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"et quasi flos rosarum in diebus vernis" (Sir. 50,8) 

 

 

 

CELEBRAÇÃO - ANO B

1.º Dom  Advento a 8.ºDom Comum

Quarta-feira de Cinzas a  Páscoa

2.º Dom da Páscoaa Dom de Pentecostes

Santíssima Trindade a 17º Dom Comum  

Transfiguração do Senhor a 26.º Dom Comum

27.º Dom Comum a Cristo, Rei

 

Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - Quarta-feira de Cinzas a Páscoa

 

Quarta-feira de Cinzas

Joel 2, 12-18

2 Coríntios 5, 20 – 6, 2

 

1º Domingo da Quaresma

Génesis 9, 8-15

1 São Pedro 3, 18-22

 

2.º Domingo da Quaresma

Génesis 22, 1-2. 9a.10-13.15-18 Romanos 8, 31b-34 

São Marcos 9, 2-10

 

3.º Domingo da Quaresma

Êxodo 20, 1-17 

1 Coríntios 1, 22-25

São João 2, 13-25

 

Anunciação do Senhor

Isaías 7, 10-14 8, 10

Hebreus 10, 4-10

Lucas 1, 26-38

 

4.º Domingo da Quaresma

2 Crónicas 36,14-16.19 23

Efésios 2, 4-10

São João 3, 14-21

 

5.º Domingo da Quaresma

Jeremias 31, 31-34

Hebreus 5, 7-9

São João 12, 20-33

 

Domingo de Ramos

Procissão

São Marcos 11,1-10

ou

São João 12, 12-16

Missa

Isaías 50, 4-7

Isaías 50, 4-7

Filipenses 2, 6-11

São Marcos 14, 1-15, 47

 

Quinta Feira Santa

Êxodo 12, 1-8.11-14

1 Coríntios 11, 23-26

São João 13, 1-15

 

Sexta-Feira Santa (Celebração da Paixão do Senhor)

Isaías 52, 13-15 – 53, 1-12

Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9

São João 18, 1-40; 19, 1-42

 

Páscoa da Ressurreição do Senhor - Missa da Vigília

Romanos 6, 3-11

São Marcos 16, 1-7

 

Páscoa da Ressurreição do Senhor (Missa do Dia)

Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43

Colossenses 3, 1-4  (de manhã)

1 Coríntios 5, 6b-8  (de tarde)

São João 20, 1-9   (de manhã) São Lucas 24, 13-35   (de tarde)

Algumas reflexões sobre o valor dos testemunhos acerca da Ressurreição de Jesus

 

S. José, esposo da Virgem Maria

2 Samuel  7, 4-5a.12-14a.16

Romanos 4, 13.16-18.22

São Mateus 1, 16.18-21.24a

Evangelho alternativo São Lucas 2, 41-51a

 

in Celebração Litúrgica

Quarta-feira de Cinzas

 

1ª Leitura Joel 2, 12-18

 

12Diz agora o Senhor: “Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. 13Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. 14Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? 15Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. 16Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. 17Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’”. 18O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.

 

Começa a Quaresma com um forte apelo à conversão e com a esperança no perdão do Senhor, extraído do final da primeira parte do livro do profeta Joel (1, 2 – 2, 17). Num estilo solene e apocalíptico, fala de uma invasão de gafanhotos medonhos, mas sem ficar claro se fala em sentido próprio ou figurado. Se a obra é anterior ao exílio de Babilónia, aludiria a invasões de exércitos inimigos; se é posterior, tratar-se ia de alguma praga agrícola. Joel não se detém a denunciar os pecados concretos do povo, como é costume dos grandes profetas. Diante da horrível calamidade  apresentada como castigo divino, o profeta apela para uma sincera conversão, a começar pela dos sacerdotes (1, 13).

12-13 “Convertei-vos a Mim de todo o coração”. Não basta uma manifestação exterior de dor (rasgar as vestes – v. 13 – era um típico gesto de grande dor ou indignação, entre os judeus: rasgavam violentamente a túnica exterior, do pescoço até à cintura, cf. Gn 37, 29; Mt 26, 65). O coração não significa, na linguagem bíblica, apenas a afectividade. mas toda a interioridade do homem, todas as suas virtualidades, a sua inteligência e a sua vontade. Deus também nos convida a nós, mais fortemente neste tempo da Quaresma, a voltarmo-nos para Ele de todo o coração, isto é, com todas as veras da nossa alma e a rasgar o nosso coração, a dilacerá-lo pela contrição que é essa profunda mágoa de ter ofendido ao Senhor infinitamente bom. Mas esta dor não é dor angustiante e desesperada, porque é cheia de esperança no perdão, pois Ele “é clemente e compassivo, paciente e misericordioso”. A Vulgata e a Neovulgata têm “benignus et misericors est, patiens et multæ misericordiæ”. “Compassivo”, isto é, dotado de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo hebraico “rahum” é derivado de “réhem”(ventre materno), o que sugere que Deus tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para connosco; assim, o seu amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós, compreende e facilita a reconciliação. Por seu lado, a expressão “misericordioso” à letra, “de muita misericórdia” deixa ver que  a misericórdia do Senhor (“hésed”) não é uma bondade qualquer, é a bondade de Quem se mantém fiel a Si próprio (cf. Ez 36, 22); daqui a frequente hendíadis da S. E.: “amor e fidelidade” (“hésed v-émet”). Este atributo divino tem na sua origem bíblica um matiz jurídico: a fidelidade de Deus à Aliança; uma fidelidade tal que, após o pecado, se mantém, embora já não dentro do mero âmbito legal dum pacto bilateral. Com efeito, mesmo quando o homem rompe a Aliança, Deus continua a manter-se Fiel a Si próprio, ao seu amor gratuito, ao seu dom inicial (cf. Rom 11, 29). O amor de Deus é mais forte do que o nosso desamor, as nossas traições e pecados: “jamais algum pecado do mundo poderá superar este Amor” (João Paulo II em Fátima: 13.05.82; cf. Enc. Dives in misericordia).

14 “Vai reconsiderar”. A expressão é um antropomorfismo com que se fala de Deus à maneira humana, mas de facto Deus não pode reconsiderar e mudar; se, em face da nossa penitência, Deus já não nos castiga e atende às nossas súplicas, a mudança apenas se dá em nós, não em Deus que, sempre tudo tem presente e tudo dispõe, contando com as nossas mudanças. O Profeta fala de Deus à maneira humana, ao dizer também que “Ele se encheu de zelo pela sua terra” (v. 18), em face do apelo feito ao brio do Senhor, numa súplica tão humilde como ousada da parte dos seus “ministros” (parce Domine, parce populo tuo: v. 17).

 

2ª leitura 2 Coríntios 5, 20 – 6, 2

20Irmãos: Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus. 6,1Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. 2Porque Ele diz: “No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio”. Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação.

 

S. Paulo, ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15).

20 “Reconciliai-vos com Deus”. É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S. Paulo, consciente de que “é Deus quem vos exorta por nosso intermédio” ; os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são “embaixadores de Cristo” , não apenas “ao seu serviço” , mas actuando “em vez de Cristo e por autoridade de Cristo”; o próprio texto original grego parece dá-lo a entender com a preposição hyper  (em favor de), usada com o sentido da preposição antí  (em vez de: cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.).

21 “Deus identificou-o com o pecado”, à letra, Deus fê-lo pecado , uma expressão extraordina­ria­mente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (a raça humana), para os expiar sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de “violação da justiça” e de “sacrifício de reparação pelo pecado”; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos “justiça de Deus”, isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

6, 2 “Este é o tempo favorável”. S. Paulo cita aqui Isaías 49, 8, em que se classifica assim o momento em que aprouve à misericórdia divina libertar os israelitas do cativeiro. O Apóstolo diz que “agora” é que é o tempo realmente favorável, o tempo em que Jesus Cristo nos redimiu do cativeiro do pecado (cf. Gal 4, 4-5). A expressão paulina é ainda mais expressiva e rica do que a da versão grega de Isaías (LXX): agora é que é o momento singularmente oportuno, em que apraz à misericórdia divina realizar a nossa salvação. Não há dúvida que a Liturgia pretende fazer uma acomodação deste texto ao tempo santo da Quaresma.

 

Evangelho 2 Coríntios 5, 20 – 6, 2

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1“Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa”.

 

Os versículos da leitura evangélica são tirados do Sermão da Montanha de S. Mateus; por focarem práticas tipicamente judaicas, não têm paralelos nos outros evangelistas, que se dirigem a cristãos na sua maioria vindos dos gentios.

1 “As vossas boas obras” letra, a vossa justiça ), isto é, os actos tradicionais da boa piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum. Jesus de modo algum os suprime ou diminui o seu valor, pelo facto de serem actos de piedade pessoal individual, mas exige que todos estes actos se façam sempre com rectidão de intenção, isto é, com uma sincera piedade, com o fim de agradar a Deus, e não por ostentação, ou para se receber o aplauso humano.

6 “Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto”. Segundo estas palavras de Jesus, desde crianças, fomos ensinados a rezar não apenas comunitariamente, mas também, a sós: “no teu quarto”. O Senhor ensina aqui a necessidade da oração individual (o que não quer dizer individualista). Deus chama os homens à salvação, fazendo-os entrar dentro do Povo de Deus, a sua Igreja, mas chama-os um a um ( nominatim: Jo 10, 3); daqui que são imprescindíveis tanto a oração púbica, que manifesta o carácter de família e povo que somos em Cristo, como a oração a sós, que manifesta a resposta pessoal e intransferível de cada um de nós ao seu Pai celeste. Por sua vez, Jesus não se limitou a pregar a necessidade da oração individual, pois Ele deu este mesmo exemplo (cf. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; 6, 12; 9, 18; 11, 1.28-29), que foi seguido pelos Apóstolos (cf. Act 10, 9-16). Também a experiência pessoal de todos os santos e dos que tomam a sério a fé cristã nos diz que é imprescindível este tipo de oração, que consiste em se recolher para, a sós, falar com Deus, frequentemente. A esta oração recolhida e íntima nos convida hoje o Senhor e a Liturgia nesta Quaresma, que agora começa.

 

1º Domingo da Quaresma

 

1ª Leitura Génesis 9, 8-15

 

8Deus disse a Noé e a seus filhos: 9«Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência 10e com todos os seres vivos que vos acompanham: as aves, os animais domésticos, os animais selvagens que estão convosco, todos quantos saíram da arca e agora vivem na terra. 11Estabelecerei convosco a minha aliança: de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio e nunca mais um dilúvio devastará a terra». 12Deus disse ainda: «Este é o sinal da aliança que estabeleço convosco e com todos os animais que vivem entre vós, por todas as gerações futuras: 13farei aparecer o meu arco sobre as nuvens, que será um sinal da aliança entre Mim e a terra. 14Sempre que Eu cobrir a terra de nuvens e aparecer nas nuvens o arco, 15recordarei a minha aliança convosco e com todos os seres vivos e nunca mais as águas formarão um dilúvio para destruir todas as criaturas».

