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Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - 27.º Dom Comum a Cristo, Rei |
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Actos 1, 12-14 Lucas 1, 26-38
Habacuc 1, 2-3; 2, 2-4 2 Timóteo 1, 6-8.13-14 Lucas 17, 5-10
2 Reis 5, 14-17 2 Timóteo 2, 8-13 Lucas 17, 11-19
Êxodo 17, 8-13 2 Timóteo 3, 14 – 4, 2 Lucas 18, 1-8
Ben-Sirá 35, 15b-17.20-22a (grego: 12-14.16-18) 2 Timóteo 4, 6-8.16-18 Lucas 18, 9-14
Apocalipse 7, 2-4.9-14 1 São João 3, 1-3 São Mateus 5, 1-12a
Comemoração de todos os fiéis defuntos 1ª Missa Job 19, 1.23-27a2 Coríntios 4, 14-18 – 5, 1 São Mateus 11, 25-30 2ª MissaMacabeus 12, 43-46 São Lucas 7, 11-17 3ª Missa 1 Tessalonicenses 4, 13-18 São João 6, 37-40
Sabedoria 11, 22 – 12, 2 2 Tessalonicenses 1, 11 – 2, 2 Lucas 19, 1-10
2 Macabeus 7, 1-2.9-14 2 Tessalonicenses 2, 16 – 3, 5 São Lucas 20, 27-38
Malaquias 3, 19-20a (Vulgata 4, 1-2a) 2 Tessalonicenses 3, 7-12 Lucas 21, 5-19
Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo2 Samuel 5, 1-3 Colossenses 1, 12-20 Lucas 23, 35-43
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in Celebração Litúrgica, 2006-2007
1ª leitura Actos 1, 12-14
Depois de Jesus ter subido ao Céu, 12os Apóstolos voltaram para Jerusalém, descendo o monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, à distância de uma caminhada de sábado. 13Quando chegaram à cidade, subiram para a sala de cima, onde se encontravam habitualmente. Estavam lá Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zeloso, e Judas, irmão de Tiago. 14Todos estes perseveravam unidos em oração, em companhia de algumas mulheres, entre as quais Maria, Mãe de Jesus.
Quando deixa de ter visibilidade a pessoa de Jesus, a sua Mãe ocupa um lugar digno de nota, logo na oração da Igreja nascente. Com Ela os primeiros que seguiram a Cristo, esperam o Espírito Santo, perseverando, “unidos em oração”. Note-se também a importância dada à lista dos Apóstolos e como, em todas as quatro listas que aparecem no N. T., Pedro é sempre o cabeça de lista, embora elas não tenham sempre todos os restantes nomes na mesma ordem.
Evangelho Lucas 1, 26-38
Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.
A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria! 26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus». 28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita: «Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9). Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica. «O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele. Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita es tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo. 29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18). 32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14). 34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio. 35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»). «O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7). 38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma. «Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.
1ª leitura Habacuc 1, 2-3; 2, 2-4 1,2«Até quando, Senhor, chamarei por Vós e não Me ouvis? Até quando clamarei contra a violência e não me enviais a salvação? 3Porque me deixais ver a iniquidade e contemplar a injustiça? Diante de mim está a opressão e a violência, levantam-se contendas e reina a discórdia?» 2,2O Senhor respondeu-me: «Põe por escrito esta visão e grava-as em tábuas com toda a clareza, de modo que a possam ler facilmente. 3Embora esta visão só se realize na devida altura, ela há-de cumprir-se com certeza e não falhará. Se parece demorar, deves esperá-la, porque ela há-de vir e não tardará. 4Vede como sucumbe aquele que não tem alma recta; mas o justo viverá pela sua fidelidade».
A leitura está escolhida em função do Evangelho, que fala da fé. A pequenina obra do profeta contemporâneo de Jeremias (séc. VII-VI) começa por duas queixas a que o Senhor responde. No texto temos a primeira queixa (1, 2-3) e a segunda resposta (2, 2-4), em que sobressai o apelo à fé. Deus não deixa de ouvir os seus amigos que Lhe pedem socorro; pode tardar a obra divina da salvação (2, 3), mas “há-de cumprir-se com certeza”, “na devida altura”, de modo que só vacila “aquele que não tem alma recta”. Com efeito, o justo é da fé que tira a coragem para superar todas as dificuldades que venham a desabar sobre ele, por isso mesmo é que ele viverá. Por outro lado, também se pode entender o texto no sentido de que a fidelidade à aliança é garantia de vida para o justo. S. Paulo, em Rom 1, 17, faz uma actualização deste texto, utilizando-o como mote para a sua longa e profunda exposição sobre a “justificação”, isto é, sobre a acção divina pela qual o próprio Deus justifica, isto é, torna justo, salva, o homem pecador. Trata-se duma iniciativa gratuita da parte de Deus, que não é fruto daquilo que o homem possa fazer cumprindo uma série de requisitos legais da Lei de Moisés. A primeira condição essencial para o homem se salvar, para viver a vida divina, é esta: pela fé, acolher confiado e agradecido o dom de Deus, que lhe vem por Cristo, e ser-lhe fiel. Note-se a importância que na época se dava ao profeta Habacuc: o célebre Péxer de Habacuc encontra-se entre os manuscritos de Qumrã.
2ª Leitura 2 Timóteo 1, 6-8.13-14
Caríssimo: 6Exorto-te a que reanimes o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. 7Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e moderação. 8Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro. Mas sofre comigo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus. 13Toma como norma as sãs palavras que me ouviste, segundo a fé e a caridade que temos em Jesus Cristo. 14Guarda a boa doutrina que nos foi confiada, com o auxílio do Espírito Santo, que habita em nós. Começamos hoje, até ao fim do ano C, a ter como 2ª leitura uns respigos da 2ª Carta a Timóteo, a última das chamadas Cartas Pastorais, uma carta tão cheia de alusões pessoais, que são um forte sinal de autenticidade, apesar das muitas objecções em contrário. Escrevendo do segundo cativeiro romano, pelo ano 67, S. Paulo exorta o seu fiel colaborador a perseverar incansavelmente no ministério da pregação e na defesa da sã doutrina, prevenindo das ameaças que se avizinham para a fé recta.6 “Reanimes o dom que recebeste pela imposição das minhas mãos”. O rito da imposição das mãos tem aqui, como em 1 Tim 4 14, o sentido de comunicação do ministério apostólico; o dom corresponde à graça do Sacramento da Ordem (segundo o ensino de Trento: cf. DS 959), que se pode reactivar com a oração e o sacrifício, na correspondência às exigências da vocação (versículos seguintes). Como então, ainda hoje pertence ao sinal sacramental da Ordem a imposição das mãos do Bispo.14 “Guarda a boa doutrina que nos foi confiada” (à letra: “guarda o bom depósito”). Bom, isto é, precioso e autêntico, um depósito, que são as palavras sãs segundo a fé (v. 13). A Revelação divina é um depósito sagrado confiado à Igreja e que ela tem de guardar e transmitir íntegro (cf. Dei Verbum, nº 7 e 10); é assim que em 1 Tim 6, 20 é dirigido ao grande colaborador de Paulo o veemente apelo final, “guarda o depósito”, uma expressão de sabor jurídico (parathêkê), para designar uma coisa confiada à guarda duma pessoa de confiança, com a obrigação de lha guardar, sem deixar que se estrague ou altere.
Evangelho Lucas 17, 5-10 5Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé». 6O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia. 7Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele volta do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? 8Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu. 9Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? 10Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’».
O texto de hoje pertence à última parte (Lc 16, 1 – 19, 27) dos ensinamentos de Jesus na grande viagem para Jerusalém; aqui o Evangelista recolhe relatos diversos e de forma bastante dispersa, muitos deles exclusivos de Lucas. 5. “Os Apóstolos disseram ao Senhor”. Notar como, diversamente dos outros Sinópticos, S. Lucas, na sua narração, frequentemente designa Jesus como “o Senhor”, ainda antes da ressurreição. 6 “Diríeis a esta amoreira”. Em Mt 17, 20 e Mc 11, 23, lê-se: a este monte, não deverá, porém, tratar-se duma suavização da arrojada forma de falar de Jesus, mas antes podemos pensar numa outra expressão paralela usada pelo Senhor. 7-10 Esta expressiva lição de humildade é exclusiva de Lucas. “Um servo...”: embora não se tratasse de um escravo à maneira romana, mas de um servo à maneira hebraica, não deixava de ser um criado para todo o serviço: lavar, cozinhar e servir à mesa, etc... Assim devemos nós estar dispostos a executar todo e qualquer serviço por Deus, Nosso Senhor – “o Amo” (ou Patrão, como gostava de lhe chamar o Beato D. Manuel González) –, com ânimo humilde e agradecido, pois não fazemos qualquer favor a Deus – servos inúteis –. Ele é que nos faz o máximo favor de nos admitir a servi-lo; este é o primeiro dever duma criatura relativamente ao seu Criador.
1ª leitura 2 Reis 5, 14-17 Naqueles dias, 14o general sírio Naamã desceu ao Jordão e aí mergulhou sete vezes, como lhe mandara Eliseu, o homem de Deus. A sua carne tornou-se tenra como a de uma criança e ficou purificado da lepra. 15Naamã foi ter novamente com o homem de Deus, acompanhado de toda a sua comitiva. Ao chegar diante dele, exclamou: «Agora reconheço que em toda a terra não há outro Deus senão o de Israel. Peço-te que aceites um presente deste teu servo». 16Eliseu respondeu-lhe: «Pela vida do Senhor que eu sirvo, nada aceitarei». E apesar das insistências, ele recusou. 17Disse então Naamã: «Se não aceitas, permite ao menos que se dê a este teu servo uma porção de terra para um altar, tanto quanto possa carregar uma parelha de mulas, porque o teu servo nunca mais há-de oferecer holocausto ou sacrifício a quaisquer outros deuses, mas apenas ao Senhor, Deus de Israel».
