. Cristo enviará os apóstolos «por todo o mundo» (Marcos 16, 15), a «todos os povos» (Mateus 28, 19; Lucas 24, 47, «até os confins da terra» (Atos 1, 8). E esta missão continua. Continua sempre o mandamento do Senhor de reunir os povos na unidade do seu amor. Esta é a nossa esperança e este é também o nosso mandamento: contribuir para essa universalidade, para essa verdadeira unidade na riqueza das culturas, em comunhão com o nosso verdadeiro Senhor Jesus Cristo.
 

O dom da "Comunhão"

29 de março de 2006

 
Queridos irmãos e irmãs


Através do ministério apostólico, a Igreja, comunidade reunida pelo Filho de Deus vindo na carne, viverá através dos tempos edificando e nutrindo a comunhão em Cristo e no Espírito, à qual todos são chamados e na qual podem experimentar a salvação dada pelo Pai. Os Doze – como disse o Papa Clemente, terceiro sucessor de Pedro, no final do século I – tiveram o cuidado, de fato, de deixar sucessores (Cf. 1 Clemente 42, 4) para que a missão que lhes foi confiada continuasse depois da sua morte. No decorrer dos séculos, a Igreja, organicamente estruturada sob a direcção dos legítimos pastores, continuou, também, a viver no mundo como mistério de comunhão, no qual se reflete em certo sentido a mesma comunhão trinitária, o mistério do próprio Deus.
 
Já o apóstolo Paulo menciona este supremo manancial trinitário quando deseja ao seus cristãos: «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós» (2 Coríntios 13, 13). Estas palavras, provável eco do culto da Igreja nascente, evidenciam como o dom gratuito do amor do Pai em Jesus Cristo se realiza e se expressa na comunhão que actua pelo Espírito Santo. Esta interpretação, baseada no estreito paralelismo que o texto estabelece entre os três sujeitos («a graça do Senhor Jesus Cristo ... o amor de Deus ... e a comunhão do Espírito Santo»), apresenta a «comunhão» como dom específico do Espírito, fruto do amor entregue por Deus Pai e da graça oferecida pelo Senhor Jesus.
 
Por outro lado, o contexto imediato, caracterizado pela insistência na comunhão fraterna, leva-nos a ver na «koinonia» do Espírito Santo não só a «participação» na vida divina quase individualmente, cada um por si, mas também logicamente a «comunhão» entre os crentes, que o mesmo Espírito suscita como seu artífice e principal agente (Cf. Filipenses 2, 1). Poder-se-ia afirmar que graça, amor e comunhão, referidos respectivamente a Cristo, ao Pai e ao Espírito, são aspectos diversos da única acção divina para a nossa salvação, acção que cria a Igreja e que faz da Igreja – como diz São Cipriano no século III – «um povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo» («De Orat. Dom.», 23: PL 4, 536, citado em «Lumen gentium», 4).
 
A idéia da comunhão como participação na vida trinitária é iluminada com particular intensidade no Evangelho de João, onde a comunhão de amor que une o Filho ao o Pai e aos os homens é, ao mesmo tempo, o modelo e a fonte da comunhão fraterna, que deve unir os discípulos entre si: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (cf João 15, 12; 13, 34). «Que eles sejam um, como nós somos um» (João 17, 21. 22). Portanto, comunhão dos homens com o Deus Trinitário e comunhão dos homens entre si. No tempo da peregrinação terrena, o discípulo, através da comunhão com o Filho, pode participar já na Sua vida divina e na do Pai: «nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo» (1 João 1,3). Esta vida de comunhão com Deus e entre nós é a finalidade própria do anúncio do Evangelho, a finalidade da conversão ao cristianismo: «o que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos também, para que também vós estejais em comunhão conosco» (1 João 1, 3). Portanto, esta dupla comunhão com Deus e entre nós é inseparável. Onde se destrói a comunhão com Deus, que é comunhão com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo, destrói-se também a raiz e a fonte da comunhão entre nós. E onde não se vive a comunhão entre nós, também não é viva e verdadeira a comunhão com o Deus Trinitário, como escutamos.
 
Demos agora o passo seguinte. A comunhão – fruto do Espírito Santo –alimenta-se do Pão eucarístico (Cf. 1 Corintios 10, 16 -17) e exprime-se nas relações fraternas, numa espécie de antecipação no mundo futuro. Na Eucaristia Jesus alimenta-nos, une-nos com Ele, com o Pai e com o Espírito Santo e entre nós, e esta rede de unidade que abraça o mundo é uma antecipação do mundo futuro no nosso tempo. Deste modo, sendo antecipação do mundo futuro, a comunhão é um dom que tem, também, consequências muito reais, faz-nos sair da nossa solidão, do fechamento em nós mesmos, e torna-nos participantes do amor que nos une a Deus e entre nós. É fácil compreender como é grande este dom, bastando para tal, pensarmos nas divisões e conflitos que afligem as relações entre os indivíduos, os grupos e povos inteiros. E se não existir o dom da unidade no Espírito Santo, a divisão da humanidade é inevitável. A «comunhão» é verdadeiramente a boa nova, o remédio que nos deu o Senhor contra a solidão que hoje ameaça todos, o dom precioso que nos faz sentir acolhidos e amados em Deus, na unidade do seu Povo reunido em nome da Trindade; é a luz que faz resplandecer a Igreja como sinal erguido entre os povos: «Se dizemos que estamos em comunhão com ele, e caminhamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Mas se caminhamos na luz, como ele mesmo está na luz, estamos em comunhão uns com os outros» (1 João 1, 6-7). A Igreja revela-se assim, apesar de todas as fragilidades humanas que pertencem a sua fisionomia histórica, uma maravilhosa criação de amor, feita para tornar Cristo próximo de cada homem e cada mulher que queira verdadeiramente encontrá-lo, até o final dos tempos. E na Igreja o Senhor permanece sempre contemporâneo. A Escritura não é uma coisa do passado. O Senhor não fala no passado, mas fala no presente, fala hoje connosco, dá-nos a luz, mostra-nos o caminho da vida, dá-nos a comunhão e assim nos prepara e nos abre à paz.
 

O serviço à comunhão

05 de abril de 2006


Queridos irmãos e irmãs

Na nova série de catequeses, começada há algumas semanas, queremos considerar as origens da Igreja para compreender o desígnio originário de Jesus, e deste modo compreender o essencial da Igreja, que permanece com o passar do tempo. Queremos compreender também o porquê do nosso estar na Igreja e como temos de nos comprometer a vivê-lo no início de um novo milênio cristão.

Ao refletir sobre a Igreja nascente, podemos descobrir dois aspectos: um primeiro aspecto é fortemente sublinhado por Santo Irineu de Lyon, mártir e grande teólogo do final do século II, o primeiro que nos deixou uma teologia em certo sentido sistemática. Santo Irineu escreve: «Onde está a Igreja, aí está também o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, aí está a Igreja e toda graça; pois o Espírito é verdade» («Adversus haereses», III, 24, 1: PG 7, 966). Portanto, existe uma relação íntima entre o Espírito Santo e a Igreja. O Espírito Santo edifica a Igreja e dá-lhe a verdade, infunde --como diz São Paulo-- nos corações dos crentes o amor (Cf. Romanos 5,5).
Mas há também um segundo aspecto. Esta íntima relação com o Espírito não anula nossa humanidade com toda a sua fraqueza e, deste modo, a comunidade dos discípulos experimenta desde o início não só a alegria do Espírito Santo, a graça da verdade e do amor, mas também a provação, sobretudo pelo contraste entre as verdades de fé e as consequentes lacerações da comunhão. Assim como a comunhão do amor existe desde o início e existirá até ao fim (Cf. 1 João 1, 1ss), do mesmo modo, por infelicidade, desde o início irrompe também a divisão. Não temos de nos surpreender pelo facto de que hoje também assim seja: «Saíram dentre nós --diz a Primeira Carta de João--; mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, permaneceriam connosco. Mas sucedeu assim para se ver que nem todos são dos nossos» (2, 19). Portanto, sempre existe o perigo, nas vicissitudes do mundo e também nas debilidades da Igreja, de perder a fé, e assim, perder também o amor e a fraternidade. Portanto, é um dever preciso de quem crê na Igreja do amor e quer viver nela, reconhecer também este perigo e aceitar que não é possível a comunhão com quem se afastou da doutrina da salvação (Cf. 2 João 9-11).

Que a Igreja nascente estava claramente consciente das tensões possíveis na experiência da comunhão mostra-o bem a Primeira Carta de João: não existe outra voz no Novo Testemunho que se levante com tanta força para sublinhar a realidade do dever do amor fraterno entre os cristãos; mas essa mesma voz dirige-se com drástica severidade aos adversários, que foram membros da comunidade e que já não são. A Igreja do amor é também a Igreja da verdade, entendida antes de tudo como fidelidade ao Evangelho confiado pelo Senhor Jesus aos seus. A fraternidade cristã nasce pelo facto de todos serem filhos do mesmo Pai pelo Espírito de verdade: «Com efeito, todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus» (Romanos 8, 14). Mas a família dos filhos de Deus, para viver na unidade e na paz, necessita de alguém que a instrua na verdade e a guie com sábio e autorizado discernimento: isto é o que o ministério dos Apóstolos é chamado a realizar. E aqui chegamos a um ponto importante. A Igreja é totalmente do Espírito, mas tem uma estrutura, a sucessão apostólica, que tem a responsabilidade de garantir a permanência da Igreja na verdade doada por Cristo, da qual também procede a capacidade do amor.

A introdução dos Actos dos Apóstolos expressa com grande eficácia a convergência destes valores na vida da Igreja nascente: «Eram assíduos à escuta dos ensinamentos dos apóstolos, ao exercício da comunhão fraterna (koinonia), à fração do pão e às orações» (Atos 2, 42). A comunhão nasce da fé suscitada pela pregação apostólica, alimenta-se da fracção do pão e da oração, e exprime-se na caridade fraterna e no serviço. Encontramo-nos ante a descrição da comunhão da Igreja nascente na riqueza do seu dinamismo interno e da sua expressão visível: o dom da comunhão é preservado e é promovido em particular pelo ministério apostólico, que por sua vez é dom para toda a comunidade.

Os apóstolos e seus sucessores são, portanto, os guardiões e as testemunhas autorizadas do depósito da verdade entregue à Igreja, e são também os ministros da caridade: dois aspectos que estão ligados. Têm de pensar sempre no caráter inseparável deste duplo serviço, que na realidade é um só: verdade e caridade, reveladas e doadas pelo Senhor Jesus. Neste sentido, realizam antes de tudo um serviço de amor: a caridade que têm de viver e promover não pode separar-se da verdade que preservam e transmitem. A verdade e o amor são duas faces do mesmo dom: que procede de Deus e que graças ao ministério apostólico é guardado na Igreja e nos chega até ao presente! Também, através do serviço dos apóstolos e seus sucessores, o amor de Deus Trindade chega até nós para nos comunicar a verdade que nos faz livres (Cf. João 8, 32) ! Tudo isto que vemos na Igreja nascente nos leva a rezar pelos Sucessores dos Apóstolos, por todos os Bispos e pelos Sucessores de Pedro, para que sejam realmente guardiões da verdade e da caridade; para que sejam, neste sentido, realmente apóstolos de Cristo, para que a sua luz, a luz da verdade e da caridade não se apague nunca na Igreja e no mundo.
 

A comunhão no tempo: a Tradição

26 de abril de 2006


Queridos irmãos e irmãs:


Obrigado pelo vosso afecto! Na nova série de catequeses iniciada há pouco tempo, procuramos compreender o desígnio originário da Igreja querida pelo Senhor para, assim, compreender melhor a nossa participação, a nossa vida cristã na grande comunhão da Igreja. Até agora, compreendemos que a comunhão eclesial é suscitada e sustentada pelo Espírito Santo, mantida e promovida pelo ministério apostólico. E esta comunhão, à qual chamamos Igreja, não se estende, somente, a todos os crentes de um certo momento histórico, mas abraça também todos os tempos e todas as gerações. Portanto, encontramo-nos perante uma dupla universalidade: a universalidade sincrónica - estamos unidos aos crentes em todas as partes do mundo - e também uma universalidade dita diacrónica, ou seja, todos os tempos nos pertencem, também os crentes do passado e os crentes do futuro formam conosco uma única e grande comunhão.
 
O Espírito apresenta-se como a garantia da presença activa do mistério na história, Aquele que assegura a sua realização através dos séculos. Graças ao Paráclito, a experiência do Ressuscitado feita pela comunidade apostólica na origem da Igreja, poderá sempre ser vivida pelas gerações seguintes, na medida em que é transmitida e actualizada na fé, no culto e na comunhão do Povo de Deus, peregrino no tempo. Assim, nós agora, no tempo pascal, vivemos o encontro com o Ressuscitado não só como algo do passado, mas na comunhão presente da fé, da liturgia, da vida da Igreja. Nesta transmissão dos bens da salvação, que faz da comunidade cristã a actualização permanente, com a força do Espírito, da comunhão originária, consiste a Tradição apostólica da Igreja. É assim chamada, porque nasceu do testemunho dos apóstolos e da comunidade dos discípulos nos primeiros tempos, foi transmitida sob a guia do Espírito Santo nos escritos do Novo Testamento e na vida sacramental, na vida da fé, e a ela - a esta Tradição, que é a realidade sempre actual do dom de Jesus - a Igreja continuamente se refere como seu fundamento e sua norma através da sucessão ininterrupta do ministério apostólico.


Jesus, na sua vida histórica, limitava a sua missão à casa de Israel, mas já dava a entender que o dom era destinado não só ao povo de Israel, mas a todo o mundo e a todos os tempos. O ressuscitado confia depois explicitamente aos apóstolos (Cf. Lucas 6, 13) a tarefa de fazer discípulas todas as nações, garantindo a sua presença e sua ajuda até o final dos tempos (Cf. Mateus 28, 19 seguintes). A universidade da salvação requer, por outro lado, que o memorial da Páscoa seja celebrado sem interrupção na história até ao regresso glorioso de Cristo (Cf. 1 Coríntios 11, 26). Quem actualizará a presença salvífica do Senhor Jesus, mediante o ministério dos apóstolos -chefes do Israel escatológico (Cf. Mateus 19, 28) - e por toda a vida do povo da nova aliança? A resposta é clara: o Espírito Santo. Os Actos dos Apóstolos - na continuidade do desígnio do Evangelho de Lucas - apresentam ao vivo a união entre o Espírito, os enviados de Cristo e a comunidade por eles reunida. Graças à acção do Paráclito, os apóstolos e os seus sucessores podem realizar no tempo a missão recebida do Ressuscitado: «Vós sois testemunhas disto. E Eu vos enviarei o que o meu Pai prometeu...» (Lucas 24, 48 seguintes). «Recebereis a força do Espírito Santo, que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra» (Actos 1, 8). E esta promessa, ao início incredível, realizou-se já no tempo dos apóstolos: «Nós somos testemunhas destas coisas, assim como o Espírito Santo, dado por Deus aos que lhe obedecem» (Actos 5, 32).
 
É, portanto, o próprio Espírito que, mediante a imposição das mãos e a oração dos apóstolos, consagra e envia os novos missionários do Evangelho (por exemplo, nos Actos 13, 3 seguintes e 1 Timóteo 4, 14). É interessante observar que, enquanto que em algumas passagens se diz que Paulo estabelece os presbíteros nas Igrejas (Cf. Actos 14, 23), noutras se afirma que é o Espírito quem constitui os pastores do rebanho (Cf. Actos 20, 28). A acção do Espírito e a de Paulo estão deste modo profundamente unidas. Na hora das decisões solenes para a vida da Igreja, o Espírito está presente para guiá-la. Esta presença-guia do Espírito Santo sente-se particularmente no Concílio de Jerusalém, em cujas palavras conclusivas ressoa a afirmação: «decidimos o Espírito Santo e nós...» (Actos 15, 28); a Igreja cresce e caminha «no temor do Senhor e estava cheia da consolação do Espírito Santo» (Actos 9, 31). Esta permanente actualização da presença do Senhor Jesus no seu povo, realizada pelo Espírito Santo e expressa na Igreja pelo ministério apostólico e pela comunhão fraterna, é o que em sentido teológico se entende pelo termo Tradição: não é a mera transmissão material do que foi entregue ao início aos apóstolos, mas a presença eficaz do Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, que acompanha e guia no Espírito a comunidade por Ele reunida.
 
A Tradição é a comunhão dos fiéis em união com os legítimos pastores no curso da história, uma comunhão que o Espírito Santo alimenta assegurando o nexo entre a experiência da fé apostólica, vivida na comunidade originária dos discípulos, e a experiência actual de Cristo na sua Igreja. Por outras palavras, a Tradição é a continuidade orgânica da Igreja, Templo santo de Deus Pai, edificado sobre o fundamento dos apóstolos, unidos pela pedra angular, Cristo, mediante a acção vivificante do Espírito: «Assim, pois, já não sois estranhos nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e familiares de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo a pedra angular o próprio Cristo, em quem toda a edificação bem ordenada se eleva até formar um templo santo no Senhor; N’ Ele também vós estais sendo conjuntamente edificados, para vos tornardes morada de Deus pelo Espírito» (Efésios 2, 19-22). Graças à Tradição, garantida pelo ministério dos apóstolos e seus sucessores, a água da vida derramada do lado de Cristo e seu sangue salvador chegam às mulheres e aos homens de todos os tempos. Deste modo, a Tradição é a presença permanente do Salvador que vem até nós, redimir-nos e santificar-nos no Espírito por meio do ministério de sua Igreja para glória do Pai.
 