 

A aliança de que fala o texto não é ainda a que veio a ser feita com o povo escolhido, mas é a chamada “aliança cósmica”, com toda a humanidade e com toda a obra da criação. Quando lemos o texto do dilúvio na Igreja – os estudiosos falam de duas fontes fundidas e entrelaçadas, a da tradição javista e a da tradição sacerdotal –, não devemos ficar parados ou perdidos nas questões histórico-literárias e nas interessantes semelhanças com outros relatos, ou mitos, de diversas culturas antigas que falam de cataclismos imemoriais do género. Como se lê em 2 Tim 3, 15-17, o que acima de tudo nos interessa no contacto com “toda a Escritura, inspirada por Deus”, é alcançar  “a sabedoria que conduz à salvação por meio da fé em Jesus Cristo”. É fácil de detectar “o ensino” que no texto nos é oferecido. Quando a humanidade se perde no pecado, transgredindo a lei impressa na obra da criação, a harmonia da própria da natureza transtorna-se, voltando ao caos inicial (cf. Gn 1, 2), e corre sério risco a subsistência do ser humano (lembrar o muito que se tem dito a propósito da Sida, que não é a vingança de Deus, mas é a própria natureza a vingar-se).  Na Sagrada Escritura o fenómeno do dilúvio tem a particularidade de não ser apresentado como fruto de caprichos maléficos e invejas dos deuses pagãos – assim era nos mitos sumérios e babilónicos –, mas como consequência do pecado e em ordem ao recomeço de uma nova era de regeneração e harmonia universal. A aliança a que dá lugar o dilúvio revela o verdadeiro interior de Deus para com a sua criatura: Ele é Pai providente que cuida carinhosamente de tudo o que criou, particularmente do homem; Deus, “mesmo quando castiga, não esquece a sua misericórdia” (cf. Habc 3, 2). O fundo mitológico do relato parece claro, mas também nos parece pouco, ao lermos este texto sagrado, deixarmo-nos ficar encerrados no acanhado horizonte do mito, quando o autor inspirado vai mais além: Yahwéh é um Deus ético e transcendente; o “castigo” do pecado (Gn 6, 6.12) não é resultante dum capricho, nem sequer duma ira desenfreada. Neste sentido, o autor já fez um primeiro trabalho de desmitização, apesar de manter a mesma linguagem antropomórfica do mito, chocante para a nossa mentalidade.

12-16 “O arco-íris” – fenómeno natural anterior ao dilúvio – adquire um significado simbólico. Ele é o sinal da benevolência divina, expressa em categorias de aliança, para com toda a criação; não é mais um tremendo arco de guerra (o termo hebraico, quéxet, é o mesmo), mas é sim o abraço de paz do Criador! Ainda que persistam na memória dos povos tremendas catástrofes, como o dilúvio, justo castigo do pecado, o ser humano não deve viver esmagado sob o pesadelo constante dos terrores que não podem deixar de sentir aqueles que ignoram a Revelação divina.

A Liturgia, ao apresentar este texto no começo da Quaresma, além de introduzir a 2.ª leitura, facilita-nos a animadora consideração da misericórdia divina, a qual permite que nos elevemos acima das nossas misérias e saiamos dos nossos pecados pela graça de Cristo, que nos chega particularmente através dos Sacramentos.

 

2ª Leitura 1 São Pedro 3, 18-22

 

Caríssimos: 18Cristo morreu uma só vez pelos pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito. 19Foi por este Espírito que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte 20e tinham sido outrora rebeldes, quando, nos dias de Noé, Deus esperava com paciência, enquanto se construía a arca, na qual poucas pessoas, oito apenas, se salvaram através da água. 21Esta água é figura do Baptismo que agora vos salva, que não é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso para com Deus de uma boa consciência, pela ressurreição de Jesus Cristo, 22que subiu ao Céu e está à direita de Deus, tendo sob o seu domínio os Anjos, as Dominações e as Potestades.

 

A 1ª Carta de Pedro, donde é tirada a leitura, parece ter como base uma catequese baptismal; aparece na liturgia de hoje em relação com a 1ª leitura, que fala do dilúvio, o qual é apresentado aqui como figura do Baptismo.

18 “Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito (cf. 1 Pe 2, 21.24; Rom 6, 10; Hbr 9, 28). Foi por este (Espírito) que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte…” A tradução procura oferecer aos fiéis que ouvem a leitura uma forma de entenderem um texto deveras difícil. O v. 18 pode entender-se: “morto” como homem, e “vivo” como Deus (cf. Rom 1, 4; 1 Tm 3, 16.), ou talvez se trate antes de uma formulação primitiva para exprimir que Jesus, ao morrer, abandonou de vez a sua condição mortal para passar a viver no seu estado glorioso e imortal.

19 “Pregar” sempre indica, no NT, a pregação da salvação. Esta pregação de Jesus “aos espíritos que estavam na prisão” é a referência bíblica mais clara à verdade professada no Credo acerca de Jesus que “desceu à mansão dos mortos” (cf. 1 Pe 4, 6; Rom 10, 6-7; Ef 4, 8-9; Apoc 1, 18; Mt 12, 40; Lc 23, 43; Act 2, 31) a anunciar-lhes a mensagem da salvação, segundo uns com a sua alma separada do corpo, segundo outros na sua nova condição gloriosa. Lembramos que a “mansão dos mortos” (o Xeol hebraico, o Hades grego, os Infernos em latim) representava o estado dos que tinham morrido, que se pensava ser num espaço interior da Terra. O autor, ao dizer que Jesus pregou (a salvação) também (kai, uma partícula a que o tradutor não valorizou) aos que… tinham sido outrora rebeldes … nos dias de Noé, parece querer dizer que até (kai) àquela gente, que na tradição bíblica era considerada como os maiores pecadores (cf. Gn 6, 5.11-12), chegou a salvação de Jesus: é o alcance universal da Redenção para todos os pecadores arrependidos (cf. 4, 6), por mais pecadores que tenham sido; a salvação é levada por Jesus a todos e não apenas à gente aqui nomeada dos tempos de Noé, como sendo o tipo da gente mais perversa, mas certamente arrependida dos seus pecados (argumentação a fortiore).

No entanto, esta passagem da pregação de Jesus aos espíritos cativos é muito obscura e, para além da interpretação tradicional, que a entende como a descida de Jesus aos Infernos, ou Mansão dos Mortos, para levar para o Céu todas as almas que aguardavam a hora da redenção, deu aso às mais diversas e desacertadas interpretações: a) para uns seria uma referência à salvação de certos condenados que se salvaram com a descida de Cristo ao Inferno (assim pensou Orígenes, mas a Igreja reprovou esta opinião); b) para Sto. Agostinho (fazendo uma violência inaceitável ao texto) refere-se ao Verbo, que, antes da Incarnação, através dos avisos de Noé, se dirigiu àqueles ímpios cativos da ignorância e da perversão; c) para uns poucos (em especial alguns protestantes), estes “espíritos cativos” seriam anjos caídos (cf. v. 22), a quem Cristo teria convencido da sua condenação definitiva; d) até houve quem conjecturasse , mas sem ter tido aceitação, que a expressão “neste também”  (em grego: en ô kai), ao admitir a leitura “Henoc também” (em grego: Enôc kai), se referia ao patriarca anterior ao dilúvio, que, segundo Gn 5, 24, não morreu e, segundo a literatura apócrifa, proclamou a condenação aos anjos rebeldes. Na nossa tradução da Nova Bíblia da Difusora Bíblica traduzimos en ô como sendo uma expressão adverbial: “então” (e não “neste”, referido a “espírito”, como tem a tradução litúrgica).

20 “Se salvaram através da água”: Noé, a mulher, 3 filhos e 3 noras (8 pessoas, sem contar os netos: cf Gn 6 – 9). Como se vê, a água aqui não é tomada no seu aspecto de castigo e destruição, como uma água mortífera, mas como uma água salvadora, um meio de os sobreviventes se salvarem, navegando através da água. É de notar um deslizamento semântico na preposição grega diá do sentido local – através de – para o sentido instrumental – por meio de –, de maneira a pôr em evidência um simbolismo oculto: a água do dilúvio é a figura (o tipo) do “Baptismo”, o qual é a autêntica realidade (em grego: o antitipo) “que agora vos salva”. Com efeito, se o Baptismo salva, não é pelo facto de limpar a sujidade do corpo, mas é “pela ressurreição de Jesus” (v. 21), quando a Ele se adere pela fé concretizada nas promessas do Baptismo, isto é, “o compromisso para com Deus de uma boa consciência” (v. 22).

22: “Subiu ao Céu” é uma clara referência à Ascensão de Jesus, bem atestada no N. T., e frequente nos Escritos Paulinos (Mc 16, 19; Lc 24, 50-51; Jo 6, 62; Act 1, 33-34; Rom 8, 34; ; Ef 1, 20; Col 3, 1; Hebr 1, 3; 8, 1; 10, 12; 12, 2). “E está à direita de Deus” exprime a suma dignidade de Cristo, acima de todas as criaturas, bem como o seu domínio sobre todas elas, incluindo as criaturas mais elevadas e invisíveis, isto é, o mundo dos anjos, “Anjos, Dominações e Potestades”, seres que também em S. Paulo englobam vagamente espíritos bons e maus, não sendo fácil estabelecer sempre a distinção. Tendo em conta sobretudo 1 Cor 15, 24 e Col 2, 15, Dominações e Potestades pode ser uma alusão a espíritos maus. As hierarquias angélicas, estabelecidas a partir destes nomes e outros que aparecem no N. T., oferecem pouca segurança e têm mais em conta a literatura apócrifa intertestamentária do que os dados da Revelação divina.

 

Evangelho 1 São Pedro 3, 18-22

 

Naquele tempo, 12o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. 13Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. 14Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: 15«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

 

Todos os anos temos no 1º Domingo da Quaresma o texto evangélico das tentações de Jesus; neste ano B, temo-las na forma mais simples, desprovida de qualquer espécie de encenação, a do Evangelista do ano, S. Marcos.

13 “Esteve no deserto 40 dias”. A nossa Quaresma recorda esses dias. S. Marcos não se refere ao jejum do Senhor, mas apenas às tentações, e apenas dum modo genérico – “era tentado. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-no” (cf. Mt 4, 1-11). Satanás (em hebraico, “xatan”) significa adversário, acusador (em grego, “diábolos”, caluniador. As tentações do demónio visavam desviar Jesus da sua missão, com a sedução do protagonismo para vir a ser um messias milagreiro, espectacular e ambicioso. O Evangelho põe em evidência o maravilhoso exemplo do Senhor: um exemplo de humildade, ao sujeitar-se aos ataques do demónio, e de fortaleza, ao resistir decididamente, sem a mais pequena vacilação ou cedência. Vem a propósito o belo comentário de Sto. Agostinho, que se lê no Ofício de Leituras: “A nossa vida, enquanto somos peregrinos na terra, não pode estar livre de tentações, e o nosso aperfeiçoamento realiza-se precisamente através das provações. Ninguém se conhece a si mesmo, se não for provado; ninguém pode receber a coroa, se não tiver vencido; ninguém pode vencer, se não combate; e ninguém pode combater, se não tiver inimigos e tentações. Bem poderia Ele ter mantido o demónio longe de Si; mas se não fosse tentado, não nos teria ensinado a vencer a tentação” (Enar. in Ps. 60).  