O episódio cheio de beleza e vivacidade é tirado do chamado ciclo de Eiseu (2 Re 2, 13 – 13, 30), tem um paralelo semelhante nos Evangelhos, não tanto nas curas dos leprosos dos Evangelhos, como se lê no Evangelho de hoje, mas antes na cura do cego de Jo 9, que se banha na piscina de Siloé. 17 Uma porção de terra, isto é, de terra santa, terra que pertence ao verdadeiro e único Deus, Yahwéh, o único capaz de fazer milagres. Esta terra levada como relíquia vai continuar no futuro costume da piedade cristã de os peregrinos da Terra Santa trazerem consigo um punhado de terra.
2ª leitura 2 Timóteo 2, 8-13 Caríssimo: 8Lembra-te de que Jesus Cristo, descendente de David, ressuscitou dos mortos, segundo o meu Evangelho, 9pelo qual eu sofro, até ao ponto de estar preso a estas cadeias como um malfeitor. Mas a palavra de Deus não está encadeada. 10Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com a glória eterna. 11É digna de fé esta palavra: Se morremos com Cristo, também com Ele viveremos; 12se sofremos com Cristo, também com Ele reinaremos; 13se O negarmos, também Ele nos negará; se Lhe formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo.
Este belo trecho da leitura é uma boa lição de optimismo, baseado na fé, para as horas de provação e de perseguição, bem como magnífico um hino de apelo à fidelidade a toda a prova (vv. 11-13). 8 “Segundo o meu Evangelho”. Não se trata do Evangelho de Lucas, discípulo de Paulo, mas do Evangelho que Paulo prega, a boa nova da salvação em Cristo, exposto com os acentos próprios do Apóstolo das Gentes. No Novo Testamento nunca o termo Evangelho se refere ao Evangelho escrito. 9 “Cadeias como um malfeitor”. S. Paulo está no 2.º cativeiro romano, pelo ano 67, no fim da sua vida, em plena perseguição de Nero contra os cristãos, considerado pelo historiador pagão da época, Suetónio (Vida dos 12 imperadores, Nero, 16), como pertencentes a uma “superstição nova e maléfica”.
Evangelho Lucas 17, 11-19 Naquele tempo, 11indo Jesus a caminho de Jerusalém, passava entre a Samaria e a Galileia. 12Ao entrar numa povoação, vieram ao seu encontro dez leprosos. 13Conservando-se a distância, disseram em alta voz: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». 14Ao vê-los, Jesus disse-lhes: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra. 15Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz, 16e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus para Lhe agradecer. Era um samaritano. 17Jesus, tomando a palavra, disse: «Não foram dez que ficaram curados? Onde estão os outros nove? 18Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?» 19E disse ao homem: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou».
Os Sinópticos referem a cura de leprosos, mas só Lucas relata o episódio da cura dos dez leprosos, que condiz bem com a sua visão universalista da salvação, ao registar que o curado agradecido era um samaritano. 12 “Conservando-se a distância”. A própria Lei prescrevia, a fim de evitar o contágio, o isolamento do doente (cf. Lv 13, 45-46) e também um certificado de cura passado pelos sacerdotes (cf. Lv 14, 2 ss) para poder ser reintegrado no convívio social. 17 “Onde estão os outros nove?” O relato deixa ver que Jesus não os curou logo e manda-os ir pedir o certificado da cura ainda antes de curados. Assim é posto em evidência o seu exemplo de fé, mas a verdade é que só um – e o mais desprezível, pois era samaritano – é que deu exemplo de gratidão. Lucas, ao pôr em relevo a gratidão dum estrangeiro, também deixa ver a finíssima sensibilidade do Coração de Cristo, que fica contente com o agradecimento deste, e dorido com a ingratidão dos outros nove que não estiveram para ter a maçada de voltar atrás para agradecer a cura.
1ª leitura Êxodo 17, 8-13 8Naqueles dias, Amalec veio a Refidim atacar Israel. 9Moisés disse a Josué: «Escolhe alguns homens e amanhã sai a combater Amalec. Eu irei colocar-me no cimo da colina, com a vara de Deus na mão». 10Josué fez o que Moisés lhe ordenara e atacou Amalec, enquanto Moisés, Aarão e Hur subiram ao cimo da colina. 11Quando Moisés tinha as mãos levantadas, Israel ganhava vantagem; 12mas quando as deixava cair, tinha vantagem Amalec. Como as mãos de Moisés se iam tornando pesadas, trouxeram uma pedra e colocaram-na por debaixo para que ele se sentasse, enquanto Aarão e Hur, um de cada lado, lhe seguravam as mãos. Assim se mantiveram firmes as suas mãos até ao pôr do sol 13e Josué desbaratou Amalec e o seu povo ao fio da espada.
O livro do Êxodo não cessa de exaltar a Providência divina em favor do povo que, liberto da opressão do Egipto, é guiado a caminho da terra prometida; não só o alimenta e lhe mata a sede, como também o livra das mãos dos inimigos. 8 “Amalec”, isto é, os amalecitas, um tradicional inimigo de Israel, espalhado pelo norte do Sinai e a sul do Négueb, até aos tempos de Ezequias, em que foi completamente apagada a sua memória (cf. v. 14). Aqui aparecem como um grupo inimigo, que disputaria os escassos oásis do deserto com as suas fontes e pastagens. “Refidim”, lugar incerto a SW da península do Sinal, um lugar de passagem dos israelitas a caminho do monte Horeb (Sinai). 9 “Com a vara de Deus na mão...” Alguns pensam, e com razão, que Moisés, no cimo do monte, não se limitou a rezar de braços abertos, mas que, com a vara, ia fazendo sinais para a planície, a fim de Josué conduzir bem o combate. De qualquer modo, ao lermos o Êxodo, é contraproducente fixarmo-nos no rigor histórico dos relatos, embora estes tenham atrás de si tradições de valor. Queremos chamar a atenção para o perene valor paradigmático do gesto de Moisés. Ele torna-se uma imagem de Cristo mediador e do valor da oração de intercessão. Os Padres vêem na vara de Moisés uma figura da Cruz, que vence os inimigos do homem: demónio, o pecado e a morte. Por outro lado, também se pode ver, nas figuras de Aarão e Hur, o poder religioso, e, em Josué, o poder político-militar, ambos os poderes concentrados em Moisés, que haveriam de vir a diversificar-se.
2ª leitura 2 Timóteo 3, 14 – 4, 2 Caríssimo: 14Permanece firme no que aprendeste e aceitaste como certo, sabendo de quem o aprendeste. 15Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras; elas podem dar-te a sabedoria que leva à salvação, pela fé em Cristo Jesus. 16Toda a Escritura, inspirada por Deus, é útil para ensinar, persuadir, corrigir e formar segundo a justiça. 17Assim o homem de Deus será perfeito, bem preparado para todas as boas obras. 4,1Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há-de julgar os vivos e os mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: 2Proclama a palavra, insiste a propósito e fora de propósito, argumenta, ameaça e exorta, com toda a paciência e doutrina. A leitura contém o texto clássico da inspiração da Sagrada Escritura (v. 16) e um apelo formal e solene à pregação do Evangelho, com o recurso a uma fórmula jurídica semelhante à dos testamentos greco-romanos, de modo a que o herdeiro fique obrigado a cumprir a vontade do testador (4, 1: “conjuro-te” – diamartyromai). 16 “Toda a Escritura, inspirada por Deus, é útil…” (outra tradução possível: “toda a Escritura é inspirada por Deus e também é útil…). A Igreja sempre entendeu e ensinou que: “Todos os livros, tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes, foram escritos sob a inspiração do Espírito Santo e, por isso, têm a Deus como autor e, como tais, foram confiados à Igreja” (Vaticano II, DV 11). Na tradução litúrgica, aparece a inspiração da S. E., – uma interacção divino-humana, um verdadeiro mistério pertencente à ordem sobrenatural – como uma afirmação indirecta, pois o acento é posto na sua utilidade sobrenatural: dar a sabedoria que leva à salvação (v. 15), “ensinar, persuadir, corrigir e formar segundo a justiça” (v. 16), e levar à santidade de vida de um homem de Deus perfeito (v. 17).
Evangelho Lucas 18, 1-8 1Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos uma parábola sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar: 2«Em certa cidade vivia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. 3Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’. 4Durante muito tempo ele não quis atendê-la. Mas depois disse consigo: ‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens; 5mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente’». 6E o Senhor acrescentou: «Escutai o que diz o juiz iníquo!... 7E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? 8Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa. Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?»