Concluindo e resumindo, podemos, portanto, dizer que a Tradição não é a transmissão de coisas ou palavras, uma coleção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos une às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes. O grande rio que nos conduz ao porto da eternidade. E, sendo assim, neste rio vivo realiza-se sempre de novo a palavra do Senhor, que escutamos, ao início,
dos lábios do leitor: «Eis aqui que eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28, 20).
 

A Tradição Apostólica 

03 de Maio de 2006


Queridos irmãos e irmãs

 
Nestas Catequeses desejamos compreender o que é a Igreja. A última vez meditámos sobre o tema da Tradição apostólica. Vimos que ela não é uma colecção de objectos, de palavras como uma caixa que contém coisas mortas; a Tradição é o rio da vida nova que vem das origens, de Cristo até nós, e envolve-nos na história de Deus com a humanidade. Este tema da Tradição é tão importante que também hoje desejo deter-me sobre ele: de facto, é de grande importância para a vida da Igreja.


O Concílio Vaticano II realçou, a este propósito, que a Tradição é apostólica antes de tudo nas suas origens: "Dispôs Deus, em toda a sua benignidade, que tudo quanto revelara para a salvação de todos os povos permanecesse íntegro para sempre e fosse transmitido a todas as gerações. Por isso, Cristo Senhor, em quem se consuma toda a revelação de Deus Sumo (cf. 2 Cor 1, 30; 3, 16; 4, 6), mandou aos Apóstolos que pregassem a todos os homens o Evangelho... como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, comunicando-lhes os dons divinos" (Const. dogm. Dei Verbum, 7).
O Concílio prossegue, anotando como tal empenho foi fielmente seguido "pelos Apóstolos que, pela sua pregação oral, exemplos e instituições, comunicaram aquilo que tinham recebido pela palavra, convivência e obras de Cristo, ou aprendido por inspiração do Espírito Santo" (ibid.). Com os Apóstolos, acrescenta o Concílio, colaboraram também "varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a Mensagem da salvação" (ibid.).


Como chefes do Israel escatológico, também eles doze como doze eram as tribos do povo eleito, os Apóstolos continuam a "recolha" iniciada pelo Senhor, e fazem-no antes de tudo transmitindo fielmente o dom recebido, a boa nova do Reino que veio até aos homens em Jesus Cristo. O seu número expressa não só a continuidade com a santa raiz, o Israel das doze tribos, mas também o destino universal do seu ministério, que leva a salvação até aos extremos confins da terra. Pode-se captar isto do valor simbólico que têm os números no mundo semítico: doze resulta da multiplicação de três, número perfeito, e quatro, número que remete para os quatro pontos cardeais, e portanto para todo o mundo.
A comunidade, que surgiu do anúncio evangélico, reconhece-se convocada pela palavra daqueles que foram os primeiros a fazer a experiência do Senhor e por Ele foram enviados. Ela sabe que pode contar com a orientação dos Doze, como também com a de quantos a eles se associam pouco a pouco como sucessores no ministério da Palavra e no serviço à comunhão. Por conseguinte, a comunidade sente-se comprometida a transmitir aos outros a "feliz notícia" da presença actual do Senhor e do seu mistério pascal, que age no Espírito.


Isto é bem evidenciado nalguns trechos do epistolário paulino: "Transmiti-vos... o que eu próprio recebi" (1 Cor 15, 3). E isto é importante. São Paulo, como se sabe, originariamente chamado por Cristo com uma vocação pessoal, é um verdadeiro Apóstolo e, contudo, também para ele conta sobretudo a fidelidade a quanto recebeu. Ele não queria "inventar" um novo cristianismo, por assim dizer "paulino". Por isso insiste: "Transmiti-vos... o que eu próprio recebi". Transmitiu o dom inicial que vem do Senhor e é a verdade que salva. Depois, no fim da vida, escreve a Timóteo: "Guarda, pelo Espírito Santo que habita em nós, o precioso bem que te foi confiado" (2 Tm 1, 14).


Mostra isto com eficiência também este antigo testemunho da fé cristã, escrita por Tertuliano por volta do ano 200: "(Os Apóstolos) no princípio afirmaram a fé em Jesus Cristo e estabeleceram Igrejas para a Judeia e logo a seguir, espalhados pelo mundo, anunciaram a mesma doutrina e uma mesma fé às nações e, por conseguinte, fundaram Igrejas em cada cidade. Depois, delas, as outras Igrejas mutuaram a ramificação da sua fé e as sementes da doutrina, e continuamente a mutuam para serem precisamente Igrejas. Desta forma também elas são consideradas apostólicas como descendência das Igrejas dos apóstolos" (De praescriptione haereticorum, 20: PL 2, 32).


O Concílio Vaticano II comenta: "Aquilo que os Apóstolos transmitiram compreende todas aquelas coisas que são necessárias para que o Povo de Deus viva santamente e para que aumente a sua fé, e deste modo a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que ela acredita" (Const. Dei Verbum, 8). A Igreja transmite tudo o que ela é e crê, transmite-o no culto, na vida, na doutrina. A Tradição é, portanto, o Evangelho vivo, anunciado pelos Apóstolos na sua integridade, com base na plenitude da sua experiência única e irrepetível: pela sua acção a fé é comunicada aos outros, até nós, até ao fim do mundo.


Por conseguinte, a Tradição é a história do Espírito que age na história da Igreja através da mediação dos Apóstolos e dos seus sucessores, em fiel continuidade com a experiência das origens. É quanto esclarece o Papa São Clemente Romano nos finais do século I: "Os Apóstolos escreve ele anunciaram-nos o Evangelho enviados pelo Senhor Jesus Cristo, Jesus Cristo foi enviado por Deus. Cristo vem portanto de Deus, os Apóstolos de Cristo: ambos procedem ordinariamente da vontade de Deus... Os nossos Apóstolos chegaram ao conhecimento por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo que teriam surgido contendas acerca da função episcopal. Por isso, prevendo perfeitamente o futuro, estabeleceram os eleitos e deram-lhe por conseguinte a ordem, para que, quando morressem, outros homens provados assumissem o seu serviço" (Ad Corinthios, 42.44: PG 1, 292.296).


Esta corrente do serviço continua até hoje, continuará até ao fim do mundo. De facto, o mandato conferido por Jesus aos Apóstolos foi por eles transmitido aos seus sucessores. Além da experiência do contacto pessoal com Cristo, experiência única e irrepetível, os Apóstolos transmitiram aos Sucessores o envio solene ao mundo recebido do Mestre.
Apóstolo deriva precisamente da palavra grega "apostéllein", que significa enviar. O envio apostólico como mostra o texto de Mt 28, 19s. exige um serviço pastoral ("fazei discípulos de todas as nações..."), litúrgico ("baptizai-as...") e profético ("ensinando-lhes a cumprir tudo quanto vos tenho mandado"), garantido pela proximidade do Senhor até à consumação do tempo ("eis que Eu estarei convosco todos os dias até ao fim do mundo").


Assim, de uma forma diferente da dos Apóstolos, temos nós também uma experiência verdadeira e pessoal da presença do Senhor ressuscitado. Através do ministério apostólico é o próprio Cristo que alcança quem está chamado à fé. A distância dos séculos é superada e o Ressuscitado oferece-se vivo e operante por nós, no hoje da Igreja e do mundo. Esta é a nossa grande alegria. No rio vivo da Tradição Cristo não está distante dois mil anos, mas está realmente presente entre nós e doa-nos a Verdade, e doa-nos a luz que nos faz viver e encontrar o caminho para o futuro.
 

A sucessão apostólica 

10 de Maio de 2006


Queridos irmãos e irmãs!

 
Nas últimas duas audiências meditámos sobre o que é a Tradição na Igreja e vimos que ela é a presença permanente da palavra e da vida de Jesus no seu povo. Mas a palavra, para estar presente, tem necessidade de uma pessoa, de uma testemunha. E assim nasce esta reciprocidade: por um lado, a palavra tem necessidade da pessoa, mas, por outro, a pessoa, a testemunha, está ligada à palavra que lhe foi confiada e que ele não inventou. Esta reciprocidade entre conteúdo palavra de Deus, vida do Senhor e pessoa que lhe dá continuidade é característica da estrutura da Igreja, e hoje queremos meditar este aspecto pessoal da Igreja.

 
O Senhor tinha-o iniciado convocando, como vimos, os Doze, nos quais estava representado o futuro Povo de Deus. Na fidelidade ao mandamento recebido do Senhor, primeiro os Doze, depois da sua Ascensão, integram o seu número com a eleição de Matias no lugar de Judas (cf. Act 1, 15-26), e depois associam progressivamente outros nas funções que lhe foram confiadas, para que continuem o seu ministério. O próprio ressuscitado chama Paulo (cf. Gl 1, 1), mas Paulo, mesmo sendo chamado pelo Senhor, confronta o seu Evangelho com o Evangelho dos Doze (cf. ibid. 1, 18), preocupa-se em transmitir o que recebeu (cf. 1 Cor 11, 23; 15, 3-4) e na distribuição das tarefas é associado aos Apóstolos, juntamente com outros, por exemplo com Barnabé (cf. Gl 2, 9). Assim como no início da condição de apóstolo há uma chamada e um envio do Ressuscitado, também a sucessiva chamada e envio de outros acontecerá, na força do Espírito, por obra de quem já foi constituído no ministério apostólico. Este é o caminho pelo qual continuará o ministério, que depois, a partir da segunda geração se chamará ministério episcopal, "episcopé".

 
Talvez seja útil explicar brevemente o que significa bispo. Vescovo (bispo) è a forma italiana da palavra grega "epíscopos". Esta palavra indica alguém que tem uma visão do alto, alguém que olha com o coração. Assim o próprio São Pedro, na sua primeira Carta, chama ao Senhor Jesus "pastor e bispo, guarda das vossas almas" (2, 25). E segundo este modelo do Senhor, que é o primeiro bispo, guarda e pastor das almas, os sucessores dos Apóstolos chamaram-se sucessivamente bispos, "epíscopoi". A eles é confiada a função do "epoiscopé". Esta função clara do Bispo evolver-se-á progressivamente, em relação ao início, até assumir a forma já claramente confirmada em Inácio de Antioquia no início do século II (cf. Ad Magnesios, 6, 1: PG 5, 668) do tríplice múnus de bispo, presbítero e diácono. É um desenvolvimento guiado pelo Espírito de Deus, que assiste a Igreja no discernimento das formas autênticas da sucessão apostólica, sempre melhor definidas entre uma pluralidade de experiências e de formas carismáticas e ministeriais, presentes nas comunidades das origens.

 
Desta forma, a sucessão na função episcopal apresenta-se como continuidade do ministério apostólico, garantia da perseverança na Tradição apostólica, palavra e vida, que o Senhor nos confiou. O vínculo entre o Colégio dos Bispos e a comunidade originária dos Apóstolos deve ser compreendido antes de tudo na linha da continuidade histórica. Como vimos, aos Doze são depois associados Matias, Paulo, Barnabé, e em seguida outros, até à formação na segunda e na terceira geração, do ministério do bispo. Por conseguinte, a continuidade exprime-se nesta sucessão histórica. E na continuidade da sucessão encontra-se a garantia do perseverar, na continuidade eclesial, do Colégio apostólico reunido por Cristo. Mas esta continuidade, que vemos primeiro na continuidade histórica dos ministros, deve ser vista também em sentido espiritual, porque a sucessão apostólica no ministério é considerada como lugar privilegiado da acção e da transmissão do Espírito Santo. Temos um reflexo claro destas convicções, por exemplo, no seguinte texto de Ireneu de Lião (segunda metade do século II): "A tradição dos Apóstolos, manifestada em todo o mundo, mostra-se em cada Igreja a todos os que desejam ver a verdade e nós podemos enumerar os bispos estabelecidos pelos Apóstolos nas Igrejas e os seus sucessores até nós... (Os Apóstolos) de facto quiseram que aqueles que deixavam como sucessores fossem absolutamente perfeitos e irrepreensíveis em tudo, transmitindo-lhes a própria missão de ensinamento. Se eles tivessem compreendido correctamente, dele teriam tirado grande proveito; se, ao contrário, falhassem, teriam obtido um dano gravíssimo" (Adversus haereses, III 3, 1: PG 7, 848).

 
Depois, Ireneu indicando aqui esta rede da sucessão apostólica como garantia do perseverar na palavra do Senhor, concentra-se naquela Igreja "suma e antiquíssima e por todos conhecida" que foi "fundada e constituída em Roma pelos gloriosíssimos Apóstolos Pedro e Paulo", dando relevo à Tradição da fé, que nela chega até nós pelos Apóstolos mediante a sucessão dos bispos. Desta forma, para Ireneu e para a Igreja universal, a sucessão episcopal da Igreja de Roma torna-se o sinal, o critério e a garantia da transmissão ininterrupta da fé apostólica: "A esta Igreja, pela sua peculiar principalidade (propter potiorem principalitatem), é necessário que convirjam todas as Igrejas, isto é, os fiéis de todas as partes, porque nela a tradição dos Apóstolos sempre foi preservada..." (Adversus haereses, III 3, 2: PG 7, 484). A sucessão apostólica verificada com base na comunhão com a da Igreja de Roma é portanto o critério da permanência de cada uma das Igrejas na Tradição da comum fé apostólica, que através deste canal pôde chegar até nós desde as origens: "Com esta ordem e com esta sucessão chegaram até nós a tradição que existe na Igreja a partir dos Apóstolos e a pregação da verdade. Esta é a prova mais completa que una e única é a fé vivificante dos Apóstolos, que foi conservada e transmitida na verdade" (ibid., III, 3, 3; PG 7, 851).

 
Segundo estes testemunhos da Igreja antiga, a apostolicidade da comunhão eclesial consiste na fidelidade ao ensinamento e à prática dos Apóstolos, através dos quais é garantido o vínculo histórico e espiritual da Igreja com Cristo. A sucessão apostólica do ministério episcopal é o caminho que garante a fiel transmissão do testemunho apostólico. O que os Apóstolos representam no relacionamento entre o Senhor Jesus e a Igreja das origens, representa-o analogamente a sucessão ministerial no relacionamento entre a Igreja das origens e a Igreja actual. Não é uma simples concatenação material; é o instrumento histórico do qual se serve o Espírito para tornar presente o Senhor Jesus, Chefe do seu povo, através de quantos são ordenados para o ministério através da imposição das mãos e da oração dos bispos. Mediante a sucessão apostólica é Cristo que nos alcança: na palavra dos Apóstolos e dos seus sucessores é Ele quem nos fala; mediante as suas mãos é Ele quem age nos sacramentos; no olhar deles é o seu olhar que nos envolve e nos faz sentir amados, acolhidos no coração de Deus. E também hoje, como no início, o próprio Cristo é o verdadeiro pastor e guarda das nossas almas, que nós seguimos com grande confiança, gratidão e alegria.
 

Pedro, o pescador

17 de Maio de 2006


Amados Irmãos e Irmãs,

 
Na nova série de catequeses começámos antes de tudo a compreender melhor o que é a Igreja, qual é a ideia do Senhor sobre esta sua nova família. Depois dissemos que a Igreja existe nas pessoas. E vimos que o Senhor confiou esta nova realidade, a Igreja, aos doze Apóstolos. Agora queremos vê-los um por um, para compreender nas pessoas o que significa viver a Igreja, o que significa seguir Jesus. Começamos com São Pedro.

 
Depois de Jesus, Pedro é a personagem mais conhecida e citada nos escritos neotestamentários: é mencionado 154 vezes com o cognome de Pétros, "pedra", "rocha", que é a tradução grega do nome aramaico que lhe foi dado directamente por Jesus Kefa, afirmado nove vezes sobretudo nas cartas de Paulo; depois, deve-se acrescentar o nome frequente Simòn (75 vezes), que é a forma helenizada do seu original nome hebraico Simeon (2 vezes: Act 15, 14; 2 Pd 1, 1). Filho de João (cf. Jo 1, 42) ou, na forma aramaica, bar-Jona, filho de Jonas (cf. Mt 16, 17), Simão era de Betsaida (cf. Jo 1, 44), uma cidadezinha a oriente do mar da Galileia, da qual provinha também Filipe e naturalmente André, irmão de Simão. O seu modo de falar traía o sotaque galileu. Também ele, como o irmão, era pescador: com a família de Zebedeu, pai de Tiago e de João, dirigia uma pequena empresa de pesca no lago de Genesaré (cf. Lc 5, 10). Por isso devia gozar de um certo bem-estar económico e era animado por um sincero interesse religioso, por um desejo de Deus ele queria que Deus interviesse no mundo um desejo que o estimulou a ir com o irmão até à Judeia para seguir a pregação de João Baptista (cf. Jo 1, 35-42).

 
Era um judeu crente e praticante, confiante na presença activa de Deus na história do seu povo, e sofria por não ver a sua acção poderosa nas vicissitudes das quais ele era, naquele momento, testemunha. Era casado e a sogra, curada um dia por Jesus, vivia na cidade de Cafarnaum, na casa na qual também Simão vivia quando estava naquela cidade (cf. Mt 8, 14 s; Mc 1, 29 s; Lc 4, 38 s).

 
Recentes escavações arqueológicas permitiram trazer à luz, sob a pavimentação em mosaicos octagonais de uma pequena igreja bizantina, os vestígios de uma igreja mais antiga existente naquela casa, como afirmam os grafites com invocações a Pedro. Os Evangelhos informam-nos que Pedro é um dos primeiros quatro discípulos do Nazareno (cf. Lc 5, 1-11), aos quais se junta um quinto, segundo o costume de cada Rabino de ter cinco discípulos (cf. Lc 5, 27: chamada de Levi).