  

2.º Domingo da Quaresma

 

1ª Leitura Génesis 22, 1-2.9a.10-13.15-18

 

1Naqueles dias, Deus quis pôr à prova Abraão e chamou-o: «Abraão!» Ele respondeu: «Aqui estou». 2Deus disse: «Toma o teu filho, o teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar. 9aQuando chegaram ao local designado por Deus, Abraão levantou um altar e colocou a lenha sobre ele. 10Depois, estendendo a mão, puxou do cutelo para degolar o filho. 11Mas o Anjo do Senhor gritou-lhe do alto do Céu: «Abraão, Abraão!» «Aqui estou, Senhor», respondeu ele. 12O Anjo prosseguiu: «Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças mal algum. Agora sei que na verdade temes a Deus, uma vez que não Me recusaste o teu filho, o teu filho único». 13Abraão ergueu os olhos e viu atrás de si um carneiro, preso pelos chifres num silvado. Foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto, em vez do filho. 15O Anjo do Senhor chamou Abraão do Céu pela segunda vez 16e disse-lhe: «Por Mim próprio te juro – oráculo do Senhor – já que assim procedeste e não Me recusaste o teu filho, o teu filho único, 17abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar, e a tua descendência conquistará as portas das cidades inimigas. 18Porque obedeceste à minha voz, na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra».

 

Como observa The New Jerome Biblical Commentary, p 25, “esta história é uma obra-prima, ao apresentar Deus como o Senhor cujas exigências são absolutas, cuja vontade é inescrutável e cuja palavra final é benevolência. Abraão deixa ver a grandeza moral do fundador de Israel, em face de Deus, ao querer obedecer à palavra de Deus em toda a sua misteriosa severidade. Não há aqui as volúveis evasivas de Abraão (cf. cap. 13 e 21); ele mantém-se silenciosamente confiado e obediente”.

1 “Deus quis pôr à prova Abraão”. Deus não podia pretender a morte de Isaac (cf. v. 12), fazendo com que Abraão seguisse os bárbaros costumes cananeus; apenas quer “pôr à prova”, isto é, aquilatar a fé, a obediência e o amor do seu eleito. Não se pense que esta prova era disparatada. Com efeito, inseria-se nos hábitos selvagens da religião cananeia, como se conta em 2 Re 3, 27: Mesa, rei de Moab, imolou o filho herdeiro para obter do seu deus Kemóx a libertação da sua cidade atacada pelos israelitas. Não poderia Deus ter para com Abraão uma exigência desta natureza? No entanto, a ordem divina era, humanamente vistas as coisas, simplesmente absurda: não era certo que Deus lhe prometera uma enorme descendência a partir de Isaac? Até este ponto chega a fé de Abraão: o mesmo Deus que lhe dera milagrosamente o filho tinha pleno direito de lho exigir e, se quisesse manter a sua promessa, podia vir a restituir-lho vivo (cf. Hebr 11, 19). Pode ver-se, a propósito, o belo comentário do Catecismo da Igreja Católica, nº 2572.

9 “Colocou a lenha sobre ele”. Os Padres viram no sacrifício de Isaac, entregue à morte pelo seu próprio pai e carregando às costas a lenha do sacrifício, uma figura de Cristo, levando a cruz para o monte Calvário, o novo monte Moriá do sacrifício da Nova Lei (segundo 2 Cr 3, 1, o Templo erguia-se neste monte). Deus, que poupou o filho de Abraão, “não poupou o seu próprio Filho”! (Rom 8, 32: cf. 2.ª leitura).

 

2ª leitura Romanos 8, 31b-34 

 

Irmãos: 31bSe Deus está por nós, quem estará contra nós? 32Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas? 33Quem acusará os eleitos de Deus? Deus, que os justifica? E quem os condenará? 34Cristo Jesus, que morreu, e mais ainda, que ressuscitou e que está à direita de Deus e intercede por nós?

 

A leitura foi escolhida pela provável referência ao sacrifício de Isaac relatado na 1.ª leitura: Deus, que poupara o filho de Abraão, não poupa à morte o seu próprio Filho: “Deus não poupou o seu próprio Filho” (v. 32). É a máxima prova do amor de Deus para connosco (cf. Jo 3, 16), e o máximo motivo da nossa esperança. A esperança não nos pode jamais vir a deixar confundidos (Rom 5, 5): eis até que ponto “Deus está por nós (v. 31)! Repare-se na expressiva insistência – três vezes neste pequenino trecho –, “por nós”. Chamamos a atenção para o facto de que S. Paulo, ao falar assim, não quer dizer que o Pai desejava a morte do seu Filho (Abraão também não a desejava!), mas adopta uma linguagem impressionante para falar do misterioso dom do seu Filho para vir realizar a obra da nossa salvação, à custa da sua própria vida; longe de nós imaginar Deus Pai a descarregar a sua ira sobre o seu Filho para tirar vingança dos nossos pecados, como alguém poderia pensar.

34 “Quem os condenará?” Pela parte de Deus, infinitamente fiel, misericordioso e poderoso, podemos estar seguros da salvação: a esperança é certa e firme. No entanto, pela nossa parte, temos que trabalhar pela nossa salvação “com temor e tremor” (Filp 2, 12), dado que temos a possibilidade de não corresponder à graça de Deus, usando mal a liberdade, acabando por vir a ser desclassificados ou condenados (cf. 1 Cor 9, 25-27).

 

Evangelho São Marcos 9, 2-10

Naquele tempo, 2Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. 3As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. 4Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 5Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». 6Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. 7Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». 8De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. 9Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. 10Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.

 

A cena da Transfiguração situa-se nos inícios da segunda parte do Evangelho de Marcos. A primeira parte (Mc 1, 1 – 8, 29) parece querer ser a resposta à incompreensão das pessoas que se interrogam – “quem é este homem? ”– sem atinarem com a resposta certa, culminando com a confissão de Pedro: “Tu és o Cristo!” (8, 29). Mas perante a revelação da natureza da obra messiânica de Jesus, que passa pela aparente derrota da Paixão e da Cruz, surge a incompreensão dos próprios discípulos, a começar pelo próprio Pedro (8, 31-33). É assim que a visão antecipada da glória do Messias na Transfiguração serve de correctivo para aqueles que ficaram confundidos com o primeiro anúncio da Cruz como meio de salvação (8, 31 – 9, 1). Para nós, é também uma visão antecipada da vinda gloriosa de Cristo, a encher-nos de esperança (cf. Filp 3, 21). A Transfiguração do Senhor nada tem a ver com os mitos gregos das metamorfoses. O próprio S. Lucas, melhor conhecedor da cultura grega, teve o escrupuloso cuidado de evitar o verbo grego usado por S. Marcos – metamorfôthê, transfigurou-Se – substituindo-o por um circunlóquio: “ao rezar, ficou outro o aspecto do seu rosto”. Nos mistérios gregos, chegava-se progressivamente à transformação da natureza – a metamorfose –, através duma iniciação mistagógica, ao passo que esta transfiguração de Jesus foi repentina e passageira, uma manifestação do que Jesus já era antes.

2 Pedro, Tiago e João, são os três predilectos de Jesus, destinados a ser “colunas da Igreja” (Gal 2, 9) particularmente firmes, também testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37) e da agonia de Jesus no horto (Mt 26, 37), diríamos, uma espécie de núcleo duro dos Doze. “A um alto monte”: Os Evangelhos não dizem o nome do monte que habitualmente se julga ser o Tabor, um monte situado a 10 km a Leste de Nazaré, segundo uma antiga tradição já referida por Orígenes. Como este monte não é muito alto (apenas 560 m), há exegetas que falam antes do Monte Hermon (2.759 m), junto a Cesareia de Filipe, região onde Jesus tinha estado, segundo os três sinópticos, uma semana antes. “E transfigurou-Se diante deles”: o acontecimento é descrito, não como uma visão, mas como uma epifania, pois foi Ele mesmo a “manifestar” a sua própria glória divina, enquanto estava com eles. O facto deveras notável não foi tanto a visão de Moisés e Elias, mas a da glória de Jesus.

3 “As vestes… resplandecentes…” S. Marcos não faz referência ao rosto de Jesus que ficou brilhante como o Sol (Mt 17, 2). O Evangelista não precisava de pormenorizar mais, pois a referência da brancura sobrenatural das vestes era o suficiente para que o leitor tomasse consciência da personalidade celestial de Jesus (cf. Dan 7, 9; Act 1, 10; Apoc 3, 4-5; 4, 4; 7, 9).

4 “Moisés e Elias”. A sua presença à volta de Jesus deixa ver como a Lei e os Profetas convergem para Ele, uma vez que tinham preparado e anunciado a sua vinda. A própria tradição rabínica falava de Moisés como precursor do Messias e Malaquias anunciara a vinda de Elias nos tempos messiânicos (Mal 3, 23).

5-7 “Três tendas”. Assim se prestava Pedro a facilitar que se prolongasse aquele êxtase paradisíaco. Fala de três e não de um único refúgio, tendo em conta a desigual dignidade de cada uma das pessoas. “Não sabia o que dizia”: Pedro, tomado de assombro, pensa em categorias de um messianismo glorioso e pretende que aquela situação extraordinária se prolongue e mantenha, totalmente alheado da realidade do dia a dia. “Veio então uma nuvem”: mas esta não era uma resposta à sugestão de Pedro para construir um abrigo; a nuvem – a tenda de Deus (cf. 2 Sam 22, 12; Salm 18(17), 12), que cobriu e envolveu Jesus “com a sua sombra” –, era sobretudo um sinal bíblico da presença de Deus, que simultaneamente O revelava e O ocultava (cf. Ex 13, 22; 19, 9; 24, 15-16; 33, 9; Lv 16, 2; Nm 9, 15-23; 11, 25). De acordo com Lc 9, 32, este prodígio deve-se ter verificado de noite, enquanto o Senhor fazia oração (Lc 9, 29). Mas não consta que Jesus se tenha elevado, levitando no ar, como O pintou Rafael. “Este é o meu Filho”. Com estas palavras a cena atinge o apogeu: a voz vinda do Céu é mais uma confirmação divina da anterior confissão da fé de Pedro (Mc 8, 29). S. Tomás comenta: “Apareceu toda a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa”.

9 “Ordenou-lhes que não contassem…” Esta ordem pertence à chamada disciplina do segredo messiânico – a que Marcos dá especial ênfase pela preocupação teológica de fazer ressaltar a incompreensão perante Jesus, a ser superada pelos seus só após a glória da Ressurreição –, visa evitar possíveis agitações populares, que só contribuiriam, para perturbar e dificultar a missão de Jesus.

 

3.º Domingo da Quaresma

 

1ª Leitura *Forma longa: Êxodo 20, 1-17   Forma breve: Êxodo 20, 1-3.7-8.12-17

 

1Naqueles dias, Deus pronunciou todas estas palavras: 2«Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, dessa casa da escravidão. 3Não terás outros deuses perante Mim. [4Não farás para ti qualquer imagem esculpida, nem figura do que existe lá no alto dos céus ou cá em baixo na terra ou nas águas debaixo da terra. 5Não adorarás outros deuses nem lhes prestarás culto. Eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus cioso: castigo a ofensa dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que Me ofendem; 6mas uso de misericórdia até à milésima geração para com aqueles que Me amam e guardam os meus mandamentos.] 7Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus, porque o Senhor não deixa sem castigo aquele que invoca o seu nome em vão. 8Lembrar-te-ás do dia de sábado, para o santificares. [9Durante seis dias trabalharás e levarás a cabo todas as tuas tarefas. 10Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo nem a tua serva, nem os teus animais domésticos, nem o estrangeiro que vive na tua cidade. 11Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm; mas no sétimo dia descansou. Por isso, o Senhor abençoou e consagrou o dia de sábado.] Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. 12Não matarás. 13Não cometerás adultério. 14Não furtarás. 15Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. 16Não cobiçarás a casa do teu próximo; 17não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença».