O tema central deste e do próximo domingo é o da oração. A parábola do juiz iníquo, exclusiva de Lucas, o evangelista da oração, é muito expressiva para mostrar a eficácia da oração e a necessidade que temos de insistir. Esta insistência não é para convertermos Deus, mas para nós nos convertermos a Ele, para nos abrirmos aos dons que Ele tem para nos dar, para nos colocarmos no nosso lugar de criaturas necessitadas de Deus. Compreende-se assim que Ele não nos dispense de clamar dia e noite e de “orar sempre sem desanimar” (v. 1). 7 “E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos que por Ele clamam dia e noite?” O contraste estabelecido pelo Senhor é flagrante. Como é que Deus não há-de escutar os nossos pedidos, sendo Ele um Pai amorosíssimo e infinitamente bom? A verdade é que 8 “O Filho do homem encontrará fé sobre a terra? Para rezar e ser atendido é preciso fé, dessa “fé que transporta montanhas” (cf. Mt 17, 20). A falta de fé prevista para o fim dos tempos (cf. Mt 24, 10-12; 2 Tes 2, 3-5; 1 Tim 4, 1-3; 2 Tim 3, 1-9) não se revela só na negação das verdades reveladas por Deus, mas na perda do sentido da fé a nortear a vida.
1ª leitura Ben-Sirá 35, 15b-17.20-22a (grego: 12-14.16-18) 15bO Senhor é um juiz que não faz acepção de pessoas. 16Não favorece ninguém em prejuízo do pobre e atende a prece do oprimido. 17Não despreza a súplica do órfão nem os gemidos da viúva. 20Quem adora a Deus será bem acolhido e a sua prece sobe até às nuvens. 21A oração do humilde atravessa as nuvens e não descansa enquanto não chega ao seu destino. 22aNão desiste, até que o Altíssimo o atenda, para estabelecer o direito dos justos e fazer justiça. A leitura é tirada do corpo do livro de Ben Sira (2 – 43), uma longa amálgama de conselhos morais e sábias sentenças. Neste trecho, ao mesmo tempo que se fala das boas disposições de Deus para quem o invoca, também põe em evidência as condições de uma boa oração: confiança, perseverança e humildade: “A oração do humilde atravessa as nuvens” (v. 21).
2ª leitura 2 Timóteo 4, 6-8.16-18 Caríssimo: 6Eu já estou oferecido em libação e o tempo da minha partida está iminente. 7Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. 8E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me há-de dar naquele dia; e não só a mim, mas a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda. 16Na minha primeira defesa, ninguém esteve a meu lado: todos me abandonaram. Queira Deus que esta falta não lhes seja imputada. 17O Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todas as nações a ouvissem; e eu fui libertado da boca do leão. 18O Senhor me livrará de todo o mal e me dará a salvação no seu reino celeste. Glória a Ele pelos séculos dos séculos. Amen.
Temos hoje a parte final da 2ª Carta enviada a Timóteo desde um calabouço em Roma, onde aguardava o seu iminente martírio, no termo do seu 2º cativeiro romano.6 “Eu já estou oferecido em libação”, isto é, “estou a chegar ao momento de derramar o meu sangue em sacrifício”. A expressão deve entender-se à luz do costume pagão de fazer libações (sacrifícios que consistiam no derramamento ritual de líquidos em honra da divindade), por ocasião da morte de alguém. Com esta maneira de falar, S. Paulo quer dizer que já chegou a hora da sua morte. Pode significar também que a sua morte violenta – com derramamento de sangue por Cristo e em união com Ele – tem um certo carácter sacrificial, por se tratar de uma imolação em honra de Deus.“O tempo da minha partida (à letra: o desprender das amarras, isto é, a morte) está iminente”. Estamos seguramente no ano 67, ano do martírio do Apóstolo. 7-8 “Combate… carreira… coroa…”: mais uma vez aparece a bela maneira paulina de apresentar a vida cristã como um desporto sobrenatural, através das imagens duma luta, duma corrida e da coroa a ser atribuída por um árbitro; este é Deus, que contempla a competição e atribui o prémio. Era costume honrar os vencedores dos certames com coroas tecidas de agulhas de pinheiros, ou de folhas de louro ou oliveira; a coroa também podia, como hoje, pertencer às honras fúnebres. Esta imagem da coroa já designava então a vida eterna na bem-aventurança do Céu, como prémio de uma vida santa; é dita uma “coroa de justiça”, por ser atribuída a quem praticou a justiça, ou obras justas, isto é, de acordo com a vontade de Deus. Mas a ideia de retribuição devida aos méritos também fica patente no texto, pois o prémio é dado por aquele que é o “justo juiz”: Deus remunerador, perante quem todos teremos de prestar contas, “naquele dia”, o da “sua vinda”, à letra, o da a sua manifestação (epifáneia), “com efeito, todos havemos de comparecer perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba conforme aquilo que fez de bem ou de mal, enquanto estava no corpo” (2 Cor 5, 10). 17 “E todos as nações a ouvissem”. Esta tradução não é a seguida habitualmente pelos comentadores, pois não parece que haja aqui uma referência à pregação da “mensagem do Evangelho” (o texto original fala simplesmente de pregação, sem mais: kêrygma); parece referir-se antes a um testemunho dado provavelmente no julgamento público, ouvido “por todos os gentios” (e não por “todas as nações”, como diz a actual tradução bíblica revista). Tratar-se-ia de um testemunho de tal modo convincente, que levou ao adiamento da sentença: e eu fui libertado da boca do leão, isto é, da morte (cf. Salm 21 (22), 22).
Evangelho Lucas 18, 9-14
9Naquele tempo, Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros: 10«Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. 11O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. 12Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’. 13O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. 14Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado». A parábola do fariseu e do publicano, exclusiva de Lucas, é uma forma de Jesus ensinar a humildade, a atitude fundamental com que o homem tem de se apresentar diante de Deus para ser atendido. 11 “Meu Deus, dou-Vos graças”. Temos um exemplo da “oração dos hipócritas” (Mt 6, 5). O que o fariseu faz não é propriamente rezar, mas gabar-se; não dialoga com Deus, fala consigo. Ele também tem pecados, mas a sua soberba não o deixa ter a hombridade de os reconhecer. Para ele, os maus são os outros, com quem se compara – “não sou como este publicano” –; sente-se com autoridade para julgar, e condena os outros. Apoia-se nas suas pretensas boas obras e, ao não se apoiar na misericórdia de Deus, sai do templo em pecado. Justifica-se a si mesmo e sai por justificar, pois só Deus pode tornar o homem justo. Ele agradece a Deus, mas, no fundo, o que ele pensa é que Deus é quem lhe deve estar agradecido! 14 Pelo contrário, a oração humilde do pecador, que reconhece sinceramente as suas culpas e se arrepende, comove o coração de Deus: “Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa”. A doutrina que S. Paulo havia de desenvolver sobre a justificação pela fé e não pelas obras vai na linha do ensino desta parábola.
1ª leitura Apocalipse 7, 2-4.9-14
2Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: 3«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». 4E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. 10E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». 11Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: 12«Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». 13Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». 14Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».
Numa grandiosa visão, o vidente de Patmos deixa ver que no meio de tantas desgraças e ainda antes que cheguem as piores, as que correspondem à abertura do 7º selo (cap.8), os cristãos, que formam uma imensa multidão, estão sob a protecção de Deus, mesmo quando perseguidos e sujeitos ao martírio. 2-4 “O selo (o sinete de marcar) do Deus vivo”. Alusão ao timbre então usado pelos monarcas para imprimir o sinal de propriedade ou autenticidade: por vezes os escravos e soldados eram marcados na pele com um ferro em brasa. O símbolo está tomado destes costumes da época e sobretudo da profecia de Ezequiel (Ez 9, 4-6), por isso alguns Padres viram nesta marca, em forma de cruz (pela alusão ao tav de Ezequiel, a última consoante hebraica), o carácter baptismal. “Cento e quarenta e quatro mil” é um número simbólico; com efeito, os números do Apocalipse são habitualmente simbólicos, o que neste caso é evidente por se tratar de um jogo de números: 12 x 12000 (doze mil por cada uma das doze tribos de Israel). Estes 144.000, segundo uns, “representam toda a Igreja sem restrição” (Santo Agostinho), pois esta é o novo Israel de Deus (cf. Gal 6, 16) e são a mesma “multidão imensa que ninguém podia contar” (v. 9). Segundo outros, estes 144.000 são os cristãos procedentes do judaísmo, muito particularmente os que foram poupados das calamidades que assolaram a Palestina, por ocasião da destruição da nação judaica no ano 70. 11 “Os (24) Anciãos”. Há grande variedade de opiniões para decifrar este símbolo, não se podendo sequer estabelecer se se trata de seres angélicos ou humanos. Santo Agostinho diz que “são a Igreja universal; os 24 anciãos são os superiores jerárquicos e o povo: 12 representam os Apóstolos e os bispos, e os outros 12 representam o restante da Igreja”. “Os 4 Viventes”(à letra, “animais”), uma tradução preferível a: “os 4 animais”, uma vez que o terceiro tem rosto humano (cf. Apoc 4, 7). A quem representam estes seres misteriosos, que reúnem características dos querubins de Ez 1 e dos serafins se Is 6? Podem muito bem simbolizar os quatro pontos cardeais, ou os quatro elementos do mundo (terra, fogo, água e ar), isto é, a totalidade do Universo. Deste modo, a presente “visão” apresenta-nos, unidos numa única adoração e louvor a Deus e a Cristo, os Anjos, a Humanidade resgatada e o próprio Universo material. A interpretação segundo a qual os Quatro Seres simbolizam os Quatro Evangelistas deve-se a Santo Ireneu e é uma acomodação espiritual do texto inspirado. 12 “Amen! Bênção, glória…”: Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro. 14 “A grande tribulação”. Tanto se pode tratar duma perseguição aos cristãos mais violenta no fim dos tempos, como das perseguições e das tribulações em geral no curso da história da Igreja. Mas é provável que o vidente de Patmos tenha presente em primeiro plano, as violentas perseguições de Nero e Domiciano, muito embora englobando nestas todas as outras. “Lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro”. “Não se designam só os mártires, mas todo o povo da Igreja – comenta Santo Agostinho –, pois não disse que lavaram as suas túnicas no seu próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro, isto é, na graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor, conforme está escrito: e o seu sangue purifica-nos (1 Jo 1, 7)”.
