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Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - 27.º Dom Comum a Cristo, Rei |
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Actos 1, 12-14 Lucas 1, 26-38
Génesis 2, 18-24 Hebreus 2, 9-11 São Marcos 10, 2-16
Sabedoria 7, 7-11 Hebreus 4, 12-13 São Marcos 10, 17-30
Isaías 53, 10-11 Hebreus 4, 14-16 São Marcos 10, 35-45
Jeremias 31, 7-9 Hebreus 5, 1-6 São Marcos 10, 46-52
Apocalipse 7, 2-4.9-14 1 São João 3, 1-3 São Mateus 5, 1-12a
Comemoração de todos os fiéis defuntos 1ª Missa Job 19, 1.23-27a2 Coríntios 4, 14-18 – 5, 1 São Mateus 11, 25-30 2ª MissaMacabeus 12, 43-46 São Lucas 7, 11-17 3ª Missa 1 Tessalonicenses 4, 13-18 São João 6, 37-40
Deuteronómio 6, 2-6 Hebreus 7, 23-2São Marcos 12, 28b-34
1 Reis 17,10-16 Hebreus 9, 24-28 São Marcos 12, 38-44
Daniel 12, 1-3 Hebreus 10, 11-14.18 São Marcos 13, 24-32
Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do UniversoDaniel 7, 13-14 Apocalipse 1, 5-8 São João 18, 33b-37 |
1ª leitura Actos 1, 12-14
Depois de Jesus ter subido ao Céu, 12os Apóstolos voltaram para Jerusalém, descendo o monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, à distância de uma caminhada de sábado. 13Quando chegaram à cidade, subiram para a sala de cima, onde se encontravam habitualmente. Estavam lá Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zeloso, e Judas, irmão de Tiago. 14Todos estes perseveravam unidos em oração, em companhia de algumas mulheres, entre as quais Maria, Mãe de Jesus.
Quando deixa de ter visibilidade a pessoa de Jesus, a sua Mãe ocupa um lugar digno de nota, logo na oração da Igreja nascente. Com Ela os primeiros que seguiram a Cristo, esperam o Espírito Santo, perseverando, “unidos em oração”. Note-se também a importância dada à lista dos Apóstolos e como, em todas as quatro listas que aparecem no N. T., Pedro é sempre o cabeça de lista, embora elas não tenham sempre todos os restantes nomes na mesma ordem.
Evangelho Lucas 1, 26-38
Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.
A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria! 26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus». 28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita: «Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9). Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica. «O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele. Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita es tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo. 29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18). 32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14). 34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio. 35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»). «O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7). 38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma. «Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.
1ª leitura Génesis 2, 18-24
18Disse o Senhor Deus: «Não é bom que o homem esteja só: vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele». 19Então o Senhor Deus, depois de ter formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, conduziu-os até junto do homem, para ver como ele os chamaria, a fim de que todos os seres vivos fossem conhecidos pelo nome que o homem lhes desse. 20O homem chamou pelos seus nomes todos os animais domésticos, todas as aves do céu e todos os animais do campo. Mas não encontrou uma auxiliar semelhante a ele. 21Então o Senhor Deus fez descer sobre o homem um sono profundo e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma costela, fazendo crescer a carne em seu lugar. 22Da costela do homem o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. 23Ao vê-la, o homem exclamou: «Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem». 24Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne.
A narrativa conserva, na linguagem e no estilo, todas as características da tradição jarvista, em particular, uma grande vivacidade de expressão, e, de acordo com o modo de pensar e de falar da época a que o texto pertence, uma rica linguagem simbólica ou mítica. No entanto, mesmo quando se vê que adopta elementos comuns aos mitos cosmogónicos da antiguidade, esta linguagem é cuidadosamente purificada de toda a magia e politeísmo que os impregnam, de tal modo que Deus aparece como Senhor transcendente e Pai providente. Sem dificuldade, sob o estrato da antiga narração, descobrimos aquele conteúdo verdadeiramente admirável no que diz respeito às qualidades e à condensação das verdades, que nele estão encerradas (cf. João Paulo II, numa série de Audiências Gerais de 1979/80, que tomamos como pano de fundo destas notas). O texto deixa claro que a atracção dos sexos é algo querido por Deus e que a diferenciação sexual encerra um sentido intrínseco, não arbitrário, e que não foi introduzida no mundo por nenhum princípio maléfico misterioso. 18-20 Deus é apresentado em linguagem antropomórfica, isto é, à maneira humana, como um “oleiro”, e a deliberar no sentido de ir aperfeiçoando a sua obra, num texto que se presta a veicular ricos ensinamentos de antropologia teológica. “Não é bom que o homem esteja só”: a solidão do homem, sentida por ele (v. 20) e reconhecida por Deus (v. 18), traduz, por um lado, a interioridade do ser humano, capaz de perceber a sua própria solidão (coisa de que os animais não são capazes), e, por outro lado, como este foi criado por Deus para a comunhão inter-pessoal. “Um auxiliar semelhante”. O facto de se dizer auxiliar, ou ajuda, não contradiz a dignidade da mulher, como se esta ficasse reduzida a uma simples muleta para o homem, pois estamos perante uma complementaridade que é mútua; de qualquer modo, não se diz que é uma serva ou uma propriedade do marido, destinada dar-lhe frutos, à maneira de uma terra fecunda, como então se pensava. Por outro lado, também de Deus se diz que Ele é um auxiliar para o homem; além disso, a palavra hebraica (‘ézer, auxílio), ao designar habitualmente o socorro que Deus concede ao seu povo (15 em 21 vezes no A. T.), indicia que o relato está redigido com base na noção de aliança: a relação homem-mulher aparece então como um reflexo da relação Deus-homem, uma relação de aliança (M. Merode). “O homem deu nome a todos os animais”, é uma forma de pôr em relevo a superioridade do homem e o seu domínio sobre eles, que ficam postos ao seu serviço (cf. Gn 1, 28). Adão aparece como um rei que passa revista a todos os seus súbditos. Impor o nome significava frequentemente ter direito sobre algo ou alguém, assim como o mudar o nome correspondia a assinalar uma nova missão. Não se pretende ensinar que os animais foram criados só depois do homem (nem antes!), apenas o autor visa dramatizar a situação do homem solitário e enaltecer a Providência amorosa de Deus, que instituiu a sociedade conjugal para bem do próprio homem e num plano de grande dignidade, sublinhando que até os próprios animais maiores eram “behemáh”, isto é, (animais) mudos, que não estavam ao nível do homem. Nesta encenação poderia haver também, em segundo plano, a condenação da bestialidade, frequente entre os cananeus e os egípcios (cfr. Lv 18, 23-25) – um pecado que a Lei punia drasticamente (Ex 22, 18; Lev 20, 15-16; cf. Dt 21, 21) –, e ainda a rejeição do paganismo, que com frequência prestava culto a animais divinizados, uma aberração absurda, dado que Adão é superior e nem sequer encontra algum que, ao menos, lhe seja semelhante. 21-22 Ao arrepio da mentalidade da época, a mulher aparece em toda a sua dignidade, não como os animais, que são tirados da terra (v. 19); com efeito, ela é tirada da costela do homem, isto é, “da substância de Adão”, como esclarece S. Gregório de Nissa, igual por natureza. Para isso – não para o anestesiar, como às vezes se diz – conta-se que adormeceu profundamente o homem (v. 21), a fim de que, sem que ele se apercebesse, lhe satisfizesse os seus ideais e anseios: formou a mulher e apresentou-a ao homem (v. 22). O “sono profundo” nada tem a ver com alguma espécie de sono de anestesia; o termo hebraico – tardemah – envolve uma certa conotação de mistério, pois é a palavra que se usa, quando durante um sono assim designado, ou logo após este, se verificam acontecimentos de grande alcance (cf. Gn 15, 12; 1 Sam 26, 12; Is 29, 10; Job 4, 13; 33, 15), de modo que até os LXX não traduziram este termo por hypnos, mas sim por ékstasis (êxtase). É assim que se pode ver como a criação da mulher está envolta em mistério, pois aparece como uma especial acção divina que se insere no âmbito do mistério da Aliança, no próprio coração da história da salvação. Assim como em Gn 15, 12 o sono de Abraão é o sinal de que este se deixa ultrapassar por Deus, que lhe revela a Aliança, assim também aqui o sono de Adão é o sinal de que, pela bissexualidade humana, Deus nos revela o mistério do matrimónio como imagem de Deus (cf. Gn 1, 26-28). “Em ambos os casos, segundo os textos em que (...) o livro do Génesis fala do sono profundo (tardemah), realiza-se uma acção divina especial, isto é, uma aliança carregada de consequências para toda a história da salvação: Adão dá começo ao género humano, Abraão ao povo eleito” (João Paulo II, Audiência Geral de 1/11/19). Note-se que costela, – em hebraico tselá‘ – sugere um significativo jogo de palavras: o étimo sumério de tselá‘ significa vida e o nome Eva – em hebraico haváh – também significa vida. 22 “E apresentou-a ao homem”. Também é significativo que não se diga que é o homem a fazer aparecer a mulher ou a descobri-la: tudo é dom e iniciativa divina, e a relação do homem com a mulher enquadra-se na relação fundamental do homem com Deus. 23 “Ao vê-la, o homem exclamou”. As palavras que o hagiógrafo coloca na boca de Adão são a expressão dum entusiasmo eufórico, próprio dum coração enamorado, em linguagem poética, com ritmo, elegância, paralelismo e jogo de palavras, logrando-se um belo efeito literário: Adão, ignorando como a mulher tinha sido formada, verifica que ela corresponde plenamente ao seu ideal; formada do lado ou da costela sobre o coração, a mulher procedia do coração do homem, respondendo às suas profundas aspirações. “Osso dos meus ossos...” Trata-se duma expressão corrente para designar parentesco, comunidade de natureza (cf. Gn 29, 14; Jz 9, 2; 2 Sam 5, 1; 1 Cron 11, 1). Esta afirmação é dum alcance extraordinário, transcendendo de longe as mais avançadas civilizações em que a mulher sempre foi considerada um ser inferior, quanto à natureza e direitos. Ela tem a mesma natureza e os mesmos direitos que o homem, por isso “chamar-se-á mulher”, num jogo de palavras em hebraico: ’ixáh (“virago”: a forma feminina de ’ix, “varão”); ela já não é mais a beulat-baal (a propriedade dum senhor – Dt 22, 22). Sem diluir diferenças e peculiaridades, há uma igualdade fundamental entre o homem e a mulher, mesmo quando o relato apresenta o homem a ser criado em primeiro lugar; a mulher, embora surja como um auxiliar, ela é criada semelhante a ele (v. 18). Notar que as expressões “osso dos meus ossos” e “carne da minha carne” são uma espécie de superlativo hebraico (como “cântico dos cânticos”), equivalente a dizer que é mesmo carne e osso meu, um “alter ego”, correspondendo a: “é igual a mim quanto à natureza e quanto aos direitos”, segundo as categorias do nosso pensamento abstracto. 24 “Por isso, o homem deixará pai e mãe...” Os laços que unem marido e mulher são mais fortes ainda do que aqueles que unem os filhos aos pais: a união matrimonial é estável, (perpétua e indissolúvel, segundo a explicação de Jesus no Evangelho de hoje). É uma união total e íntima, tão profunda que abarca toda a pessoa, desde o físico até ao espiritual, segundo a expressão do original hebraico, “wedabaq”, que a Vulgata traduziu por “et adhærebit”, melhor que a nossa tradução: “para se unir à sua esposa”. O texto permite ver a unidade do matrimónio – um só homem com uma só mulher (a sua mulher) – e a indissolubilidade, pois os dois passarão a ser “uma só carne”. A expressão hebraica “lebassár ehád” (“in carnem unam”) indica não apenas o corpo, mas tudo o que constitui a natureza do homem: corpo e espírito, pensamento e amor, sentimentos e vontade, o que dá azo a João Paulo II para falar do significado esponsal do corpo humano, um significado que só se pode compreender dentro do contexto da pessoa: “o corpo tem o seu significado esponsal porque o homem-pessoa é uma criatura que Deus quis por si mesma e que, ao mesmo tempo, não pode encontrar a sua plenitude senão mediante o dom de si próprio” (Audiência Geral de 16/1/80). O Papa acrescenta que no celibato pelo Reino dos Céus esse significado não se perde, mas é ainda mais pleno, pois se torna mais expressiva a liberdade do dom no corpo humano; o homem só é capaz de doação enquanto pessoa e é doando-se que se realiza como pessoa; e a sua máxima doação é a entrega total (corpo e alma) a Deus.