 
Quando Jesus passa de cinco para doze discípulos (cf. Lc 9, 1-6), será clara a novidade da sua missão: Ele já não é um entre tantos rabinos, mas veio para reunir o Israel escatológico, simbolizado pelo número doze, como doze eram as tribos de Israel.


Simão aparece nos Evangelhos com um carácter decidido e impulsivo; ele está disposto a fazer valer as próprias razões também com a força (pense-se no uso da espada no Horto das Oliveiras: cf. Jo 18, 10 s). Ao mesmo tempo, por vezes é também ingénuo e medroso, e contudo honesto, até ao arrependimento mais sincero (cf. Mt 26, 75). Os Evangelhos permitem seguir passo a passo o seu itinerário espiritual. O ponto de partida é a chamada da parte de Jesus. Acontece num dia qualquer, enquanto Pedro está empenhado no seu trabalho de pescador. Jesus encontra-se junto do lago de Genesaré e a multidão reúne-se à sua volta para o ouvir. O número dos ouvintes gera uma certa confusão. O Mestre vê duas barcas ancoradas à margem; os pescadores desceram e lavam as redes. Então Ele pede para entrar na barca, na de Simão, e pede-lhe que se faça ao largo. Sentado naquela cátedra improvisada, da barca, começa a ensinar à multidão (cf. Lc 5, 1-3). E assim a barca de Pedro torna-se a cátedra de Jesus. Quando terminou de falar, diz a Simão: "Faz-te ao largo e lança as redes para a pesca". Simão responde: "Mestre, trabalhámos durante toda a noite e nada apanhámos; mas, porque tu o dizes, lançarei as redes" (Lc 5, 4-5). Jesus, que era um carpinteiro, não era perito em pesca: mas Simão, o pescador, confia neste Rabino, que não lhe dá respostas mas o chama a ter confiança. A sua reacção diante da pesca milagrosa é de admiração e de trepidação: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador" (Lc 5, 8). Jesus responde convidando-o a ter confiança e a abrir-se a um projecto que ultrapassa qualquer sua perspectiva: "Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens" (Lc 5, 10). Pedro ainda não podia imaginar que um dia teria chegado a Roma e seria nessa cidade "pescador de homens" para o Senhor. Ele aceita esta chamada surpreendente, de se deixar envolver nesta grande aventura: é generoso, reconhece os seus limites, mas crê n'Aquele que o chama e segue o sonho do seu coração. Diz sim um sim corajoso e generoso e torna-se discípulo de Jesus.

 
Pedro vive outro momento significativo no seu caminho espiritual nas proximidades de Cesareia de Filipe, quando Jesus faz aos discípulos uma pergunta concreta: "Quem dizem os homens que Eu sou?" (Mc 8, 27). Mas para Jesus não era suficiente a resposta do ter ouvido dizer. Daqueles que aceitaram comprometer-se pessoalmente com Ele pretende uma tomada de posição pessoal. Por isso insiste: "E vós, quem dizeis que Eu sou?" (Mc 8, 29). Responde Pedro também em nome dos outros: "Tu és o Messias" (ibid.), isto é, Cristo. Esta resposta de Pedro, que não veio "da carne e do sangue" dele, mas foi-lhe concedida pelo Pai que está no céu (cf. Mt 16, 17), tem em si como que em gérmen a futura confissão de fé da Igreja. Contudo, Pedro ainda não tinha compreendido o conteúdo profundo da missão messiânica de Jesus, o novo sentido desta palavra: Messias.

 
Demonstra-o pouco depois, deixando compreender que o Messias que persegue nos seus sonhos é muito diferente do verdadeiro projecto de Deus. Perante o anúncio da paixão escandaliza-se e protesta, suscitando uma reacção enérgica de Jesus (cf. Mc 8, 32-33). Pedro quer um Messias "homem divino", que cumpra as expectativas do povo impondo a todos o seu poder: é também nosso desejo que o Senhor imponha o seu poder e transforme imediatamente o mundo; Jesus apresenta-se como o "Deus humano", o servo de Deus, que altera as expectativas da multidão encaminhando-se por uma via de humildade e de sofrimento. É a grande alternativa, que também nós devemos aprender sempre de novo: privilegiar as próprias expectativas recusando Jesus ou acolher Jesus na verdade da sua missão e abandonando as expectativas demasiado humanas.


Pedro impulsivo como é não hesita em repreender Jesus separadamente. A resposta de Jesus abala todas as suas falsas expectativas, quando o chama à conversão e ao seguimento: "Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens" (Mc 8, 33). Não me indiques tu o caminho, eu sigo o meu percurso e tu põe-te atrás de mim.

 
Pedro aprende desta forma o que significa verdadeiramente seguir Jesus. É a sua segunda chamada, análoga à de Abraão em Gn 22, depois de Gn 12: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la" (Mc 8, 34-35). É a lei exigente do seguimento: é preciso saber renunciar, se for necessário, ao mundo inteiro para salvar os verdadeiros valores, para salvar a alma, para salvar a presença de Deus no mundo (cf. Mc 8, 36-37). Mesmo com dificuldade, Pedro aceita o convite e prossegue o seu caminho seguindo os passos do Mestre.

 
Parece-me que estas diversas conversões de São Pedro e toda a sua figura são de grande conforto e um forte ensinamento para nós. Também nós sentimos o desejo de Deus, também nós queremos ser generosos, mas também nós esperamos que Deus seja forte no mundo e transforme imediatamente o mundo segundo as nossas ideias, segundo as necessidades que vemos. Deus escolhe outro caminho. Deus escolhe o caminho da transformação dos corações no sofrimento e na humildade. E nós, como Pedro, devemos converter-nos sempre de novo. Devemos seguir Jesus em vez de o preceder: é Ele quem nos indica o caminho. Assim Pedro diz-nos: Tu pensas que tens a receita e que deves transformar o cristianismo, mas é o Senhor quem conhece o caminho. É o Senhor que diz a mim, diz a ti: segue-me! E devemos ter coragem e humildade para seguir Jesus, porque Ele é o caminho, a Verdade e a Vida.
 

Pedro, o apóstolo

24 de Maio de 2006


Queridos irmãos e irmãs!


Nestas catequeses estamos a meditar sobre a Igreja. Dissemos que a Igreja vive nas pessoas e, por isso, na última catequese, começámos a meditar sobre as figuras de cada um dos Apóstolos, começando por São Pedro. Vimos duas etapas decisivas da sua vida: a chamada junto do Lago da Galileia e, depois, a profissão de fé: "Tu és Cristo, o Messias". Uma confissão, dissemos, ainda insuficiente, inicial e contudo aberta. São Pedro coloca-se num caminho de seguimento. E assim, esta confissão inicial tem em si, como em gérmen, já a futura fé da Igreja. Hoje queremos considerar outros dois acontecimentos importantes na vida de Pedro: a multiplicação dos pães ouvimos no trecho agora lido a pergunta do Senhor e a resposta de Pedro e depois o Senhor que chama Pedro para ser pastor da Igreja universal.

 
Comecemos com a vicissitude da multiplicação dos pães. Vós sabeis que o povo tinha ouvido o Senhor durante horas. No fim, Jesus diz: estão cansados, têm fome, devemos dar de comer a este povo. Os Apóstolos perguntam: Mas como? E André, irmão de Pedro, chama a atenção de Jesus para um jovem que levava consigo cinco pães e dois peixes. Mas o que são para tantas pessoas, interrogam-se os Apóstolos. Mas o Senhor faz sentar as pessoas e distribuir estes cinco pães e os dois peixes e todos se saciam. Aliás, o Senhor encarrega os Apóstolos, e entre eles Pedro, que recolham o que sobrou em abundância: doze cestas de pão (cf. Jo 6, 12-13). Sucessivamente o povo, vendo este milagre que parece ser a renovação, tão esperada de um novo "maná", do dom do pão do céu deseja fazer dele o seu rei. Mas Jesus não aceita e retira-se para o monte para rezar sozinho. No dia seguinte, Jesus na outra margem do lago, na Sinagoga de Cafarnaum, interpretou o milagre não no sentido de uma realeza sobre Israel com um poder deste mundo no modo esperado pela multidão, mas no sentido da doação de si: "o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo" (Jo 6, 51). Jesus anuncia a cruz, e com a cruz a verdadeira multiplicação dos pães, o pão eucarístico o seu modo absolutamente novo de ser rei, um modo totalmente contrário às expectativas do povo.


Nós podemos compreender como estas palavras do Mestre que não deseja cumprir todos os dias uma multiplicação dos pães, que não quer oferecer a Israel um poder deste mundo pareciam verdadeiramente difíceis, aliás, inaceitáveis para a multidão. "Da sua carne": O que significa? E também para os discípulos é inaceitável o que Jesus diz neste momento. Era e é para o nosso coração, para a nossa mentalidade, um sermão "duro", que provava a fé (cf. Jo 6, 60). Muitos dos discípulos se afastaram. Queriam alguém que renovasse realmente o Estado de Israel, do seu povo, e não um que dizia: "Eu dou a minha carne". Podemos imaginar como as palavras de Jesus eram difíceis também para Pedro, que em Cesareia de Filipe se tinha oposto à profecia da cruz. E contudo quando Jesus perguntou aos doze: "Quereis retirar-vos vós também?", Pedro reagiu com o impulso do seu coração generoso, guiado pelo Espírito Santo. Em nome de todos respondeu com palavras imortais, que são também nossas: "Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna; nós cremos e conhecemos que tu és o Santo de Deus" (cf. Jo 6, 66-69).


Aqui, como em Cesareia, com as suas palavras Pedro começa a profissão da fé cristológica da Igreja e torna-se também o intérprete dos outros Apóstolos e também de nós, crentes de todos os tempos. Isto não significa que já tivesse compreendido o mistério de Cristo em toda a sua profundidade. A sua fé ainda estava no início, uma fé a caminho; teria chegado à verdadeira plenitude apenas mediante a experiência dos acontecimentos pascais. Mas contudo já era fé, aberta à realidade maior aberta sobretudo porque não era fé em algo, era fé em Alguém: n'Ele, Cristo. Assim, também a nossa fé é sempre uma fé inicial, e devemos percorrer ainda um longo caminho. Mas é fundamental que seja uma fé aberta e que nos deixemos guiar por Jesus, porque Ele não só conhece o Caminho, mas é o Caminho.


Mas a generosidade impetuosa de Pedro não o salvaguarda dos riscos relacionados com a debilidade humana. De resto, é o que também nós podemos reconhecer com base na nossa vida. Pedro seguiu Jesus com ímpeto, superou a prova da fé, abandonando-se a Ele. Contudo chega o momento no qual também ele cede aos receios e cai: trai o Mestre (cf. Mc 14, 66-72). A escola da fé não é uma marcha triunfal, mas um caminho repleto de sofrimentos e de amor, de provas e de fidelidade a ser renovada todos os dias. Pedro, que já tinha prometido fidelidade absoluta, conhece a amargura e a humilhação da renegação: o atrevido aprende à sua custa a humildade. Também Pedro deve aprender a ser frágil e carente de perdão. Quando finalmente perde a máscara e compreende a verdade do seu coração frágil de pecador crente, cai num libertador choro de arrependimento. Depois deste choro ele já está pronto para a sua missão.


Numa manhã de Primavera esta missão ser-lhe-á confiada por Jesus ressuscitado. O encontro será na margem do lago de Tiberíades. O evangelista João narra-nos o diálogo que naquela circunstância se realiza entre Jesus e Pedro. Nele revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo "filéo" expressa o amor de amizade, terno mas não totalizante enquanto o verbo "agapáo" significa o amor sem reservas, total e incondicionado. Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: "Simão... tu amas-Me (agapâs-me)" com este amor total e incondicionado ( cf. Jo 21, 15)? Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: "Amo-Te (agapô-se) incondicionalmente". Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: "Senhor... tu sabes que sou deveras teu amigo (filô-se), isto é, "amo-te com o meu pobre amor humano". Cristo insiste: "Simão, tu amas-Me com este amor total que Eu quero?". E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: "Kyrie, filô-se", "Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo". Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão: "Fileîs-me?", "tu amas-Me?". Simão compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o ùnico de que é capaz, e contudo sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: "Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (filô-se)". Seria para dizer que Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus! É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim: "E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras acrescentou: "Segue-Me"!" (Jo 21, 19).


A partir daquele dia Pedro "seguiu" o Mestre com a clara consciência da própria fragilidade; mas esta consciência não o desencorajou. De facto, ele sabia que podia contar com a presença do Ressuscitado. Dos ingénuos entusiasmos da adesão inicial, passando pela experiência dolorosa da negação e pelo choro da conversão, Pedro alcançou a confiança naquele Jesus que se adaptou à sua pobre capacidade de amor. E mostra assim também a nós o caminho, apesar da nossa debilidade. Sabemos que Jesus se adapta a esta nossa debilidade.

 
Nós seguimo-lo com a nossa capacidade de amor e sabemos que Jesus é bom e nos aceita. Para Pedro foi um longo caminho que fez dele uma testemunha de confiança, "pedra" da Igreja, porque constantemente aberto à acção do Espírito de Jesus. O próprio Pedro qualificar-se-á como "testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há-de manifestar" (1 Pd 5, 1). Quando escreveu estas palavras já era idoso, encaminhado para a conclusão da sua vida que selou com o martírio.


Então, foi capaz de descrever a alegria verdadeira e de indicar de onde ela pode ser obtida: a fonte é Cristo acreditado e amado com a nossa fé frágil mas sincera, apesar da nossa fragilidade. Por isso escreveu aos cristãos da sua comunidade, e di-lo também a nós: "Sem o terdes visto, vós o amais; sem o ver ainda, credes nele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas" (1 Pd 1, 8-9).
 

Pedro, a rocha sobre a qual Cristo fundou a Igreja

7 de Junho de 2006

 
Queridos irmãos e irmãs!


Retomamos as catequeses semanais que iniciámos nesta primavera. Na última, de há quinze dias, falei de Pedro como o primeiro dos Apóstolos; hoje, queremos voltar mais uma vez sobre esta grande e importante figura da Igreja. O evangelista João, narrando o primeiro encontro de Jesus com Simão, irmão de André, registra um acontecimento singular: Jesus, "fixando nele o olhar... disse: "Tu és Simão, o filho de João. Hás-de chamar-te Cefas que significa Pedra"" (Jo 1, 42). Jesus não costumava mudar o nome aos seus discípulos. Se excluirmos o apelativo de "filhos do trovão", dirigido numa circunstância precisa aos filhos de Zebedeu (cf. Mc 3, 17) que não voltou a usar sucessivamente, Ele nunca atribuiu um novo nome a um discípulo seu. Mas fê-lo com Simão, chamado-o Cefas, nome que depois foi traduzido em grego Petros, em latim Petrus. E foi traduzido precisamente porque não era só um nome; era um "mandato" que Pedro recebia daquele modo do Senhor. O novo nome Petrus voltará várias vezes nos Evangelhos e terminará por substituir o nome originário, Simão.


O facto adquire relevo particular se se considera que, no Antigo Testamento, a mudança do nome anunciava em geral a designação de uma missão (cf. Gn 17, 5; 32, 28ss, etc.). De facto, a vontade de Cristo de atribuir a Pedro um papel especial no âmbito do Colégio apostólico resulta de numerosos indícios: em Cafarnaum o Mestre é hospedado em casa de Pedro (Mc 1, 29); quando a multidão se comprime nas margens do lago de Genesaré, entre as duas barcas ali ancoradas, Jesus escolhe a de Simão (Lc 5, 3); quando em circunstâncias particulares Jesus se faz acompanhar só por três discípulos, Pedro é sempre recordado como primeiro do grupo: assim na ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 9, 2; Mt 17, 1; Lc 9, 28), e por fim durante a agonia no Horto do Getsémani (cf. Mc 14, 33; Mt 16, 37). E ainda: dirigem-se a Pedro os cobradores do imposto para o Templo e o Mestre paga para si e somente para ele (cf. Mt 17, 24-27); a quem lava primeiro os pés é a Pedro (cf. Jo 13, 6) e reza unicamente por ele para que não lhe venha a faltar a fé e possa depois confirmar nela os outros discípulos (cf. Lc 22, 30-31).


De resto, o próprio Pedro tem consciência desta sua posição particular: com frequência é ele que, em nome também dos outros, toma a palavra para pedir a explicação de uma parábola difícil (Mt 15, 15), ou o sentido exacto de um preceito (Mt 18, 21) ou a promessa formal de uma recompensa (Mt 19, 27). Em particular, é ele quem resolve o embaraço de determinadas situações intervindo em nome de todos. E também quando Jesus, desanimado pela incompreensão da multidão depois do discurso sobre o "pão de vida", pergunta: "Também vós quereis ir embora?", a resposta de Pedro é peremptória: "Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna" (cf. Jo 6, 67-69). Igualmente decidida é a profissão de fé que, ainda em nome dos Doze, ele faz perto de Cesareia de Filipe. A Jesus que pergunta: "Vós quem dizeis que Eu sou?", Pedro responde: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mt 16, 15-16). Em resposta Jesus pronuncia então a declaração solene que define, de uma vez para sempre, o papel de Pedro na Igreja: "Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja... Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu" (Mt 16. 18-19). As três metáforas às quais Jesus recorre são em si muito claras: Pedro será o fundamento rochoso sobre o qual apoiará o edifício da Igreja; ele terá as chaves do Reino dos céus para abrir ou fechar a quem melhor julgar; por fim, ele poderá ligar ou desligar no sentido que poderá estabelecer ou proibir o que considerar necessário para a vida da Igreja, que é e permanece Cristo. É sempre Igreja de Cristo e não de Pedro. Deste modo, é descrito com imagens de plástica evidência o que a reflexão sucessiva qualificará com a palavra de "primazia de jurisdição".