2ª leitura 1 São João 3, 1-3
Caríssimos: 1Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. 3Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro.
A leitura é um dos textos clássicos da filiação adoptiva divina, uma exigência constante de santidade. 1 “E somo-lo de facto”. S. João não se contenta com dizer que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para que um semita entendesse, pois para ele ser chamado (por Deus) equivalia a ser. S. João quer falar para que todos entendamos esta realidade sobrenatural que “o mundo”, sem fé, não pode captar nem apreciar. 2 A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma mera adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação da natureza divina (cf. 2 Pe 1, 4) pela graça. “Semelhantes a Deus”, desde já; mas só na glória celeste se tornará patente o que já “agora somos”. “O veremos tal como Ele é”. Esta é a melhor definição da infinda felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: contemplar a Deus tal qual Ele é, não apenas as suas obras, mas a Ele próprio, “face a face” (cf. 1 Cor 13, 12). 3 “Purifica-se a si mesmo”. A certeza da filiação divina conduz-nos à purificação e à imitação de Cristo, o Filho de Deus por natureza: “como Ele é puro”; efectivamente, os puros de coração hão-de ver a Deus (cf. Evangelho de hoje: Mt 5, 8).
Evangelho São Mateus 5, 1-12a
Naquele tempo, 1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos 2e Ele começou a ensiná-los, dizendo: 3«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. 4Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. 5Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. 12aAlegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
As 8 bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um carácter solene e universal, para todas as pessoas e para todos os tempos. Elas condensam a grande novidade do Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico então vigente, para já não falarmos do espírito mundano, hedonista do paganismo de então e do de agora. Elas não são expressão de uma “ética dos débeis”, mas sim dum ideal de vida para almas fortes e generosas, correspondem a uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade, como o demonstra a vida de todos os santos. 3 “Bem-aventurados”. Esta tradução (em vez de “felizes”) vinca a ideia de que o Senhor promete a felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao dizê-la do presente: “deles é” (não diz “deles será”). As bem-aventuranças são o mais surpreendente código de felicidade, e não se trata de uma felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena. “Os pobres em espírito”. “No Antigo Testamento, o pobre está já delineado não só como uma situação económico-social, mas como um valor religioso muito elaborado: é pobre quem se apresenta diante de Deus com uma atitude humilde, sem méritos pessoais, considerando a sua realidade de homem pecador, necessitado do perdão divino, da misericórdia de Deus para ser salvo. Daí que, além de viver com uma sobriedade e uma austeridade de vida reais, efectivas, ele aceite e quer tais condições de pobreza não como algo imposto pela necessidade, mas voluntariamente, com afecto (…). A ‘explicação’ de Mateus, em espírito, sublinha a exigência dessa mesma pobreza: não é pobre em espírito quem só o é obrigado pela sua situação económico-social, mas sim quem, além disso, é pobre querendo essa pobreza de modo voluntário (…). Esta atitude religiosa de pobreza está muito relacionada com a chamada infância espiritual. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem nada como propriedade; tudo é de Deus, o seu Pai, e a Ele lho deve. De qualquer modo, a pobreza em espírito, isto é, a pobreza cristã, exige o desprendimento dos bens materiais e uma austeridade no uso deles” (J. M. Casciaro). Pode-se ver o belo comentário de São Leão Magno no ofício de leitura da 6ª feira da semana XXII do tempo comum. 4 “Os humildes”. A tradução preferiu um termo mais suave do que “os mansos”, que são os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. De facto só os humildes são capazes da virtude da mansidão, pois não dão demasiada importância a si próprios. A “terra” é a nova terra prometida, isto é, o Céu. 5 “Os que choram”, isto é, os aflitos, e muito particularmente os que têm o coração cheio de mágoa por terem ofendido a Deus e que, com vontade de reparação, choram e deploram os seus pecados. 6 “Fome e sede de justiça”. A ideia de justiça na Sagrada Escritura é uma ideia de natureza religiosa: justo é aquele que cumpre a vontade de Deus, e justiça corresponde a santidade, vocação a que todos são chamados. 8 “Os puros de coração” são, em geral, os que têm uma intenção recta, os que são capazes de um amor puro, limpo e nobre, os que têm um olhar recto e são; está, portanto, englobada a castidade, mas não é só ela. 9 “Os que promovem a paz” (uma tradução mais expressiva do que pacíficos) são os que promovem a paz entre os homens e dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo. 11-12 Depois das 8 bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela fórmula “porque deles é o reino dos Céus”: vv. 3 e 10), há uma ampliação e uma aplicação da 8ª e última bem-aventurança, directa aos ouvintes.
Comemoração de todos os fiéis defuntos (1ª Missa)
1ª leitura Job 19, 1.23-27a
1Job tomou a palavra e disse: 23«Quem dera que as minhas palavras fossem escritas num livro, ou gravadas em bronze 24com estilete de ferro, ou esculpidas em pedra para sempre! 25Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. 26Revestido da minha pele, estarei de pé na minha carne verei a Deus. 27aEu próprio O verei, meus olhos O hão-de contemplar».
Este pequeno trecho é um dos mais citados pela tradição cristã; corresponde à resposta de Job às acusações dos seus amigos; é um hino de esperança e confiança em Deus no meio do seu atroz sofrimento, um hino que fica bem realçado, ao dizer: “palavras escritas… esculpidas em pedra para sempre”. 25 “E no último dia Se levantará sobre a terra”. Esta última reformulação da tradução litúrgica – que antes já tinha abandonado o texto latino da Vulgata para se cingir ao texto hebraico massorético – parece ter querido recuperar um sentido escatológico (o da ressurreição final), ao não referir o adjectivo “último” a Deus, mas sim a “dia”(substantivo que não aparece no hebraico, mas que S. Jerónimo subentendeu). No entanto, o verbo “Se levantará” (que S. Jerónimo traduziu na 1ª pessoa, referindo-o a Job) segue o texto hebraico. 26 “Na minha carne verei a Deus”. O texto massorético significa que, ainda nesta vida (com a minha carne já curada) hei-de sentir a sua protecção, o seu amor e bondade (é este o sentido corrente no A. T. de “ver a Deus”). A verdade é que a nova tradução litúrgica, baseada na pauta da Neovulgata, quis manter o sentido escatológico do texto, de acordo com o antigo uso do texto na Liturgia dos defuntos. De facto, quando o justo que sofre (Job), haverá de ver plenamente a Deus com a sua carne, será na Ressurreição (ainda que a doutrina da ressurreição não apareça no livro de Job e seja algo ao arrepio desta obra). A Vulgata de S. Jerónimo tinha uma tradução que hoje nenhum crítico segue: “Eu sei que o meu Redentor vive e que no último dia eu hei-de ressuscitar da terra e serei novamente revestido da minha pele e com a minha própria carne verei o meu Deus”. A verdade, porém, é que estamos diante duma passagem que oferece bastantes dificuldades para a reconstituição do texto original e a Neovulgata optou por um texto aberto a um sentido escatológico, semelhante ao da tradução litúrgica que temos.
2ª leitura 2 Coríntios 4, 14-18 – 5, 1
14Como sabemos, irmãos, Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele. 15Tudo isto é por vossa causa, para que uma graça mais abundante multiplique as acções de graças de um maior número de cristãos para glória de Deus. 16Por isso, não desanimamos. Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. 17Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. 18Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. 5, 1Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens.
A leitura é de uma grande riqueza doutrinal e projecta a luz da fé sobre o mistério da morte, um mistério a que ninguém pode fechar os olhos, sobretudo na comemoração do dia de hoje. A esperança da ressurreição e da glória do Céu, que animava o Apóstolo Paulo, é a mesma que nos anima a nós. 16 “Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia”. A antítese “homem exterior” “homem interior” visa a oposta dualidade da antropologia teológica paulina, mais do que a dualidade da antropologia filosófica grega, embora sem prescindir dela. O homem exterior é o ser humano considerado na sua mortalidade, votado à ruína e decomposição física (cf. v. 7: um frágil “vaso de barro”), em contraste com o homem interior, que aqui, mais do que a imortalidade da filosofia grega (a athanasía: cf. 1 Cor 15, 53-54; 1 Tim 6, 16), parece indicar a vitalidade sobrenatural imperecível infundida no Baptismo, um princípio de santificação que possibilita que o homem regenerado se vá renovando de dia para dia, identificando-se cada vez mais com Cristo ressuscitado. A vida dos santos demonstra esta afirmação paulina: à medida que os seus corpos se vão consumindo por sofrimentos e penitências corporais, renova-se a sua juventude de alma, a sua alegria. A propósito destas noções, temos que reconhecer que Paulo não utiliza nos seus escritos um modelo antropológico único; com efeito, embora a sua formação seja radicalmente hebraica, ele, ao dirigir-se ao mundo helenístico, também se serve de categorias do pensamento filosófico grego corrente. Daqui provém, às vezes, alguma dificuldade de interpretação dos seus textos, cuja antropologia não se pode absolutizar. 5, 1 “Tenda... morada terrestre...” Tenda (skênos), designa no mundo grego o corpo, como invólucro da alma, uma alusão ao carácter provisório da nossa morada terrestre, em contraposição com o corpo já ressuscitado e glorioso, à maneiro do de Cristo. Que Paulo admite uma escatologia individual e intermédia, distinta da ressurreição final, é uma coisa que fica bem clara neste mesmo capítulo 5 da 2ª aos Coríntios “preferimos exilar-nos do corpo para ir morar junto de Cristo” (cf. Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé em 17-5-79; ver texto em CL, ano C (1979-80), n.º 11/12, pp. 1698-1700).