 

Temos na leitura o Decálogo, uma palavra grega – “Dez Palavras” – segundo o nome que é dado aos Dez Mandamentos (cf. Ex 34, 28; Dt 4, 13; 10, 4). Com efeito, na origem, seriam 10 breves sentenças lapidares (como: “não matarás”, “não furtarás”…), que vieram a receber desenvolvimentos explicativos inspirados. Aparece no contexto da teofania do Monte Sinai, como Palavras da Aliança (Ex 34, 28). Em Dt 5, 6-21 temos uma formulação muito semelhante. O Decálogo constitui o núcleo de toda a moral bíblica, para o qual Jesus apela (Lc 18, 20) e que Ele completa e leva à perfeição (Mt 5, 17-48). Vem a ser a expressão revelada da Lei escrita no coração de todos os homens, a lei natural (cf. Rom 2, 12-15); todos os preceitos desta lei moral se podem ver incluídos mais ou menos claramente no Decálogo. A sua distribuição por 10 não tem sido feita sempre do mesmo modo: quando o 1º mandamento é desdobrado em dois (“adorar um só Deus” e “não esculpir imagens”: vv. 3 e 4), então o 9º e o 10º são englobados num só; a divisão do 1º é a seguida pelos judeus e por algumas confissões cristãs (como os calvinistas), ao passo que a divisão do último é a adoptada pelos católicos e luteranos (desde Sto. Agostinho), tendo em conta o texto de Dt 5, 21, onde se usam dois verbos diferentes, um para “não desejarás” (ló thahmór) a mulher do próximo e outro para “não cobiçarás” (ló thith’avvéh) as suas coisas.

As várias formulações cristãs do Decálogo que há nos catecismos têm em conta, por um lado, o progresso da Revelação, que culminou nos ensinamentos do Novo Testamento; por outro, a caducidade daquilo que não passava de prescrições cultuais próprias dum povo e duma cultura. Assim, o 1º mandamento, que se limitava a proibir a idolatria – “não terás outros deuses” (v. 3) –, é formulado positivamente “amarás” –, segundo o ensino de Jesus (cf. Mt 22, 37par). No v. 4 nós suprimimos “não farás qualquer imagem…”, pois a proibição de fazer imagens é considerada uma lei meramente ritual, própria da cultura daquele povo, com vistas a evitar o perigo de induzir à magia e idolatria (no entanto, para a própria Arca da Aliança, estavam prescritas duas imagens de Querubins: Ex 25, 18). Também a determinação do “Sábado” como o dia a guardar (v. 8) é actualizada, tendo em conta que o 1º dia da semana passou a ser “o dia do Senhor” (Apoc 1, 10), já celebrado nos tempos apostólicos (cf. Act 20, 7; 1 Cor 16, 2); com efeito, a determinação do dia da semana não pertence à lei moral, mas ao culto antigo, que foi abolido (cf. Hebr 10, 9-10) com o Sacrifício Redentor de Cristo, o novo Templo (cf. Evangelho de hoje: Jo 2, 19-21). Por outro lado, os nossos catecismos dizem, para o 6º mandamento: “guardar castidade nas palavras e nas obras” (os espanhóis dizem “não cometerás actos impuros”), em vez de “não cometerás adultério” (v. 13), pois Jesus Cristo não se limitou a condenar o adultério; a revelação cristã fala da castidade como a perfeita regulação da faculdade generativa (cf. Mt 5, 8. 27-32; 1 Tes 4, 3-5; 1 Cor 6, 5 19-20; 1 Tim 5, 22). Também para o 9º mandamento não dizemos “não desejarás a mulher do teu próximo” (v. 17), mas, de acordo com os ensinamentos de Jesus, que põe em pé de igualdade homem e mulher (cf. Mt 19, 9) e ensina a castidade como uma afirmação positiva e em toda a sua extensão, a partir da rectidão interior, do coração (cf. Mt 5, 8.28-30), nós dizemos “guardar castidade nos pensamentos e nos desejos”.

2 “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei... dessa casa da escravidão”. À maneira dos antigos pactos hititas (na época de Moisés os hititas acabavam de se afastar da Palestina), que começavam com um prólogo histórico, a justificar a imposição das obrigações ao povo vencido, também o Decálogo é introduzido com uma referência histórica. Mas aqui as cláusulas não se fundamentam na derrota do povo, mas num facto salvífico gratuito, procedente do amor do Senhor: a libertação da escravidão do Egipto. As prescrições da Lei aparecem como a expressão de uma aliança (cf. Dt 5,2-3), que não é um pacto para manter um vencido sob controlo e domínio despótico, mas é um vínculo de amor com que Deus assegura a união com Ele, a liberdade e a bênção (cf. Salmo responsorial), àqueles que constituiu em seu Povo (cf. Ex 19, 6). É por isso que transgredir a Lei não é uma mera indisciplina jurídica, é dizer não ao próprio Deus, ao seu Amor, é romper a Aliança, “pecar contra o Céu” (cf. Lc 15, 18). A Lei de Deus é, como diz a Carta de S. Tiago “a lei perfeita, a lei da liberdade” (Tg 1, 25), para que o homem possa encontrar o verdadeiro sentido da sua vida; orienta-o para a verdade e para o bem, fazendo render ao máximo as suas capacidades.

8-11 Note-se que o preceito sabático não inclui qualquer acto religioso de culto; é o próprio descanso que aparece com valor cultual. Neste preceito está implícita a obrigação de trabalhar, pois só o trabalho justifica que se imponha a lei do descanso; o apelo para o trabalho de Deus (v. 11) também sugere a dignidade do trabalho do homem como cooperação com a obra criadora de Deus.

 

2ª leitura 1 Coríntios 1, 22-25

 

Irmãos: 22Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria. 23Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; 24mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. 25Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.

 

A leitura é um pequeno trecho da primeira parte da Carta (1 Cor 1, 10 – 6, 20) onde S. Paulo começa por corrigir as divisões que havia na comunidade (1, 10 – 4, 21), uns grupinhos à volta do prestígio e da eloquência dos diversos pregadores do Evangelho (Paulo, Apolo, Cefas…), havendo cristãos que, fascinados pela sabedoria humana – a dos “judeus” e a dos “gregos” –, corriam o risco de esquecer ou desvirtuar a autêntica sabedoria do Cristo, que os salvou pela Cruz. De facto, o centro da mensagem do cristianismo é particularmente chocante, porque é a pregação da salvação pela Cruz: Cristo crucificado era um “escândalo para os judeus”, que esperavam um messias espectacular, glorioso e vencedor dos inimigos e, por outro lado, constituía uma “loucura para os gentios”, ciosos de retórica empolada e lisonjeira das vis paixões. “A sabedoria de Deus” é a loucura do seu incompreensível infinito amor, incompatível com a soberba auto-suficiente tanto das expectativas messiânicas judaicas, como do racionalismo grego.

 

Evangelho São João 2, 13-25

 

13Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. 15Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; 16e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». 17Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». 18Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?» 19Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». 20Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?» 21Jesus, porém, falava do templo do seu corpo. 22Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e nas palavras que Jesus dissera. 24Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos 25e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem.

 

Este episódio deverá ser o mesmo relatado pelos Sinópticos, mas com um profundo simbolismo. O actuar de Jesus é à maneira das acções simbólicas dos antigos profetas e não se destina a punir transgressores (os vendi­lhões actuariam legalmente e de boa fé), mas a mostrar a sua suprema autoridade na “Casa de meu Pai” (v. 16) e a veicular ensinamentos que ficassem gravados para sempre. Em S. João, Jesus aparece a cumprir o anunciado no Salmo 69, 11, e o seu gesto visa, mais que purificar, substituir o templo de Jerusalém com todo o seu complexo sistema de comunicação com Deus. Só João refere a expulsão de ovelhas e bois, deixando assim ver que os animais deixam de ter sentido no novo culto centrado, a partir de agora, na pessoa de Jesus. Também se pode ver neste episódio o cumprimento da célebre profecia de Malaquias (3, 1-3); e, se “o Mensageiro da Aliança” (v. 1) designa Yahwéh (como muitos pensam), então teríamos aqui um “deraxe cristológico”, isto é, uma aplicação a Jesus do que se diz do próprio Deus no A. T., uma forma subtil de indicar a condição divina de Jesus.

13 “Subiu a Jerusalém”. A ida a Jerusalém sempre se chamava uma subida, por a cidade se encontrar nas montanhas de Judá, a 150 metros acima do nível do mar. Era a primeira ida de Jesus à capital, durante a sua vida pública por ocasião da Páscoa.

19 “Destruí este templo…” As palavras do Senhor encerram um sentido misterioso que só a reflexão posterior – “recordaram-se” (v. 22) instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo espírito da Verdade (Dei Verbum 19) ­– permitiu captar; contêm uma maneira de exprimir o mistério da Incarnação, ao designarem o Corpo de Jesus como um templo em que Deus habita (cf. Col 2, 9). Para os inimigos de Jesus esta afirmação era passível da pena de morte: Mt 26, 61; Mc 14, 58; ver Mt 27, 40; Mc 15, 29; Act 6, 14.

19 “Eu o levantarei”. Dado o sentido figurado das palavras de Jesus, João não põe na boca de Jesus “o reconstruirei”. Note-se que quem protesta da atitude de Jesus não são os comerciantes, mas “os judeus”, aqui provavelmente dirigentes pertencentes ao sinédrio (cf. Mc 11, 28) que viam usurpada a sua autoridade de velar pela ordem do Templo; a verdade é que todos julgavam permitida a venda de animais para os sacrifícios no átrio exterior, o dos gentios (o nosso adro). Jesus mostra uma autoridade bem superior.

20 “Foram precisos 46 anos…” Esta referência é interessante para a cronologia evangélica. A primeira Páscoa da vida pública de Jesus corresponderia, de acordo com Lc 3, 1, ao ano 28 da nossa era, uma vez que o templo, ainda em obras, começara a ser reedificado por Herodes, o Grande, havia 46 anos. Ora, segundo Flávio Josefo, isto deu-se no ano 18 do seu reinado, isto é, no ano 20/19 a. C. Sendo assim, a Páscoa da Morte de Jesus teria sido a do ano 30, quando Ele andaria pelos 37 anos.

 

Anunciação do Senhor

 

1ª leitura Isaías 7, 10-14 8, 10

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11“Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas”. 12Acaz respondeu: “Não pedirei, não porei o Senhor à prova”. 13Então Isaías disse: “Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco”.

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do “Livro do Emanuel”, assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (Deus connosco), um “menino” descrito com traços que, excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), lhe dão um carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, por mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente no mesmo momento) que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadei­ra­­mente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse “sinal” é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado “Livro do Imanuel” (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco). Ainda que, num primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, “Deus connosco”: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: “Deus forte, príncipe da paz...”.

 

2ª leitura Hebreus 10, 4-10

 

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’”. 8Primeiro disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado”. E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: “Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade”. Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponto de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz (cf. Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 12).

7 “Eis-me aqui”. Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem.

 

Evangelho Lucas 1, 26-38

 

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.

 

A narrativa da Anunciação reveste-se duma densidade tal, que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.

26 “O Anjo Gabriel”. O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa “homem de Deus” ou também “força de Deus”.

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

“Ave”: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso “bom dia”; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico “paz a ti” (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é “alegra-te” – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria da “Filha de Sião” (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó “cheia de graça”: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: “ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores”. De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a “cheia de graça”, como o próprio texto original indica.