2ª Leitura Hebreus 2, 9-11
Irmãos: 9Jesus, que, por um pouco, foi inferior aos Anjos, vemo-l'O agora coroado de glória e de honra por causa da morte que sofreu, pois era necessário que, pela graça de Deus, experimentasse a morte em proveito de todos. 10Convinha, na verdade, que Deus, origem e fim de todas as coisas, querendo conduzir muitos filhos para a sua glória, levasse à glória perfeita, pelo sofrimento, o Autor da salvação. 11Pois Aquele que santifica e os que são santificados procedem todos de um só. Por isso não Se envergonha de lhes chamar irmãos.
Vamos ter como 2ª leitura até ao fim do ano litúrgico alguns respigos da epístola aos Hebreus, poucos, mas expressivos. O tema central do “discurso de exortação” (cf. 13, 22), que constitui o escrito, nunca é tratado nos restantes livros do N. T.: o sacerdócio de Cristo, uma elaboração teológica admirável e sublime, entremeada de exortações, uma verdadeira obra prima que impressiona vivamente o leitor. Embora pertença ao chamado corpus paulinum, este documento não parece ter sido redigido por S. Paulo (alguns pensam que poderia ser um sermão do seu colaborador Apolo: cf. Act 18, 24-28), nem tem um carácter epistolar, se exceptuamos os vv. finais (13, 22-25, que até poderiam ser um bilhete do próprio Paulo). O trecho de hoje é extraído da 1ª parte, em que Jesus é apresentado como Filho de Deus e superior aos próprios anjos, não obstante todas as humilhações a que se quis sujeitar. 9-10 “Por um pouco, foi inferior aos Anjos”. Em constantes citações do A. T. ao longo de toda a epístola, o autor sagrado faz aqui (nos vv. 5-9) uma releitura cristológica do Salmo 8. A inferioridade de Jesus deu-se apenas no aspecto exterior e sensível, especialmente nos momentos da sua Paixão e Morte; mas a humilhação da morte que sofreu mereceu-lhe a exaltação gloriosa da sua SS. Humanidade (cf. Lc 24, 26; Filp 2, 6-11). Por outro lado, essa humilhação não foi sem um nobilíssimo motivo, pois foi “em proveito de todos”, isto é, em ordem à salvação de todas as criaturas, não apenas de uns tantos privilegiados. Mais ainda, “convinha que (Deus, o Pai…) levasse à perfeição, pelo sofrimento, o Autor da salvação”. Nesta única vez em que se usa em toda a Escritura o “argumento de conveniência” para o agir divino, aparece um dos temas fulcrais da epístola, o da “perfeição”: Jesus é o sacerdote perfeito (5, 9; 7, 11-28; 10, 14), em contraposição com o sacerdócio levítico com todas as suas exigências de perfeição exterior (cf. Lv 21, 18-23). Aqui se expõe como atingiu essa perfeição; foi pelo sofrimento, com que, obedecendo ao Pai, quis levar a cabo a obra da Redenção até ao “consummatum est” (Jo 19, 30), no supremo exercício do seu sacerdócio. 11 “Procedem todos de um só”: Jesus, “Aquele que santifica” e os homens, “os que são santificados”, têm uma origem comum (Deus, Adão, Abraão, ou simplesmente a mesma natureza), o que torna possível que Jesus seja “sacerdote” e “mediador” (cf. 2, 14-18; 5, 1; 8, 6; 9, 15), podendo, apesar da sua suprema dignidade, chamar com toda a verdade os homens “seus irmãos” (cf. Jo 20, 17).
Evangelho Forma longa: São Marcos 10, 2-16 Forma breve: São Marcos 10, 2-12
Naquele tempo, 2aproximaram-se de Jesus uns fariseus para O porem à prova e perguntaram-Lhe: «Pode um homem repudiar a sua mulher?» 3Jesus disse-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» 4Eles responderam: «Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se repudiar a mulher». 5Jesus disse-lhes: «Foi por causa da dureza do vosso coração que ele vos deixou essa lei. 6Mas, no princípio da criação, 'Deus fê-los homem e mulher. 7Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, 8e os dois serão uma só carne'. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. 9Portanto, não separe o homem o que Deus uniu». 10Em casa, os discípulos interrogaram-n'O de novo sobre este assunto. 11Jesus disse-lhes então: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. 12E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério». [13Apresentaram a Jesus umas crianças para que Ele lhes tocasse, mas os discípulos afastavam-nas. 14Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes: «Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis: dos que são como elas é o reino de Deus. 15Em verdade vos digo: Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não entrará nele». 16E, abraçando-as, começou a abençoá-las, impondo as mãos sobre elas.]
Jesus é posto à prova num tema hoje bem actual e que já na sua época era debatido entre os rabinos de então: a escola rigorista de Xamai só permitia o divórcio em casos extremos, como por adultério, ao passo que para a escola liberal de Hillel bastava qualquer razão banal, como uma forte atracção por outra mulher, ou simplesmente servir uma comida com esturro. Na sua resposta, Jesus não pergunta pelas posições dos rabinos, mas pela Lei de Moisés na sua forma escrita. No entanto, também não estão no horizonte de Jesus as modernas questões histórico-literárias, pois neste caso poderia dizer que Moisés nunca autorizou o divórcio, apenas o considera como um facto real, a exigir regulamentação para minorar os males que acarreta. De facto, o célebre texto do Deuteronómio, o único na Thoráh a falar do certificado de divórcio (Dt 24, 1-4), quando bem lido no original hebraico, de modo nenhum quer dizer que Moisés “permitiu que se passasse um certificado de divórcio”, como responderam os fariseus (v. 4). Como explica Díez Macho, a autorização do divórcio de Dt 24, 1 não passa de uma simples inclusão na legislação do Pentateuco de um costume do meio ambiente, mas nem para o canonizar, nem para o autorizar, mas sim para lhe pôr obstáculo (Sto. Agostinho diz que é mais uma desaprovação do que uma aprovação). Dt 24 1 é uma tolerância do divórcio reinante, pela dureza do coração, como justamente Jesus interpretou”. O judaísmo posterior é que interpretou o texto como uma autorização do divórcio, um privilégio divino para os maridos israelitas, considerando o final do v. 1 de Dt 24 como um preceito (“escreva-lhe uma carta de repúdio”), quando a verdade é que se tratava da consideração de mais uma condição (“e se lhe escreve uma carta de repúdio”); os 3 primeiros vv. devem ser lidos como prótase (“se…, se…, se…”), aparecendo a apódose só no v. 4, com o preceito: “(então), o primeiro marido que a despediu não a poderá tomar de novo por sua mulher” (isso seria indecoroso). 6-9 “Mas no princípio da criação…”. Jesus apela para as palavras do Génesis lidas na 1.ª leitura e dá-lhes o seu profundo sentido: “passarão a ser uma só carne” significa a unidade e indissolubilidade do Matrimónio. Por isso a legítima tradição da Igreja nunca admitiu a mínima excepção à indissolubilidade dum matrimónio validamente realizado e consumado. A sentença de Jesus é absoluta e irrevogável: “O que Deus uniu que não o separe o homem” (v. 9); com efeito, não se trata de uma simples imposição duma lei externa, mas de algo que pertence à própria natureza das cosias. 11-12 “Quem repudiar... e, se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério”. Jesus apresenta as normas morais tão exigentes para o homem como para a mulher, reforçando o ensino anterior (vv. 5-9), quando para o judaísmo só o marido é que podia repudiar a mulher e não o contrário. Jesus não só restituiu o Matrimónio à sua dignidade original, segundo o projecto de Deus para a felicidade do ser humano, mas também confere a graça do Sacramento do Matrimónio, que possibilita superar as situações mais difíceis, com que nos deparamos cada vez mais, e remediar a dureza do coração, uma coisa impossível para a Lei de Moisés. 13-16 Esta perícope, que fala das crianças, nada tem a ver com a anterior, embora estas sejam as grandes vítimas inocentes dos divórcios; a ligação é artificial, e nada se diz das circunstâncias do momento e do lugar do facto relatado nos três Sinópticos. Então havia o costume de aos sábados os pais abençoarem as suas crianças (com menos de 12 anos), mas só na festa do Yom Kipur é que elas recebiam a bênção dos rabis; que o acontecimento relatado tivesse sido por esta ocasião não passa de mera possibilidade. É apenas S. Marcos – que gosta de registar as emoções de Jesus (cf. 1, 43; 3, 5; 8, 12; 14, 33-34) – quem refere a indignação de Jesus perante a oposição dos discípulos (v. 14), que partilhavam da mentalidade corrente de desprezo pelas crianças; então não se considerava a sua inocência, mas a sua imaturidade. O tema central do relato é o do Reino de Deus, concretamente, que pessoas poderão fazer parte dele: “Só aqueles que o reconhecem e o aceitam como um dom – como uma criança que recebe presentes – é que podem esperar vir a fazer parte dele; o reino é para aqueles que não fazem reivindicações de poder ou de posição social” (The new Jerome B. Commentary). E, sem humildade, como a da criança que se sente débil e insignificante, não é possível entrar no Reino de Deus (cf. Mt 18, 3-4; Mc 9, 35-36), o que está no pólo oposto da atitude dos fariseus, que pensavam poder comprar o Reino de Deus com os seus próprios méritos. Por outro lado, o relato deixa ver como as crianças são tomadas a sério, como pessoas, por Jesus – só Marcos refere que Ele as abraçou – e como elas gostam de se relacionar com Jesus e com o Reino.
1ª leitura Sabedoria 7, 7-11
7Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. 8Preferi-a aos ceptros e aos tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada. 9Não a equiparei à pedra mais preciosa, pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo. 10Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue. 11Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis.
A leitura é tira da 2ª parte da obra (Sab 6, 22 – 9, 18), que trata da verdadeira sabedoria, aquela que leva a Deus, e do modo de a alcançar. Estas palavras inspiradas – um maravilhoso hino à Sabedoria, a terminar com uma bela oração a pedi-la – são postas na boca de Salomão, rei sábio por excelência (cf. 1 Re 4, 25-30). Trata-se dum artifício literário destinado a chamar a atenção do leitor, pois o livro foi escrito em grego tardiamente, já no séc. I a. C, o último livro do cânon do A. T. 7-11 “Orei… implorei…”. A sabedoria tem em Deus a sua origem: o próprio Salomão não a tinha por nascimento, mas como fruto da sua oração. Ela excede todos os bens terrenos, mesmos os mais preciosos, e “com ela me vieram todos os bens”, numa alusão a 1 Re 3, 7-14, onde se conta como Deus concedeu a Salomão um acréscimo de outros bens, tendo ele pedido apenas a sabedoria.
2ª leitura Hebreus 4, 12-13
12A palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes: ela penetra até ao ponto de divisão da alma e do espírito, das articulações e medulas, e é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração. 13Não há criatura que possa fugir à sua presença: tudo está patente e descoberto a seus olhos. É a ela que devemos prestar contas.