Evangelho São Mateus 11, 25-30
25Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. 27Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. 30Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».
A leitura é uma das mais belas orações de Jesus que aparecem nos Evangelhos, um hino de louvor e de acção de graças, que também aparece em Lc 10, 21-24. 25-27 “Sábios e inteligentes” (prudentes) são os sábios orgulhosos, que confiam apenas na sua sabedoria; auto-suficientes, julgam poder salvar-se com os seus próprios recursos de inteligência e poder. Os “pequeninos” são os humildes, abertos à fé, capazes de visão sobrenatural. A revelação divina só pode ser aceite e captada pela fé. Uma ciência soberba impede de aceitar a loucura divina da Cruz (cf. 1 Cor 1, 19-31). Jesus reivindica para Si um conhecimento do Pai (Deus) perfeitamente idêntico ao conhecimento que o Pai tem do Filho (Jesus), e isto porque Ele, e só Ele, é o Filho, igual ao Pai, Deus com o Pai. 28-30 Palavras estas maravilhosas, que nos patenteiam os sentimentos do Coração de Cristo. O povo andava “cansado e oprimido” com as minuciosas exigências da lei antiga e das tradições que os fariseus e doutores da lei impunham com todo o rigorismo do seu frio e insuportável legalismo que oprimia a liberdade interior e roubava a paz ao coração. Jesus não nos dispensa de levar o seu “jugo” e a sua “carga”, mas não quer que nos oprima, pois quer que O sigamos por amor, e “para quem ama é suave; pesado, só para quem não ama” (Santo Agostinho, Sermão 30, 10). O mesmo Santo Agostinho comenta esta passagem: “qualquer outra carga te oprime e te incomoda, mas a carga de Cristo alivia-te do peso. Qualquer outra carga tem peso, mas a de Cristo tem asas. Se a uma ave lhe tirares as asas, parece que a alivias do peso, mas, quanto mais lhas tirares, mais esta pesa; restitui-lhe o peso das suas asas, e verás como voa” (Sermão 126, 12).
N. B. — Há outras possibilidades de leituras para a 2ª e a 3ª Missa
2ª Missa:
1ª leitura 2 Macabeus 12, 43-46
Naqueles dias, 43Judas Macabeu fez uma colecta entre os seus homens de cerca de duas mil dracmas de prata e enviou-as a Jerusalém, para que se oferecesse um sacrifício de expiação pelos pecados dos que tinham morrido, praticando assim uma acção muito digna e nobre, inspirada na esperança da ressurreição. 44Porque, se ele não esperasse que os que tinham morrido haviam de ressuscitar, teria sido em vão e supérfluo orar pelos mortos. 45Além disso, pensava na magnífica recompensa que está reservada àqueles que morrem piedosamente. Era um santo e piedoso pensamento. Por isso é que ele mandou oferecer um sacrifício de expiação pelos mortos, para que fossem libertos do seu pecado.
Judas Macabeu é o grande herói tanto do 1º como do 2º livro dos Macabeus; seguiu o seu pai Matatias na resistência contra a helenização pagã do povo de Israel, tendo chegado, em 165, a conseguir a purificação do templo e a restauração do culto (cf. 1 Mac 4, 36-59; 2 Mac 10, 1-9). O seu título de Macabeu significa martelo ou malho, título que lhe veio da impugnação do paganismo imposto pelo soberano sírio, e das derrotas infligidas aos opressores do povo judeu (sírios e egípcios). A leitura fala duma colecta de 2.000 dracmas de prata (não 12.000 como aparecia na Vulgata, um texto que a Neovulgata corrige, de acordo com os melhores manuscritos). A moeda grega pesava cerca de 4 gramas de prata; tratava-se, pois, de cerca de oito quilos de prata. 46 “Um santo e piedoso pensamento”. O sacrifício que Judas manda oferecer revela a fé numa vida além-túmulo; a aprovação formal do hagiógrafo deixa-nos ver como a oração pelos defuntos que têm faltas a expiar (aqueles soldados mortos no campo de batalha conservavam despojos que tinham sido ofertas aos ídolos, o que era proibido pela Lei) é uma coisa que lhes aproveita. Daqui se deduz a existência do Purgatório, uma fase de expiação de pecados que não impedem a salvação eterna, mas, de alguma maneira, a atrasam (falando em linguagem humana de uma realidade transcendente). É sobretudo a Tradição, a vida e Magistério da Igreja que esclarecem esta doutrina revelada por Deus.
Evangelho São Lucas 7, 11-17
Naquele tempo, 11dirigia-Se Jesus para uma cidade chamada Naim; iam com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. 12Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade. 13Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: «Não chores». 14Jesus aproximou-Se e tocou no caixão; e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: «Jovem, Eu te ordeno: levanta-te». 15O morto sentou-se e começou a falar; e Jesus entregou-o à sua mãe. 16Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo: «Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo». 17E a fama deste acontecimento espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.
1 “Naim”. Como também hoje, não seria propriamente uma cidade, mas uma pequena aldeia a uns 10 km a Sueste de Nazaré. É frequente que S. Lucas dê o nome da cidade a pequenas aldeias. É esta a única passagem em toda a Bíblia onde se fala desta terra, o que leva a crer que seria mesmo um lugarejo sem importância, mas isso não obstou a que Jesus fizesse ali um grande milagre. É S. Lucas o único Evangelista a contá-lo, o Evangelista que mais se detém a retratar a misericórdia do coração de Cristo; nem sequer foi preciso um pedido formal da desolada viúva para que, com uma única palavra, transformasse o seu choro na maior alegria, devolvendo-lhe o seu único filho vivo. Os funerais costumavam realizar-se no mesmo dia da morte, ao meio da tarde. 15 “E Jesus entregou-o à mãe”. Santo Agostinho comenta: “Esta mãe viúva alegra-se com o filho ressuscitado. Diariamente se alegra a Mãe Igreja com os homens que ressuscitam na sua alma. Aquele estava morto quanto ao corpo; estes, quanto ao seu espírito. Aquela morte visível chora-se visivelmente; a morte invisível destes nem se chora nem se vê. Anda à busca destes mortos Aquele que os conhece, Aquele que pode fazê-los voltar à vida» (Sermão 98, 2). O mesmo Santo afirma que é um maior milagre a conversão dum pecador do que a ressurreição dum morto, embora seja menos espectacular.
3ª Missa
1ª leitura 1 Tessalonicenses 4, 13-18
13Não queremos, irmãos, deixar-vos na ignorância a respeito dos defuntos, para não vos contristardes como os outros, que não têm esperança. 14Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido. 15Eis o que temos para vos dizer, segundo a palavra do Senhor: Nós, os vivos, os que ficarmos para a vinda do Senhor, não precederemos os que tiverem morrido. 16Ao sinal dado, à voz do Arcanjo e ao som da trombeta divina, o próprio Senhor descerá do Céu e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. 17Em seguida, nós, os vivos, os que tivermos ficado, seremos arrebatados juntamente com eles sobre as nuvens, para irmos ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. 18Consolai-vos uns aos outros com estas palavras.
Os cristãos de Tessalónica, tinham sido evangelizados pouco antes, na segunda viagem missionária de S. Paulo, provavelmente durante o Inverno de 50-51. Embora o Apóstolo não tenha podido permanecer ali por muito tempo (apenas 2 ou 3 meses) tornaram-se uma comunidade modelar (cf. 1 Tes 1, 7), mas a verdade é que não estavam devidamente esclarecidos acerca da sorte dos seus defuntos surpreendidos pela morte antes da vinda gloriosa de Jesus. Julgavam que eles já não poderiam tomar parte no triunfo glorioso da segunda vinda do Senhor (a parusia), que julgavam estar para breve; era esta mais uma forte razão para andarem preocupados e tristes, segundo as notícias que Timóteo, enviado desde Atenas, lhe tinha trazido a Corinto (cf. 1 Tes 3, 1-2.6). 13. S. Paulo, consciente das “deficiências da fé” dos tessalonicenses (cf. 3, 10), trata agora de os esclarecer na fé e de os consolar, escrevendo: “para vos não contristardes” (v. 13). Paulo garante-lhes que “Deus levará com Jesus os que tiverem morrido n’Ele” (v. 14), não estando excluídos de estar “para sempre com o Senhor” (v. 17). O Apóstolo apela para “uma palavra do Senhor”, mas discute-se sobre qual a palavra a que se refere; uns pensam no discurso escatológico dos Sinópticos, outros numa revelação pessoal, outros nalguma palavra de Jesus das não consignadas nos Evangelhos (ágrapha) 15 “Nós os vivos, os que ficarmos”. Pelo que sabemos doutros textos paulinos, S. Paulo não estava convencido de que havia de ficar para a parusia (cf. 1 Cor 15, 30-31; 2 Cor 1, 8-9; 4, 14; Filp 2, 17); quando muito, manifestaria uma vaga esperança de vir a ficar (BJ). O mais provável é que exprima na primeira pessoa do plural o que só dizia respeito a uma parte dos cristãos, sem se incluir nessa parte: é uma ficção literária a que os gramáticos dão o nome de enálage pessoal, e que S. Paulo usa mais vezes. “Não precederemos...”, isto é, os que viverem na ocasião da 2.ª vinda de Jesus não levarão vantagem aos que já morreram, pois então estes, “os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” e os que então viverem vivos, “os que tivermos ficado seremos arrebatados”, na linguagem mais clara de 1 Cor 15, 51-53, “serão transformados”, isto é, glorificados. A linguagem com que S. Paulo se exprime é simbólica, por isso não se deve tomar à letra; era corrente na literatura apocalíptica judaica, utilizada para exprimir uma realidade misteriosa e transcendente, uma intervenção certa e portentosa de Deus; assim é o caso de: “a voz do arcanjo”, “a trombeta divina”, “as nuvens e o Senhor nos ares (cfr. Dan 7, 13). Por outro lado, S. Paulo utiliza a mesma linguagem do mundo helenístico para as visitas festivas1, a vinda duma personagem importante, chamada parousia, a que correspondia a jubilosa saída dos cidadãos ao seu encontro, chamada avástasis. Ora sucede que nesta passagem paulina ocorrem ao mesmo tempo os dois vocábulos, pois, “para irmos ao encontro do Senhor” diz-se: eis anástasin tou Kyriou. O importante é que todos, tanto os que vivem como os que morreram, “estaremos sempre com o Senhor”; esta é a certeza da fé capaz de consolar aqueles fiéis e a nós também.