“O Senhor está contigo”: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso “Bendita es tu entre as mulheres”, pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 “Perturbou-se”, ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias exigira (cf. Lc 1, 18).

32-33 “Encontraste graça diante de Deus”: “encontrar graça” é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão “encontrar graça diante de Deus” só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 “Como será isto, se Eu não conheço homem?” Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também a expressão “não conheço” no sentido de “não devo conhecer”, como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, “não conheço”, indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 “O Espírito Santo virá sobre ti…”. Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, “virá sobre ti”, com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); “e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra” (a tradução litúrgica “cobrirá” seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia dos Capuchinhos): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, “Arca da Aliança”).

“O Santo que vai nascer…”. O texto grego admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: “por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus”. I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: “nascerá santo”, isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. “Será chamado” (entenda-se, “por Deus” – passivum divinum) “Filho de Deus”, isto é, será realmente Filho de Deus, pois o que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 “Eis a escrava do Senhor…”. A palavra escolhida na tradução, “escrava” talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se “serva do Senhor”; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros “servos” chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: “Maria”, o nome que lhe fora dado pelos homens, “cheia de graça”, o nome dado por Deus, “serva do Senhor”, o nome que Ela se dá a si mesma.

“Faça-se…”. O “sim” de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

 

4.º Domingo da Quaresma

 

1ª leitura 2 Crónicas 36, 14-16.19-23

 

Naqueles dias, 14odos os príncipes dos sacerdotes e o povo multiplicaram as suas infidelidades, imitando os costumes abomináveis das nações pagãs, e profanaram o templo que o Senhor tinha consagrado para Si em Jerusalém. 15O Senhor, Deus de seus pais, desde o princípio e sem cessar, enviou-lhes mensageiros, pois queria poupar o povo e a sua própria morada. 16Mas eles escarneciam dos mensageiros de Deus, desprezavam as suas palavras e riam-se dos profetas, a tal ponto que deixou de haver remédio, perante a indignação do Senhor contra o seu povo. 19Os caldeus incendiaram o templo de Deus, demoliram as muralhas de Jerusalém, lançaram fogo aos seus palácios e destruíram todos os objectos preciosos. 20O rei dos caldeus deportou para Babilónia todos os que tinham escapado ao fio da espada; e foram escravos deles e de seus filhos, até que se estabeleceu o reino dos persas. 21Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pela boca de Jeremias: «Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos». 22No primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, para se cumprir a palavra do Senhor, pronunciada pela boca de Jeremias, o Senhor inspirou Ciro, rei da Pérsia, que mandou publicar, em todo o seu reino, de viva voz e por escrito, a seguinte proclamação: 23«Assim fala Ciro, rei da Pérsia: O Senhor, Deus do Céu, deu-me todos os reinos da terra e Ele próprio me confiou o encargo de Lhe construir um templo em Jerusalém, na terra de Judá. Quem de entre vós fizer parte do seu povo ponha-se a caminho e que Deus esteja com ele».

 

Esta leitura, extraída do final das Crónicas, é grandemente apropriada ao tempo da Quaresma. Com efeito, os livros dos Paralipómenos (“coisas omitidas”, na designação dos LXX), ou Crónicas (título hebraico), são uma recapitulação de toda a história da Salvação desde Adão até ao edito de Ciro, em particular da dinastia davídica e da organização do culto. S. Jerónimo chamou-lhes “Chronicon totius divinæ historiæ”. Esta recapitulação tem por fim fazer tomar consciência ao povo de que as promessas divinas não caíram no esquecimento de Deus e que as desgraças que se abateram sobre o povo não eram definitivas, mas o justo castigo pela infidelidade dos reis e do povo (vv. 14-16). Assim, o autor (talvez um levita) incitava a gente à conversão, a condição indispensável para de novo se beneficiar do favor divino. A reconstrução do templo favorecida pelo próprio Ciro era um grande sinal de esperança, a garantia de que, a seu tempo, viria o esperado “rebento de David”, pois a sua linhagem não tinha sido destruída com o exílio, e ela ali estava no meio deles (1 Cr 3, 17-24).

Esta recapitulação provoca-nos hoje a também nós fazermos uma revisão da nossa vida e das nossas infidelidades, à luz do “grande amor que Deus nos consagrou”. (2.ª leitura) a ponto de que por nós “entregou o seu Filho único” à morte e morte de cruz (Evangelho de hoje).

 

2ª leitura Efésios 2, 4-10

 

Irmãos: 4Deus, que é rico em misericórdia, pela grande caridade com que nos amou, 5a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados, restituiu-nos à vida com Cristo – é pela graça que fostes salvos – e com 6Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos Céus com Cristo Jesus, 7para mostrar aos séculos futuros a abundante riqueza da sua graça e da sua bondade para connosco, em Cristo Jesus. 8De facto, é pela graça que fostes salvos, por meio da fé. 9A salvação não vem de vós: é dom de Deus. Não se deve às obras: ninguém se pode gloriar. 10Na verdade, nós somos obra sua, criados em Cristo Jesus, em vista das boas obras que Deus de antemão preparou, como caminho que devemos seguir.

 

A leitura é extraída da primeira parte do ensino doutrinal da Carta (capítulos 1 a 3), em que o autor se detém a expor o plano divino da salvação (1,3 – 2, 22). Nestes vv. 4-10, o autor põe em evidência “a grande caridade com que nos amou” Deus: a salvação deve-se pura e exclusivamente ao dom gratuito de Deus, por isso insiste “é pela graça que fostes salvos” (v.5), “a salvação não vem de vós, é dom de Deus” (v. 9). Nunca é demais insistir no primado absoluto da graça divina (cf. Carta Apostólica Novo millennio inneunte, nº  38).

5-6 A obra da salvação inclui a Morte, Ressurreição e Ascensão de Jesus, mistérios dos quais participamos, ao sermos “criados em Cristo Jesus” (v. 10) como membros seus (alusão ao Baptismo: cf. Rom 6); daí os três aoristos de verbos gregos do texto original compostos da preposição “com” (syn):  “con-vivificou-nos” (“restituiu-nos à vida com Cristo”), “con-ressuscitou-nos” (“com Ele nos ressuscitou”), «con-sentou-nos” (“nos fez sentar nos Céus com Cristo”), dificilmente traduzíveis em vernáculo.

8-10 “As boas obras… como caminho que devemos seguir”: A salvação não procede das nossas obras nem dos nossos esforços, mas são um caminho indispensável a seguir para que com elas corresponder livremente à graça de Deus. E as nossas boas obras são, antes de mais, obras de Deus, da sua graça que actua em nós.

 

Evangelho São João 3, 14-21

 

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 14«Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, 15para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna. 16Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. 18Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus. 19E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. 20Todo aquele que pratica más acções odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. 21Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus.

 

Estamos no contexto do discurso (dialogado) de Jesus a Nicodemos (Jo 3, 1-21). As palavras de Jesus foram tão profundamente meditadas que não se pode distinguir onde acabam as palavras de Jesus e onde começa a reflexão do evangelista.

14 “A serpente no deserto”. Desde os primeiros tempos da Igreja que a serpente de bronze erguida na haste (Nm 21, 4-9) foi considerada, a partir destas palavras de Jesus, como o “tipo”, ou figura, da morte de Cristo na Cruz (Pseudo-Barnabé, 12, 5-7; S. Justino, Apol. I, 60; Dial. 91; 94; 112. Tertuliano, Adv. Marc. 3, 18). A serpente de bronze, que se venerava em Jerusalém, foi destruída por Ezequias (2 Re 18, 4), para evitar o perigo de idolatria. Note-se como o livro da Sabedoria (16, 6-7) sublinha que a serpente não era mais do que um “sinal de salvação”, que salvava “não porque se contemplava”, mas pela virtude de Deus, “Salvador Universal”: salvava através da fé em Deus. Também para que Cristo nos salve com a sua Morte é indispensável acreditar: Ter a fé vem a ser a condição de nos ser aplicado o efeito salvífico da Redenção realizada. “Também o Filho do Homem será elevado”, na Cruz, entenda-se. S. João joga com os dois sentidos da elevação, na Cruz e na glória. E isto não é um simples artifício literário, mas encerra um mistério profundo, pois é então que se manifesta todo o amor de Jesus (cf. Jo 13, 1), todo o seu poder divino salvífico de dar o Espírito e a vida eterna (cf. Jo 7, 38; 12, 23-24; 17, 1.2.19), numa palavra, a sua glória, que culmina na Ressurreição (Jo 12, 16). Para a alusão à serpente de bronze, ver Nm 21, 4-9; Sb 16,5-15 e o Targum (tradução aramaica), que fala mesmo dum lugar elevado onde Moisés a colocou.

16 “Deus amou tanto o mundo…” Esta frase é um dos pontos culminantes de todo o Evangelho: a morte de Cristo é a suprema manifestação do amor que Deus nos tem; aqui o mundo aparece no sentido positivo de criatura de Deus, noutros lugares de S. João tem o sentido oposto, como obra do maligno (cf. 1 Jo 5, 19).

17-21 “Deus não enviou o Filho… para condenar o mundo…”. O judaísmo dos tempos de Jesus concebia o Messias como um juiz que, antes de mais, vinha para julgar e condenar todos os que ficavam fora do Reino de Deus ou se lhe opunham. Jesus insiste no amor de Deus ao mundo e no envio do Filho para que este venha a ser salvo e não condenado: o Filho é o “Salvador do mundo” (Jo 4, 42). Se há quem se condene, isto só pode suceder porque esse se coloca numa situação de condenação, ao rejeitar o Único que pode salvar: “porque não acreditou no Nome (isto é, na Pessoa) do Filho Unigénito de Deus”. Esta é uma situação verdadeiramente dramática – crítica (krisis=juízo) –, bem posta em evidência no IV Evangelho: “quem não acredita já está condenado” (v. 18): o amor de Deus revelado em Jesus é de tal ordem que o homem não se pode alhear, à espera do que possa vir a acontecer-lhe, mas a pessoa é colocada perante um dilema inevitável e urgente; daí que em S. João o juízo de condenação costuma aparecer como algo actual (ver vv. 36; 5, 24; 12, 31).

  

5.º Domingo da Quaresma

 

1ª leitura Jeremias 31, 31-34

 

31Dias virão, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova. 32Não será como a aliança que firmei com os seus pais, no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egipto, aliança que eles violaram, embora Eu exercesse o meu domínio sobre eles, diz o Senhor. 33Esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, naqueles dias, diz o Senhor: Hei-de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. 34Não terão já de se instruir uns aos outros, nem de dizer cada um a seu irmão: «Aprendei a conhecer o Senhor». Todos eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, diz o Senhor. Porque vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas.

 

O nosso texto insere-se num conjunto de anúncios de restauração, tanto política como religiosa, o chamado Livro da Consolação de Jeremias (Jer 30, 1 – 33, 26). Os versículos da leitura são fulcrais na obra do profeta de Anatot: os seus apelos para “uma aliança nova” são considerados como o pivot da reforma religiosa do piedoso rei Josias, por isso se pensa que foi pronunciado logo no início da sua actuação como profeta. Este oráculo, tem uma importância central na Teologia do Novo Testamento, como uma das grandes profecias messiânicas. O povo de Israel tinha violado a aliança, não observando a Lei de Deus que no Sinai solenemente se comprometera a observar (Ex 24), por isso Deus já não estava, por assim dizer, obrigado a proteger este povo que se negava a ser de Yahwéh. Mas Ele não volta atrás no seu amor misericordioso, e anuncia que vai oferecer aos homens uma aliança “nova”, isto é, definitiva, interior, pois gravada “no íntimo da alma… no coração” (v. 33) e que estabelece uma nova relação afectiva, de sincero e fiel amor, como o amor perfeito entre os esposos: “Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (v. 33; cf Os 2, 21-22.25). Esta aliança de amor teve o seu pleno cumprimento em Jesus Cristo que selou a nova, definitiva e universal aliança com o seu próprio sangue (Hebr 9, 12; Lc 22, 20), tornando antiquada a aliança do Sinai (Hebr 8, 6-13).