Este célebre texto constitui não só um elogio da Palavra de Deus, mas também um veemente apelo à responsabilidade para todos os que a ouviram, a fim de não deixarem “endurecer o coração” (Hebr 3, 8.15; 4, 7; cf. Salm 95 (94), 8-11), sobretudo quando essa Palavra foi proclamada pelo próprio Filho de Deus (cf. Hebr 1, 2). “A Palavra de Deus” é a sua voz (cf. v. 7), que se faz ouvir na Escritura, na pregação da Igreja, no íntimo da alma e que continua viva e actuante: “viva e eficaz…” (cf. Dt 32, 47; Jo 6, 68; Is 55, 10-11). A força penetrante da Palavra é descrita com a linguagem de Filon de Alexandria, para aludir ao seu poder de julgar. Ela penetra até naquele reduto impenetrável da consciência, onde o homem é o senhor exclusivo das suas decisões, onde se situam as próprias intenções mais secretas; ela penetra até nas mais recônditas profundidades do ser humano, de tal maneira que este não pode esquivar-se nem dissimular o que se passa no seu interior. “As qualidades da Palavra de Deus são tais que uma pessoa não se pode esquivar à sua imperiosa autoridade, nem à hipótese de iludir a nossa responsabilidade em face dela” (W. Leonard). O seu poder discriminante para julgar e discernir é expresso em termos de “dividir” aquilo que é impossível de destrinçar (“alma e espírito”), ou muito difícil de separar (“articulações e medulas”). E é atribuído à Palavra um conhecimento que só Deus possui, identificando-a expressamente com Deus no v. 13 (cf. Salm 139): “tudo está patente e descoberto a seus olhos”; note-se que “descoberto” é um particípio perfeito passivo grego derivado de “trákhlelos” (pescoço), o que faz lembrar a imagem do sacerdote que descobre o pescoço das vítimas a fim de desferir o golpe de misericórdia, sugerindo-se assim a seriedade e o dramatismo daquilo que é o “prestar contas” a Deus.
Evangelho Forma longa: São Marcos 10, 17-30 Forma breve: São Marcos 10,17-27
Naquele tempo, 17ia Jesus pôr-Se a caminho, quando um homem se aproximou correndo, ajoelhou diante d'Ele e Lhe perguntou: «Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?» 18Jesus respondeu: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. 19Tu sabes os mandamentos: 'Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe'». 20O homem disse a Jesus: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude». 21Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». 22Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico. 23Então Jesus, olhando à volta, disse aos discípulos: «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!» 24Os discípulos ficaram admirados com estas palavras. Mas Jesus afirmou-lhes de novo: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! 25É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». 26Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode então salvar-se?» 27Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». [28Pedro começou a dizer-Lhe: «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir». 29Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, 30receberá cem vezes mais, já neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna».]
O protagonista desta cena é alguém “muito rico”, que era jovem (cf. Mt 19, 22) e pessoa importante (cf. Lc 18, 18), humanamente vistas as coisas, alguém que deveria ser aproveitado para uma grande empresa, como era o Reino de Deus. O episódio mostra que o Reino não só não consiste em bens materiais, como também exige o desprendimento deles. O diálogo entre Jesus e o jovem é profundo, como profundo, exigente e amável é o olhar de Jesus, que Marcos refere por três vezes (vv. 21.23.27). O próprio jovem começa por pôr a questão mais profunda, a que ninguém se pode esquivar, a da salvação: “que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?” (v. 17). O jovem cumpria os mandamentos, mas não passava além duma aurea mediocritas. Para ser apto para o Reino de Deus, não bastava cumprir; faltava-lhe uma coisa (v. 21): a entrega, a generosidade, a alegria profunda de dar e de se dar sem pôr condições. A cena do jovem que se retirou triste oferece uma ocasião para Jesus voltar a expor a doutrina da pobreza evangélica e do desprendimento. Mas não se limita a insistir (vv. 23.24) no perigo das riquezas para se ser bom, à maneira dum sábio grego: “é impossível que um homem extraordinariamente bom seja extraordinariamente rico” (Platão, Leis, V, 12); Jesus fala da impossibilidade de entrar no Reino de Deus, o que deixa os discípulos assombrados (vv. 24.26). No entanto, atalha: “a Deus tudo é possível” (v. 27), pois Ele pode conceder a graça de uma pessoa usar bem as riquezas, ou mesmo até de renunciar radicalmente aos bens terrenos. A cena termina com as garantias para os primeiros discípulos que deixaram tudo e seguiram Jesus, umas garantias válidas para todos em todos os tempos (vv. 28-30). Notar como em Marcos as promessas de felicidade e bem-aventurança incluem as perseguições por causa de Jesus e do Evangelho (v. 29; cf. Mt 5, 10-12). 25 “É mais fácil entrar um camelo pelo fundo duma agulha…”. Note-se como Jesus, falando de coisas sérias, o faz com bom humor, pondo os seus ouvintes a sorrir ao imaginarem a divertida cena de um camelo nas suas repetidas tentativas de passar por um lugar por onde não podia caber.
1ª leitura Isaías 53, 10-11
10Aprouve ao Senhor esmagar o seu Servo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como vítima de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. 11Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado. Pela sua sabedoria, o Justo, meu Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades.
Temos apenas 2 versículos do IV canto dos Poemas do Servo de Yahwéh (Is 52, 13 – 53, 12); de todos os quatro é o mais impressionante, o mais comentado e o mais meditado no cristianismo. Surpreende vivamente o leitor o facto de se apresentar o triunfo e glorificação do servo sofredor, precisamente por meio do seu sofrimento e humilhação; mais ainda, ele assume as nossas dores e misérias com o fim de as curar, a chamada “expiação vicária”, uma concepção teológica deveras original. As tentativas de identificação deste “servo” passaram por várias fases. O judaísmo alexandrino viu nele o povo de Israel sofrendo as tribulações da diáspora, mas alentado pela esperança da sua exaltação, ao passo que o judaísmo palestino via na sua glorificação o futuro messias, mas os sofrimentos eram referidos ao castigo dos gentios; em Qumrã o texto era aplicado ao Mestre da Justiça, o provável fundador da seita. A interpretação cristã é unânime em reconhecer neste servo de Yahwéh a Jesus na sua dolorosa Paixão, Morte e Ressurreição pela salvação de todos. O texto é-nos proposto neste Domingo em função do Evangelho: “o Filho do Homem veio para servir e dar a vida pela salvação de todos” (Mc 10, 45).
2ª leitura Hebreus 4, 14-16
Irmãos: 14Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. 15Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado. 15Vamos, portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno.
O autor, depois de já ter proclamado a superioridade de Cristo sobre os Anjos (1, 5 – 2, 18) e sobre Moisés (3, 1 – 4, 11), começa agora a expor que Ele – Sumo Sacerdote da Nova Aliança – é superior aos sacerdotes da antiga. Já tinha apresentado este sumo sacerdote da nossa fé como sendo “digno de crédito” (3, 1.6), o que nos estimula a que “permaneçamos firmes na fé que professamos” (v. 14); agora passa a apresentar outra sua qualidade, “a misericórdia”, que nos inspira a máxima confiança. Com efeito, Jesus, ao contrário do sumo sacerdote da lei antiga, que era uma figura distante e separada dos pecadores (recordem-se as exigências do Levítico: Lv 21); Jesus é “capaz de se compadecer das nossas fraquezas”, porque Ele mesmo “foi provado em tudo como nós, excepto no pecado” (cf. 1ª leitura do IV Canto do Servo de Yahwéh). 14 “Que penetrou os Céus”. Jesus – o novo Josué (o nome hebraico é o mesmo: «Yehoxúa‘») segundo a referência do v. 8 – já penetrou no descanso da nova terra prometida, os Céus, tendo-nos deixado aberta a entrada, que atingiremos, se não formos infiéis como os antigos israelitas (daí o apelo a conservar a fé, com firmeza). Por outro lado, o texto sugere uma referência ao Yom-Kipur, ou Dia da Expiação, em que o sumo sacerdote penetrava no Santo dos Santos (imagem dos Céus) através dos dois véus do santuário, a fim de expiar os pecados do povo. 16 “Trono da graça”. Esta expressão parece inspirada no “trono da glória” de que se fala no A. T. (1 Sam 2, 8; Is 22, 23; Jer 14, 21; 17, 12; Sir 47, 11), o que terá influenciado a variante de dois códices da Vulgata, que registam thronum gloriæ. É interessante notar que, segundo os rabinos, Deus tinha dois tronos: o da justiça e o da misericórdia. O trono de Jesus, de que se falou em 1, 8, já não aparece como o trono de justiça do Salmo 45, 7 ali citado, mas é o da misericórdia, o “trono da graça”, a que podemos recorrer “cheios de confiança”.
Evangelho Forma longa: São Marcos 10, 35-45 Forma breve: São Marcos 10, 42-45
[Naquele tempo, 35Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir». 36Jesus respondeu-lhes: «Que quereis que vos faça?» 37Eles responderam: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». 38Disse-lhes Jesus: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?» 39Eles responderam-Lhe: «Podemos». Então Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado. 40Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado». 41Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João.] 42esus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. 43Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, 44e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; 45porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».
Jesus vai a caminho de Jerusalém (cf. 10, 32-33). Apesar dos três anúncios da Paixão, os discípulos, embora com uma certa sensação de medo (ibid.), não deixam de pensar que muito em breve o anunciado reino de Deus se irá manifestar (cf. Lc 19, 11), pois todo o seu interesse se fixava nisto. Antes que alguém lhes passe à frente, os dois irmãos, Tiago e João, sem atenderem à figura ridícula que faziam e à tensão e inveja a provocar nos colegas (v. 41), atrevem-se a tentar que o Mestre se comprometa com eles, garantindo-lhes os primeiros postos no reino, que imaginam terreno. Isto vai dar lugar a que Jesus os corrija, mas sem os humilhar, e deixe um ensinamento muitíssimo importante para todos e para sempre (vv. 42-45); neste sentido ensina o Vaticano II, GS 3: “Nenhuma ambição terrena move a Igreja, mas unicamente este objectivo: continuar (…) a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade (…), para servir, e não para ser servido”. Assim também fica reprovado o servir-se da Igreja, em vez de a servir. A grandeza do discípulo de Cristo é servir desinteressadamente, como fez o Mestre (cf. Jo 13, 14-17). 38-39 “Beber o cálice… receber o baptismo”, neste contexto, são duas imagens do sofrimento e da morte (cf. Lc 12, 50; Is 51, 17-23; Mc 14, 36; Salm 42, 8; 69, 2-3.15-15). A generosidade e audácia dos dois agradou a Jesus, que lhes promete virem a participar do seu destino doloroso –“beber o cálice” –, mergulhados no mistério do seu sofrimento – “baptismo”. De facto, Tiago foi martirizado em Jerusalém pelo ano 44 (Act 12, 2), por Herodes Agripa I; João foi preso e flagelado em Jerusalém (Act 4, 3; 5, 40-41), sofreu mais tarde o exílio na ilha de Patmos (cf. Apoc 1, 9), mas nada se sabe de seguro sobre o seu problemático martírio. 40 “Não me pertence a Mim concedê-lo”. A expressão não implica inferioridade de Jesus, como pretendiam os arianos; não é que falte poder a Jesus; Ele é que, fazendo tudo o que faz o Pai e com o mesmo poder, nada faz com independência do Pai (cf. Jo 5, 17-30). Segundo a explicação habitual, os dois dirigiram-se a Jesus como o Messias ao instaurar o reino, e, enquanto tal, Ele não faz mais do que executar o projecto divino.
1ª leitura Jeremias 31, 7-9
7Eis o que diz o Senhor: «Soltai brados de alegria por causa de Jacob, enaltecei a primeira das nações. Fazei ouvir os vossos louvores e proclamai: 'O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel'. 8Vou trazê-los das terras do Norte e reuni-los dos confins do mundo. Entre eles vêm o cego e o coxo, a, mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz. É uma grande multidão que regressa. 9Eles partiram com lágrimas nos olhos e Eu vou trazê-los no meio de consolações. Levá-los-ei às águas correntes, por caminho plano em que não tropecem. Porque Eu sou um Pai para Israel e Efraim é o meu primogénito».