1Assim pensa L. Cerfaux, Le Christ dans la théologie de Saint Paul, Paris, Cerf, 21954, pp. 29-34. J. Dupont pensa antes na analogia Ex 19, 17 – o encontro do povo com Yahwéh –, mas o termo grego usado pelos LXX é outro.
Evangelho
São João 6, 37-40
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 37«Todos aqueles que o Pai Me dá virão a Mim e àqueles que vêm a Mim não os rejeitarei, 38porque desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou. 39E a vontade d’Aquele que Me enviou é esta: que Eu não perca nenhum dos que Ele Me deu, mas os ressuscite no último dia. 40De facto, é esta a vontade de meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e acredita n’Ele tenha a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia».
As palavras do Senhor são solenes, como se pode ver pela repetição dos vv. 37.39.40, palavras que enchem de esperança todos os fiéis, ou seja, aqueles que, movidos pela graça de Deus – “tudo o que o Pai me dá” – vêm a Jesus pela fé na sua palavra e nas suas obras - “virá a Mim”. A fé em Jesus leva à “vida eterna” e à “ressurreição no último dia”, isto é, no fim dos tempos.
1ª Leitura: Sabedoria 11, 22 – 12, 2 22Diante de Vós, Senhor, o mundo inteiro é como um grão de areia na balança, como a gota de orvalho que de manhã cai sobre a terra. 23De todos Vos compadeceis, porque sois omnipotente, e não olhais para os seus pecados, para que se arrependam. 24Vós amais tudo o que existe e não odiais nada do que fizestes; porque, se odiásseis alguma coisa, não a teríeis criado. 25E como poderia subsistir, se Vós não a quisésseis? Como poderia durar, se não a tivésseis chamado à existência? 26Mas a todos perdoais, porque tudo é vosso, Senhor, que amais a vida. 1O vosso espírito incorruptível está em todas as coisas. 2Por isso castigais brandamente aqueles que caem e advertis os que pecam, recordando-lhes os seus pecados, para que se afastem do mal e acreditem em Vós, Senhor. O autor da obra, um sábio judeu helenista, já nos umbrais do Novo Testamento, quer confirmar na fé os seus compatriotas, que, deslumbrados com a cultura grega, corriam o perigo de subestimar a sabedoria que pertencia à revelação de Deus. O texto é tirado da 3ª parte da obra (capítulos 10 a 19), onde se exalta a sabedoria divina ao longo da história da salvação. O trecho da leitura é de notável riqueza doutrinal. 11, 23 Exalta-se a omnipotência, grandeza e transcendência de Deus: todo o mundo, diante dele, não passa de “um grão de poeira”, “uma gota de orvalho”. Mas o poder de Deus mostra-se aos pagãos na sua misericórdia – “de todos vos compadeceis” –, de um modo inesperado e desconhecido. 24-25 Deus é Criador e ama irrevogavelmente a sua obra, ficando excluído tudo o que possa ser pessimismo dualista ou maniqueu, algo não só estranho, mas também contrário à Revelação divina. 12, 1 “O vosso Espírito… está em tudo”. Se, por um lado, está bem vincada a transcendência divina, conforme se acabou de dizer, por outro lado, não se pode deixar esquecido o reverso da medalha: a exacta imanência divina. A omnipresença divina não subordina o Criador à criatura, mas, ao contrário, torna a criatura essencialmente presente ao seu Criador, indissoluvelmente unida e intrinsecamente subordinada ao seu Senhor, que é um Pai providente. Este texto explicita e actualiza Gn 1, 2 e Gn 2, 7, onde se apresenta o Espírito de Deus a pairar sobre o caos das águas primordiais para dali tirar a maravilha da criação e a infundir no barro o sopro da vida. 2 “Corrigis brandamente… para que se afastem do mal”. O Deus da Revelação não é cruel e vingativo, como os deuses da mitologia grega: Ele é o Pai que corrige, para o bem dos seus filhos, pois, mesmo quando irado, Ele “lembra-se da sua misericórdia” (cf. Habac 3, 2).
2ª leitura 2 Tessalonicenses 1, 11 – 2, 2
Irmãos: 11Oramos continuamente por vós, para que Deus vos considere dignos do seu chamamento e, pelo seu poder, se realizem todos os vossos bons propósitos e se confirme o trabalho da vossa fé. 12Assim o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo será glorificado em vós, e vós n’Ele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo. 2,1Nós vos pedimos, irmãos, a propósito da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e do nosso encontro com Ele: 2Não vos deixeis abalar facilmente nem alarmar por qualquer manifestação profética, por palavras ou por cartas, que se digam vir de nós, pretendendo que o dia do Senhor está iminente.
Uns perturbadores dos cristãos daquela comunidade de Tessalónica tinham introduzido a desordem, propagando a ideia de que a segunda vinda de Cristo (parusia) estava iminente, o que andava a acarretar trágicas consequências para a vida dos fiéis, que começaram a levar “uma vida ociosa, em vez de trabalhar, dedicando-se apenas a vãs curiosidades” (3, 11). É por isso que Paulo os previne – “não vos deixeis abalar… nem alarmar…” (2, 1) – e, mais adiante, lhes diz seriamente que “trabalhem com paz” (3, 12); e sai-se com aquela sentença plena de sensatez: “se alguém já não quer trabalhar, então que também deixe de comer” (3, 10). Para tranquilizar os fiéis, mais adiante (vv. 3-4) diz que antes da parusia tem de vir a “apostasia” e o “homem da impiedade”, com um recurso a imagens do Antigo Testamento, que para nós são muito obscuras, mas que bastariam para fazer calar os agitadores.
Evangelho Lucas 19, 1-10 Naquele tempo, 1Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. 2Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. 3Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. 4Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. 5Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». 6Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. 7Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». 8Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». 9Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. 10Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido». Este episódio da conversão de Zaqueu é contado apenas por Lucas; é mais um dado que o “secretário da misericórdia de Cristo” (Dante) regista, a fim de pôr em evidência, por um lado, o amor de Cristo aos pecadores e, por outro, a universalidade da salvação que Ele traz à terra. É de notar como o Evangelista, que especialmente exalta a pobreza, deixa ver como também a salvação pode chegar a um homem rico. Há mesmo uma tradição que diz que Zaqueu veio a ser discípulo de Pedro e bispo de Cesareia. 2 “Chefe de publicanos”, ou dos cobradores de impostos a favor dos romanos dominadores; seria um homem detestável, não só pelo seu ingrato trabalho, mas sobretudo pela colaboração com o opressor estrangeiro, além de que certamente abusaria da profissão para enriquecer à custa de exigir mais do que seria justo; e, para cúmulo, o seu nome – Zacai –, que em aramaico significa puro, era um verdadeiro sarcasmo. O negócio seria rendoso, pois Jericó era uma grande cidade de comércio, situada no fértil vale inferior da margem direita do rio Jordão, numa encruzilhada de vias que ligavam Jerusalém às cidades do Norte e da Transjordânia. A condição pecadora de Zaqueu fica bem clara nos vv. 7-10. 3 “Esforçava-se por ver quem era Jesus”. Podemos pensar que não se tratava de uma mera curiosidade frívola, mas antes de uma insatisfação escondida dentro de quem não se satisfaz só com as coisas materiais, estando aberto ao divino e disposto a rectificar a sua vida. A vontade de seguir a voz interior da consciência leva-o a superar os respeitos humanos, e a sujeitar-se ao ridículo de trepar a uma árvore. A narrativa põe em foco o flagrante contraste entre o poder de um homem “pessoalmente rico” e a fraqueza de quem era de “pequena estatura”. 4 “Sicómoro”: a própria etimologia grega do nome da árvore deixa ver a sua natureza, uma árvore bastante frondosa, com folhas semelhantes às da amoreira e frutos parecidos com os da figueira. 8 “Zaqueu parou e disse ao Senhor”. Fica patente como não foi preciso que Jesus lançasse em rosto os abusos e pecados daquele homem; a bondade e a condescendência de Jesus, que desassombradamente entra em casa de um pecador público, leva à conversão e a propósitos bem concretos. Por outro lado, a avareza do “chefe de publicanos” é agora compensada com larga generosidade : “vou dar a metade dos meus bens aos pobres”; e as injustiças são reparadas com uma repartição superabundante, superior ao que ordenava a própria Lei de Moisés (cf. Ex 21, 37-38): “restituirei quatro vezes mais”.