34 “Vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas”. Trata-se de uma aliança que, além de nova, é renovadora, pois implica “a remissão dos pecados” (cf. Mt 26, 28). A Liturgia, ao propor este texto em pleno tempo da Quaresma, presta-se a lembrar-nos o perdão que Deus concede no Sacramento da Reconciliação.

 

2ª leitura Hebreus 5, 7-9

 

7Nos dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua piedade. 8Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento 9e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna.

 

Este texto pequeno, mas deveras impressionante – há mesmo estudiosos que o consideram um extracto de um antigo hino a Cristo –, é tirado da parte central do célebre sermão, que é esta epístola (Hebr 4, 14 – 7, 28), onde se desenvolve o tema do sacerdócio de Cristo, o sumo sacerdote perfeito, que supera completamente o sacerdócio levítico.

7 Este versículo parece evocar o relato da agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras (cf. Mt 26, 36-44). “Preces e súplicas”: estas duas palavras sinónimas correspondem a uma expressão grega  da época usada nos pedidos a uma alta autoridade; o uso do plural sugere a insistência na oração, segundo o “prolixius orabat” de Lc 22, 43. “Com um grande clamor e lágrimas”: os ensinos rabínicos sobre a oração referem três graus ascendentes: a prece (em silêncio), os gritos, e as lágrimas (como a forma mais elevada da oração). Os Evangelhos só falam de um forte brado de Jesus, na Cruz (Lc 23, 46), mas é de supor que se conhecessem pela tradição oral, pormenores da oração no horto que justificariam tão impressionante expressão. “Foi atendido”: em quê, é difícil de dizer, a tal ponto que Harnack pensa numa corrupção do texto original: “não foi atendido”; limitamo-nos a referir as explicações mais viáveis. Jesus não obteve a libertação do cálice de amargura, mas alcançou a coragem para enfrentar a sua Paixão identificando-se plenamente com a vontade do Pai. Ou então, como pensam outros, Jesus foi atendido ao ser livre da morte pela sua ressurreição, o que lhe permite exercer o seu sacerdócio eterno (cf. 7, 24; 10, 10), com efeito, “a sua morte era essencial para o seu sacerdócio, mas se Ele não fosse salvo da morte pela ressurreição, não seria agora o sumo sacerdote do seu povo” (J. H. Neyrey).

8 “Aprendeu a obediência no sofrimento”, ou, melhor, “por aquilo que sofreu”, ou também, “aprendeu de quanto sofrera, o que é obedecer”. Trata-se de uma aprendizagem não teórica, mas experimental, existencial. Aprender através do sofrimento era um lugar comum na literatura grega, e até havia esta máxima: “os sofrimentos são lições”. O que aqui há de particular é a aplicação à aprendizagem da obediência. No entanto, a obediência de Jesus na sua Paixão só é referida em mais dois lugares do N. T.: Rom 5, 19 e Filp 2, 8. Não se pense que a Jesus, por ser Deus, Lhe custava menos o sofrimento, antes pelo contrário, pois o sofrimento é directamente proporcional à dignidade da pessoa que sofre.

9 “Tendo atingido a sua plenitude”. Esta tradução não deixa ver uma das ideias centrais da epístola, que é a de “perfeição”, pelo que seria preferível a tradução do Cón. Falcão, “tendo chegado à perfeição” ou a da Difusora Bíblica, “tornado perfeito”. Note-se que a perfeição de que aqui se fala não é a do amadurecimento na virtude, mas a que advém a Jesus pelo exercício do seu sumo sacerdócio com a consumação da obra salvadora pela oferta do sacrifício da nova aliança: “a obediência de Jesus leva-o à sua consagração sacerdotal, que, por sua vez, O torna apto para salvar aqueles que Lhe obedecem” (The new Jerome Biblical Commentary, p. 929).

 

Evangelho São João 12, 20-33

 

Naquele tempo, 20alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, 21foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus». 22Filipe foi dizê-lo a André; e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus. 23Jesus respondeu-lhes: «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. 24Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. 25Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. 26Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. 27Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. 28Pai, glorifica o teu nome». Veio então do Céu uma voz que dizia: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». 29A multidão que estava presente e ouvira dizia ter sido um trovão. Outros afirmavam: «Foi um Anjo que Lhe falou». 30Disse Jesus: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. 31Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. 32E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim». 33Falava deste modo, para indicar de que morte ia morrer.

 

Estamos na parte final da 1ª parte do IV Evangelho, do chamado “livro dos sinais”. Ouvem-se os últimos apelos de Jesus à fé, mas a multidão permanece dividida (v. 29), e a sua entrega à morte está iminente (vv. 31-33).

20 “Gregos”: não deveriam ser judeus de língua grega, nem prosélitos, mas simples tementes a Deus ou adoradores de Deus, isto é, não judeus convertidos ao único Deus de Israel, sem no entanto se sujeitarem aos ritos judai­cos como o da circuncisão (cf. Act 10, 2; 13, 16.26.50; 16, 14; 17, 4.17; 18, 7).

21-22 “Filipe… André”. Filipe é nome grego, bem como o de André, o que ajuda a explicar a mediação de ambos para um encontro com Jesus, pessoas mais acessíveis e compreensíveis para com os estrangeiros. Filipe, tendo em conta que Jesus só se dirigia aos judeus (cf. Mt 15, 24; Mc 7, 27), teve a prudência de tratar do assunto com o conselho de André. “Betsaida” não era rigorosamente da Galileia, mas da Gaulonítide, tetrarquia de Filipe, ficando a oriente da entrada do Jordão no lago de Genesaré. Alguns, para evitar que S. João pudesse ser acusado dum indesculpável erro geográfico, imaginam uma outra Betsaida ocidental. O mais natural é que os habitantes judeus de Betsaida se considerassem galileus, como o próprio Apóstolo Filipe, dando assim lugar a que se pudesse falar, impropriamente, de Betsaida da Galileia.

23-26 A “hora” da “glória” não é de modo nenhum a da glória humana, como poderia ser a da entrada triunfal em Jerusalém, mas a hora de dar a vida, de morrer para dar fruto; e, para o seguidor de Cristo, também já não lhe resta outra alternativa (cf. Jo 15, 18-20) . O sentido da morte de Jesus fica esclarecido com a comparação do “grão de trigo”, que deve morrer para dar fruto; nisto está a sua glória e a glória dos seus seguidores. “Desprezar a vida”, à letra, odiar:  de acordo com o uso semítico, odiar em oposição a amar, significa não dar grande valor ou amar menos (cf. Gn 29,31-33; Dt 21,15; Mt 6,24; Lc 14,26; 16,13).

27-28 “A minha alma está perturbada… Pai, salva-me…”. Esta passagem faz pensar na agonia do Getxemaní relatada nos Sinópticos e a que S. João mal alude (18, 11), a fim de que o leitor não se fixe em tão grande humilhação do Senhor no momento em que Ele avança para a glória da Cruz. Tenha-se na devida conta que em S. João glorificar tem frequentemente um sentido “manifestativo” (cf. 17,1-6.24-26), e o nome equivale à pessoa, por isso “glorifica o teu nome” equivale a manifesta a tua glória. A voz vinda do Céu era um grande motivo de credibilidade na época, a chamada bat-qol; esta ilumina com o sentido optimista da fé a Paixão e Morte do Senhor.

30-31 “Agora, vai chegar a “hora” de Jesus, a hora da glória, que é ao mesmo tempo de vida e salvação e, simultaneamente, de julgamento e condenação (cf. Jo 16, 11). Ao terminar a primeira parte do Evangelho, esta alternativa, a que não se pode fugir, é posta em relevo (vv. 35-36.45-48): ninguém pode ficar na penumbra; tem de optar entre a Luz e as trevas. Mundo aqui identifica-se com os que rejeitam a fé e se situam no domínio tenebroso de Satanás (cf. Lc 4, 5-6).

32 “Erguido da terra, no sentido físico – na Cruz – encerra um segundo senti­do espiritual de exaltação e glória, que S. João quer acentuar (cf. Jo 3, 14; 8, 28; 18, 32). Há manuscritos que têm atrairei tudo, em vez de todos: Jesus crucificado exerce um poderoso atractivo sobre todas as almas sinceras, provocando uma resposta de amor incondicional, até que Ele venha a tornar-se o centro de tudo, de todas as actividades humanas e de todo o universo criado por Deus.

 

Domingo de Ramos

 

Procissão

 

São Marcos 11, 1-10

Naquele tempo, 1ao aproximarem-se de Jerusalém, cerca de Betfagé e de Betânia, junto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos 2e disse-lhes: «Ide à povoação que está em frente e, logo à entrada, vereis um jumentinho preso, que ninguém montou ainda. Soltai-o e trazei-o. 3E se alguém perguntar porque fazeis isso, respondei: ‘O Senhor precisa dele, mas não tardará em mandá-lo de volta’». 4Eles partiram e encontraram um jumentinho, preso a uma porta, cá fora na rua, e soltaram-no. 5Alguns dos que ali estavam perguntaram-lhes: «Porque estais a desprender o jumentinho?» 6Responderam-lhes como Jesus tinha dito e eles deixaram-nos ir. 7Levaram o jumentinho a Jesus, lançaram-lhe por cima as capas e Jesus montou nele. 8Muitos estenderam as suas capas no caminho e outros, ramos de verdura, que tinham cortado nos campos. 9E tanto os que iam à frente como os que vinham atrás clamavam: «Hossana! Bendito O que vem em nome do Senhor! 10Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai David! Hossana nas alturas!»

 

ou

 

São João 12, 12-16

12Naquele tempo, a grande multidão que tinha vindo à festa da Páscoa, ao ouvir dizer que Jesus ia chegar a Jerusalém, 13apanhou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro, clamando: «Hossana! Bendito O que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel!» 14Jesus encontrou um jumentinho e montou nele, como está escrito: 15«Não temas, filha de Sião: Eis que vem o teu Rei, sentado sobre o filho de uma jumenta». 16Os discípulos não entenderam isto ao princípio, mas, quando Jesus foi glorificado, lembraram-se de que assim estava escrito acerca d’Ele e era isso mesmo que eles tinham feito.

 

Os quatro evangelistas referem a entrada de Jesus em Jerusalém, com algumas pequenas diferenças. Em S. João aparece mais como uma iniciativa da multidão, ao passo que nos Sinópticos é Jesus a preparar a sua entrada.

“Um jumentinho”. Mateus fala também da jumenta, mãe do jumentinho para sublinhar o cumprimento da letra da profecia de Zacarias 9, 9. A entrada dos peregrinos em Jerusalém fazia-se a pé; Jesus, porém, quer entrar a cavalo, desta vez. Tendo evitado até então todas as aclamações messiânicas, mostrar-se agora como o Messias nesta última visita à cidade, entrando montado num humilde jumentinho, e não como um rei temporal, ou um general vitorioso, montado num corcel. Ele não é um rei dominador, em concorrência com os poderosos da terra, mas o rei cheio de mansidão, o príncipe da paz.