A 1ª leitura é como habitualmente escolhida em função do Evangelho; é tirada da parte do livro que os críticos chamam o “Livro da Consolação” (Jer 30 – 33), considerada o núcleo de toda a obra do Profeta de Anatot, onde se anuncia a futura restauração de Israel assente sobre um descendente de David (33, 15-17) e sobre uma nova Aliança, já não escrita em placas de pedra, mas nos corações (31, 31-34). 8-9 “Vou trazê-los das terras do Norte”, isto é, da Assíria, cujo rei Salmanasar V conquistara o reino do Norte (Israel ou Efraím: v. 9), em 721, havia já cerca de um século. Os israelitas tinham sido deportados em massa não só para a Assíria, mas também para os mais diversos sítios: “os confins do mundo”. Notar como é o próprio Deus quem reconduz os exilados, incapacitados de sair da sua miséria; por isso a salvação não fica reservada apenas ao soldado que combate e a quem tem capacidade para se deslocar por seus próprios pés: entre a multidão que regressa para fazer parte do futuro reino messiânico, vêm “o cego e o coxo, a mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz”: é uma bela forma poética de exaltar a intervenção divina. O v. 9 faz lembrar o Salmo 126 (125), 5-6, um Salmo de peregrinações (gradual, ou das ascensões).
2ª leitura Hebreus 5, 1-6
1Todo o sumo sacerdote, escolhido de entre os homens, é constituído em favor dos homens, nas suas relações com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. 2Ele pode ser compreensivo para com os ignorantes e os transviados, porque também ele está revestido de fraqueza; 3e, por isso, deve oferecer sacrifícios pelos próprios pecados e pelos do seu povo. 4Ninguém atribui a si próprio esta honra, senão quem foi chamado por Deus, como Aarão. 5Assim também, não foi Cristo que tomou para Si a glória de Se tornar sumo sacerdote; deu-Lha Aquele que Lhe disse: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei», 6e como disse ainda noutro lugar: «Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec».
O v. 1 é uma bela e válida síntese do que é ser sacerdote. Os vv. 1-4, começam por descrever as características gerais dum sumo sacerdote, um sacerdote do A. T., para depois demonstrar como Jesus cumpriu cabalmente as exigências desta figura de sacerdote. A leitura de hoje apenas desenvolve a última característica: a vocação divina (v. 4). Como Aarão, que foi escolhido por Deus (cf. Ex 28, 1), assim também Jesus não se arrogou por si próprio a honra de se tornar Sumo Sacerdote (v. 5), pois Ele, sendo o Filho de Deus anunciado no Salmo 2, 7, é constituído Sacerdote de uma natureza superior à do sacerdócio levítico, pois cumpre a figura do Salmo 110 (109), 4, um Salmo considerado messiânico pelos próprios judeus: “sacerdote para sempre à maneira de Melquisédec”. Mais adiante explicar-se-á a razão da superioridade do sacerdócio de Melquisédec, no capítulo 7, de que vamos ter um pequeno trecho no próximo Domingo.
Evangelho São Marcos 10, 46-52
Naquele tempo, 46quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. 47Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». 48Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim». 49Jesus parou e disse: «Chamai-o». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». 50O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. 51Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?» O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». 52Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.
A vivacidade da narração e o colorido próprio do Evangelho de S. Marcos encontram aqui um exemplo típico. Assim há uma série de pormenores que não aparecem nos relatos paralelos de Mateus e Lucas: a referência aos discípulos (v. 46), o nome do cego com a sua respectiva tradução (v. 46), as palavras que dizem os que chamam o cego (v. 49: “Coragem! Levanta-te que Ele está a chamar-te”), e também o gesto de o cego largar a capa e de se levantar dum salto (v. 50), bem como a forma de ele se dirigir a Jesus com a delicada expressão “rabbuní” (v. 51), em vez da forma seca rabbí. Todos estes pormenores, bem como aqueles que são comuns aos restantes Sinópticos, reforçam o valor histórico do Evangelho, especialmente a referência ao nome do miraculado, coisa rara nos relatos evangélicos. S. Marcos não foi certamente uma testemunha ocular do facto, mas, ao registar todos estes detalhes, teve em conta o Evangelho como era pregado por Pedro, de quem foi companheiro e colaborador, que Papias chama “o intérprete de Pedro”. Na passagem paralela, S. Mateus fala de dois cegos que Jesus curou, ao sair de Jericó. S. Lucas fala da cura de um, ao entrar em Jericó, ao passo que S. Marcos diz: “Quando Jesus ia a entrar em Jericó” (v. 46). Se queremos valorizar todos estes pormenores, podemos recorrer à explicação habitual da discrepância: trata-se de dois cegos diferentes; e S. Mateus, de acordo com o seu hábito de sintetizar e simplificar, fala da cura dos dois de uma só vez, quando saía de Jericó. A insistência dos Evangelhos na cura de invisuais – com mais de uma dezena de referências – parece que se deve não apenas à frequências deste tipo de doentes, mas também a uma intenção teológica dos evangelistas, de modo a que assim fique patente que Jesus é a luz do mundo, como aparece expressamente no capítulo 9 de S. João na cura do cego (Jo 9, 5; cf. Jo 1, 9; 8, 12; 12, 35-36). Jesus vem iluminar os corações com a luz da fé – “a tua fé te salvou” (v. 52) – vem curá-los, purificando-os; com efeito “o fundo dos olhos é o coração” (R. Guardini); e, sem um coração limpo, não há olhos sãos. Também se pode ver uma intenção didáctica no pormenor de mostrar como o cego deixa de estar à beira do caminho (v. 46), para “seguir Jesus pelo caminho” (v. 52); este é o rumo que toma quem se deixa curar por Jesus; “caminho” tornou-se mesmo uma expressão para designar a fé e a vida cristã (cf. Act 9, 2; 18, 25.26; 19, 9.23; 22, 4; 24, 14).
1ª leitura Apocalipse 7, 2-4.9-14
2Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: 3«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». 4E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. 10E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». 11Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: 12«Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». 13Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». 14Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».
Numa grandiosa visão, o vidente de Patmos deixa ver que no meio de tantas desgraças e ainda antes que cheguem as piores, as que correspondem à abertura do 7º selo (cap.8), os cristãos, que formam uma imensa multidão, estão sob a protecção de Deus, mesmo quando perseguidos e sujeitos ao martírio. 2-4 “O selo (o sinete de marcar) do Deus vivo”. Alusão ao timbre então usado pelos monarcas para imprimir o sinal de propriedade ou autenticidade: por vezes os escravos e soldados eram marcados na pele com um ferro em brasa. O símbolo está tomado destes costumes da época e sobretudo da profecia de Ezequiel (Ez 9, 4-6), por isso alguns Padres viram nesta marca, em forma de cruz (pela alusão ao tav de Ezequiel, a última consoante hebraica), o carácter baptismal. “Cento e quarenta e quatro mil” é um número simbólico; com efeito, os números do Apocalipse são habitualmente simbólicos, o que neste caso é evidente por se tratar de um jogo de números: 12 x 12000 (doze mil por cada uma das doze tribos de Israel). Estes 144.000, segundo uns, “representam toda a Igreja sem restrição” (Santo Agostinho), pois esta é o novo Israel de Deus (cf. Gal 6, 16) e são a mesma “multidão imensa que ninguém podia contar” (v. 9). Segundo outros, estes 144.000 são os cristãos procedentes do judaísmo, muito particularmente os que foram poupados das calamidades que assolaram a Palestina, por ocasião da destruição da nação judaica no ano 70. 11 “Os (24) Anciãos”. Há grande variedade de opiniões para decifrar este símbolo, não se podendo sequer estabelecer se se trata de seres angélicos ou humanos. Santo Agostinho diz que “são a Igreja universal; os 24 anciãos são os superiores jerárquicos e o povo: 12 representam os Apóstolos e os bispos, e os outros 12 representam o restante da Igreja”. “Os 4 Viventes”(à letra, “animais”), uma tradução preferível a: “os 4 animais”, uma vez que o terceiro tem rosto humano (cf. Apoc 4, 7). A quem representam estes seres misteriosos, que reúnem características dos querubins de Ez 1 e dos serafins se Is 6? Podem muito bem simbolizar os quatro pontos cardeais, ou os quatro elementos do mundo (terra, fogo, água e ar), isto é, a totalidade do Universo. Deste modo, a presente “visão” apresenta-nos, unidos numa única adoração e louvor a Deus e a Cristo, os Anjos, a Humanidade resgatada e o próprio Universo material. A interpretação segundo a qual os Quatro Seres simbolizam os Quatro Evangelistas deve-se a Santo Ireneu e é uma acomodação espiritual do texto inspirado. 12 “Amen! Bênção, glória…”: Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro. 14 “A grande tribulação”. Tanto se pode tratar duma perseguição aos cristãos mais violenta no fim dos tempos, como das perseguições e das tribulações em geral no curso da história da Igreja. Mas é provável que o vidente de Patmos tenha presente em primeiro plano, as violentas perseguições de Nero e Domiciano, muito embora englobando nestas todas as outras. “Lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro”. “Não se designam só os mártires, mas todo o povo da Igreja – comenta Santo Agostinho –, pois não disse que lavaram as suas túnicas no seu próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro, isto é, na graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor, conforme está escrito: e o seu sangue purifica-nos (1 Jo 1, 7)”.
2ª leitura 1 São João 3, 1-3
Caríssimos: 1Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. 3Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro.
A leitura é um dos textos clássicos da filiação adoptiva divina, uma exigência constante de santidade. 1 “E somo-lo de facto”. S. João não se contenta com dizer que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para que um semita entendesse, pois para ele ser chamado (por Deus) equivalia a ser. S. João quer falar para que todos entendamos esta realidade sobrenatural que “o mundo”, sem fé, não pode captar nem apreciar. 2 A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma mera adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação da natureza divina (cf. 2 Pe 1, 4) pela graça. “Semelhantes a Deus”, desde já; mas só na glória celeste se tornará patente o que já “agora somos”. “O veremos tal como Ele é”. Esta é a melhor definição da infinda felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: contemplar a Deus tal qual Ele é, não apenas as suas obras, mas a Ele próprio, “face a face” (cf. 1 Cor 13, 12). 3 “Purifica-se a si mesmo”. A certeza da filiação divina conduz-nos à purificação e à imitação de Cristo, o Filho de Deus por natureza: “como Ele é puro”; efectivamente, os puros de coração hão-de ver a Deus (cf. Evangelho de hoje: Mt 5, 8).
Evangelho São Mateus 5, 1-12a
Naquele tempo, 1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos 2e Ele começou a ensiná-los, dizendo: 3«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. 4Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. 5Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. 12aAlegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
As 8 bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um carácter solene e universal, para todas as pessoas e para todos os tempos. Elas condensam a grande novidade do Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico então vigente, para já não falarmos do espírito mundano, hedonista do paganismo de então e do de agora. Elas não são expressão de uma “ética dos débeis”, mas sim dum ideal de vida para almas fortes e generosas, correspondem a uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade, como o demonstra a vida de todos os santos. 3 “Bem-aventurados”. Esta tradução (em vez de “felizes”) vinca a ideia de que o Senhor promete a felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao dizê-la do presente: “deles é” (não diz “deles será”). As bem-aventuranças são o mais surpreendente código de felicidade, e não se trata de uma felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena. “Os pobres em espírito”. “No Antigo Testamento, o pobre está já delineado não só como uma situação económico-social, mas como um valor religioso muito elaborado: é pobre quem se apresenta diante de Deus com uma atitude humilde, sem méritos pessoais, considerando a sua realidade de homem pecador, necessitado do perdão divino, da misericórdia de Deus para ser salvo. Daí que, além de viver com uma sobriedade e uma austeridade de vida reais, efectivas, ele aceite e quer tais condições de pobreza não como algo imposto pela necessidade, mas voluntariamente, com afecto (…). A ‘explicação’ de Mateus, em espírito, sublinha a exigência dessa mesma pobreza: não é pobre em espírito quem só o é obrigado pela sua situação económico-social, mas sim quem, além disso, é pobre querendo essa pobreza de modo voluntário (…). Esta atitude religiosa de pobreza está muito relacionada com a chamada infância espiritual. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem nada como propriedade; tudo é de Deus, o seu Pai, e a Ele lho deve. De qualquer modo, a pobreza em espírito, isto é, a pobreza cristã, exige o desprendimento dos bens materiais e uma austeridade no uso deles” (J. M. Casciaro). Pode-se ver o belo comentário de São Leão Magno no ofício de leitura da 6ª feira da semana XXII do tempo comum. 4 “Os humildes”. A tradução preferiu um termo mais suave do que “os mansos”, que são os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. De facto só os humildes são capazes da virtude da mansidão, pois não dão demasiada importância a si próprios. A “terra” é a nova terra prometida, isto é, o Céu. 5 “Os que choram”, isto é, os aflitos, e muito particularmente os que têm o coração cheio de mágoa por terem ofendido a Deus e que, com vontade de reparação, choram e deploram os seus pecados. 6 “Fome e sede de justiça”. A ideia de justiça na Sagrada Escritura é uma ideia de natureza religiosa: justo é aquele que cumpre a vontade de Deus, e justiça corresponde a santidade, vocação a que todos são chamados. 8 “Os puros de coração” são, em geral, os que têm uma intenção recta, os que são capazes de um amor puro, limpo e nobre, os que têm um olhar recto e são; está, portanto, englobada a castidade, mas não é só ela. 9 “Os que promovem a paz” (uma tradução mais expressiva do que pacíficos) são os que promovem a paz entre os homens e dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo. 11-12 Depois das 8 bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela fórmula “porque deles é o reino dos Céus”: vv. 3 e 10), há uma ampliação e uma aplicação da 8ª e última bem-aventurança, directa aos ouvintes.