Esta posição de preeminência que Jesus decidiu conferir a Pedro verifica-se também depois da ressurreição: Jesus encarrega as mulheres de ir anunciar a Pedro, distintamente dos outros Apóstolos (cf. Mc 16, 7); Madalena vai ter com ele e com João para os informar que a pedra tinha sido afastada da entrada do sepulcro (cf. Jo 20, 2) e João dá-lhe a precedência quando chegam diante do túmulo vazio (cf. Jo 20, 4-6); será depois Pedro, entre os Apóstolos, a primeira testemunha de uma aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24, 34; 1 Cor 15, 5). Este seu papel, realçado com decisão (cf. Jo 20, 3-10), marca a continuidade entre a preeminência obtida no grupo apostólico e a preeminência que continuará a ter na comunidade que nasceu depois dos acontecimentos pascais, como afirma o Livro dos Actos (cf. 1, 15-26; 2, 14-40; 3, 12-26; 4, 8-12; 5, 1-11.29; 8, 14-17; 10; etc.). O seu comportamento é considerado tão decisivo, que está no centro de observações e também de críticas (cf. Act 11, 1-18; Gl 2, 11-14). Ao chamado Concílio de Jerusalém Pedro desempenha uma função directiva (cf. Act 15 3; Gl 2, 1-10), e precisamente por este seu ser como testemunha da fé autêntica o próprio Paulo reconhecerá nele uma certa qualidade de "primeiro" (cf. 1 Cor 15, 5; Gl 1, 18; 2, 7s.; etc.). Depois, o facto de que vários textos-chave relativos a Pedro possam ser relacionados com o contexto da Última Ceia, na qual Cristo confere a Pedro o ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22, 31s.), mostra como a Igreja que nasce do memorial pascal celebrado na Eucaristia tenha no ministério confiado a Pedro um dos seus elementos constitutivos.


Esta contextualização da Primazia de Pedro na Última Ceia, no momento institutivo da Eucaristia, Páscoa do Senhor, indica também o sentido último desta Primazia: Pedro deve ser, para todos os tempos, o guardião da comunhão com Cristo; deve guiar à comunhão com Cristo; deve preocupar-se por que a rede não se rompa e assim possa perdurar a comunhão universal. Só juntos podemos estar com Cristo, que é o Senhor de todos. A responsabilidade de Pedro é garantir assim a comunhão com Cristo com a caridade de Cristo, conduzindo à realização desta caridade na vida de todos os dias. Rezemos para que a Primazia de Pedro, confiada a pobres pessoas humanas, possa ser sempre exercida neste sentido originário querido pelo Senhor e, assim, possa ser cada vez mais reconhecida no seu verdadeiro significado pelos irmãos que ainda não estão em plena comunhão connosco.

 

André, o Protóklitos

14 de Junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

 

Nas últimas duas catequeses falámos da figura de São Pedro. Agora queremos, na medida em que as fontes o permitem, conhecer mais de perto também os outros onze Apóstolos. Portanto, falamos hoje do irmão de Simão Pedro, Santo André, também ele um dos Doze. A primeira característica que em André chama a atenção é o nome: não é hebraico, como teríamos pensado, mas grego, sinal de que não deve ser minimizada uma certa abertura cultural da sua família. Estamos na Galileia, onde a língua e a cultura gregas estão bastante presentes. Nas listas dos Doze, André ocupa o segundo lugar, como em Mateus (10, 1-4) e em Lucas (6, 13-16), ou o quarto lugar como em Marcos (3, 13-18) e nos Actos (1, 13-14). Contudo, ele gozava certamente de grande prestígio nas primeiras comunidades cristãs.

 

O laço de sangue entre Pedro e André, assim como a comum chamada que Jesus lhes faz, sobressaem explicitamente nos Evangelhos. Neles lê-se: "Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu os dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: "Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens"" (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). Do Quarto Evangelho tiramos outro pormenor: num primeiro momento, André era discípulo de João Baptista; e isto mostra-nos que era um homem que procurava, que partilhava a esperança de Israel, que queria conhecer mais de perto a palavra do Senhor, a realidade do Senhor presente. Era verdadeiramente um homem de fé e de esperança; e certa vez, de João Baptista ouviu proclamar Jesus como "o cordeiro de Deus" (Jo 1, 36); então ele voltou-se e, juntamente com outro discípulo que não é nomeado, seguiu Jesus, Aquele que era chamado por João o "Cordeiro de Deus". O evangelista narra: eles "viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia" (Jo 1, 37-39). Portanto, André viveu momentos preciosos de familiaridade com Jesus.

 

A narração continua com uma anotação significativa: "André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: "Encontramos o Messias" que quer dizer Cristo. E levou-o até Jesus" (Jo 1, 40-43), demonstrando imediatamente um espírito apostólico não comum. Portanto, André foi o primeiro dos Apóstolos a ser chamado para seguir Jesus. Precisamente sobre esta base a liturgia da Igreja Bizantina o honra com o apelativo de Protóklitos, que significa exactamente "primeiro chamado". E não há dúvida de que devido ao relacionamento fraterno entre Pedro e André a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla se sentem irmãs entre si de modo especial. Para realçar este relacionamento, o meu Predecessor, o Papa Paulo VI, em 1964, restituiu as insignes relíquias de Santo André, até então conservadas na Basílica Vaticana, ao Bispo metropolita Ortodoxo da cidade de Patrasso na Grécia, onde segundo a tradição o Apóstolo foi crucificado.

 

As tradições evangélicas recordam particularmente o nome de André noutras três ocasiões, que nos fazem conhecer um pouco mais este homem. A primeira é a da multiplicação dos pães na Galileia. Naquele momento foi André quem assinalou a Jesus a presença de um jovem que tinha cinco pães de cevada e dois peixes: era muito pouco observou ele para todas as pessoas reunidas naquele lugar (cf. Jo 6, 8-9). Merece ser realçado, neste caso, o realismo de André: ele viu o jovem portanto já se tinha perguntado: "mas o que é isto para tantas pessoas?" (ibid.) mas apercebeu-se da insuficiência dos seus poucos recursos. Contudo, Jesus soube fazê-los bastar para a multidão de pessoas que vieram ouvi-lo. A segunda ocasião foi em Jerusalém. Saindo da cidade, um discípulo fez notar a Jesus o espectáculo dos muros sólidos sobre os quais o Templo se apoiava. A resposta do Mestre foi surpreendente: disse que não teria ficado em pé nem sequer uma pedra daqueles muros. Então André, juntamente com Pedro, Tiago e João, interrogou-o: "Diz-nos quando tudo isto acontecerá e qual o sinal de que tudo está para acabar" (Mc 13, 1-4).

 

Para responder a esta pergunta Jesus pronunciou um importante discurso sobre a destruição de Jerusalém e sobre o fim do mundo, convidando os seus discípulos a ler com atenção os sinais do tempo e a permanecer sempre vigilantes. Podemos deduzir deste episódio que não devemos ter receio de fazer perguntas a Jesus, mas ao mesmo tempo devemos estar prontos para receber os ensinamentos, até surpreendentes e difíceis, que Ele nos oferece.

 

Por fim, nos Evangelhos está registrada uma terceira iniciativa de André. O Cenário ainda é Jerusalém, pouco antes da Paixão. Para a festa da Páscoa narra João tinham vindo à cidade santa alguns Gregos, provavelmente prosélitos ou tementes a Deus, que vinham para adorar o Deus de Israel na festa da Páscoa. André e Filipe, os dois apóstolos com nomes gregos, servem como intérpretes e mediadores deste pequeno grupo de Gregos junto de Jesus. A resposta do Senhor à sua pergunta parece como muitas vezes no Evangelho de João enigmática, mas precisamente por isso revela-se rica de significado. Jesus diz aos dois discípulos e, através deles, ao mundo grego: "Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto" (12, 23-24).

 

O que significam estas palavras neste contexto? Jesus quer dizer: sim, o encontro entre mim e os Gregos terá lugar, mas não como simples e breve diálogo entre mim e algumas pessoas, estimuladas sobretudo pela curiosidade. Com a minha morte, comparável à queda na terra de um grão de trigo, chagará a hora da minha glorificação. A minha morte na cruz originará grande fecundidade: o "grão de trigo morto" símbolo de mim crucificado tornar-se-á na ressurreição pão de vida para o mundo; será luz para os povos e para as culturas. Sim, o encontro com a alma grega, com o mundo grego, realizar-se-á naquela profundidade à qual faz alusão a vicissitude do grão de trigo que atrai para si as forças da terra e do céu e se torna pão. Por outras palavras, Jesus profetiza a Igreja dos gregos, a Igreja dos pagãos, a Igreja do mundo como fruto da sua Páscoa.

 

Tradições muito antigas vêem em André, o qual transmitiu aos gregos esta palavra, não só o intérprete de alguns Gregos no encontro com Jesus agora recordado, mas consideram-no como apóstolo dos Gregos nos anos que sucederam ao Pentecostes; fazem-nos saber que no restante da sua vida ele foi anunciador e intérprete de Jesus para o mundo grego. Pedro, seu irmão, de Jerusalém, passando por Antioquia, chegou a Roma para aí exercer a sua missão universal; André, ao contrário, foi o apóstolo do mundo grego: assim, eles são vistos, na vida e na morte, como verdadeiros irmãos uma irmandade que se exprime simbolicamente no relacionamento especial das Sedes de Roma e de Constantinopla, Igrejas verdadeiramente irmãs.

 

Uma tradição sucessiva, como foi mencionado, narra a morte de André em Patrasso, onde também ele sofreu o suplício da crucifixão. Mas, naquele momento supremo, de modo análogo ao do irmão Pedro, ele pediu para ser posto numa cruz diferente da de Jesus. No seu caso tratou-se de uma cruz decussada, isto é, cruzada transversalmente inclinada, que por isso foi chamada "cruz de Santo André". Eis o que o Apóstolo dissera naquela ocasião, segundo uma antiga narração (início do século VI) intitulada Paixão de André: "Salve, ó Cruz, inaugurada por meio do corpo de Cristo e que se tornou adorno dos seus membros, como se fossem pérolas preciosas. Antes que o Senhor fosse elevado sobre ti, tu incutias um temor terreno.

 

Agora, ao contrário, dotada de um amor celeste, és recebida como um dom. Os crentes sabem, a teu respeito, quanta alegria possuis, quantos dons tens preparados. Portanto, certo e cheio de alegria venho a ti, para que também tu me recebas exultante como discípulo daquele que em ti foi suspenso... Ó Cruz bem-aventurada, que recebestes a majestade e a beleza dos membros do Senhor!... Toma-me e leva-me para longe dos homens e entrega-me ao meu Mestre, para que por teu intermédio me receba quem por ti me redimiu. Salve, ó Cruz; sim, salve verdadeiramente!".

 

Como se vê, há aqui uma profundíssima espiritualidade cristã, que vê na Cruz não tanto um instrumento de tortura como, ao contrário, o meio incomparável de uma plena assimilação ao Redentor, ao grão de trigo que caiu na terra. Nós devemos aprender disto uma lição muito importante: as nossas cruzes adquirem valor se forem consideradas e aceites como parte da cruz de Cristo, se forem alcançadas pelo reflexo da sua luz. Só daquela Cruz também os nossos sofrimentos são nobilitados e adquirem o seu verdadeiro sentido.

Portanto, o apóstolo André ensina-nos a seguir Jesus com prontidão (cf. Mt 4, 20; Mc 1, 18), a falar com entusiasmo d'Ele a quantos encontramos, e sobretudo a cultivar com Ele um relacionamento de verdadeira familiaridade, bem conscientes de que só n'Ele podemos encontrar o sentido último da nossa vida e da nossa morte.

 

Tiago, o Maior

21 de Junho de 2006

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Prosseguimos a série de retratos dos Apóstolos escolhidos directamente por Jesus durante a sua vida terrena. Falámos de São Pedro e de seu irmão, André. Encontramos hoje a figura de Tiago. Os elencos bíblicos dos Doze mencionam duas pessoas com este nome: Tiago, filho de Zebedeu, e Tiago, filho de Alfeu (cf. Mc 3, 17.18; Mt 10, 2-3), que são comummente distinguidos com os nomes de Tiago, o Maior e Tiago, o Menor. Sem dúvida, estas designações não querem medir a sua santidade, mas apenas distinguir o realce que eles recebem nos escritos do Novo Testamento e, em particular, no quadro da vida terrena de Jesus. Hoje dedicamos a nossa atenção à primeira destas duas personagens homónimas.

 

O nome Tiago é a tradução de Iákobos, forma helenizada do nome do célebre patriarca Tiago. O apóstolo assim chamado é irmão de João, e nos elencos acima mencionados ocupa o segundo lugar logo depois de Pedro, como em Marcos (3, 17), ou o terceiro lugar depois de Pedro e André no Evangelho de Mateus (10, 2) e de Lucas (6, 14), enquanto que nos Actos vem depois de Pedro e de João (1, 13). Este Tiago pertence, juntamente com Pedro e João, ao grupo dos três discípulos privilegiados que foram admitidos por Jesus em momentos importantes da sua vida.

 

Dado que faz muito calor, gostaria de abreviar e mencionar aqui só duas destas ocasiões. Ele pôde participar, juntamente com Pedro e Tiago, no momento da agonia de Jesus no horto do Getsémani e no acontecimento da Transfiguração de Jesus. Trata-se portanto de situações muito diversas uma da outra: num caso, Tiago com os outros dois Apóstolos experimenta a glória do Senhor, vê-o no diálogo com Moisés e Elias, vê transparecer o esplendor divino de Jesus; no outro encontra-se diante do sofrimento e da humilhação, vê com os próprios olhos como o Filho de Deus se humilha tornando-se obediente até à morte. Certamente a segunda experiência constitui para ele a ocasião de uma maturação na fé, para corrigir a interpretação unilateral, triunfalista da primeira: ele teve que entrever que o Messias, esperado pelo povo judaico como um triunfador, na realidade não era só circundado de honra e de glória, mas também de sofrimentos e fraqueza. A glória de Cristo realiza-se precisamente na Cruz, na participação dos nossos sofrimentos.

 

Esta maturação da fé foi realizada pelo Espírito Santo no Pentecostes, de forma que Tiago, quando chegou o momento do testemunho supremo, não se retirou. No início dos anos 40 do século I o rei Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande, como nos informa Lucas, "maltratou alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João" (Act 12, 1-2).

 

A notícia tão limitada, privada de qualquer pormenor narrativo, revela, por um lado, quanto era normal para os cristãos testemunhar o Senhor com a própria vida e, por outro, como Tiago ocupava uma posição de relevo na Igreja de Jerusalém, também devido ao papel desempenhado durante a existência terrena de Jesus. Uma tradição sucessiva, que remonta pelo menos a Isidoro de Sevilha, narra de uma sua permanência na Espanha para evangelizar aquela importante região do Império Romano.

 

Segundo outra tradição, ao contrário, o seu corpo teria sido transportado para a Espanha, para a cidade de Santiago de Compostela. Como todos sabemos, aquele lugar tornou-se objecto de grande veneração e ainda hoje é meta de numerosas peregrinações, não só da Europa mas de todo o mundo. É assim que se explica a representação iconográfica de São Tiago que tem na mão o cajado do peregrino e o rolo do Evangelho, típicos do apóstolo itinerante e dedicado ao anúncio da "boa nova", características da peregrinação da vida cristã.

 

Portanto, de São Tiago podemos aprender muitas coisas: a abertura para aceitar a chamada do Senhor também quando nos pede que deixemos a "barca" das nossas seguranças humanas, o entusiasmo em segui-lo pelos caminhos que Ele nos indica além de qualquer presunção ilusória, a disponibilidade a testemunhá-lo com coragem, se for necessário, até ao sacrifício supremo da vida. Assim, Tiago o Maior, apresenta-se diante de nós como exemplo eloquente de adesão generosa a Cristo. Ele, que inicialmente tinha pedido, através de sua mãe, para se sentar com o irmão ao lado do Mestre no seu Reino, foi precisamente o primeiro a beber o cálice da paixão, a partilhar com os Apóstolos o martírio.

 

E no final, resumindo tudo, podemos dizer que o caminho não só exterior mas sobretudo interior, do monte da Transfiguração ao monte da agonia, simboliza toda a peregrinação da vida cristã, entre as perseguições do mundo e os confortos de Deus, como diz o Concílio Vaticano II. Seguindo Jesus como São Tiago, sabemos, também nas dificuldades, que seguimos o caminho justo.

 

Tiago, o Menor

28 de Junho de 2006

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Ao lado da figura de Tiago "o Maior", filho de Zebedeu, do qual falámos na quarta-feira passada, nos Evangelhos aparece outro Tiago, que é chamado "o Menor". Também ele faz parte das listas dos doze Apóstolos escolhidos pessoalmente por Jesus, e é sempre especificado como "filho de Alfeu" (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 5; Act 1, 13). Com frequência ele foi identificado com outro Tiago, chamado "o Menor" (cf. Mc 15, 40), filho de uma Maria (cf. ibid.) que poderia ser a "Maria de Cleofas" presente, segundo o Quarto Evangelho, aos pés da Cruz juntamente com a Mãe de Jesus (cf. Jo 19, 25). Também ele era originário de Nazaré e provavelmente parente de Jesus (cf. Mt 13, 55; Mc 6, 3), do qual à maneira semítica é considerado "irmão" (cf. Mc 6, 3; Gl 1, 19).