1ª leitura 2 Macabeus 7, 1-2.9-14 1Naqueles dias, foram presos sete irmãos, juntamente com a mãe, e o rei da Síria quis obrigá-los, à força de golpes de azorrague e de nervos de boi, a comer carne de porco proibida pela Lei judaica. 2Um deles tomou a palavra em nome de todos e falou assim ao rei: «Que pretendes perguntar e saber de nós? Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei de nossos pais». 9Prestes a soltar o último suspiro, o segundo irmão disse: «Tu, malvado, pretendes arrancar-nos a vida presente, mas o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se morrermos fiéis às suas leis». 10Depois deste começaram a torturar o terceiro. Intimado a pôr fora a língua, apresentou-a sem demora e estendeu as mãos resolutamente, 11dizendo com nobre coragem: «Do Céu recebi estes membros e é por causa das suas leis que os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo». 12O próprio rei e quantos o acompanhavam estavam admirados com a força de ânimo do jovem, que não fazia nenhum caso das torturas. 13Depois de executado este último, sujeitaram o quarto ao mesmo suplício. 14Quando estava para morrer, falou assim: «Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará; mas tu, ó rei, não ressuscitarás para a vida».
A leitura introduz-nos num tema bem apropriado para o fim do ano litúrgico, que nos leva a reflectir sobre os novíssimos – as últimas realidades – do homem: é o tema da ressurreição presente na 1ª leitura e no Evangelho. O texto de 2 Mac aparece expurgado daqueles pormenores mais chocantes de crueldade selvagem, mas valia a pena ler todo o capítulo VII, num estilo patético, comovedor e empolgante. Os 7 Irmãos Macabeus são venerados como mártires na Igreja Católica. No texto só há referência ao 2º, 3º e 4º irmãos. 2 “Estamos prontos para morrer”. É certo que a lei que proibia comer a carne de porco era uma lei positiva, que não obrigava com um grave incómodo. Mas a verdade é que, neste caso, estava em jogo uma lei superior, a de não abjurar a fé, lei que obriga com o sacrifício da própria vida. A imposição do rei visava a destruição da religião verdadeira. Que belo exemplo para os cristãos se saberem comportar com a audácia e firmeza inquebrantável perante as muitas ameaças, também hoje bem planeadas, para destruir os padrões de vida cristãos, pela introdução de novas formas de paganismo na nova sociedade do futuro, mas que não tem futuro, se pretendem que seja sem Deus e fechada aos valores do espírito. 14 “Tu, ó rei, não hás-de ressuscitar para a vida”, mas sim “para a vergonha do castigo eterno” (cf. Dan 12, 1; Mt 25, 31-46).
2ª leitura 2 Tessalonicenses 2, 16 – 3, 5
Irmãos: 15Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, eterna consolação e feliz esperança, confortem os vossos corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras. 1Entretanto, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague rapidamente e seja glorificada, como acontece no meio de vós. 2Orai também, para que sejamos livres dos homens perversos e maus, pois nem todos têm fé. 3Mas o Senhor é fiel: Ele vos dará firmeza e vos guardará do Maligno. 4Quanto a vós, confiamos inteiramente no Senhor que cumpris e cumprireis o que vos mandamos. 5O Senhor dirija os vossos corações, para que amem a Deus e aguardem a Cristo com perseverança.
Na parte final desta pequena carta (consta apenas de 3 capítulos), são feitas diversas exortações morais, introduzidas com pedidos de oração. 3, 1 “Orai por nós para que a Palavra do Senhor se propague rapidamente”. É mais uma passagem onde se pode ver a necessidade da oração para a eficácia do apostolado. Notar como o próprio S. Paulo está a pedir oração a cristãos, certamente menos santos do que ele. Com efeito, embora sejamos indignos e miseráveis, somos filhos de Deus, e Deus, como Pai que é, não deixa de se comover com os gemidos dum filho pequeno em apuros. É certo que Ele não precisa das nossas orações, mas nós precisamos de nos pôr em condições de receber a graça que tem para nos dar.
Evangelho São Lucas 20, 27-38
Naquele tempo, 27aproximaram-se de Jesus alguns saduceus — que negam a ressurreição — e fizeram-lhe a seguinte pergunta: 28«Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. 29Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. 30O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; 31e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. 32Por fim, morreu também a mulher. 33De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?» 34Disse-lhes Jesus: Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. 35Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. 36Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. 37E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor 'o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob'. 38Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos». O episódio insere-se na estratégia dos inimigos de Jesus para encontrarem um pretexto a fim de “O surpreender em alguma palavra, para O entregarem ao poder e à jurisdição do governador” (Lc 20, 20); desta vez a armadilha não era de carácter politico, como a do tributo a César, mas de tipo religioso, uma questão que dividia os dois grupos judaicos mais influentes, o problema de saber qual era a sorte final dos que morriam; os fariseus admitiam a ressurreição, ao contrário dos saduceus, que a negavam. 28 “Moisés deixou-nos escrito...” É a lei do levirato (levir, em latim significa cunhado), segundo a qual a viúva devia casar com o cunhado ou o parente mais próximo, caso tivesse ficado viúva sem ter filhos (cf. Dt 25, 5 ss). O caso proposto, absolutamente inverosímil, é só para tornar mais flagrante o ridículo duma mulher com sete maridos e reforçar o embaraço em que Jesus é metido, já que a poliandria era então absolutamente inaceitável. 35 “Não se casam”. O celibato apostólico não é uma instituição meramente funcional (estar plenamente disponível para o trabalho do Reino); com efeito, além de exprimir a total doação de Cristo à Igreja, sua Esposa, ele antecipa, como testemunho fortemente expressivo, a realidade perene da vida futura para além da morte. Eis o comentário do Papa João Paulo II: “A verificação – ‘quando ressuscitarem dentre os mortos..., não tomarão mulher nem marido’ – indica que há uma condição de vida, isenta de matrimónio, em que o homem, varão e mulher, encontra ao mesmo tempo a plenitude da doação pessoal e da inter-subjectiva comunhão de pessoas, graças à glorificação de todo o seu ser psicossomático, na união perene com Deus. Quando a chamada à continência ‘para o Reino dos Céus’ encontra eco na alma humana, nas condições de temporalidade, isto é, nas condições em que as pessoas ordinariamente ‘tomam mulher e marido’ (v. 24), não é difícil captar nisso uma particular sensibilidade do espírito humano, que já nas condições da temporalidade parece antecipar aquilo de que o homem se tornará participante na ressurreição futura” (Audiência geral de 10/3/82). 36 “Já não podem morrer, pois são como Anjos”. Neste mundo, o casamento tem por fim objectivo perpetuar a espécie, por isso, se na outra vida já não se morre, também a gente já não se casa, como os Anjos, que são imortais. 38 “Para Ele todos estão vivos”. Jesus Cristo tira partido da expressão “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob” para ensinar que, embora estes Patriarcas tenham morrido, permanece uma relação pessoal entre Deus e eles, pois vivem em Deus. Podemos concluir com verdade que as suas almas são imortais e que eles hão-de ressuscitar com o seu corpo.
1ª leitura Malaquias 3, 19-20a (Vulgata 4, 1-2a) 19Há-de vir o dia do Senhor, ardente como uma fornalha; e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores. O dia que há-de vir os abrasará – diz o Senhor do Universo – e não lhes deixará raiz nem ramos. 20aMas para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação. A leitura é tirada do final do profeta Malaquias: são os dois primeiros versículos do capítulo 4 da Vulgata; na bíblia Hebraica e na Neovulgata, o capítulo 3 tem mais 7 versículos (Mal 3, 19-34) que correspondem a Mal 4, 1-7. O profeta, da época persa, volta a insistir na doutrina dos profetas pré-exílicos acerca do dia de Yahwé, como dia de juízo, de castigo e terror para os maus, e de salvação para os que temem a Deus. Para estes “nascerá o sol de justiça – o Messias – trazendo a salvação nos seus raios, (à letra: nas suas asas; as asas do Sol são uma bela metáfora para designar os seus raios).
2ª leitura 2 Tessalonicenses 3, 7-12 Irmãos: 7Vós sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos entre vós desordenadamente, 8nem comemos de graça o pão de ninguém. Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós. 9Não é que não tivéssemos esse direito, mas quisemos ser para vós exemplo a imitar. 10Quando ainda estávamos convosco, já vos dávamos esta ordem: quem não quer trabalhar, também não deve comer. 11Ouvimos dizer que alguns de vós vivem na ociosidade, sem fazerem trabalho algum, mas ocupados em futilidades. 12A esses ordenamos e recomendamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem.
S. Paulo, em face da falsa ideia da iminência da parusia, ou segunda vinda de Cristo, que circulava em Tessalónica e que levava alguns à ociosidade e ao desinteresse pelo trabalho (cf. 2 Tes 2, 2), vê-se forçado a falar com energia acerca da necessidade de trabalhar. Recorre mesmo à ironia: “quem não quer trabalhar, também não deve comer!” (v. 10). Como se vê, a fé pregada pelos Apóstolos nada tinha de alienante, mas tudo ao contrário. 10 “Quando ainda estávamos convosco…”. Daqui se deduz que a doutrina sobre o trabalho tinha grande importância na pregação de S. Paulo, pois já a tinha pregado durante a rápida evangelização da cidade de Tessalónica.