Comemoração de todos os fiéis defuntos (1ª Missa)
1ª leitura Job 19, 1.23-27a
1Job tomou a palavra e disse: 23«Quem dera que as minhas palavras fossem escritas num livro, ou gravadas em bronze 24com estilete de ferro, ou esculpidas em pedra para sempre! 25Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. 26Revestido da minha pele, estarei de pé na minha carne verei a Deus. 27aEu próprio O verei, meus olhos O hão-de contemplar».
Este pequeno trecho é um dos mais citados pela tradição cristã; corresponde à resposta de Job às acusações dos seus amigos; é um hino de esperança e confiança em Deus no meio do seu atroz sofrimento, um hino que fica bem realçado, ao dizer: “palavras escritas… esculpidas em pedra para sempre”. 25 “E no último dia Se levantará sobre a terra”. Esta última reformulação da tradução litúrgica – que antes já tinha abandonado o texto latino da Vulgata para se cingir ao texto hebraico massorético – parece ter querido recuperar um sentido escatológico (o da ressurreição final), ao não referir o adjectivo “último” a Deus, mas sim a “dia”(substantivo que não aparece no hebraico, mas que S. Jerónimo subentendeu). No entanto, o verbo “Se levantará” (que S. Jerónimo traduziu na 1ª pessoa, referindo-o a Job) segue o texto hebraico. 26 “Na minha carne verei a Deus”. O texto massorético significa que, ainda nesta vida (com a minha carne já curada) hei-de sentir a sua protecção, o seu amor e bondade (é este o sentido corrente no A. T. de “ver a Deus”). A verdade é que a nova tradução litúrgica, baseada na pauta da Neovulgata, quis manter o sentido escatológico do texto, de acordo com o antigo uso do texto na Liturgia dos defuntos. De facto, quando o justo que sofre (Job), haverá de ver plenamente a Deus com a sua carne, será na Ressurreição (ainda que a doutrina da ressurreição não apareça no livro de Job e seja algo ao arrepio desta obra). A Vulgata de S. Jerónimo tinha uma tradução que hoje nenhum crítico segue: “Eu sei que o meu Redentor vive e que no último dia eu hei-de ressuscitar da terra e serei novamente revestido da minha pele e com a minha própria carne verei o meu Deus”. A verdade, porém, é que estamos diante duma passagem que oferece bastantes dificuldades para a reconstituição do texto original e a Neovulgata optou por um texto aberto a um sentido escatológico, semelhante ao da tradução litúrgica que temos.
2ª leitura 2 Coríntios 4, 14-18 – 5, 1
14Como sabemos, irmãos, Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele. 15Tudo isto é por vossa causa, para que uma graça mais abundante multiplique as acções de graças de um maior número de cristãos para glória de Deus. 16Por isso, não desanimamos. Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. 17Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. 18Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. 5, 1Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens.
A leitura é de uma grande riqueza doutrinal e projecta a luz da fé sobre o mistério da morte, um mistério a que ninguém pode fechar os olhos, sobretudo na comemoração do dia de hoje. A esperança da ressurreição e da glória do Céu, que animava o Apóstolo Paulo, é a mesma que nos anima a nós. 16 “Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia”. A antítese “homem exterior” “homem interior” visa a oposta dualidade da antropologia teológica paulina, mais do que a dualidade da antropologia filosófica grega, embora sem prescindir dela. O homem exterior é o ser humano considerado na sua mortalidade, votado à ruína e decomposição física (cf. v. 7: um frágil “vaso de barro”), em contraste com o homem interior, que aqui, mais do que a imortalidade da filosofia grega (a athanasía: cf. 1 Cor 15, 53-54; 1 Tim 6, 16), parece indicar a vitalidade sobrenatural imperecível infundida no Baptismo, um princípio de santificação que possibilita que o homem regenerado se vá renovando de dia para dia, identificando-se cada vez mais com Cristo ressuscitado. A vida dos santos demonstra esta afirmação paulina: à medida que os seus corpos se vão consumindo por sofrimentos e penitências corporais, renova-se a sua juventude de alma, a sua alegria. A propósito destas noções, temos que reconhecer que Paulo não utiliza nos seus escritos um modelo antropológico único; com efeito, embora a sua formação seja radicalmente hebraica, ele, ao dirigir-se ao mundo helenístico, também se serve de categorias do pensamento filosófico grego corrente. Daqui provém, às vezes, alguma dificuldade de interpretação dos seus textos, cuja antropologia não se pode absolutizar. 5, 1 “Tenda... morada terrestre...” Tenda (skênos), designa no mundo grego o corpo, como invólucro da alma, uma alusão ao carácter provisório da nossa morada terrestre, em contraposição com o corpo já ressuscitado e glorioso, à maneiro do de Cristo. Que Paulo admite uma escatologia individual e intermédia, distinta da ressurreição final, é uma coisa que fica bem clara neste mesmo capítulo 5 da 2ª aos Coríntios “preferimos exilar-nos do corpo para ir morar junto de Cristo” (cf. Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé em 17-5-79; ver texto em CL, ano C (1979-80), n.º 11/12, pp. 1698-1700).
Evangelho São Mateus 11, 25-30
25Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. 27Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. 30Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».
A leitura é uma das mais belas orações de Jesus que aparecem nos Evangelhos, um hino de louvor e de acção de graças, que também aparece em Lc 10, 21-24. 25-27 “Sábios e inteligentes” (prudentes) são os sábios orgulhosos, que confiam apenas na sua sabedoria; auto-suficientes, julgam poder salvar-se com os seus próprios recursos de inteligência e poder. Os “pequeninos” são os humildes, abertos à fé, capazes de visão sobrenatural. A revelação divina só pode ser aceite e captada pela fé. Uma ciência soberba impede de aceitar a loucura divina da Cruz (cf. 1 Cor 1, 19-31). Jesus reivindica para Si um conhecimento do Pai (Deus) perfeitamente idêntico ao conhecimento que o Pai tem do Filho (Jesus), e isto porque Ele, e só Ele, é o Filho, igual ao Pai, Deus com o Pai. 28-30 Palavras estas maravilhosas, que nos patenteiam os sentimentos do Coração de Cristo. O povo andava “cansado e oprimido” com as minuciosas exigências da lei antiga e das tradições que os fariseus e doutores da lei impunham com todo o rigorismo do seu frio e insuportável legalismo que oprimia a liberdade interior e roubava a paz ao coração. Jesus não nos dispensa de levar o seu “jugo” e a sua “carga”, mas não quer que nos oprima, pois quer que O sigamos por amor, e “para quem ama é suave; pesado, só para quem não ama” (Santo Agostinho, Sermão 30, 10). O mesmo Santo Agostinho comenta esta passagem: “qualquer outra carga te oprime e te incomoda, mas a carga de Cristo alivia-te do peso. Qualquer outra carga tem peso, mas a de Cristo tem asas. Se a uma ave lhe tirares as asas, parece que a alivias do peso, mas, quanto mais lhas tirares, mais esta pesa; restitui-lhe o peso das suas asas, e verás como voa” (Sermão 126, 12).
N. B. — Há outras possibilidades de leituras para a 2ª e a 3ª Missa
2ª Missa:
1ª leitura 2 Macabeus 12, 43-46
Naqueles dias, 43Judas Macabeu fez uma colecta entre os seus homens de cerca de duas mil dracmas de prata e enviou-as a Jerusalém, para que se oferecesse um sacrifício de expiação pelos pecados dos que tinham morrido, praticando assim uma acção muito digna e nobre, inspirada na esperança da ressurreição. 44Porque, se ele não esperasse que os que tinham morrido haviam de ressuscitar, teria sido em vão e supérfluo orar pelos mortos. 45Além disso, pensava na magnífica recompensa que está reservada àqueles que morrem piedosamente. Era um santo e piedoso pensamento. Por isso é que ele mandou oferecer um sacrifício de expiação pelos mortos, para que fossem libertos do seu pecado.
Judas Macabeu é o grande herói tanto do 1º como do 2º livro dos Macabeus; seguiu o seu pai Matatias na resistência contra a helenização pagã do povo de Israel, tendo chegado, em 165, a conseguir a purificação do templo e a restauração do culto (cf. 1 Mac 4, 36-59; 2 Mac 10, 1-9). O seu título de Macabeu significa martelo ou malho, título que lhe veio da impugnação do paganismo imposto pelo soberano sírio, e das derrotas infligidas aos opressores do povo judeu (sírios e egípcios). A leitura fala duma colecta de 2.000 dracmas de prata (não 12.000 como aparecia na Vulgata, um texto que a Neovulgata corrige, de acordo com os melhores manuscritos). A moeda grega pesava cerca de 4 gramas de prata; tratava-se, pois, de cerca de oito quilos de prata. 46 “Um santo e piedoso pensamento”. O sacrifício que Judas manda oferecer revela a fé numa vida além-túmulo; a aprovação formal do hagiógrafo deixa-nos ver como a oração pelos defuntos que têm faltas a expiar (aqueles soldados mortos no campo de batalha conservavam despojos que tinham sido ofertas aos ídolos, o que era proibido pela Lei) é uma coisa que lhes aproveita. Daqui se deduz a existência do Purgatório, uma fase de expiação de pecados que não impedem a salvação eterna, mas, de alguma maneira, a atrasam (falando em linguagem humana de uma realidade transcendente). É sobretudo a Tradição, a vida e Magistério da Igreja que esclarecem esta doutrina revelada por Deus.
Evangelho São Lucas 7, 11-17
Naquele tempo, 11dirigia-Se Jesus para uma cidade chamada Naim; iam com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. 12Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade. 13Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: «Não chores». 14Jesus aproximou-Se e tocou no caixão; e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: «Jovem, Eu te ordeno: levanta-te». 15O morto sentou-se e começou a falar; e Jesus entregou-o à sua mãe. 16Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo: «Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo». 17E a fama deste acontecimento espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.