 

Deste último Tiago, o livro dos Actos ressalta o papel preeminente desempenhado na Igreja de Jerusalém. No Concílio apostólico ali celebrado depois da morte de Tiago, o Maior, afirmou juntamente com os outros que os pagãos podiam ser acolhidos na Igreja sem antes terem que se submeter à circuncisão (cf. Act 15, 13). São Paulo, que lhe atribui uma aparição específica do Ressuscitado (cf. 1 Cor 15, 7), na ocasião da sua ida a Jerusalém nomeia-o inclusivamente antes de Cefas-Pedro, qualificando-o "coluna" daquela Igreja como ele (cf. Gl 2, 9). Em seguida, os judeus-cristãos consideram-no o seu principal ponto de referência. A ele é também atribuída a Carta que tem o nome de Tiago e que está incluída no cânone neotestamentário. Ele não se apresenta nela como "irmão do Senhor", mas como "servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo" (Tg 1, 1).

 

Entre os estudiosos debate-se a questão da identificação destas duas personagens com o mesmo nome, Tiago filho de Alfeu e Tiago "irmão do Senhor". As tradições evangélicas não nos conservaram narração alguma sobre um nem sobre outro em referência ao período da vida terrena de Jesus. Os Actos dos Apóstolos, ao contrário, mostram-nos que um "Tiago" desempenhou um papel importante, como já mencionámos, depois da ressurreição de Jesus, na Igreja primitiva (cf. Act 12, 17; 15, 13-21; 21, 18).

 

O acto mais relevante por ele realizado foi a intervenção na questão do relacionamento difícil entre os cristãos de origem judaica e os de origem pagã: nisto ele contribuiu juntamente com Pedro para superar, ou melhor, para integrar a dimensão originária judaica do cristianismo com a exigência de não impor aos pagãos convertidos a obrigação de se submeterem a todas as normas da lei de Moisés. O livro dos Actos preservou-nos a solução de compromisso, proposta precisamente por Tiago e aceite por todos os Apóstolos presentes, segundo o qual aos pagãos que acreditassem em Jesus Cristo se devia pedir apenas que se abstivessem do uso idolátrico de comer carne dos animais oferecidos em sacrifício aos deuses, e da "impudicícia", palavra que provavelmente se referia às uniões matrimoniais não consentidas. Na prática, tratava-se de aderir só a poucas proibições, consideradas bastante importantes, da legislação mosaica.

 

Deste modo, obtiveram-se dois resultados significativos e complementares, ambos ainda hoje válidos: por um lado, reconheceu-se a relação inseparável que une o cristianismo à religião hebraica como a sua marca perenemente viva e válida; por outro, foi concedido que os cristãos de origem pagã conservassem a própria identidade sociológica, que teriam perdido se tivessem sido obrigados a observar os chamados "preceitos cerimoniais" mosaicos: eles já não deviam ser considerados obrigatórios para os pagãos convertidos. Em suma, era iniciada uma prática de estima e respeito recíprocos que, não obstante lamentáveis incompreensões posteriores, tinha por sua natureza a salvaguarda de tudo o que caracterizava cada uma das duas partes.

 

A informação mais antiga sobre a morte deste Tiago é-nos oferecida pelo historiador judeu Flávio José. Nas suas Antiguidades Judaicas (20, 201s), redigidas em Roma por volta do século I, ele narra que o fim de Tiago foi decidido por uma iniciativa ilegítima do Sumo Sacerdote Anano, filho de Annas afirmado nos Evangelhos, o qual aproveitou do intervalo entre a deposição de um Procurador romano (Festo) e a chegada do sucessor (Albino) para decretar a sua lapidação no ano 62.

 

Em nome deste Tiago, além do apócrifo Protoevangelho de Tiago, que exalta a santidade e a virgindade de Maria, Mãe de Jesus, está particularmente relacionada com a Carta que tem o seu nome. No cânone do Novo Testamento ela ocupa o primeiro lugar entre as chamadas "Cartas católicas", isto é, destinadas não a uma só Igreja particular como Roma, Éfeso, etc. mas a muitas Igrejas. Trata-se de um escrito bastante importante, que insiste muito sobre a necessidade de não reduzir a própria fé a uma mera declaração verbal ou abstracta, mas de expressá-la concretamente em obras de bem. Entre outras coisas, ele convida-nos à constância nas provas alegremente aceites e à oração confiante para obter de Deus o dom da sabedoria, graças à qual chegamos à compreensão de que os verdadeiros valores da vida não consistem nas riquezas transitórias, mas antes em saber compartilhar as próprias substâncias com os pobres e com os necessitados (cf. Tg 1, 27).

 

Assim a carta de São Tiago mostra-nos um cristianismo muito concreto e prático. A fé deve realizar-se na vida, sobretudo no amor ao próximo e particularmente no compromisso pelos pobres. É com esta base que deve ser lida também a famosa frase: "Assim como o corpo sem alma está morto, assim também a fé sem obras está morta" (Tg 2, 26). Por vezes esta declaração de Tiago foi contraposta às afirmações de Paulo, segundo o qual nós somos tornados por Deus justos não em virtude das nossas obras, mas graças à nossa fé (cf. Gl 2, 16; Rm 3, 28). Contudo, as duas frases, aparentemente contraditórias com as suas perspectivas diversas, na realidade, se forem bem interpretadas, completam-se. São Paulo opõe-se ao orgulho do homem que pensa que não precisa do amor de Deus que nos antecipa, opõe-se ao orgulho da autojustificação sem a graça simplesmente doada e não merecida. Ao contrário, São Tiago fala das obras como fruto normal da fé: "a árvore boa dá bons frutos", diz o Senhor (Mt 7, 17). E São Tiago repete e transmite-nos este conceito.

 

Por fim, a carta de Tiago exorta-nos a abandonarmo-nos nas mãos de Deus em tudo o que fazemos, pronunciando sempre as palavras: "Se o Senhor quiser" (Tg 4, 15). Assim, ele ensina-nos a não presumir que planificamos a nossa vida de modo autónomo e interessado, mas a dar espaço à vontade imperscrutável de Deus, que conhece o verdadeiro bem para nós. Desta forma São Tiago permanece um mestre de vida sempre actual para cada um de nós.

 

João, filho de Zebedeu

05 de Julho de 2006

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Dedicamos o encontro de hoje à recordação de outro membro muito importante do colégio apostólico: João, filho de Zebedeu e irmão de Tiago. O seu nome, tipicamente judaico, significa "o Senhor fez a graça". Estava a consertar as redes na margem do lago de Tiberíades, quando Jesus o chamou juntamente com o irmão (cf. Mt 4, 21; Mc 1, 19). João pertence também ao grupo restrito, que Jesus chama em determinadas ocasiões.

 

Está com Pedro e com Tiago quando Jesus, em Cafarnaum, entra em casa de Pedro para curar a sua sogra (cf. Mc 1, 29); com os outros dois segue o Mestre na casa de Jairo, chefe da sinagoga, cuja filha será chamada à vida (cf. Mc 5, 37); segue-o quando ele sobe ao monte para ser transfigurado (cf. Mc 9, 2); está ao lado dele no Monte das Oliveiras quando, face à imponência do Templo de Jerusalém, pronuncia o sermão sobre o fim da cidade e do mundo (cf. Mc 13, 3); e, finalmente, está ao seu lado quando, no Horto do Getsémani, se retira para rezar ao Pai antes da Paixão (cf. Mc 14, 33). Pouco antes da Páscoa, quando Jesus escolhe dois discípulos para os enviar a preparar a sala para a Ceia, confia a ele e a Pedro esta tarefa (cf. Lc 22, 8).

 

Esta sua posição de relevo no grupo dos Doze torna de certa forma compreensível a iniciativa tomada um dia pela mãe: ela aproximou-se de Jesus para lhe pedir que os dois filhos, precisamente João e Tiago, pudessem sentar-se um à sua direita e outro à sua esquerda no Reino (cf. Mt 20, 20-21). Como sabemos, Jesus respondeu fazendo por sua vez uma pergunta: pediu que eles estivessem dispostos a beber do cálice que ele mesmo estava para beber (cf. Mt 20, 22).

 

A intenção que estava por detrás daquelas palavras era a de despertar os dois discípulos, introduzi-los no conhecimento do mistério da sua pessoa e de os fazer reflectir sobre a futura chamada a ser suas testemunhas até à prova suprema do sangue.

 

De facto, pouco depois Jesus esclareceu que não veio para ser servido mas para servir e dar a própria vida em resgate pela multidão (cf. Mt 20, 28). Nos dias seguintes à ressurreição, encontramos "os filhos de Zebedeu" empenhados com Pedro e outros discípulos numa noite infrutuosa, à qual se segue, pela intervenção do Ressuscitado, a pesca milagrosa: será "o discípulo que Jesus amava" quem reconhece primeiro "o Senhor" e quem o indica a Pedro (cf. Jo 21, 1-13).

 

Na Igreja de Jerusalém, João ocupou um lugar de realce na orientação do primeiro agrupamento de cristãos. De facto, Paulo estava incluído entre os que Ele chama as "colunas" daquela comunidade (cf. Gl 2, 9). Na realidade, nos Actos, Lucas apresenta-o juntamente com Pedro quando vão rezar no Templo (cf. Act 3, 1-4.11) ou estão diante do Sinédrio para testemunhar a própria fé em Jesus Cristo (cf. Act 4, 13.19). Juntamente com Pedro é enviado pela Igreja de Jerusalém para confirmar aqueles que na Samaria aceitaram o Evangelho, pregando por eles a fim de que recebam o Espírito Santo (cf. Act 8, 14-15).

Em particular, deve recordar-se o que afirma, juntamente com Pedro, diante do Sinédrio que os está a processar: "Quanto a nós, não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos" (Act 4, 20). Precisamente esta franqueza ao confessar a própria fé permanece um exemplo e uma admoestação para todos nós a estarmos sempre prontos para declarar com determinação a nossa inabalável adesão a Cristo, antepondo a fé a qualquer cálculo ou interesse humano.

 

Segundo a tradição, João é "o discípulo predilecto", que no Quarto Evangelho apoia a cabeça no peito do Mestre durante a Última Ceia (cf. Jo 13, 21), encontra-se aos pés da Cruz juntamente com a Mãe de Jesus (cf. Jo 19, 25) e, por fim, é testemunha quer do túmulo vazio quer da própria presença do Ressuscitado (cf. Jo 20, 2; 21, 7).

 

Sabemos que esta identificação hoje é debatida pelos estudiosos, alguns dos quais vêem nele simplesmente o protótipo do discípulo de Jesus. Deixando aos exegetas a tarefa de resolver a questão, contentamo-nos com receber uma lição importante para a nossa vida: o Senhor deseja fazer de cada um de nós um discípulo que vive uma amizade pessoal com Ele. Para realizar isto não é suficiente segui-lo e ouvi-lo exteriormente; é preciso também viver com e como Ele.

 

Isto é possível apenas no contexto de uma relação de grande familiaridade, repleto do calor de uma total confiança; por isso um dia Jesus disse: "Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos... Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai" (Jo 15, 13.15).

 

Nos apócrifos Actos de João o Apóstolo é apresentado não como fundador de Igrejas nem sequer como guia de comunidades já constituídas, mas em contínua itinerância como comunicador da fé no encontro com "almas capazes de ter esperança e de ser salvas" (18, 10; 10, 8). Tudo é movido pela intenção paradoxal de mostrar o invisível. De facto, ele é chamado pela Igreja oriental simplesmente "o Teólogo", isto é, aquele que é capaz de falar das coisas divinas em termos acessíveis, revelandoumarcano acesso a Deus mediante a adesão a Jesus.

 

O culto de João apóstolo afirmou-se a partir da cidade de Éfeso, onde, segundo uma antiga tradição, trabalhou por muito tempo, falecendo ali com uma idade extraordinariamente avançada, sob o Imperador Trajano. Em Éfeso o imperador Justiniano, no século VI, mandou construir em sua honraumagrande basílica, da qual permanecem ainda imponentes ruínas.

 

Precisamente no Oriente ele gozou e goza ainda de grande veneração. Na iconografiabizantina é representado com frequência muito idoso segundo a tradição morreu sob o imperador Trajano e em intensa contemplação, quase na atitude de quem convida ao silêncio.

 

De facto, sem adequado recolhimento não é possível aproximar-se do mistério supremo de Deus e da sua revelação. Isto explica porque, há anos, o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Atenágoras, aquele que o Papa Paulo VI abraçou num memorável encontro, afirmou: "João está na origem da nossa mais alta espiritualidade. Como ele, os "silenciosos" conhecem aquele misterioso intercâmbio dos corações, invocando a presença de João e o seu coração inflama-se" (O. Clément, Diálogos com Atenágoras, Turim 1972, p. 159). O Senhor nos ajude a pormo-nos na escola de João para aprender a grande lição do amor, de modo que nos sintamos amados por Cristo "até ao fim" (Jo 13, 1) e empreguemos a nossa vida por Ele.

 

João, o teólogo

09 de Agosto de 2006

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Antes das férias eu tinha começado a fazer pequenos retratos dos doze Apóstolos. Os Apóstolos eram companheiros de vida de Jesus, amigos de Jesus e este caminho deles com Jesus não era só um caminho exterior, da Galileia a Jerusalém, mas um caminho interior no qual aprenderam a fé em Jesus Cristo, não sem dificuldades porque eram homens como nós. Mas precisamente por isto, porque eram companheiros de vida de Jesus, amigos de Jesus que num caminho não fácil aprenderam a fé, são também guias para nós, que nos ajudam a conhecer Jesus Cristo, a amá-lo e a ter fé n'Ele. Eu já tinha falado sobre quatro dos doze Apóstolos: de Simão Pedro, do seu irmão André, de Tiago, o irmão de São João, e do outro Tiago, chamado "o Menor", que escreveu uma Carta que encontramos no Novo Testamento. E eu tinha começado a falar de João, o evangelista, mencionando na última audiência antes das férias os dados essenciais que traçam a fisionomia deste Apóstolo. Agora gostaria de concentrar a atenção sobre o conteúdo do seu ensinamento. Por conseguinte, os escritos dos quais hoje desejamos ocupar-nos são o Evangelho e as Cartas que têm o seu nome.

 

Se existe um assunto característico que mais sobressai nos escritos de João, é o amor. Não foi por acaso que quis iniciar a minha primeira Carta encíclica com as palavras deste Apóstolo: "Deus é amor (Deus caritas est); quem está no amor habita em Deus e Deus habita nele" (1 Jo 4, 16). É muito difícil encontrar textos do género noutras religiões. Portanto, tais expressões põem-nos diante de um dado verdadeiramente peculiar do cristianismo. Certamente João não é o único autor das origens cristãs que fala do amor. Sendo este um elemento essencial do cristianismo, todos os escritores do Novo Testamento falam dele, mesmo se com acentuações diferentes. Se agora nos detemos a reflectir sobre este tema em João, é porque ele nos traçou com insistência e de modo incisivo as suas linhas principais. Portanto, confiemo-nos às suas palavras. Uma coisa é certa:  ele não reflecte de modo abstracto, filosófico, ou até teológico, sobre o que é o amor. Não, ele não é um teórico. De facto, o verdadeiro amor, por sua natureza, nunca é meramente especulativo, mas faz referência directa, concreta e verificável a pessoas reais. Pois bem, João, como apóstolo e amigo de Jesus mostra-nos quais são os componentes ou melhor as fases do amor cristão, um movimento caracterizado por três momentos.

 

O primeiro refere-se à própria Fonte do amor, que o Apóstolo coloca em Deus, chegando, como ouvimos, a afirmar que "Deus é amor" (1 Jo 4, 8.16). João é o único autor do Novo Testamento que nos dá uma espécie de definição de Deus. Ele diz, por exemplo, que "Deus é Espírito" (Jo 4, 24) ou que "Deus é luz" (1 Jo 1, 5). Aqui proclama com intuição resplandecente que "Deus é amor". Observe-se bem: não é simplesmente afirmado que "Deus ama", nem sequer que "o amor é Deus"! Por outras palavras:  João não se limita a descrever o agir divino, mas procede até às suas raízes. Além disso, não pretende atribuir uma qualidade a um amor genérico e talvez impessoal; não se eleva do amor a Deus, mas dirige-se directamente a Deus para definir a sua natureza com a dimensão infinita do amor. Com isto João deseja dizer que o constitutivo essencial de Deus é o amor e, portanto, toda a actividade de Deus nasce do amor e está orientada para o amor:  tudo o que Deus faz é por amor, mesmo se nem sempre podemos compreender imediatamente que Ele é amor, o verdadeiro amor.

 

Mas, a este ponto é indispensável dar um passo em frente e esclarecer que Deus demonstrou concretamente o seu amor entrando na história humana mediante a pessoa de Jesus Cristo, que encarnou, morreu e ressuscitou por nós. Este é o segundo momento constitutivo do amor de Deus. Ele não se limitou às declarações verbais, mas, podemos dizer, empenhou-se verdadeiramente e "pagou" em primeira pessoa. Como escreve precisamente João, "Tanto amou Deus o mundo (isto é: todos nós) que lhe entregou o seu Filho Unigénito" (Jo 3, 16). Agora, o amor de Deus pelos homens concretiza-se e manifesta-se no amor do próprio Jesus. João escreve ainda:  Jesus "que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo" (Jo 13, 1). Em virtude deste amor oblativo e total nós somos radicalmente resgatados do pecado, como escreve ainda São João: "Filhinhos meus... se alguém pecar, temos junto do Pai um advogado, Jesus Cristo, o Justo, pois Ele é a vítima que expia os nossos pecados, e não somente os nossos, mas também os de todo o mundo" (1 Jo 2, 1-2; cf. 1 Jo 1, 7). Eis até onde chegou o amor de Jesus por nós:  até à efusão do próprio sangue para a nossa salvação! O cristão, detendo-se em contemplação diante deste "excesso" de amor, não pode deixar de reflectir sobre qual é a resposta obrigatória. E penso que sempre e de novo cada um de nós deve interrogar-se sobre isto.