A aclamação é a do Salmo 118 (117), e dela se fazem eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: “Bendito o que vem” (baruk habá é ainda hoje a saudação de boas-vindas em Israel). “Hossana” é uma palavra hebraica que aqui tem um sentido de aclamação, correspondente ao nosso “viva!”, e não uma mera prece, como indicaria a tradução literal do hebraico: “salva, por favor, (ó Deus)”. A saudação do Salmo era uma bênção com que se recebia o peregrino que subia a Jerusalém; aqui é uma aclamação do povo que acompanha Jesus no cortejo. Nos Sinópticos a aclamação, com distintos matizes, tem o carácter de aclamação messiânica, mas em João a entrada tem claramente o aspecto de um rito de entronização, com pormenores que não aparecem nos Sinópticos: a gente sai da cidade a recebê-Lo, e com ramos de palmeira (Jo 12, 13), como a um rei vitorioso.

 

Missa

1ª Leitura Isaías 50, 4-7

 

4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

Quem está a falar neste 3° poema do Servo de Yahwéh é o próprio servo, que representa profeticamente Jesus Cristo. Apresenta-se “a falar como um discípulo”, embora não se trate de um discípulo qualquer: é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: “a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16; cf. 14, 24).

5 “Eu não resisti nem recuei”. Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).

6 “Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam”. Um pleno cumprimento deu-se no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Lc 22, 63-64; etc.

 

2ª Leitura Isaías 50, 4-7

4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

O texto isaiano corresponde aos primeiros 4 versículos do 3° poema do Servo de Yahwéh (Is 50, 4-9). Quem está a falar parece ser o próprio servo, embora não seja aqui nomeado, mas é o que se deduz do contexto imediato deste poema (v. 10). De qualquer modo, considera-se como a figura profética de Jesus Cristo. O texto consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula (que a tradução não respeitou): “O Senhor Deus”; na primeira sublinha-se a docilidade de discípulo (v. 4), na segunda, o sofrimento que esta docilidade acarreta (vv.5-6); na terceira, a fortaleza no meio das dores (v. 7).

4 Apresenta-se “a falar como um discípulo”, embora não se trate de um discípulo qualquer: é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: “a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7, 16; cf. 14, 24).

5 “Não resisti nem recuei”. Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).

6 “Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam”. Os evangelistas hão-de deixar ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Mc 15, 19; Lc 22, 63-64…

 

leitura Filipenses 2, 6-11

 

6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.

6 “De condição divina”. Literalmente: “existindo em forma de Deus”. Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus “tinha um ser como Deus, um ser divino”.

“Não se valeu da sua igualdade com Deus”. Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considera o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou passivo (coisa roubada): a Vulgata traduz: “não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus” (sentido activo) ; segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossas tradução (sentido passivo), teríamos: “não considerou como algo cobiçado (harpagmón) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus  (cf. Gn 3, 5.22) e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer “semelhante aos homens”  (v. 7).

7 “Mas aniquilou-se a si próprio”, à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). “Assumindo a condição de servo”, o que não significa a condição social de escravo, mas a “forma” (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo a figura do “servo de Yahwéh”,  a que se refere a primeira leitura de hoje; “tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem”, não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é “semelhante” (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15);“humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz” (v. 8). Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor!

9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o desfecho dum história trágica com que tudo acabou; temos o sublime paradoxo da sua “exaltação”: foi “por isso” mesmo que “Deus” (não Ele próprio, mas o Pai) “O exaltou” de modo singularíssimo (à letra, acima de tudo o que existe: tenha-se em conta hypér na composição do verbo grego ), o que se deu na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação corresponde o “nome” que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes de todos os tempos: já não é apenas o nome usado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz – Jesus –, mas com o mesmo nome com que o próprio Deus é designado na tradução grega do nome divino “Yahwéh” – “Senhor” (Kyrios). A todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – “toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor” (mais expressivo sem artigo, como no original grego) e o seu domínio sobre toda a criação – “no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai” (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente: “que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai” ).

Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 56 (como pensam muitos), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola. Assim pensa, por exemplo, o notável Professor protestante de Tubinga, Martin Hengel.

 

Evangelho Forma longa: São Marcos 14, 1-15, 47  Forma breve: São Marcos 15, 1-39

 

N [1Faltavam dois dias para a festa da Páscoa e dos Ázimos e os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à traição para Lhe darem a morte. 2Mas diziam:

R «Durante a festa, não, para que não haja algum tumulto entre o povo».

N 3Jesus encontrava-Se em Betânia, em casa de Simão o Leproso, e, estando à mesa, veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro com perfume de nardo puro de alto preço. Partiu o vaso de alabastro e derramou-o sobre a cabeça de Jesus. 4Alguns indignaram-se e diziam entre si:

R «Para que foi esse desperdício de perfume? 5Podia vender-se por mais de duzentos denários e dar o dinheiro aos pobres».

N E censuravam a mulher com aspereza. 6Mas Jesus disse:

J  «Deixai-a. Porque estais a importuná-la? Ela fez uma boa acção para comigo. 7Na verdade, sempre tereis os pobres convosco e, quando quiserdes, podereis fazer-lhes bem; mas a Mim, nem sempre Me tereis. 8Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu de antemão o meu corpo para a sepultura. 9Em verdade vos digo: Onde quer que se proclamar o Evangelho, pelo mundo inteiro, dir-se-á também em sua memória, o que ela fez».

N 10Então, Judas Iscariotes um dos Doze, foi ter com os príncipes dos sacerdotes para lhes entregar Jesus. 11Quando o ouviram, alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro. E ele procurava uma oportunidade para entregar Jesus.

N 12No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a Jesus:

R «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»

N 13Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes:

J  «Ide à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. Segui-o 14e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O Mestre pergunta: Onde está a sala, em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?’ 15Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta. Preparai-nos lá o que é preciso».

N 16Os discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa. 17Ao cair da tarde, chegou Jesus com os Doze. 18Enquanto estavam à mesa e comiam, Jesus disse:

J  «Em verdade vos digo: Um de vós, que está comigo à mesa, há-de entregar-Me».

N 19Eles começaram a entristecer-se e a dizer um após outro:

R «Serei eu?»

N 20Jesus respondeu-lhes:

J  «É um dos Doze, que mete comigo a mão no prato. 21O Filho do homem vai partir, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser traído! Teria sido melhor para esse homem não ter nascido».

N 22Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse:

J  «Tomai: isto é o meu Corpo».

N 23Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. 24Disse Jesus:

J  «Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. 25Em verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus».

N 26Cantaram os salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.

N 27Disse-lhes Jesus:

J  «Todos vós Me abandonareis, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas’. 28Mas depois de ressuscitar, irei à vossa frente para a Galileia».

N 29Disse-Lhe Pedro:

R «Embora todos Te abandonem, eu não».

N 30Jesus respondeu-lhe:

J  «Em verdade te digo: Hoje, esta mesma noite, antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás».

N 31Mas Pedro continuava a insistir:

R «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».

N E todos afirmaram o mesmo. 32Entretanto, chegaram a uma propriedade chamada Getsémani e Jesus disse aos seus discípulos:

J  «Ficai aqui, enquanto Eu vou orar».

N 33Tomou consigo Pedro, Tiago e João e começou a sentir pavor e angústia. 34Disse-lhes então:

J  «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai».

N 35Adiantando-Se um pouco, caiu por terra e orou para que, se fosse possível, se afastasse d’Ele aquela hora. 36Jesus dizia:

J  «Abbá, Pai, tudo Te é possível: afasta de Mim este cálice. Contudo, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres».

N 37Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os dormindo e disse a Pedro:

J  «Simão, estás a dormir? Não pudeste vigiar uma hora? 38Vigiai e orai, para não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

N 39Afastou-Se de novo e orou, dizendo as mesmas palavras. 40Voltou novamente e encontrou-os dormindo, porque tinham os olhos pesados e não sabiam que responder. 41Jesus voltou pela terceira vez e disse-lhes:

J  «Dormi agora e descansai...Chegou a hora: o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. 42Levantai-vos. Vamos. Já se aproxima aquele que Me vai entregar».

N 43Ainda Jesus estava a falar, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes, pelos escribas e os anciãos. 44O traidor tinha-lhes dado este sinal: «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O e levai-O bem seguro». 45Logo que chegou, aproximou-se de Jesus e beijou-O, dizendo:

R «Mestre».

N 46Então deitaram-Lhe as mãos e prenderam-n’O. 47Um dos presentes puxou da espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. 48Jesus tomou a palavra e disse-lhes:

J  «Vós saístes com espadas e varapaus para Me prender, como se fosse um salteador. 49Todos os dias Eu estava no meio de vós, a ensinar no templo, e não Me prendestes! Mas é para se cumprirem as Escrituras».

N 50Então os discípulos deixaram-n’O e fugiram todos. 51Seguiu-O um jovem, envolto apenas num lençol. Agarraram-no, 52mas ele, largando o lençol, fugiu nu.

N 53Levaram então Jesus à presença do sumo sacerdote, onde se reuniram todos os príncipes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas. 54Pedro, que O seguira de longe, até ao interior do palácio do sumo sacerdote, estava sentado com os guardas, a aquecer-se ao lume. 55Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus para Lhe dar a morte, mas não o encontravam. 56Muitos testemunhavam falsamente contra Ele, mas os seus depoimentos não eram concordes. 57Levantaram-se então alguns, para proferir contra Ele este falso testemunho:

R 58«Ouvimo-l’O dizer: ‘Destruirei este templo feito pelos homens e em três dias construirei outro que não será feito pelos homens’».

N 59Mas nem assim o depoimento deles era concorde. 60Então o sumo sacerdote levantou-se no meio de todos e perguntou a Jesus:

R «Não respondes nada ao que eles depõem contra Ti?»

N 61Mas Jesus continuava calado e nada respondeu. O sumo sacerdote voltou a interrogá-l’O:

R «És Tu o Messias, Filho do Deus Bendito?»

N 62Jesus respondeu:

J  «Eu Sou. E vós vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso vir sobre as nuvens do céu».

N 63O sumo sacerdote rasgou as vestes e disse:

R «Que necessidade temos ainda de testemunhas? 64Ouvistes a blasfémia. Que vos parece?»

N Todos sentenciaram que Jesus era réu de morte. 65Depois, alguns começaram a cuspir-Lhe, a tapar-Lhe o rosto com um véu e a dar-Lhe punhadas, dizendo:

R «Adivinha».

N E os guardas davam-Lhe bofetadas. 66Pedro estava em baixo, no pátio, quando chegou uma das criadas do sumo sacerdote. 67Ao vê-lo a aquecer-se, olhou-o de frente e disse-lhe:

R «Tu também estavas com Jesus, o Nazareno».

N 68Mas ele negou:

R «Não sei nem entendo o que dizes».

N Depois saiu para o vestíbulo e o galo cantou. 69A criada, vendo-o de novo, começou a dizer aos presentes:

R «Este é um deles».

N 70Mas ele negou segunda vez. Pouco depois, os presentes diziam também a Pedro:

R «Na verdade, tu és deles, pois também és galileu».

N 71Mas ele começou a dizer imprecações e a jurar:

R «Não conheço esse homem de quem falais».

N 72E logo o galo cantou pela segunda vez. Então Pedro lembrou-se do que Jesus lhe tinha dito: «Antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás». E desatou a chorar.]