1 “Naim”. Como também hoje, não seria propriamente uma cidade, mas uma pequena aldeia a uns 10 km a Sueste de Nazaré. É frequente que S. Lucas dê o nome da cidade a pequenas aldeias. É esta a única passagem em toda a Bíblia onde se fala desta terra, o que leva a crer que seria mesmo um lugarejo sem importância, mas isso não obstou a que Jesus fizesse ali um grande milagre. É S. Lucas o único Evangelista a contá-lo, o Evangelista que mais se detém a retratar a misericórdia do coração de Cristo; nem sequer foi preciso um pedido formal da desolada viúva para que, com uma única palavra, transformasse o seu choro na maior alegria, devolvendo-lhe o seu único filho vivo. Os funerais costumavam realizar-se no mesmo dia da morte, ao meio da tarde. 15 “E Jesus entregou-o à mãe”. Santo Agostinho comenta: “Esta mãe viúva alegra-se com o filho ressuscitado. Diariamente se alegra a Mãe Igreja com os homens que ressuscitam na sua alma. Aquele estava morto quanto ao corpo; estes, quanto ao seu espírito. Aquela morte visível chora-se visivelmente; a morte invisível destes nem se chora nem se vê. Anda à busca destes mortos Aquele que os conhece, Aquele que pode fazê-los voltar à vida» (Sermão 98, 2). O mesmo Santo afirma que é um maior milagre a conversão dum pecador do que a ressurreição dum morto, embora seja menos espectacular.
3ª Missa
1ª leitura 1 Tessalonicenses 4, 13-18
13Não queremos, irmãos, deixar-vos na ignorância a respeito dos defuntos, para não vos contristardes como os outros, que não têm esperança. 14Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido. 15Eis o que temos para vos dizer, segundo a palavra do Senhor: Nós, os vivos, os que ficarmos para a vinda do Senhor, não precederemos os que tiverem morrido. 16Ao sinal dado, à voz do Arcanjo e ao som da trombeta divina, o próprio Senhor descerá do Céu e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. 17Em seguida, nós, os vivos, os que tivermos ficado, seremos arrebatados juntamente com eles sobre as nuvens, para irmos ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. 18Consolai-vos uns aos outros com estas palavras.
Os cristãos de Tessalónica, tinham sido evangelizados pouco antes, na segunda viagem missionária de S. Paulo, provavelmente durante o Inverno de 50-51. Embora o Apóstolo não tenha podido permanecer ali por muito tempo (apenas 2 ou 3 meses) tornaram-se uma comunidade modelar (cf. 1 Tes 1, 7), mas a verdade é que não estavam devidamente esclarecidos acerca da sorte dos seus defuntos surpreendidos pela morte antes da vinda gloriosa de Jesus. Julgavam que eles já não poderiam tomar parte no triunfo glorioso da segunda vinda do Senhor (a parusia), que julgavam estar para breve; era esta mais uma forte razão para andarem preocupados e tristes, segundo as notícias que Timóteo, enviado desde Atenas, lhe tinha trazido a Corinto (cf. 1 Tes 3, 1-2.6). 13. S. Paulo, consciente das “deficiências da fé” dos tessalonicenses (cf. 3, 10), trata agora de os esclarecer na fé e de os consolar, escrevendo: “para vos não contristardes” (v. 13). Paulo garante-lhes que “Deus levará com Jesus os que tiverem morrido n’Ele” (v. 14), não estando excluídos de estar “para sempre com o Senhor” (v. 17). O Apóstolo apela para “uma palavra do Senhor”, mas discute-se sobre qual a palavra a que se refere; uns pensam no discurso escatológico dos Sinópticos, outros numa revelação pessoal, outros nalguma palavra de Jesus das não consignadas nos Evangelhos (ágrapha) 15 “Nós os vivos, os que ficarmos”. Pelo que sabemos doutros textos paulinos, S. Paulo não estava convencido de que havia de ficar para a parusia (cf. 1 Cor 15, 30-31; 2 Cor 1, 8-9; 4, 14; Filp 2, 17); quando muito, manifestaria uma vaga esperança de vir a ficar (BJ). O mais provável é que exprima na primeira pessoa do plural o que só dizia respeito a uma parte dos cristãos, sem se incluir nessa parte: é uma ficção literária a que os gramáticos dão o nome de enálage pessoal, e que S. Paulo usa mais vezes. “Não precederemos...”, isto é, os que viverem na ocasião da 2.ª vinda de Jesus não levarão vantagem aos que já morreram, pois então estes, “os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” e os que então viverem vivos, “os que tivermos ficado seremos arrebatados”, na linguagem mais clara de 1 Cor 15, 51-53, “serão transformados”, isto é, glorificados. A linguagem com que S. Paulo se exprime é simbólica, por isso não se deve tomar à letra; era corrente na literatura apocalíptica judaica, utilizada para exprimir uma realidade misteriosa e transcendente, uma intervenção certa e portentosa de Deus; assim é o caso de: “a voz do arcanjo”, “a trombeta divina”, “as nuvens e o Senhor nos ares (cfr. Dan 7, 13). Por outro lado, S. Paulo utiliza a mesma linguagem do mundo helenístico para as visitas festivas1, a vinda duma personagem importante, chamada parousia, a que correspondia a jubilosa saída dos cidadãos ao seu encontro, chamada avástasis. Ora sucede que nesta passagem paulina ocorrem ao mesmo tempo os dois vocábulos, pois, “para irmos ao encontro do Senhor” diz-se: eis anástasin tou Kyriou. O importante é que todos, tanto os que vivem como os que morreram, “estaremos sempre com o Senhor”; esta é a certeza da fé capaz de consolar aqueles fiéis e a nós também.
1Assim pensa L. Cerfaux, Le Christ dans la théologie de Saint Paul, Paris, Cerf, 21954, pp. 29-34. J. Dupont pensa antes na analogia Ex 19, 17 – o encontro do povo com Yahwéh –, mas o termo grego usado pelos LXX é outro.
Evangelho
São João 6, 37-40
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 37«Todos aqueles que o Pai Me dá virão a Mim e àqueles que vêm a Mim não os rejeitarei, 38porque desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou. 39E a vontade d’Aquele que Me enviou é esta: que Eu não perca nenhum dos que Ele Me deu, mas os ressuscite no último dia. 40De facto, é esta a vontade de meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e acredita n’Ele tenha a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia».
As palavras do Senhor são solenes, como se pode ver pela repetição dos vv. 37.39.40, palavras que enchem de esperança todos os fiéis, ou seja, aqueles que, movidos pela graça de Deus – “tudo o que o Pai me dá” – vêm a Jesus pela fé na sua palavra e nas suas obras - “virá a Mim”. A fé em Jesus leva à “vida eterna” e à “ressurreição no último dia”, isto é, no fim dos tempos.
1ª leitura Deuteronómio 6, 2-6
Moisés dirigiu-se ao povo, dizendo: 2«Temerás o Senhor, teu Deus, todos os dias da tua vida, cumprindo todas as suas leis e preceitos que hoje te ordeno, para que tenhas longa vida, tu, os teus filhos e os teus netos. 3Escuta, Israel, e cuida de pôr em prática o que te vai tornar feliz e multiplicar sem medida na terra onde corre leite e mel, segundo a promessa que te fez o Senhor, Deus de teus pais. 4Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. 5Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. 6As palavras que hoje te prescrevo ficarão gravadas no teu coração».
A leitura é um pequenino trecho da introdução ao “Código Deuteronómico”, ou “Aliança de Moab” (Dt 12 – 26), que constitui o núcleo da obra. Os vv. 4-6 pertencem à célebre Xemá‘, a oração assim chamada a partir da palavra hebraica com que começa, que quer dizer “escuta”. É constituída pelas seguintes passagens: Dt 6, 4-9; 11, 18-21; Nm 15, 37-41, que ainda hoje os judeus piedosos continuam a rezar, como nos tempos de Jesus, duas vezes ao dia, de manhã e de tarde. A resposta de Jesus no Evangelho de hoje é uma chamada para este texto demasiadamente conhecido (cf. Mc 12, 28), onde Deus pede um amor total em que toda a pessoa se empenha (v. 5).
2ª leitura Hebreus 7, 23-28
Irmãos: 23Os sacerdotes da antiga aliança sucederam-se em grande número, porque a morte os impedia de durar sempre. 24Mas Jesus, que permanece eternamente, possui um sacerdócio eterno. 25Por isso pode salvar para sempre aqueles que por seu intermédio se aproximam de Deus, porque vive perpetuamente para interceder por eles. 26Tal era, na verdade, o sumo sacerdote que nos convinha: santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores e elevado acima dos céus, 27que não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiro pelos seus próprios pecados, depois pelos pecados do povo, porque o fez de uma vez para sempre quando Se ofereceu a Si mesmo. 28A Lei constitui sumos sacerdotes homens revestidos de fraqueza, mas a palavra do juramento, posterior à Lei, estabeleceu o Filho sumo sacerdote perfeito para sempre.
No capítulo 7 o autor começa a desenvolver o tema antes anunciado (5, 10) de como Cristo foi “proclamado por Deus como Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisédec” (cf. 6, 20). Depois duma breve apresentação da figura misteriosa de Melquisédec (vv. 1-3), expõe, com diversos argumentos, a superioridade do seu sacerdócio sobre o dos filhos de Levi; estes, na pessoa do seu antepassado Abraão, pagaram-lhe o dízimo e receberam dele a bênção (vv. 4-10; cf. Gn 14, 17-20); por outro lado, o sacerdócio de Jesus, que pertence à tribo de Judá, não se pode entender na continuidade com o sacerdócio judaico, que passava de pais a filhos só dentro da tribo de Levi; mais ainda, ao ficar cumprida em a profecia do Salmo 110, 4, fica abolida, e com juramento, a velha ordem de coisas no respeitante ao sacerdócio (vv. 11-22). O texto da nossa leitura dá o cheque mate: o sacerdócio da antiga Lei era tão passageiro como os homens que o exerciam; ao serem muitos em número revelavam como era efémero e ineficaz, a par do sacerdócio de Jesus, que, como “permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno” (vv. 23-24). Note-se, a propósito, que na Igreja o sacerdócio ministerial é isso mesmo, ministerial: é uma especial participação no sacerdócio de Cristo para agir em seu nome e na sua pessoa enquanto Cabeça da Igreja; visibiliza-o, mas sem acrescentar nada ao seu sacerdócio; de modo nenhum se pode pensar que haja qualquer espécie de sucessão no seu sacerdócio único, sumo e eterno. 25-28 E a exposição termina com uma bela síntese, que é uma entusiástica exaltação do sacerdócio de Cristo, “perfeito para sempre”, sobressaindo que é Ele que se oferece a si mesmo em sacrifício, “de uma vez para sempre”, em contraste com a multiplicidade de sacrifícios que precisavam de oferecer cada dia os sacerdotes do culto judaico. O valor e eficácia do sacrifício do Sumo Sacerdote da Nova Aliança é um tema que é aprofundado nos capítulos seguintes. Note-se que o sacrifício eucarístico não repete o único sacrifício de Cristo: “A Missa torna presente o sacrifício da cruz; não é mais um, nem o multiplica” (Ecclesia de Eucharistia, nº 12).
Evangelho São Marcos 12, 28b-34
Naquele tempo, 28baproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» 29Jesus respondeu: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. 31O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes». 32Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além d’Ele. 33Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios». 34Ao ver que o escriba dera uma resposta inteligente, Jesus disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». E ninguém mais se atrevia a interrogá-l’O.