Evangelho Lucas 21, 5-19 Naquele tempo, 5comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: 6«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». 7Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?» 8Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. 9Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». 10Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. 11Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. 12Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. 13Assim tereis ocasião de dar testemunho. 14Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. 15Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. 16Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós 17e todos vos odiarão por causa do meu nome; 18mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. 19Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.
Para compreendermos melhor o “discurso escatológico” do Senhor nos três Sinópticos temos de ter em conta, por um lado, o estilo apocalíptico já usado nos Profetas e muito em voga na época, em que se recorria sistematicamente a imagens arrojadas, como convulsões cósmicas – fenómenos espantosos e grandes sinais no céu (v. 11) – a anunciar a chegada do supremo Juiz. Por outro lado, na mentalidade judaica, que era a dos discípulos, a destruição do Templo era inseparável do fim do mundo e do juízo final (2ª vinda de Cristo). Jesus não pretende esclarecer definitivamente esta questão teorética e curiosa, nem o autor inspirado que, apesar do seu estofo de historiador, não devia estar em condições de fazer uma destrinça perfeita do que se refere ao fim de Jerusalém e ao fim do mundo. Com efeito, ainda que S. Lucas seja mais minucioso nos pormenores relativos ao fim do Templo, não é certo que tenha escrito o seu Evangelho após estes acontecimentos do ano 70 e, em qualquer dos casos, é de uma grande fidelidade às fontes. Nos Evangelhos os dois acontecimentos não se confundem, mas também não se destrinçam perfeitamente, o que até pode ser intencional, se considerarmos que a destruição do Templo e da cidade de Jerusalém são como que uma figura, um símbolo e um sinal da catástrofe do fim do mundo. Também, dado o género apocalíptico, não podemos concluir que o fim do mundo será mesmo uma catástrofe, como por vezes se pensa. O fim de Jerusalém não foi catástrofe para os cristãos que, avisados por este discurso, tinham abandonado a cidade a tempo e se viram mais livres da fúria dos judeus. O fim do mundo só pode ser temível para os inimigos de Deus, que põem toda a sua única esperança num mundo que inexoravelmente se lhe escapará; para os que amam a Deus, “todas as coisas concorrerão para o bem” (Rom 8, 28) e nenhum cabelo… se perderá (v. 18). 7 “Quando será tudo isto?” Jesus não é um adivinho que está à disposição dos seus para lhes satisfazer a natural curiosidade acerca do futuro. Jesus é o Mestre que sente necessidade de acautelar os seus discípulos das graves dificuldades que hão-de surgir, a fim de que estes, já prevenidos, não venham a desanimar: “Não vos deixeis enganar” (v. 8); “não vos alarmeis” (v. 9). 9 “É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim”. Jesus não quer que consideremos as catástrofes e perseguições de que fala como sinais dum fim do mundo imediato! O Evangelho há-de estender-se a toda a gente e a todos os lugares, não num mar de rosas e num condicionalismo ideal e privilegiado, mas precisamente no meio de todas as dificuldades, mesmo as proverbialmente tidas como as maiores – guerras, grandes terramotos, fomes e epidemias (vv. 10-11) – e no meio das perseguições. Jesus só exige dos seus uma fé grande: “Não os sigais” (v. 8), “não vos alarmeis” (v. 9), e “perseverança” (v. 19).No texto cruzam-se três planos: a destruição de Jerusalém, o tempo intermédio e o fim dos tempos. Jesus quer que nos centremos no tempo que nos toca viver, o tempo intermédio, que exige uma série de atitudes: “não vos deixeis enganar” (v. 8), “não vos alarmeis” (v. 9), “tereis ocasião de dar testemunho” (v. 12-13), “perseverança” (v. 19).
Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
1ª leitura 2 Samuel 5, 1-3 1Naqueles dias, todas as tribos de Israel foram ter com David a Hebron e disseram-lhe: «Nós somos dos teus ossos e da tua carne. 2Já antes, quando Saúl era o nosso rei, eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel. E o Senhor disse-te: ‘Tu apascentarás o meu povo de Israel, tu serás rei de Israel’». 3Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, a Hebron. O rei David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor e eles ungiram David como rei de Israel. Aqui David é ungido em Hebron como rei de Israel. Se bem que já tinha sido ungido perante os seus irmãos por Samuel (1 Sam 16), só a partir deste momento é que David é reconhecido como rei por todas as tribos; ele é a figura de Cristo, Rei de todos os homens. 2 “Entradas e saídas” é uma expressão muito corrente nas Escrituras e que é uma rica metáfora para indicar toda a vida duma pessoa, o seu dia a dia, a vida corrente. De facto, por um lado, a vida do homem sobre a terra está enquadrada por dois momentos decisivos: uma entrada ao nascer e uma saída ao morrer; por outro lado, como as casas não eram para se viver nelas, toda a vida se desenrolava entre um sair de casa para trabalhar e um entrar para descansar.
2ª leitura Colossenses 1, 12-20 Irmãos: 12Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. 13Ele nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado, 14no qual temos a redenção, o perdão dos pecados. 15Cristo é a imagem de Deus invisível, o Primogénito de toda a criatura; 16porque n’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, visíveis e invisíveis, Tronos e Dominações, Principados e Potestades: por Ele e para Ele tudo foi criado. 17Ele é anterior a todas as coisas e n’Ele tudo subsiste. 18Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos; em tudo Ele tem o primeiro lugar. 19Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude 20e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus. O texto da nossa leitura, com um certo sabor de um hino a Cristo, condensa o ensino central desta carta do cativeiro, e é uma das belas e ricas sínteses da cristologia paulina. Em face da chamada «crise de Colossas», em que alguns põem em causa a primazia absoluta de Cristo, colocando-O ao nível de outros seres superiores e intermédios, quer da cultura pagã, quer da cultura judaica, S. Paulo ensina peremptoriamente a mais completa supremacia de Cristo na ordem da Criação – vv. 15-17 – e na ordem da Redenção – vv. 18-20, em virtude da sua acção redentora, que reconcilia todas as coisas com Deus na paz. 15-16 “Cristo é a imagem de Deus invisível”. Imagem, para um semita, não é simplesmente a figuração duma realidade, de natureza distinta, mas é, antes de mais, a exteriorização sensível da própria realidade oculta e da sua mesma essência. Assim, é afirmada a divindade de Cristo, o qual nos torna visível e tangível o próprio Deus invisível e transcendente (cf. Jo 1, 18; 14, 9-11; 2 Cor 4, 4; Hbr 1, 3). Cristo também é “o Primogénito de toda a criatura”, no sentido da sua preeminência única sobre todas as criaturas, não só por Ele existir antes de todas, não, porém, no sentido ariano de primeira criatura, mas enquanto todas foram criadas “n’Ele”, “por Ele” e “para Ele” (v.16). Não se diz no texto que Cristo seja uma criatura primogénita, mas o que se diz é que Ele é primogénito porque está acima de todas as criaturas, e porque “em tudo Ele tem o primeiro lugar” (v. 18); também Jacob era primogénito, embora não tivesse nascido primeiro que Isaú. 18-20 Na ordem da Graça e da Redenção, também “em tudo Ele tem o primeiro lugar” (v. 18), pois Ele é a “cabeça da Igreja, que é o seu corpo”, é o “Princípio, o Primogénito (o primeiro a ressuscitar) entre os mortos”. Enfim, “aprouve a Deus que residisse n’Ele a plenitude”, isto é, a totalidade de todos os tesouros da graça que Deus comunica ao homens depois do pecado, em ordem à reconciliação que Ele realiza “pelo sangue da sua Cruz” (v. 20). Em Col 2, 9 diz-se que em Cristo “habita corporalmente toda a plenitude da natureza divina”. Em suma, como se exprime, em rica síntese, a Bíblia de Pirot, Cristo tem a supremacia absoluta em todos os aspectos: na ordem natural, pela criação (vv. 16.17); na ordem da graça, como Redentor (v. 20); na ordem moral e mística, como Cabeça do Corpo Místico (v. 18a); e na ordem escatológica, pela sua Ressurreição (v. 18b). Evangelho Lucas 23, 35-43 35Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». 36Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: 37«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo». Por cima d’Ele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus». 38Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». 40Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? 41Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável». 42E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». 43Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso». O paradoxo de um rei crucificado, sujeito ao sarcasmo mais aviltante (vv. 35-39), é o que há de mais impensável, para Jesus poder ser anunciado como o Messias Rei, não só para os judeus, mas para toda a Humanidade. Só se pode apresentar deste modo a Jesus, se Ele é mesmo Rei de verdade, embora seja um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios (cf. 1 Cor 1, 23); para nós, é a salvação mais comovedora que Deus nos pode oferecer, é o Rei que nos conquista pela máxima prova de amor. Jesus, que, diante de Pilatos, já tinha declarado o que não é a sua realeza (cf. Jo 18, 36), não explicando mais, porque o prefeito romano não se interessa pela verdade (cf. Jo 18, 38), abre agora o seu coração a um criminoso, que, do meio do seu suplício, implora arrependido a misericórdia divina; Jesus revela-lhe que realeza é a sua e onde está o seu Reino: no “Paraíso”, o Céu, onde vai entrar “hoje” mesmo (v. 43), sem ser preciso esperar por uma consumação escatológica geral do final dos tempos, segundo a expressão, “quando vieres com a tua realeza” (v. 42), própria do Messias, ao dar-se a ressurreição final. Na cena do ladrão arrependido fica patente a natureza do Reino de Cristo: é um reinado de perdão e misericórdia para conduzir os pecadores à salvação eterna.
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