 

Esta pergunta introduz-nos no terceiro momento da dinâmica do amor:  de destinatários receptivos de um amor que nos precede e nos domina, somos chamados ao compromisso de uma resposta activa, que para ser adequada só pode ser uma resposta de amor. João fala de um "mandamento". De facto, ele refere estas palavras de Jesus:  "Dou-vos um novo mandamento:  que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei" (Jo 13, 34). Onde está a novidade à qual Jesus se refere? Ela consiste no facto de que não se contenta de repetir o que já era exigido no Antigo Testamento e que lemos nos outros Evangelhos:  "Ama o próximo como a ti mesmo" (Lv 19, 18; cf. Mt 22, 37-39; Mc 12, 29-31; Lc 10, 27). No antigo preceito o critério normativo era presumido a partir do homem ("como a ti mesmo"), enquanto que no preceito mencionado por João, Jesus apresenta como motivo e norma do nosso amor a sua própria pessoa: "Como Eu vos amei". É assim que o amor se torna verdadeiramente cristão, levando em si a novidade do cristianismo:  quer no sentido de que ele deve destinar-se a todos sem distinções, quer porque deve sobretudo chegar até às últimas consequências, tendo unicamente como medida chegar ao extremo. Aquelas palavras de Jesus, "como Eu vos amei", convidam-nos e ao mesmo tempo preocupam-nos; são uma meta cristológica que pode parecer inalcançável, mas são, ao mesmo tempo, um estímulo que não nos permite acomodar-nos no que podemos realizar. Não permite que nos contentemos do que somos, mas estimula-nos a permanecer a caminho rumo a esta meta.

 

Aquele texto áureo de espiritualidade que é o pequeno livro do final da Idade Média intitulado Imitação de Cristo escreve a este propósito:  "O nobre amor de Jesus estimula-nos a realizar coisas grandes e a desejar coisas sempre mais perfeitas. O amor quer estar no alto e não ser aprisionado por baixeza alguma. O amor quer ser livre e separado de qualquer afecto mundano... de facto, o amor nasceu de Deus, e só pode repousar em Deus acima de todas as coisas criadas. Quem ama voa, corre e rejubila, é livre, e nada o retém. Dá tudo a todos e tem tudo em todas as coisas, porque encontra repouso no Único grande que está acima de todas as coisas, do qual brota e provém qualquer bem" (livro III, cap. 5). Qual melhor comentário do que o "mandamento novo", enunciado por João? Pedimos ao Pai que o possamos viver, mesmo se sempre de modo imperfeito, tão intensamente que contagiemos a todos os que encontrarmos no nosso caminho.

 

João, o vidente de Patmos

23 de Agosto de 2006

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Na última catequese tínhamos chegado à meditação sobre a figura do Apóstolo João. Primeiro, tínhamos procurado ver quanto se pode saber da sua vida. Depois, numa segunda catequese, tínhamos meditado acerca do conteúdo central do seu Evangelho, das suas Cartas:  a caridade, o amor. E hoje estamos ainda empenhados com a figura de João, desta vez para meditar sobre o Vidente do Apocalipse. E fazemos imediatamente uma observação:  enquanto nem o Quarto Evangelho nem as Cartas atribuídas ao Apóstolo trazem o seu nome, o Apocalipse faz referência ao nome de João por quatro vezes (cf. 1, 1.4.9; 22, 8). É evidente que o Autor, por um lado, não tinha motivo algum para não mencionar o próprio nome e, por outro, sabia que os seus primeiros leitores o podiam identificar com clareza. Sabemos também que, já no século III, os estudiosos discutiam sobre a verdadeira identidade anagráfica do João do Apocalipse. Contudo, poderíamos também chamá-lo "o Vidente de Patmos", porque a sua figura está ligada com o nome desta ilha do Mar Egeu, onde, segundo o seu próprio testemunho autobiográfico, ele se encontrava como deportado "por causa da palavra de Deus e do testemunho d Jesus" (Ap 1, 9). Precisamente em Patmos, "no dia do Senhor, o espírito arrebatou-me" (Ap 1, 10), João teve visões grandiosas e ouviu mensagens extraordinárias, que influenciarão bastante a história da Igreja e toda a cultura cristã. Por exemplo, do título do seu livro Apocalipse, Revelação foram introduzidas na nossa linguagem as palavras "apocalipse, apocalíptico", que recordam, embora de modo impróprio, a ideia de uma catástrofe iminente.

 

O livro deve ser compreendido no quadro da dramática experiência das sete Igrejas da Ásia (Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia, Laodicéia), que nos finais do século I tiveram que enfrentar grandes dificuldades perseguições e tensões também internas no seu testemunho a Cristo. João dirige-se a elas mostrando profunda sensibilidade pastoral em relação aos cristãos perseguidos, que ele exorta a permanecer firmes na fé e a não se identificarem com o mundo pagão, tão forte. O seu objecto é constituído em definitiva pela revelação, a partir da morte e ressurreição de Cristo, do sentido da história humana. De facto, a primeira e fundamental visão de João refere-se à figura do Cordeiro, que é imolado mas que está de pé (cf. Ap 5, 6), colocado no meio do trono onde já está sentado o próprio Deus. Com isto, João quer dizer-nos antes de tudo duas coisas:  a primeira é que Jesus, mesmo tendo sido morto com um acto de violência, em vez de cair no chão paradoxalmente está bem firme sobre os seus pés, porque com a ressurreição venceu definitivamente a morte; a outra é que o próprio Jesus, precisamente porque morto e ressuscitado, já é plenamente partícipe do poder real e salvífico do Pai. Esta é a visão fundamental. Jesus, o Filho de Deus, nesta terra é um Cordeiro indefeso, ferido, morto. E contudo está erguido, de pé, está diante do trono de Deus e é partícipe do poder divino. Ele tem nas suas mãos a história do mundo. E assim o Vidente quer dizer-nos: tende confiança em Jesus, não tenhais medo dos poderes contrastantes, da perseguição! O Cordeiro ferido e morto vence! Segui o Cordeiro Jesus, confiai-vos a Jesus, caminhai pelo seu caminho! Mesmo se neste mundo é só um Cordeiro que parece frágil, é Ele o vencedor!

 

Uma das principais visões do Apocalipse tem por objecto este Cordeiro no acto de abrir um livro, primeiro fechado com sete selos que ninguém tinha sido capaz de abrir. João é inclusivamente apresentado no gesto de abrir o livro e de o ler (cf. Ap 5, 4). A história permanece indecifrável, incompreensível. Ninguém a pode ler. Talvez este pranto de João diante do mistério da história tão obscuro expresse a perturbação das Igrejas asiáticas pelo silêncio de Deus diante das perseguições a que estavam expostas naquele momento. É uma perturbação na qual se pode reflectir bem o nosso horror face às graves dificuldades, incompreensões e hostilidades que também hoje a Igreja sofre em várias partes do mundo. São sofrimentos que a Igreja sem dúvida não merece, assim como o próprio Jesus não mereceu o seu suplício. Contudo eles revelam quer a maldade do homem, quando se abandona às sugestões do mal, quer a orientação superior dos acontecimentos por parte de Deus. Pois bem, só o Cordeiro imolado é capaz de abrir o livro selado e de revelar o seu conteúdo, de dar sentido a esta história aparentemente com tanta frequência absurda. Só Ele pode tirar indicações e ensinamentos para a vida dos cristãos, aos quais a sua vitória sobre a morte traz o anúncio e a garantia da vitória que também eles sem dúvida obterão. Toda a linguagem intensamente imaginária da qual João se serve oferece este conforto.

 

No centro das visões que o Apocalipse expõe estão também aquelas muito significativas da Mulher que dá à luz um Filho varão, e a complementar do Dragão precipitado do céu, mas ainda é muito poderoso. Esta Mulher representa Maria, a Mãe do Redentor, mas representa ao mesmo tempo toda a Igreja, o Povo de Deus de todos os tempos, a Igreja que em todos os tempos, com grande sofrimento, dá à luz Cristo sempre de novo. E está sempre ameaçada pelo poder do Dragão. Parece indefesa, frágil. Mas enquanto está ameaçada, perseguida pelo Dragão está também protegida pela consolação de Deus. E esta Mulher no final vence. O Dragão não vence. Eis a grande profecia deste livro, que nos dá confiança! A Mulher que sofre na história, a Igreja que é perseguida no final torna-se a Esposa maravilhosa, figura da nova Jerusalém onde não há mais lágrimas nem pranto, imagem do mundo transformado, do novo mundo cuja luz é o próprio Deus, cuja lâmpada é o Cordeiro.

 

Por este motivo o Apocalipse de João, mesmo estando cheio de referências contínuas a sofrimentos, tribulações e pranto a face obscura da história está de igual modo repleto de frequentes cantos de louvor, que representam quase a face luminosa da história. Assim, por exemplo, lê-se nele que uma grande multidão, que canta quase gritando:  "Aleluia! O Senhor nosso Deus, o Todo-Poderoso, começou o seu reinado! Alegremo-nos, rejubilemos, dêmos-lhe glória, porque chegou o momento das núpcias do Cordeiro, a sua esposa já está pronta" (Ap 19, 6-7). Estamos diante do típico paradoxo cristão, segundo o qual o sofrimento nunca precipita como última palavra, mas é visto como ponto de passagem para a felicidade. Aliás, ele mesmo já está misteriosamente cheio da alegria que brota da esperança. Precisamente por isto João, o Vidente de Patmos, pode encerrar o seu livro com uma última aspiração, palpitante de expectativa trepidante. Ela invoca a vinda do Senhor: "Vinde, Senhor Jesus!" (Ap 22, 20). É uma das orações centrais da cristandade nascente, traduzida também por São Paulo na forma aramaica: "Marana tha". E esta oração "Vinde, Senhor Jesus!" (1 Cor 16, 22) tem diversas dimensões. Naturalmente é antes de tudo expectativa da vitória definitiva do Senhor, da nova Jerusalém, do Senhor que vem e transforma o mundo. Mas, ao mesmo tempo, é também oração eucarística: "Vinde Jesus, agora!". E Jesus vem, antecipa esta sua chegada definitiva. Assim com alegria dizemos ao mesmo tempo: "Vinde agora e de modo definitivo!". Esta oração tem também um terceiro significado: "Já viestes, Senhor! Temos a certeza da vossa presença entre nós. É uma experiência jubilosa. "Mas vinde de modo definitivo!". E assim, com São Paulo, com o Vidente de Patmos, com a cristandade nascente, também nós rezamos: "Vinde, Jesus! Vinde e transformai o mundo! Vinde já hoje e vença a paz!" Amém.

 

 

Mateus

30 de Agosto de 2006

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Prosseguindo a série de retratos dos doze Apóstolos, que começámos há algumas semanas, hoje detemo-nos em Mateus. Na verdade, apresentar completamente a sua figura é quase impossível, porque as notícias que lhe dizem respeito são poucas e fragmentadas. Mas o que podemos fazer, não é tanto um esboço da sua biografia, mas ao contrário o perfil que o Evangelho transmite.

 

Entretanto, ele está sempre presente nos elencos dos Doze escolhidos por Jesus (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15; Act 1, 13). O seu nome hebraico significa "dom de Deus". O primeiro Evangelho canónico, que tem o seu nome, apresenta-no-lo no elenco dos Doze com uma qualificação bem clara: "o publicano" (Mt 10, 3). Desta forma ele é identificado com o homem sentado no banco dos impostos, que Jesus chama ao seu seguimento:  "Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe:  "Segue-me!". Ele levantou-se e seguiu-o". (Mt 9, 9). Também Marcos (cf. 2, 13-17) e Lucas (cf. 5, 27-30) narram a chamada do homem sentado no posto de cobrança, mas chamam-no "Levi". Para imaginar o cenário descrito em Mt 9, 9 é suficiente recordar a magnífica tela de Caravaggio, conservada aqui em Roma na Igreja de São Luís dos Franceses. Dos Evangelhos sobressai um ulterior pormenor biográfico:  no trecho que precede imediatamente a narração da chamada é referido um milagre realizado por Jesus em Cafarnaum (cf. Mt 9, 1-8; Mc 2, 1-12) e é mencionada a proximidade do Mar da Galileia, isto é do Lago de Tiberíades (cf. Mc 2, 13-14). Disto pode deduzir-se que Mateus desempenhasse a função de cobrador em Cafarnaúm, situada precisamente "à beira-mar" (Mt 4, 13), onde Jesus era hóspede fixo na casa de Pedro.

 

Com base nestas simples constatações que resultam do Evangelho podemos fazer algumas reflexões. A primeira é que Jesus acolhe no grupo dos seus íntimos um homem que, segundo as concepções em vigor na Israel daquele tempo, era considerado um público pecador. De facto, Mateus não só administrava dinheiro considerado impuro devido à sua proveniência de pessoas estranhas ao povo de Deus, mas colaborava também com uma autoridade estrangeira odiosamente ávida, cujos tributos podiam ser determinados também de modo arbitrário. Por estes motivos, mais de uma vez os Evangelhos falam unitariamente de "publicanos e pecadores" (Mt 9, 10; Lc 15, 1), de "publicanos e prostitutas" (Mt 21, 31). Além disso eles vêem nos publicanos um exemplo de mesquinhez (cf. Mt 5, 46:  amam os que os amam) e mencionam um deles, Zaqueu, como "chefe dos publicanos e rico" (Lc 19, 2), enquanto a opinião popular os associava a "ladrões, injustos, adúlteros" (Lc 18, 11). É ressaltado um primeiro dado com base nestes elementos: Jesus não exclui ninguém da própria amizade. Ao contrário, precisamente porque se encontra à mesa em casa de Mateus-Levi, em resposta a quem falava de escândalo pelo facto de ele frequentar companhias pouco recomendáveis, pronuncia a importante declaração:  "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores" (Mc 2, 17).

O bom anúncio do Evangelho consiste precisamente nisto: na oferenda da graça de Deus ao pecador! Noutro texto, com a célebre parábola do fariseu e do publicano que foram ao Templo para rezar, Jesus indica inclusivamente um anónimo publicano como exemplo apreciável de confiança humilde na misericórdia divina:  enquanto o fariseu se vangloria da própria perfeição moral, "o cobrador de impostos... nem sequer ousava levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: "Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador"". E Jesus comenta: "Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado" (Lc 18, 13-14). Na figura de Mateus, portanto, os Evangelhos propõem-nos um verdadeiro e próprio paradoxo:  quem aparentemente está afastado da santidade pode até tornar-se um modelo de acolhimento da misericórdia de Deus e deixar entrever os seus maravilhosos efeitos na própria existência. Em relação a isto, São João Crisóstomo faz uma significativa anotação:  ele observa que só na narração de algumas chamadas se menciona o trabalho que as pessoas em questão desempenhavam. Pedro, André, Tiago e João são chamados quando estão a pescar, Mateus precisamnete quando cobra os impostos. Trata-se de trabalhos de pouca importância comenta Crisóstomo "porque não há nada mais detestável do que um cobrador de impostos e nada de mais comum do que a pesca" (In Matth. Hom.: PL 57, 363). A chamada de Jesus chega portanto também a pessoas de baixo nível social, enquanto desempenham o trabalho quotidiano.

 

Outra reflexão, que provém da narração evangélica, é que à chamada de Jesus, Mateus responde imediatamente: "ele levantou-se e seguiu-o". A condensação da frase ressalta claramente a prontidão de Mateus ao responder à chamada. Isto significava para ele o abandono de todas as coisas, sobretudo do que lhe garantia uma fonte de lucro seguro, mesmo se muitas vezes injusto e desonesto. Evidentemente Mateus compreendeu que a familiaridade com Jesus não lhe permitia perseverar em actividades desaprovadas por Deus. Intuiu-se facilmente a aplicação ao presente:  também hoje não é admissível o apego a coisas incompatíveis com o seguimento de Jesus, como é o caso das riquezas desonestas. Certa vez Ele disse sem meios-termos:  "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me" (Mt 19, 21). Foi precisamente isto que Mateus fez: levantou-se e seguiu-o! Neste "levantar-se" é legítimo ver o abandono de uma situação de pecado e ao mesmo tempo a adesão consciente a uma existência nova, recta, na comunhão com Jesus.

 

Por fim, recordamos que a tradição da Igreja antiga concorda na atribuição a Mateus da paternidade do primeiro Evangelho. Isto acontece já a partir de Papias, Bispo de Hierápoles na Frígia por volta do ano 130. Ele escreve: "Mateus reuniu as palavras (do Senhor) em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia" (em Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. III, 39, 16).

O historiador Eusébio acrescenta esta notícia:  "Mateus, que primeiro tinha pregado aos hebreus, quando decidiu ir também a outros povos escreveu na sua língua materna o Evangelho por ele anunciado; assim, procurou substituir com a escrita, junto daqueles dos quais se separava, aquilo que eles perdiam com a sua partida" (ibid., III, 24, 6). Já não temos o Evangelho escrito por Mateus em hebraico ou em aramaico, mas no Evangelho grego que ainda continuamos a ouvir, de certa forma, a voz persuasiva do publicano Mateus que, tendo-se tornado Apóstolo, continua a anunciar-nos a misericórdia salvadora de Deus e ouvimos esta mensagem de São Mateus, meditámo-la sempre de novo para aprender também nós a levantar-nos e a seguir Jesus com determinação.