A redacção de Marcos apresenta o interlocutor de Jesus como sendo um doutor da lei bem intencionado, a intervir numa típica discussão de escola, ao passo que, nos lugares paralelos de Mateus e Lucas, o doutor da Lei aparece com a intenção de pôr Jesus à prova. Há estudiosos que propendem para que se trate de dois casos diferentes – em Lucas aparece noutro contexto, o da parábola do bom samaritano –, e não dum simples arranjo redaccional ou divergência na tradição do mesmo facto (J. Schmid); de qualquer modo, Marcos optou por passar por alto a hostilidade e apresenta uma questão de escola, a mesma já posta uns 20 anos antes ao célebre mestre Hillel, a que este respondeu com uma bela síntese: “aquilo de que não gostas para ti, isso não o faças ao teu próximo” (Talmud; cf Mt 7, 12). É compreensível a importância do problema, se temos em conta que então se contavam 613 preceitos da Lei, discutindo-se quais eram os graves e quais os leves no emaranhado de 365 proibições (correspondentes ao número dos dias do ano!) e 248 prescrições positivas (tantas quantos os ossos do corpo humano!). Jesus dá uma resposta, que constitui uma síntese original e libertadora, ligando, como nunca antes se tinha feito, os dois preceitos do amor a Deus (Dt 6, 4-5) e ao próximo (Lv 19, 18). 29-31 “O primeiro mandamento… O segundo…”. Embora inseparáveis, há nestes dois preceitos uma hierarquia: devemos amar a Deus mais do que a ninguém e dum modo incondicional; ao próximo – o segundo –, como consequência e efeito do amor a Deus. Se se amasse ao próximo por ele mesmo, e não por amor a Deus, esse amor impediria o cumprimento do primeiro mandamento e acabaria por deixar de ser autêntico amor ao próximo, pois entrar-se-ia pelo caminho do relativismo e do desinteresse pela salvação eterna dos outros e do da redução do próximo a uma determinada classe de pessoas (as que agradam ou oferecem vantagens…), ou do da equiparação ao amor a um animal de estimação. 34 “Não estás longe do Reino de Deus”. Embora o doutor da Lei pertencesse a um grupo hostil, nem por isso Jesus deixou de dialogar com ele, indo mesmo até ao ponto de o estimular à conversão definitiva com uma palavra amável de ânimo. Jesus não cataloga as pessoas pondo-lhes um rótulo, fichando-as por grupos, mas dirige-se às pessoas, tendo em conta quem é cada uma e buscando salvar todas as almas, independentemente do grupo a que pertençam.
1ª leitura 1 Reis 17,10-16
Naqueles dias, 10o profeta Elias pôs-se a caminho e foi a Sarepta. Ao chegar às portas da cidade, encontrou uma viúva a apanhar lenha. Chamou-a e disse-lhe: «Por favor, traz-me uma bilha de água para eu beber». 11Quando ela ia a buscar a água, Elias chamou-a e disse: «Por favor, traz-me também um pedaço de pão». 12Mas ela respondeu: «Tão certo como estar vivo o Senhor, teu Deus, eu não tenho pão cozido, mas somente um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na almotolia. Vim apanhar dois cavacos de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho. Depois comeremos e esperaremos a morte». 13Elias disse-lhe: «Não temas; volta e faz como disseste. Mas primeiro coze um pãozinho e traz-mo aqui. Depois prepararás o resto para ti e teu filho. 14Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: 'Não se esgotará a panela da farinha, nem se esvaziará a almotolia do azeite, até ao dia em que o Senhor mandar chuva sobre a face da terra'». 15A mulher foi e fez como Elias lhe mandara; e comeram ele, ela e seu filho. 16Desde aquele dia, nem a panela da farinha se esgotou, nem se esvaziou a almotolia do azeite, como o Senhor prometera pela boca de Elias.
Mais uma vez a leitura foi escolhida em função da viúva do Evangelho de hoje, cuja generosidade é louvada pelo Senhor, a maravilhosa generosidade dos pobres a dar lições a todos. 10 “Sarepta”. Cidade fenícia, a 15 Km a Sul de Sídon, onde havia fabricação de vidro e um porto marítimo. Para ali se tinha dirigido o profeta Elias, no início da sua vocação profética, por ordem divina, para escapar à perseguição real. “Elias” é um nome que significa “o meu Deus é Yahwéh”. Profeta orador, não escritor, ficou como tendo sido o maior dos profetas, o grande lutador pela causa de Yahwéh. Foi quem evitou que no reino do Norte a religião da Aliança tivesse sido extinta com a feroz perseguição da pagã Jezabel, filha do rei de Tiro, a qual dominou o seu marido, o rei Acab. “Uma viúva”, admirável pela sua fé e generosidade, embora estrangeira.
2ª leitura Hebreus 9, 24-28
24Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para Se apresentar agora na presença de Deus em nosso favor. 25E não entrou para Se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote que entra cada ano no Santuário, com sangue alheio; 26nesse caso, Cristo deveria ter padecido muitas vezes, desde o princípio do mundo. Mas Ele manifestou-Se uma só vez, na plenitude dos tempos, para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo. 27E, como está determinado que os homens morram uma só vez e a seguir haja o julgamento, 28assim também Cristo, depois de Se ter oferecido uma só vez para tomar sobre Si os pecados da multidão, aparecerá segunda vez, sem a aparência do pecado, para dar a salvação àqueles que O esperam.
O autor sagrado, depois de se ter referido ao sacrifício da antiga aliança no Sinai (vv. 18-23), enaltece a superioridade do sacrifício de Cristo, com que sela a nova e definitiva aliança. 24 “O próprio Céu” é aqui considerado como o verdadeiro santuário onde Cristo Sacerdote está sempre a interceder por nós, “em nosso favor” (aplicando-nos os frutos do seu sacrifício). O santuário de Jerusalém (especialmente o Santo dos Santos) não passa duma “figura do verdadeiro”, o Céu. É interessante notar como ao longo da epístola se fala do santuário de Jerusalém como de algo que ainda existe e cujo esplendoroso culto pode fascinar os judeus convertidos (talvez muitos até da classe sacerdotal: cf. Act 6, 7) a abandonarem a fé perante as dificuldades e perseguições. Se o templo já tivesse sido destruído, o hagiógrafo teria à disposição o melhor argumento a seu favor para demonstrar a superioridade do sacerdócio de Jesus. Daqui se pode concluir que o escrito é anterior ao ano 70. 25-26 “Diversas vezes: uma só vez”. Mais uma vez se fala do contraste entre os sacrifícios do Dia da Expiação, repetidos todos os anos, e o de Cristo, oferecido de uma vez para sempre por ser capaz de destruir o pecado, e não “com sangue alheio”, como no culto judaico, mas com o seu próprio sangue! 27 “Depois vem o julgamento”. O contexto parece sugerir que se trata do juízo final; mas a existência do chamado juízo particular, após morte, pertence à doutrina católica da chamada “escatologia intermédia” (cf. Catecismo da Igreja Católica, nº 1021-1022).
Evangelho Forma longa: São Marcos 12, 38-44 Forma breve: São Marcos 12, 41-44
Naquele tempo, 38Jesus ensinava a multidão, dizendo: «Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, 39de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. 40Devoram as casas das viúvas com pretexto de fazerem longas rezas. Estes receberão uma sentença mais severa». [41Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro a observar como a multidão deitava o dinheiro na caixa. Muitos ricos deitavam quantias avultadas. 42Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante. 43Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. 44Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver»].
O texto de hoje na sua forma longa põe em contraste a ostentação e a ganância dos escribas (vv. 38-40) com a generosidade duma anónima pobre viúva (v. 42). 41 “Arca do tesouro”. No Templo reconstruído por Herodes, o Grande, os cofres das ofertas ficavam no átrio das mulheres para onde se entrava do adro dos gentios através da Porta Formosa. Havia na parede 13 frestas por onde eram depositadas as ofertas, segundo os diversos destinos, sendo uma delas para as esmolas de devoção voluntária. Como era um sacerdote a colocar as esmolas na devida fresta era fácil observar quanto dava cada pessoa. 42 “Duas pequenas moedas”, o texto original diz que eram dois leptos, o nome grego da moeda mais pequena; S. Marcos, que escreve para cristãos de Roma, dá imediatamente o seu valor cambial em moeda romana: aquelas duas moedas perfaziam “um quadrante” (3 gramas de bronze). Como também S. Lucas, ele acentua a extraordinária generosidade da viúva ao dizer que dá duas moedas, pois bem podia ter dado só uma, mas deu as duas; “ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver”!
1ª leitura Daniel 12, 1-3
1Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande chefe dos Anjos, que protege os filhos do teu povo. Será um tempo de angústia, como não terá havido até então, desde que existem nações. Mas nesse tempo, virá a salvação para o teu povo, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus. 2Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e o horror eterno. 3Os sábios resplandecerão como a luz do firmamento e os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça brilharão como estrelas por toda a eternidade.
O texto, seleccionado em função do discurso escatológico do Evangelho, é tirado da segunda parte do livro de Daniel (7, 1 – 12, 13), que consta de quatro visões. Estamos no desenlace final das guerras que se seguem à última visão: após a derrota de Antíoco IV Epífanes, “então chegará o fim e não haverá ninguém que lhe preste auxílio” (11, 45). A partir da “angústia” das guerras da época, o autor, à maneira do estilo apocalíptico, leva-nos a dar o salto para os tempos finais e decisivos, dos quais a situação presente não é mais do que um prenúncio e um prelúdio: a salvação final virá de Deus, trazida pela mediação de Miguel, o anjo protector do povo de Israel, “o grande chefe dos Anjos”, uma figura que também aparece em Dan 10, 13.20-21 e em Apoc 12, 7-9; o seu nome hebreu, “mi-ka-El”, significa “quem como Deus?”; de patrono do antigo povo de Deus, passou a patrono da Igreja, o novo Israel de Deus, que lhe presta especial culto. A salvação aparece como reservada “para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus”, isto é, para aqueles que permaneceram fiéis a Deus. O autor sagrado situa-nos numa perspectiva nova, que representa um grande avanço relativamente à pregação dos profetas, que, ao falarem de ressurreição, visavam uma ressurreição colectiva do povo, a sua restauração (cf. Is 26, 19; Ez 37); o livro 2º dos Macabeus também fala duma ressurreição individual, que não é a pura imortalidade helénica, mas limita-se a referi-la ao caso dos mártires (2 Mac 7, 9-14.29; 12, 43-44). Dan 12, 2 fala de uma ressurreição com duas sortes opostas e definitivas: para “uns será para a vida eterna”, para outros será “para a vergonha e o horror eterno” (cf. Jo 5, 29; Mt 25, 34.41.46).
2ª leitura Hebreus 10, 11-14.18
11Todo o sacerdote da antiga aliança se apresenta cada dia para exercer o seu ministério e oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca poderão perdoar os pecados. 12Cristo, ao contrário, tendo oferecido pelos pecados um único sacrifício, sentou-Se para sempre à direita de Deus, 13esperando desde então que os seus inimigos sejam postos como escabelo dos seus pés. 14Porque, com uma única oblação, Ele tornou perfeitos para sempre os que Ele santifica. 15Onde há remissão dos pecados, já não há necessidade de oblação pelo pecado.
O texto é extraído da 1ª parte do capítulo 10 da Hebreus, onde se faz uma recapitulação do discurso sobre o sacerdócio de Cristo, em concreto, no que diz respeito à perfeição e eficácia do seu sacrifício (vv. 1-18). 11-14 “Cristo, ao contrário, (...) sentou-se para sempre”. Esta expressão procede do Salmo 110 (109), 1; e o gesto de sentado aparece em contraposição com o gesto dos sacerdotes da Antiga Lei, que, de pé, “cada dia”, oficiavam no Templo, denunciando assim a sua própria insuficiência. Mas Cristo, consumada a sua obra salvadora de uma vez para sempre, “tendo oferecido pelos pecados um único sacrifício”, pôde sentar-se como quem já cumpriu a sua missão, aguardando que os frutos do seu sacrifício cheguem a todos e que os seus inimigos, que resistem a beneficiar da Redenção, sejam definitivamente sepultados no seu próprio fracasso (notar como são os inimigos a cair vencidos sob os pés de Cristo, não é Ele a desencadear um ataque avassalador). A superioridade e perfeição do sacerdócio de Cristo – sacerdote eterno – está patente em não precisar de oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios rituais (v. 11); assim, “tornou perfeitos para sempre os que Ele santifica” (v. 14). 18 A exposição doutrinal fecha-se com uma frase que diz tudo: “Onde há remissão dos pecados, já não há necessidade de oblação pelo pecado”, isto é, caducou o culto levítico. É em vão que alguns se apoiaram aqui, como os protestantes, para negar o carácter sacrificial da Santa Missa, pois esta não é algo que se soma ao sacrifício da Cruz, constituindo mais outro sacrifício; ela é um sacrifício relativo, que torna presente e aplica o mesmo e único sacrifício do Calvário. Com efeito, como ensina João Paulo II, “este sacrifício é tão decisivo para a salvação do género humano que Jesus realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos como se tivéssemos estado presentes” (Ecclesia de Eucharistia, 11).