 

Filipe

06 de Setembro de 2006

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Prosseguindo no delineamento das fisionomias dos vários Apóstolos, como fazemos há algumas semanas, hoje encontramos Filipe. Nas listas dos Doze, ele é sempre colocado no quinto lugar (assim em Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 14; Act 1, 13), portanto substancialmente entre os primeiros.

 

Apesar de Filipe ter origens hebraicas, o seu nome é grego, como o de André, e isto é um pequeno sinal de abertura cultural que não se deve subestimar. As notícias que temos sobre ele são-nos fornecidas pelo Evangelho de João. Ele provinha do mesmo lugar de origem de Pedro e de André, isto é, de Batsaida (cf. Jo 1, 44), uma pequena cidade pertencente à tetrarquia de um dos filhos de Herodes, o Grande, também ele chamado Filipe (cf.Lc3,1).

 

O Quarto Evangelho narra que, depois de ter sido chamado por Jesus, Filipe encontra Natanael e diz-lhe: "Encontrámos aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os Profetas: Jesus, filho de José de Nazaré" (Jo 1, 45). Natanael dá uma resposta bastante céptica ("De Nazaré pode vir alguma coisa boa?"), perante a qual Filipe não se desencoraja e responde com determinação: "Vem e verás!" (Jo 1, 46). Nesta resposta, breve mas clara, Filipe manifesta as características da verdadeira testemunha: não se contenta em propor o anúncio, como uma teoria, mas interpela directamente o interlocutor sugerindo-lhe que faça ele mesmo uma experiência pessoal do que foi anunciado. Os mesmos dois verbos são usados pelo próprio Jesus quando dois discípulos de João Baptista se aproximam dele para lhe perguntar onde mora. Jesus responde: "Vinde ver" (cf. Jo 1, 38-39).

 

Podemos pensar que Filipe se dirija também a nós com aqueles dois verbos que exigem um envolvimento pessoal. Também a nós diz o que dissera a Natanael: "Vem e verás". O Apóstolo convida-nos a conhecer Jesus de perto. De facto, a amizade, o verdadeiro conhecer o outro, precisa da proximidade, aliás, de certa forma vive dela. De resto, não se deve esquecer que, segundo o que escreve Marcos, Jesus escolheu os Doze com a finalidade primária que "andassem com Ele" (Mc 3, 14), ou seja, que partilhassem a sua vida e aprendessem directamente dele não só o estilo do seu comportamento, mas sobretudo quem era Ele realmente. Com efeito, só assim, participando na sua vida, o podiam conhecer e depois anunciar. Mais tarde, na Carta de Paulo aos Efésios, ler-se-á que o importante é "aprender de Cristo" (4, 20), portanto, não só e não tanto ouvir os seus ensinamentos, as suas palavras, mas ainda mais conhecê-lo pessoalmente, a sua humanidade e divindade, o seu mistério, a sua beleza. De facto, Ele não é só um Mestre, mas um Amigo, ou melhor, um Irmão. Como poderíamos conhecê-lo profundamente permanecendo distantes? A intimidade, a familiariedade, o habitual fazem-nos descobrir a verdadeira identidade de Jesus Cristo. Portanto: é precisamente isto que nos recorda o apóstolo Filipe. E convida-nos a "vir", a "ver", isto é, a entrar num contacto de escuta, de resposta e de comunhão de vida com Jesus dia após dia.

 

Depois, por ocasião da multiplicação dos pães, ele recebeu de Jesus um pedido específico e surpreendente: onde era possível comprar o pão para saciar a fome de todo o povo que o seguia (cf. Jo 6, 5). Então Filipe respondeu com muito realismo: "Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho" (Jo 6, 7). Vêem-se aqui a praticidade e o realismo do Apóstolo, que sabe julgar as reais consequências de uma situação. Depois, como correram as coisas nós sabemo-lo. Sabemos que Jesus tomou os pães e, depois de ter rezado, distribuiu-os.

 

Assim realizou-se a multiplicação dos pães. Mas é interessante que Jesus se tenha dirigido precisamente a Filipe para obter uma primeira indicação sobre o modo de resolver o problema: sinal evidente de que ele fazia parte do grupo limitado que o circundava. Noutro momento, muito importante para a história futura, antes da Paixão, alguns Gregos que se encontravam em Jerusalém para a Páscoa "foram ter com Filipe... e pediram-lhe: "Senhor, nós queremos ver Jesus!". Filipe foi dizer isto a André; André e Filipe foram dizê-lo a Jesus" (Jo 12, 20-22). Mais uma vez, temos a indicação de um seu prestígio especial no âmbito do colégio apostólico. Sobretudo, neste caso, ele serve de intermediário entre o pedido de alguns Gregos provavelmente falava o grego e pôde disponibilizar-se como intérprete e Jesus; Mesmo se ele se une a André, o outro Apóstolo com um nome grego, é contudo a ele que aquelas pessoas desconhecidas se dirigem. Isto ensina-nos a estar também nós sempre prontos, tanto a ouvir pedidos e invocações, de onde quer que venham, como a orientá-los para o Senhor, o único que os pode satisfazer plenamente. Com efeito, é importante saber que nós não somos os destinatários últimos das orações de quem nos aproxima, mas é o Senhor: para ele devemos orientar todo aquele que se encontre em necessidade. Então: cada um de nós deve ser um caminho aberto para ele!

 

Há depois outra ocasião completamente particular, na qual Filipe entra em cena. Durante a Última Ceia, tendo Jesus afirmado que conhecê-lo significa também conhecer o Pai (cf. Jo 14, 7), Filipe pede quase ingenuamente: "Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!" (Jo 14, 8). Jesus responde-lhe com um tom de indulgente reprovação: "Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai. Como é que me dizes, então, "mostra-nos o Pai"? Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim?... Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim" (Jo 14, 9-11). Estas palavras são as mais nobres do Evangelho de João. Elas contêm uma profunda revelação. No final do Prólogo do seu Evangelho, João afirma: "A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer" (Jo 1, 18). Pois bem, aquela afirmação, que é do evangelista, é retomada e confirmada pelo próprio Jesus. Mas com uma nova característica. De facto, enquanto o Prólogo de João fala de uma intervenção esclarecedora de Jesus mediante as palavras do seu ensinamento, na resposta a Filipe Jesus faz referência à própria pessoa como tal, dando a entender que é possível compreendê-lo não só mediante o que diz, mas ainda mais mediante o que ele simplesmente é.

 

Para nos expressarmos segundo o paradoxo da Encarnação, podemos dizer que Deus se conferiu um rosto humano, o de Jesus, e por conseguinte de agora em diante, se verdadeiramente queremos conhecer o rosto de Deus, devemos contemplar o rosto de Jesus! No seu semblante vemos realmente quem é e como é Deus!

 

O evangelista não nos diz se Filipe compreendeu plenamente a frase de Jesus. Sem dúvida, ele dedicou-lhe totalmente a própria vida. Segundo algumas narrações posteriores (Actos de Filipe e outros), o nosso Apóstolo teria evangelizado primeiro na Grécia e depois na Frígia onde enfrentou a morte, em Herápoles, com um suplício descrito diversamente como crucifixão ou lapidação.

Desejamos concluir a nossa reflexão recordando a finalidade para a qual deve tender a nossa vida: encontrar Jesus como o encontrou Filipe, procurando ver nele o próprio Deus, o Pai celeste. Se este compromisso viesse a faltar, seríamos remetidos sempre e só para nós como num espelho, e estaríamos cada vez mais sós! Ao contrário, Filipe ensina-nos a deixar-nos conquistar por Jesus, a estar com Ele e a convidar também outros a partilhar esta companhia indispensável. E vendo-o, encontrando Deus, encontrar a verdadeira vida.

  

Tomé

17 de Setembro de 2006

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Prosseguindo os nossos encontros com os doze Apóstolos escolhidos directamente por Jesus, hoje dedicamos a nossa atenção a Tomé. Sempre presente nas quatro listas contempladas pelo Novo Testamento, ele, nos primeiros três Evangelhos, é colocado ao lado de Mateus (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15), enquanto nos Actos está próximo de Filipe (cf. Act 1, 13). O seu nome deriva de uma raiz hebraica, ta'am, que significa "junto", "gémeo". De facto, o Evangelho chama-o várias vezes com o sobrenome de "Dídimo" (cf. Jo 11, 16; 20, 24; 21, 2), que em grego significa precisamente "gémeo". Não é claro o porquê deste apelativo.

 

Sobretudo o Quarto Evangelho oferece-nos informações que reproduzem alguns traços significativos da sua personalidade. O primeiro refere-se à exortação, que ele fez aos outros Apóstolos, quando Jesus, num momento crítico da sua vida, decidiu ir a Betânia para ressuscitar Lázaro, aproximando-se assim perigosamente de Jerusalém (cf. Mc 10, 32). Naquela ocasião Tomé disse aos seus condiscípulos: "Vamos nós também, para morrermos com Ele" (Jo 11, 16).

 

Esta sua determinação em seguir o Mestre é deveras exemplar e oferece-nos um precioso ensinamento: revela a disponibilidade total a aderir a Jesus, até identificar o próprio destino com o d'Ele e querer partilhar com Ele a prova suprema da morte. De facto, o mais importante é nunca separar-se de Jesus. Por outro lado, quando os Evangelhos usam o verbo "seguir" é para significar que para onde Ele se dirige, para lá deve ir também o seu discípulo. Deste modo, a vida cristã define-se como uma vida com Jesus Cristo, uma vida a ser transcorrida juntamente com Ele. São Paulo escreve algo semelhante, quando tranquiliza os cristãos de Corinto com estas palavras: "estais no nosso coração para a vida e para a morte" (2 Cor 7, 3). O que se verifica entre o Apóstolo e os seus cristãos deve, obviamente, valer antes de tudo para a relação entre os cristãos e o próprio Jesus: morrer juntos, viver juntos, estar no seu coração como Ele está no nosso.

 

Uma segunda intervenção de Tomé está registada na Última Ceia. Naquela ocasião Jesus, predizendo a sua partida iminente, anuncia que vai preparar um lugar para os discípulos para que também eles estejam onde Ele estiver; e esclarece: "E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho" (Jo 14, 4). É então que Tomé intervém e diz: "Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?" (Jo 14, 5). Na realidade, com esta expressão ele coloca-se a um nível de compreensão bastante baixo; mas estas suas palavras fornecem a Jesus a ocasião para pronunciar a célebre definição: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14, 6). Portanto, Tomé é o primeiro a quem é feita esta revelação, mas ela é válida também para todos nós e para sempre. Todas as vezes que ouvimos ou lemos estas palavras, podemos colocar-nos com o pensamento ao lado de Tomé e imaginar que o Senhor fala também connosco como falou com ele.

 

Ao mesmo tempo, a sua pergunta confere também a nós o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Com frequência nós não o compreendemos. Temos a coragem para dizer: não te compreendo, Senhor, ouve-me, ajuda-me a compreender. Desta forma, com esta franqueza que é o verdadeiro modo de rezar, de falar com Jesus, exprimimos a insuficiência da nossa capacidade de compreender, ao mesmo tempo colocamo-nos na atitude confiante de quem espera luz e força de quem é capaz de as doar.

 

Depois, muito conhecida e até proverbial é a cena de Tomé incrédulo, que aconteceu oito dias depois da Páscoa. Num primeiro momento, ele não tinha acreditado em Jesus que apareceu na sua ausência, e dissera: "Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito" (Jo 20, 25). No fundo, destas palavras sobressai a convicção de que Jesus já é reconhecível não tanto pelo rosto quanto pelas chagas. Tomé considera que os sinais qualificadores da identidade de Jesus são agora sobretudo as chagas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou. Nisto o Apóstolo não se engana. Como sabemos, oito dias depois Jesus aparece no meio dos seus discípulos, e desta vez Tomé está presente. E Jesus interpela-o: "Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!" (Jo 20, 27). Tomé reage com a profissão de fé mais maravilhosa de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20, 28). A este propósito, Santo Agostinho comenta: Tomé via e tocava o homem, mas confessava a sua fé em Deus, que não via nem tocava. Mas o que via e tocava levava-o a crer naquilo de que até àquele momento tinha duvidado" (In Iohann. 121, 5). O evangelista prossegue com uma última palavra de Jesus a Tomé: "Porque me viste, acreditaste. Felizes os que, sem terem visto, crerão" (cf. Jo 20, 29). Esta frase também se pode conjugar no presente; "Bem-aventurados os que crêem sem terem visto".

 

Contudo, aqui Jesus enuncia um princípio fundamental para os cristãos que virão depois de Tomé, portanto para todos nós. É interessante observar como o grande teólogo medieval Tomás de Aquino, compara com esta fórmula de bem-aventurança aquela aparentemente oposta citada por Lucas: "Felizes os olhos que vêem o que estais a ver" (Lc 10, 23). Mas o Aquinate comenta: "Merece muito mais quem crê sem ver do que quem crê porque vê" (In Johann. XX lectio VI 2566). De facto, a Carta aos Hebreus, recordando toda a série dos antigos Patriarcas bíblicos, que acreditaram em Deus sem ver o cumprimento das suas promessas, define a fé como "fundamento das coisas que se esperam e comprovação das que não se vêem" (11, 1). O caso do Apóstolo Tomé é importante para nós pelo menos por três motivos: primeiro, porque nos conforta nas nossas inseguranças; segundo porque nos demonstra que qualquer dúvida pode levar a um êxito luminoso além de qualquer incerteza; e por fim, porque as palavras dirigidas a ele por Jesus nos recordam o verdadeiro sentido da fé madura e nos encorajam a prosseguir, apesar das dificuldades, pelo nosso caminho de adesão a Ele.

 

Uma última anotação sobre Tomé é-nos conservada no Quarto Evangelho, que o apresenta como testemunha do Ressuscitado no momento seguinte à pesca milagrosa no Lago de Tiberíades (cf. Jo 21, 2). Naquela ocasião ele é mencionado inclusivamente logo depois de Simão Pedro: sinal evidente da grande importância de que gozava no âmbito das primeiras comunidades cristãs. Com efeito, em seu nome foram escritos depois os Actos e o Evangelho de Tomé, ambos apócrifos mas contudo importantes para o estudo das origens cristãs. Por fim recordamos que segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou primeiro a Síria e a Pérsia (assim refere já Orígenes, citado por Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. 3, 1) e depois foi até à Índia ocidental (cf. Actos de Tomé 1-2 e 17ss.), de onde mais tarde o cristianismo alcançou também a Índia meridional. Nesta perspectiva missionária terminamos a nossa reflexão, expressando votos de que o exemplo de Tomé corrobore cada vez mais a nossa fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.

 

Bartolomeu

4 de Outubro de 2006

 

Queridos irmãos e irmãs!

Na série dos Apóstolos chamados por Jesus durante a sua vida terrena, hoje quem atrai a nossa atenção é o apóstolo Bartolomeu. Nos antigos elencos dos Doze ele é sempre colocado antes de Mateus, enquanto varia o nome daquele que o precede e que pode ser Filipe (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 14) ou Tomé (cf. Act 1, 13). O seu nome é claramente um patronímico, porque é formulado com uma referência explícita ao nome do pai. De facto, trata-se de um nome provavelmente com uma marca aramaica, Bar Talmay, que significa precisamente "filho de Talmay".

Não temos notícias de relevo acerca de Bartolomeu; com efeito, o seu nome recorre sempre e apenas no âmbito dos elencos dos Doze acima citados e, por conseguinte, nunca está no centro de narração alguma. Mas, tradicionalmente ele é identificado com Natanael:  um nome que significa "Deus deu". Este Natanael provinha de Caná (cf. Jo 21, 2), e portanto é possível que tenha sido testemunha do grande "sinal" realizado por Jesus naquele lugar (cf. Jo 2, 1-11). A identificação das duas personagens provavelmente é motivada pelo facto que este Natanael, no episódio de vocação narrada pelo Evangelho de João, é colocado ao lado de Filipe, isto é, no lugar que Bartolomeu ocupa nos elencos dos Apóstolos narrados pelos outros Evangelhos. Filipe tinha comunicado a este Natanael que encontrara "aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas:  Jesus, filho de José de Nazaré" (Jo 1, 45). Como sabemos, Natanael atribuiu-lhe um preconceito bastante pesado:  "De Nazaré pode vir alguma coisa boa?" (Jo 1, 46a). Esta espécie de contestação é, à sua maneira, importante para nós. De facto, ela mostra-nos que segundo as expectativas judaicas, o Messias não podia provir de uma aldeia tanto obscura como era precisamente Nazaré (veja também Jo 7, 42). Mas, ao mesmo tempo realça a liberdade de Deus, que surpreende as nossas expectativas fazendo-se encontrar precisamente onde não o esperávamos. Por outro lado, sabemos que Jesus na realidade não era exclusivamente "de Nazaré", pois tinha nascido em Belém (cf. Mt 2, 1; Lc 2, 4) e que por fim provinha do céu, do Pai que está no céu.

Outra reflexão sugere-nos a vicissitude de Natanael:  na nossa relação com Jesus não devemos contentar-nos unicamente com as palavras. Filipe, na sua resposta, faz um convite significativo:  "Vem e verás!" (Jo 1, 46b). O nosso conhecimento de Jesus precisa sobretudo de uma experiência viva:  o testemunho de outrem é certamente importante, porque normalmente toda a nossa vida cristã começa com o anúncio que chega até nós por obra de uma ou de várias testemunhas. Mas depois devemos ser nós próprios a deixar-nos envolver pessoalmente numa relação íntima e profunda com Jesus; de maneira análoga os Samaritanos, depois de terem ouvido o testemunho da sua concidadã que Jesus tinha encontrado ao lado do poço de Jacob, quiseram falar directamente com Ele e, depois deste colóquio, disseram à mulher:  "Já não é pelas tuas palavras que acreditamos, nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo" (Jo 4, 42).

Voltando ao cenário de vocação, o evangelista refere-nos que, quando Jesus vê Natanael aproximar-se exclama:  "Aqui está um verdadeiro Israelita, em quem não há fingimento" (Jo 1, 47). Trata-se de um elogio que recorda o texto de um Salmo:  "Feliz o homem a quem Iahweh não atribui iniquidade" (Sl 32, 2), mas que suscita a curiosidade de Natanael, o qual responde com admiração:  "Como me conheces?" (Jo 1, 48a). A resposta de Jesus não é imediatamente compreensível. Ele diz:  "Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira" (Jo 1, 48b). Não sabemos o que aconteceu sob esta figueira. É evidente que se trata de um momento decisivo na vida de Natanael. Ele sente-se comovido com estas palavras de Jesus, sente-se compreendido e compreende:  este homem sabe tudo de mim, Ele sabe e conhece o caminho da vida, a este homem posso realmente confiar-me. E assim responde com uma confissão de fé límpida e bela, dizendo:  "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel" (Jo 1, 49). Nela é dado um primeiro e importante passo no percurso de adesão a Jesus. As palavras de Natanael ressaltam um aspecto duplo e complementar da identidade de Jesus:  Ele é reconhecido quer na sua relação especial com Deus Pai, do qual é Filho unigénito, quer na relação com o povo de Israel, do qual é proclamado rei, qualificação própria do Messias esperado. Nunca devemos perder de vista nenhuma destas duas componentes, porque se proclamamos apenas a dimensão celeste de Jesus,  corremos  o  risco  de  o  transformar num ser sublime e evanescente, e se ao contrário reconhecemos apenas a sua colocação concreta na história, acabamos por descuidar a dimensão divina que propriamente o qualifica.

Da sucessiva actividade apostólica de Bartolomeu-Natanael não temos notícias claras. Segundo uma informação referida pelo historiador Eusébio do século IV, um certo Panteno teria encontrado até na Índia os sinais de uma presença de Bartolomeu (cf. Hist. eccl., V 10, 3). Na tradição posterior, a partir da Idade Média, impôs-se a narração da sua morte por esfolamento, que se tornou muito popular. Pense-se na conhecidíssima cena do Juízo Universal na Capela Sistina, na qual Michelangelo pintou São Bartolomeu que segura com a mão esquerda a sua pele, sobre a qual o artista deixou o seu auto-retrato. As suas relíquias são veneradas aqui em Roma na Igreja a ele dedicada na Ilha Tiberina, aonde teriam sido levadas pelo Imperador alemão Otão III no ano de 983. Para concluir, podemos dizer que a figura de São Bartolomeu, mesmo sendo escassas as informações acerca dele, permanece contudo diante de nós para nos dizer que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada também sem cumprir obras sensacionais. Extraordinário é e permanece o próprio Jesus, ao qual cada um de nós está chamado a consagrar a própria vida e a própria morte.

 

Simão o Cananeu e Judas Tadeu

11 de Outubro de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Hoje tomamos em consideração dois dos doze Apóstolos:  Simão o Cananeu e Judas Tadeu (que não se deve confundir com Judas Iscariotes). Consideramo-los juntos, não só porque nas listas dos Doze são sempre mencionados um ao lado do outro (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 18; Lc 6, 15; Act 1, 13), mas também porque as notícias que a eles se referem não são muitas, excepto o facto que o Cânon neotestamentário conserva uma carta atribuída a Judas Tadeu.

Simão recebe um epíteto que varia nas quatro listas:  Mateus qualifica-o como "cananeu", Lucas define-o "zelote". Na realidade, as duas qualificações equivalem-se, porque significam a mesma coisa:  na língua hebraica, de facto, o verbo qanà' significa "ser zeloso", "dedicado" e pode referir-se quer a Deus, porque é zeloso do povo por ele escolhido (cf. Êx 20, 5), quer a homens que são zelosos no serviço a Deus único com dedicação total, como Elias (cf. 1 Rs 19, 10). Portanto, é possível que este Simão, se não pertencia exactamente ao movimento nacionalista dos Zelotes, tivesse pelo menos como característica um fervoroso zelo pela identidade judaica, por conseguinte, por Deus, pelo seu povo e pela Lei divina. Sendo assim, Simão coloca-se no antípoda de Mateus, que ao contrário, sendo publicano, provinha de uma actividade considerada totalmente impura.

Sinal evidente que Jesus chama os seus discípulos e colaboradores das camadas sociais e religiosas mais diversas, sem exclusão alguma. Ele interessa-se pelas pessoas, não pelas categorias sociais ou pelas actividades! E o mais belo é que no grupo dos seus seguidores, todos, mesmo se diversos, coexistiam, superando as inimagináveis dificuldades:  de facto, era o próprio Jesus o motivo de coesão, no qual todos se reencontravam unidos. Isto constitui claramente uma lição para nós, com frequência propensos a realçar as diferenças e talvez as contraposições, esquecendo que em Jesus Cristo nos é dada a força para superar os nossos conflitos. Tenhamos também presente que o grupo dos Doze é a prefiguração da Igreja, na qual devem ter espaço todos os carismas, os povos, as raças, todas as qualidades humanas, que encontram a sua composição e a sua unidade na comunhão com Jesus.

No que se refere depois a Judas Tadeu, ele é chamado assim pela tradição, unindo ao mesmo tempo dois nomes diferentes:  de facto, enquanto Mateus e Marcos o chamam simplesmente "Tadeu" (Mt 10, 3; Mc 3, 18), Lucas chama-o "Judas de Tiago" (Lc 6, 16; Act 1, 13). O sobrenome Tadeu tem uma derivação incerta e é explicado ou como proveniente do aramaico taddà', que significa "peito" e, por conseguinte, significaria "magnânimo", ou como abreviação de um nome grego como "Teodoro, Teódoto". Dele são transmitidas poucas coisas. Só João assinala um seu pedido feito a Jesus durante a Última Ceia. Diz Tadeu ao Senhor:  "Senhor, como aconteceu que te deves manifestar a nós e não ao mundo?". É uma pergunta de grande actualidade, que também nós fazemos ao Senhor:  porque o Ressuscitado não se manifestou em toda a sua glória aos seus adversários para mostrar que o vencedor é Deus? Por que se manifestou só aos Discípulos? A resposta de Jesus é misteriosa e profunda. O Senhor diz:  "Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada" (Jo 14, 22-23). Isto significa que o Ressuscitado deve ser visto, sentido também com o coração, de modo que Deus possa habitar em nós. O Senhor não se mostra como uma coisa. Ele quer entrar na nossa vida e por isso a sua manifestação é uma manifestação que exige e pressupõe o coração aberto. Só assim vemos o Ressuscitado.

Foi atribuída a Judas Tadeu a paternidade de uma das Cartas do Novo Testamento, que são chamadas "católicas" porque não se destinam a uma determinada Igreja local, mas a um círculo muito amplo de destinatários. De facto, ele dirige-se "aos eleitos amados por Deus Pai e guardados para Jesus Cristo" (v. 1). A preocupação central deste escrito é advertir os cristãos de todos os que, com o pretexto da graça de Deus, desculpam a própria devassidão e para desviar outros irmãos com ensinamentos inaceitáveis, introduzindo divisões dentro da Igreja "deixando-se levar pelo seu delírio" (v. 8), assim define Judas estas suas doutrinas e ideias especiais. Ele compara-os inclusivamente aos anjos caídos, e com palavras fortes diz que "seguiram pelo caminho de Caim" (v. 11). Além disso classifica-os sem reticências como "nuvens sem água que os ventos levam; árvores de outono sem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas; ondas furiosas do mar que repelem a espuma da sua torpeza; estrelas errantes condenadas à negrura das trevas eternas" (vv. 12-13).

Talvez hoje nós já não estejamos habituados a usar uma linguagem tão polémica, que contudo nos diz uma coisa importante. No meio de todas as tentações que existem, com todas as correntes da vida moderna, devemos conservar a identidade da nossa fé. Certamente, o caminho da indulgência e do diálogo, que o Concílio Vaticano II felizmente empreendeu, deve ser sem dúvida prosseguida com uma constância firme. Mas este caminho do diálogo, tão necessário, não deve fazer esquecer o dever de reconsiderar e de evidenciar sempre com igual força as linhas-mestras e irrenunciáveis da nossa identidade cristã. Por outro lado, é necessário ter bem presente que esta nossa identidade exige força, clareza e coragem face às contradições do mundo em que vivemos. Por isso o texto epistolar prossegue assim:  "Mas vós, caríssimos, fala a todos nós mantende-vos no amor de Deus, esperando que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vos conceda a vida eterna. Tratai com misericórdia aqueles que vacilam..." (vv. 20-22). A Carta conclui-se com estas bonitas palavras:  "Àquele que é poderoso para vos livrar das quedas e vos apresentar diante da sua glória, imaculados e cheios de alegria, ao Deus único, nosso Salvador, por meio de Jesus Cristo, Senhor nosso, seja dada glória, a majestade, a soberania e o poder, antes de todos os tempos, agora e por todos os séculos, Amém" (vv. 24-25).

Vê-se bem que o autor destas frases vive plenamente a própria fé, à qual pertencem realidades grandes como a integridade moral e a alegria, a confiança e por fim o louvor, sendo motivado em tudo apenas pela bondade do nosso único Deus e pela misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, tanto Simão o Cananeu, como Judas Tadeu nos ajudam a redescobrir sempre de novo e a viver incansavelmente a beleza da fé cristã, sabendo dar um testemunho dela forte e ao mesmo tempo sereno.

 

Judas Iscariotes e Matias

18 de Outubro de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Terminando hoje de percorrer a galeria de retratos dos Apóstolos chamados directamente por Jesus durante a sua vida terrena, não podemos omitir de mencionar aquele que é sempre nomeado por último nas listas dos Doze: Judas Iscariotes. A ele queremos associar a pessoa que depois é eleita para o substituir, Matias.

Já o simples nome de Judas suscita entre os cristãos uma reacção instintiva de reprovação e de condenação. O significado do apelativo "Iscariotes" é controverso: a explicação mais seguida compreende esta palavra como "homem de Queriot" referindo-se à sua aldeia de origem, situada nas vizinhanças de Hebron e mencionada duas vezes na Sagrada Escritura (cf. Js 15, 25; Am 2, 2).

Outros interpretam-no como variação da palavra "sicário", como se aludisse a um guerrilheiro armado com um punhal que em latim se chama sica. Por fim, há quem veja no sobrenome a simples transcrição de uma raiz hebraico-aramaica que significa: "aquele que estava para o entregar". Esta designação encontra-se duas vezes no IV Evangelho, ou seja, depois de uma confissão de fé de Pedro (cf. Jo 6, 71) e depois durante a unção de Betânia (cf. Jo 12, 4). Outras passagens mostram que a traição estava a ser realizada, dizendo: "aquele que o traía"; assim, durante a Última Ceia, depois do anúncio da traição (cf. Mt 26, 25) e depois no momento do aprisionamento de Jesus (cf. Mt 26, 46.48; Jo 18, 2.5). Ao contrário, as listas dos Doze recordam a traição como uma coisa já efectuada: "Judas Iscariotes, o que o traiu", assim diz Marcos (3, 19); Mateus (10, 4) e Lucas (6, 16) usam fórmulas equivalentes. A traição como tal aconteceu em dois momentos: antes de tudo no planeamento, quando Judas se põe de acordo com os inimigos de Jesus por trinta moedas de prata (cf. Mt 26, 14-16), e depois na execução com o beijo dado ao Mestre no Getsémani (cf. Mt 26, 46-50). Contudo, os evangelistas insistem sobre a qualidade de apóstolo, que competia a Judas para todos os efeitos: ele é repetidamente chamado "um dos Doze" (Mt 26, 14.47; Mc 14, 10.20; Jo 6, 71) ou "do número dos Doze" (Lc 22, 3). Aliás, por duas vezes Jesus, dirigindo-se aos Apóstolos e falando precisamente dele, indica-o como "um de vós" (Mt 26, 21; Mc 14, 18; Jo 6, 70; 13, 21). E Pedro dirá de Judas que "era do nosso número e tinha recebido o nosso mesmo ministério" (Act 1, 17).

Trata-se portanto de uma figura pertencente ao grupo dos que Jesus tinha escolhido como companheiros e colaboradores íntimos. Isto suscita duas perguntas na tentativa de dar uma explicação aos acontecimentos que se verificaram. A primeira consiste em perguntar como aconteceu que Jesus tenha escolhido este homem e nele tenha confiado. Apesar de Judas ser de facto o ecónomo do grupo (cf. Jo 12, 6b; 13, 29a), na realidade é qualificado também como "ladrão" (Jo 12, 6a). Permanece o mistério da escolha, também porque Jesus pronuncia um juízo muito severo sobre ele: "ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue" (Mt 26, 24).

Torna-se ainda mais denso o mistério acerca do seu destino eterno, sabendo que Judas "se arrependeu e restituiu as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos idosos, dizendo: "Pequei, entregando sangue inocente"" (Mt 27, 3-4). Mesmo se em seguida ele se afastou para se ir enforcar (cf. Mt 27, 5), não compete a nós julgar o seu gesto, substituindo-nos a Deus infinitamente misericordioso e justo.

Uma segunda pergunta refere-se ao motivo do comportamento de Judas: porque traíu Jesus? A questão é objecto de várias hipóteses. Alguns recorrem ao factor da sua avidez de dinheiro; outros dão uma explicação de ordem messiânica: Judas teria ficado desiludido ao ver que Jesus não inseria no seu programa a libertação político-militar do seu próprio País. Na realidade os textos evangélicos insistem sobre outro aspecto: João diz expressamente que "tendo já o diabo metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que O entregasse" (Jo 13, 2); analogamente escreve Lucas: "Entrou satanás em Judas, chamado Iscariotes que era do número dos Doze" (Lc 22, 3).

Desta forma, vai-se além das motivações históricas e explica-se a vicissitude com base na responsabilidade pessoal de Judas, o qual cedeu miseravelmente a uma tentação do maligno. A traição de Judas permanece, contudo, um mistério. Jesus tratou-o como um amigo (cf. Mt 26, 50), mas, nos seus convites a segui-lo pelo caminho das bem-aventuranças, não forçava as vontades nem as preservava das tentações de satanás, respeitando a liberdade humana.

De facto, as possibilidades de perversão do coração humano são verdadeiramente muitas. O único modo de as evitar consiste em não cultivar uma visão das coisas apenas individualista, autónoma, mas ao contrário em colocar-se sempre de novo da parte de Jesus, assumindo o seu ponto de vista. Devemos procurar, dia após dia, estar em plena comunhão com Ele. Recordemo-nos de que também Pedro se queria opor a ele e ao que o esperava em Jerusalém, mas recebeu uma forte reprovação: "Tu não aprecias as coisas de Deus, mas só as dos homens" (Mc 8, 32-33)!

Pedro, depois da sua queda, arrependeu-se e encontrou perdão e graça. Também Judas se arrependeu, mas o seu arrependimento degenerou em desespero e assim tornou-se autodestruição. Para nós isto é um convite a ter sempre presente quanto diz São Bento no final do fundamental capítulo V da sua "Regra": "Nunca desesperar da misericórdia divina".

Na realidade Deus "é maior que o nosso coração", como diz São João (1 Jo 3, 20). Por conseguinte, tenhamos presente duas coisas. A primeira: Jesus respeita a nossa liberdade. A segunda: Jesus espera a nossa disponibilidade para o arrependimento e para a conversão; é rico de misericórdia e de perdão. Afinal, quando pensamos no papel negativo desempenhado por Judas devemos inseri-lo na condução superior dos acontecimentos por parte de Deus. A sua traição levou à morte de Jesus, o qual transformou este tremendo suplício em espaço de amor salvífico e em entrega de si ao Pai (cf. Gl 2, 20; Ef 5, 2.25).

O Verbo "trair" deriva de uma palavra grega que significa "entregar". Por vezes o seu sujeito é inclusivamente Deus em pessoa: foi ele que por amor "entregou" Jesus por todos nós (cf. Rm 8, 32). No seu misterioso projecto salvífico, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião da doação total do Filho para a redenção do mundo.

Em conclusão, queremos recordar também aquele que depois da Páscoa foi eleito no lugar do traidor. Na Igreja de Jerusalém a comunidade propôs dois para serem sorteados: "José, de apelido Barsabas, chamado justo, e Matias" (Act 1, 23). Foi precisamente este o pré-escolhido, de modo que "foi associado aos onze Apóstolos" (Act 1, 26). Dele nada mais sabemos, a não ser que também tinha sido testemunha de toda a vicissitude terrena de Jesus (cf. Act 1, 21-22), permanecendo-lhe fiel até ao fim. À grandeza desta sua fidelidade acrescenta-se depois a chamada divina a ocupar o lugar de Judas, como para compensar a sua traição. Tiramos disto mais uma lição: mesmo se na Igreja não faltam cristãos indignos e traidores, compete a cada um de nós equilibrar o mal que eles praticam com o nosso testemunho transparente a Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.

 

 

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