Evangelho São Marcos 13, 24-32
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 24«Naqueles dias, depois de uma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade; 25as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas. 26Então, hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória. 27Ele mandará os Anjos, para reunir os seus eleitos dos quatro pontos cardeais, da extremidade da terra à extremidade do céu. 28Aprendei a parábola da figueira: quando os seus ramos ficam tenros e brotam as folhas, sabeis que o Verão está próximo. 29Assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do homem está perto, está mesmo à porta. 30Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça. 31Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão. 32Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém os conhece: nem os Anjos do Céu, nem o Filho; só o Pai».
Temos, a terminar o ano litúrgico, uma parte final do chamado discurso escatológico (sobre o fim dos tempos), ou apocalíptico (de revelação de coisas ocultas), comum aos três Sinópticos. É um discurso algo enigmático, o que ajuda a pôr em evidência o seu ensinamento central, que não é deprimente e catastrófico (como por vezes se entendeu), mas de apelo à esperança e à vigilância: “o Filho do homem está perto” (v. 29); “tomai cuidado, vigiai!” (v. 33; cf. vv. 9.23.35.37). 24 “Depois de uma grande aflição”, isto é, a que antes foi descrita (vv. 14-20): a ruína de Jerusalém (figura do fim do mundo), ou mais provavelmente o aparecimento de falsos messias e falsos profetas (vv. 21-23). 24-25 “Sol…, Lua…, estrelas…, forças do Céu...” Jesus, servindo-se dum estilo corrente na época, o apocalíptico, apresenta o próprio cosmos a estremecer perante o Supremo Juiz; as convulsões cósmicas eram um artifício para anunciar uma próxima e decisiva intervenção de Deus, o Senhor do Universo (cf. Joel 2, 10; 3, 3-4). 26 “O Filho do homem vir sobre as nuvens”, numa alusão ao célebre texto de Daniel 7, 13. A imagem das nuvens exprime admiravelmente a majestade divina de Jesus: Ele aparecerá à vista de todos como Deus que é. Com efeito, no A. T. Deus revela-se no claro-escuro das nuvens (estas ocultam-no e revelam-no), as quais também constituem como que o seu carro (Is 19, 1; Salmo 104 (103), 3) e a sua tenda (2 Sam 22-12; Salmo 18 (17), 12). 28-31 “Aprendei…”. Os discípulos de Jesus, imbuídos das ideias judaicas do tempo, estavam incapacitados para distinguir duas realidades distintas de que Jesus lhes acabava de falar: a destruição de Jerusalém (vv. 5-20) e o fim do mundo (vv. 21-27), uma vez que, sendo Jerusalém a capital messiânica de todo o mundo (cf. Is 2, 2-5), esta seria tão indestrutível como o próprio reino messiânico. Por isso, Jesus sente necessidade de ser ainda mais explícito: “não passará esta geração sem que tudo isto aconteça”, a saber, o que se refere à destruição de Jerusalém; e é ainda mais enérgico ao acrescentar: “passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” De facto, não tardou que estalasse a guerra judaica contra os Romanos, 26 anos depois, quando o procurador Floro exigiu uma grande soma tirada do próprio tesouro do Templo. Nero encarregou Vespasiano de esmagar a rebelião; mais tarde, o seu filho Tito, após cinco meses de heróica resistência judaica, conquista Jerusalém, nos finais de Agosto do ano 70. Segundo conta Flávio José, Tito queria poupar o santuário da destruição, mas quando o viu a arder, não podendo dominar o incêndio, mandou que fosse totalmente arrasado, não tendo ficado até hoje pedra sobre pedra (cf. Mc 13, 2); as muralhas que hoje restam não são as do Templo, mas as dos muros que cercavam o adro exterior (átrio dos gentios). 32 “Esse dia e essa hora ninguém os conhece... nem o Filho”. Passagem que se refere ao fim do mundo; já nos profetas habitualmente era designado deste modo: “aquele dia”. Em Is 8, 9; Jer 4, 23-26; Ez 32, 7-8; Joel 2, 1.11; 4, 15-16; Ag 2, 6; etc., este dia é o momento histórico da intervenção de Deus a favor do seu povo, em que salvará os que lhe são fiéis e castigará os que se lhe opõem; sobretudo a partir de Daniel (9, 26; 11, 27; 12-13), este “dia” passa a designar o fim do mundo precedido de uns tempos finais. Mas como é possível que Jesus não conheça este momento? Não parece correcto dizer que Jesus o ignorava enquanto homem, uma vez que não podia ignorar o que se relacionava com a sua missão de Salvador e Juiz. A afirmação de Cristo, porém, justifica-se pelo facto de se tratar de um conhecimento que não fazia parte daquele conjunto de coisas que tinha missão de revelar: era como se não conhecesse esse dia e hora.
Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
1ª leitura Daniel 7, 13-14
13Contemplava eu as visões da noite, quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um filho do homem. Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença. 14Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos e nações O serviram. O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído.
A leitura é tirada da 2ª parte do livro de Daniel, a parte profética (7 – 12). O contexto é a descrição, em estilo apocalíptico, do julgamento divino, com três quadros: a apresentação do Juiz, Deus, (vv. 9-10); a destruição do reino inimigo (vv. 11-12); e o estabelecimento do reino de Deus, donde são tirados os vv. 13-14, em forma poética, que correspondem à leitura de hoje. 13 “Alguém semelhante a um filho de homem”. Os exegetas, partindo da análise do contexto (vv. 18.22-27), dizem que o sentido literal directo desta expressão visa não um indivíduo singular, mas o povo dos “santos do Altíssimo” (v. 18). Contudo, como sucede frequentemente, o que é dito em geral acerca de todo o povo entende-se, de um modo eminente (sentido eminente), como referido a uma personagem singular, nomeadamente o chefe do povo, neste caso o próprio Messias. O judaísmo assim o entendeu, (como também as palavras de Jesus em Mt 24, 30; 26, 64); discute-se, porém, se “Filho do Homem” é um verdadeiro título cristológico (assim parece em Lc 1, 32-33; Mt 8, 20; 24, 30; 26, 64; Apoc 1, 7; 14, 14), ou uma maneira discreta de Jesus se referir a si mesmo (uma figura chamada asteísmo: filho do homem equivalendo a este homem); uma coisa, porém, é certa: este não era um título com que Jesus fosse tratado nem pelo povo da Palestina, nem pela Igreja primitiva; a expressão aparece sempre nos lábios de Jesus; fora dos Evangelhos, só se encontra em Act 7, 56 e em Apoc 1, 13; 14, 14. Os que a entendem como um título cristologico sublinham o seu carácter simultaneamente humilde e glorioso, humano e divino. De qualquer modo, diante de Caifás Jesus cita esta passagem de Daniel referindo-a a si (cf. 26, 24). “O Ancião venerável” (à letra, “o antigo em dias”): é uma forma antropomórfica de falar de Deus eterno (cf. 36, 26; Salm 102(101), 25-26; Is 41, 4).
2ª leitura Apocalipse 1, 5-8
5Jesus Cristo é a Testemunha fiel, o Primogénito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra. Aquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado 6e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus seu Pai, a Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amen. 7Ei-l'O que vem entre as nuvens, e todos os olhos O verão, mesmo aqueles que O trespassaram; e por sua causa hão-de lamentar-se todas as tribos da terra. Sim. Amen. 8«Eu sou o Alfa e o Ómega», diz o Senhor Deus, «Aquele que é, que era e que há-de vir, o Senhor do Universo».
Estes breves versículos fazem parte da saudação inicial do autor, uma saudação enviada da parte do Deus uno e trino, particularmente de Jesus Cristo. Ao referir-se a Cristo, apresenta-o numa rica síntese, como hoje se diz, who is who, quem é Ele, e o que Ele fez por nós. Ele é o Senhor da História! Logo de início fica bem vincado o colorido litúrgico da obra, levando-nos a sentir na terra o ecoar das aclamações celestes a Cristo morto e ressuscitado; logo de início temos dois “Amen” (vv. 6.7), a resposta litúrgica que continua a ecoar na Igreja orante e celebrante. 5-7 “Testemunha fiel” da verdade de Deus: Jesus é testemunha – mártir (assim se diz em grego) – por antonomásia, uma vez que pela verdade se deixou matar (cf. Jo 18, 37; 1 Tim 6, 13). “O primogénito dos mortos” (cf. Col 1, 18), com efeito, antes de Cristo ninguém ressuscitou para não tornar a morrer. O Aquinatense explica que, pela sua Ressurreição, Jesus é a causa meritória e exemplar e causa eficiente instrumental da nossa própria ressurreição (cf. 1 Cor 15, 2a-23). Esta expressão implica uma imagem curiosa em que a morada dos mortos – o Xeol – é considerada corno uma mulher gravida e a ressurreição corno um parto (cf. 4 Esdr 4, 3342). “O Soberano dos reis da Terra”, com uma realeza que é própria de Yahwéh (cf. os Salmos reais), com quem Jesus se identifica enquanto Deus. Parece haver nesta expressão uma certa réplica de protesto em face do imperador romano que se arrogava uma soberania universal e absoluta. “Fez de nós um reino de sacerdotes para Deus”, isto é para Lhe dar glória e louvor, como se vê adiante em 5, 9-10; vejam-se os lugares paralelos de Ex 19, 6 e de 1 Pe 2, 5.9 (cf. Vaticano II, LG 10). “Ei-lo que vem sobre as nuvens...” Cf. 1ª leitura (Dan 7, 13) e Zac 12, 10.14; Jo 19, 37; Mt 24, 30. 8 “Eu sou o Alfa e o Ómega”. Com a referência à primeira e última letra do alfabeto grego, o autor quer dizer que Deus tudo abarca no tempo (o passado, o presente e o futuro) e no espaço (Senhor do Universo – pantokrátor). Este título é igualmente dado a Cristo em Apoc 22, 13.
Evangelho São João 18, 33b-37
Naquele tempo, 33bdisse Pilatos a Jesus: «Tu és o Rei dos judeus?» 34Jesus respondeu-lhe: «É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?» 35Disse-Lhe Pilatos: «Porventura eu sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a mim. Que fizeste?» 36Jesus respondeu: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui». 37Disse-Lhe Pilatos: «Então, Tu és Rei?» Jesus respondeu-lhe: «É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».
A leitura de hoje deixa claro em que consiste a realeza de Jesus, na maneira como se comporta em face da acusação feita à autoridade imperial. As razões para as autoridades judaicas eliminarem Jesus eram de natureza religiosa, mas Ele é denunciado ao prefeito romano – a quem não interessavam as questões de natureza religiosa –, como um conspirador político: “rei dos judeus”. Jesus responde a Pilatos com uma pergunta: “É por ti que o dizes, ou foram outros…?” (v. 34), o que não é um subterfúgio, mas um meio de esclarecer bem qual o ponto de vista para falar de Si como rei. A resposta de Pilatos – “Mas serei eu judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a mim” (v. 35) – mostra como ele apenas se interessa por questões de natureza política, não pretendendo imiscuir-se em questões de natureza religiosa (“serei eu judeu?”). Mas Jesus, que não podia negar a sua realeza, distancia-se igualmente da perspectiva nacionalista judaica, afirmando o carácter transcendente da sua realeza (cf. Rom 14, 17), o que punha a sua missão ao abrigo de qualquer suspeita: “o meu reino não é deste mundo” (v. 36); visa manifestar a verdade e está ao serviço dela (v. 37). E a prova cabal de que o seu reino não é terreno é que não tinha homens armados a lutar por Ele: então, “os meus guardas lutariam…” (v. 36). O reinado de Deus implica uma submissão, mas esta não colide com qualquer autoridade humana, nem rebaixa o homem na sua dignidade, pois é entrar no âmbito da verdade, é submeter-se à Verdade, que é Jesus-Deus, e “a Verdade liberta” (Jo 8, 32). O reinado universal de Cristo é um “reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz” (prefácio da Missa).
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