N 15, 1Logo de manhã, os príncipes dos sacerdotes reuniram-se em conselho com os anciãos e os escribas e todo o Sinédrio. Depois de terem manietado Jesus, foram entregá-l’O a Pilatos. 2Pilatos perguntou-Lhe:

R «Tu és o Rei dos judeus?»

N Jesus respondeu:

J  «É como dizes».

N 3E os príncipes dos sacertotes faziam muitas acusações contra Ele. 4Pilatos interrogou-O de novo:

R «Não respondes nada? Vê de quantas coisas Te acusam».

N 5Mas Jesus nada respondeu, de modo que Pilatos estava admirado. 6Pela festa da Páscoa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso à sua escolha. 7Havia um, chamado Barrabás, preso com os insurrectos que numa revolta tinham cometido um assassínio. 8A multidão, subindo, começou a pedir o que era costume conceder-lhes. 9Pilatos respondeu:

R «Quereis que vos solte o Rei dos judeus?»

N 10Ele sabia que os príncipes dos sacerdotes O tinham entregado por inveja. 11Entretanto, os príncipes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes soltasse antes Barrabás. 12Pilatos, tomando de novo a palavra, perguntou-lhes:

R «Então que hei-de fazer d’Aquele que chamais o Rei dos judeus?»

N 13Eles gritaram de novo:

R «Crucifica-O! 13»

N 14Pilatos insistiu:

R «Que mal fez Ele?»

N Mas eles gritaram ainda mais:

R «Crucifica-O!»

N 15Então Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás e, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-O para ser crucificado. 16Os soldados levaram-n’O para dentro do palácio, que era o pretório, e convocaram toda a corte. 17Revestiram-n’O com um manto de púrpura e puseram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos que haviam tecido. 18Depois começaram a saudá-l’O:

R «Salve, Rei dos judeus!»

N 19Batiam-Lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante d’Ele. 20Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Em seguida levaram-n’O dali para O crucificarem.

N 21Requisitaram, para Lhe levar a cruz, um homem que passava, vindo do campo, Simão de Cirene, pai de Alexandre e Rufo. 22E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, quer dizer, lugar do Calvário. 23Queriam dar-Lhe vinho misturado com mirra, mas Ele não o quis beber. 24Depois crucificaram-n’O. E repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que levaria cada um. 25Eram nove horas da manhã quando O crucificaram. 26O letreiro que indicava a causa da condenação tinha escrito: «Rei dos Judeus». Crucificaram com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. (27) 28Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:

R «Tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, 30salva-Te a Ti mesmo e desce da cruz».

N 31Os príncipes dos sacerdotes e os escribas troçavam uns com os outros, dizendo:

R «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! 32Esse Messias, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos».

N Até os que estavam crucificados com Ele O injuriavam. 33Quando chegou o meio-dia, as trevas envolveram toda a terra até às três horas da tarde. 34E às três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:

J  «Eloí, Eloí, lamá sabachtháni?»

N que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?» 35Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:

R «Está a chamar por Elias».

N 36Alguém correu a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta duma cana, deu-Lhe a beber e disse:

R «Deixa ver se Elias vem tirá-l’O dali».

N 37Então Jesus, soltando um grande brado, expirou. 38O véu do templo rasgou-se em duas partes de alto a baixo. 39O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou:

R «Na verdade, este homem era Filho de Deus».

N [40Estavam também ali umas mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, 41que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com Ele a Jerusalém. 42Ao cair da tarde – visto ser a Preparação, isto é, a véspera do sábado – 43José de Arimateia, ilustre membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, foi corajosamente à presença de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. 44Pilatos ficou admirado de Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se Jesus já tinha morrido. 45Informado pelo centurião, ordenou que o corpo fosse entregue a José. 46José comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol; depois depositou-O num sepulcro escavado na rocha e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro. 47Entretanto, Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido depositado.]

 

A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente por todos os Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e a obra redentora de Cristo. Houve até quem chegou ao extremo de afirmar que os Evangelhos são “um relato da Paixão, com uma introdução desenvolvida” (M. Kähler). No entanto, os dados registados são muitíssimo parcos e concisos, pois o primeiro objectivo destas quatro narrações não era dar uma informação completa de tudo o que aconteceu; se fosse assim, seria imperdoável que não se diga nada dos sentimentos dos intervenientes na acção. Jesus também não é apresentado como um herói que sofre dores morais e físicas absolutamente indizíveis – a crucifixão era esse crudelissimum teterrimumque supplicium (Cícero) – com uma serenidade majestática. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para com todos e cada um de nós (cf. Gal 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gál 1, 4). Não obstante, não se nota que esteja subjacente aos relatos qualquer intenção de mover o leitor à piedade, descrevendo a tragédia de uma forma comovedora. O que preside à intenção dos relatos é mostrar o sentido da Paixão do Senhor, o modo como, através de todos estes passos, se realiza e torna visível a nossa salvação, no pleno cumprimento das Escrituras, facilitando ao leitor entender o porquê de que tudo isto – tão assombrosamente paradoxal e escandaloso – tenha realmente acontecido. E é assim que todos os relatos da Paixão estão ligados aos da glória da Ressurreição, que acaba por oferecer a saída para tão misterioso enigma (J. M. Casciaro).

Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho que tomou a forma definitiva escrita mais cedo. As quatro narrativas da Paixão não se contradizem, mas completam-se e deixam ver a focagem teológica própria de cada evangelista. Marcos é o que se apresenta como mais espontâneo e o que melhor apresenta, na sua crueza realista, o horror do sofrimento de Jesus. Na agonia do Getxemaní, só ele diz que Jesus “sentiu pavor” (Mc 14, 33), e não apenas angústia, e também o pedido de que se afaste o cálice de amargura aparece como mais urgente: “Abbá,… tudo te é possível. Afasta de mim este cálice” (v. 36). Por outro lado, só ele diz, na censura aos discípulos adormecidos, que eles “não sabiam o que Lhe haviam de responder” (Mc 14, 40) e já antes a censura aparecia mais directamente dirigida a Pedro: “não foste capaz…” (v. 37). Também é de notar o pormenor exclusivo do segundo canto do galo nas negações de Pedro (Mc 14, 72). Só Marcos diz que Simão Cireneu era “pai de Alexandre e Rufo” (pensa-se que este pormenor se deve a que estes vieram a ser cristãos bem conhecidos: cf. Rom 16, 13).

N.B. – Para não nos alongarmos mais em comentários, podem ver-se as notas sobre a Paixão do Senhor, infra, em Sexta-feira Santa, assim como as do ano passado, ao Evangelho de S. Mateus (Celebração Litúrgica, Ano A, 2004/2005, pp. 363-367).

 

Quinta Feira Santa

 

1ª Leitura Êxodo 12, 1-8.11-14

 

1Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: 2”Este mês será para vós o princípio dos meses; fareis dele o primeiro mês do ano. 3Falai a toda a comunidade de Israel e dizei-lhe: No dia dez deste mês, procure cada qual um cordeiro por família, uma rês por cada casa. 4Se a família for pequena demais para comer um cordeiro, junte-se ao vizinho mais próximo, segundo o número de pessoas, tendo em conta o que cada um pode comer. 5Tomareis um animal sem defeito, macho e de um ano de idade. Podeis escolher um cordeiro ou um cabrito. 6Deveis conservá-lo até ao dia catorze desse mês. Então, toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. 7Recolherão depois o seu sangue, que será espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta das casas em que o comerem. 8E comerão a carne nessa mesma noite; comê-la-ão assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. 11Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. Comereis a toda a pressa: é a Páscoa do Senhor. 12Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egipto e hei-de ferir de morte, na terra do Egipto, todos os primogénitos, desde os homens até aos animais. Assim exercerei a minha justiça contra os deuses do Egipto, Eu, o Senhor. 13O sangue será para vós um sinal, nas casas em que estiverdes: ao ver o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a terra do Egipto. 14Esse dia será para vós uma data memorável, que haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor. Festejá-lo-eis de geração em geração, como instituição perpétua”.

 

Temos aqui, num texto de tipo catequético-litúrgico, a promulgação da lei da Páscoa judaica como “instituição perpétua” a ser festejada por todas as gerações (v. 14). Na origem desta festa da “Páscoa” – dum étimo semítico: salto festivo – parece estar uma antiga festa de pastores nómadas, própria da Primavera, a época em que nascem os cordeiros; então sacrificavam um cordeiro recém-nascido e com o seu sangue faziam ritos a implorar protecção e a fecundidade. Também pela época da Primavera parece que havia outra festa, a dos “Ázimos”, com o sentido de novidade e rotura com o passado (o fermento). As duas festas vieram a fundir-se numa só. A Toráh terá assumido estas duas festas, dando-lhes o novo e profundo significado que neste texto legal fica bem assinalado, para celebrar a libertação do Egipto.

A ceia pascal é celebrada na noite de 14 para 15 do mês de Nisan (Março/Abril), a noite da lua cheia que se seguia ao equinócio da primavera, pois o 1° dia do mês era o 1º dia da lua nova; então se comiam os pães ázimos, isto é, sem fermento (do grego a-zymê , em hebraico, os matsôth ) durante os sete dias da festa, de 15 a 21 de Nisan. O cordeiro imolado recordava aquele outro cordeiro com cujo sangue os israelitas marcaram as suas portas para que o “o flagelo exterminador”  ali não atingisse ninguém. A própria palavra “Páscoa”, com uma etimologia muito discutida, pode provir do étimo psh, que significa saltar, passar por cima de, prestando-se a significar o flagelo mortal que passou ao largo das casas dos israelitas (cf. Ex 12, 27) na região de Guéssen ou Góxen; neste texto a palavra Páscoa é entendida como a passagem do Senhor, a fim de libertar o seu povo. O pão sem fermento lembrava a pressa com que os israelitas saíram do Egipto, tendo de levar consigo a massa do pão antes de ter fermentado (Ex 12, 34.39).

No entanto, a celebração da Páscoa não era para os israelitas uma mera recordação agradecida da libertação duma escravidão passada, mas era algo que os orientava para uma libertação futura completa e definitiva, que se haveria de dar com a vinda do Messias. Havia mesmo uma crença judaica em que o Messias viria numa noite de Páscoa: “nesta noite foram libertados, e nela também serão libertos” . Esta alegre esperança manifestava-se no costume, que ainda hoje se mantém, de deixar um lugar vazio à mesa, para alguém que chegue na última hora, que afortunadamente poderia ser o profeta Elias, precursor do Messias. De facto, um dia o próprio Messias havia de se pôr à mesa da ceia pascal, rodeado dos seus discípulos, para então inaugurar a era da autêntica e definitiva libertação. Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal (1 Cor 5, 7; Jo 19, 36) que se oferece em sacrifício, com cujo sangue somos redimidos e com cuja carne somos alimentados no banquete eucarístico, prelúdio do banquete celeste (cf. Mc 14, 25). Os samaritanos ainda hoje celebram a Páscoa como se descreve neste texto do Êxodo, sem refeição solene, sem vinho e à pressa. Os judeus celebram-na como refeição solene; já era assim no tempo de Jesus, em razão de já terem saído da escravidão para a liberdade; mas, em vez de comerem sentados como habitualmente, comiam recostados sobre esteiras ou divãs, apoiando-se sobre o braço esquerdo, a partir da época helenística (cf. Lc 22, 14).

 

2ª leitura 1 Coríntios 11, 23-26

 

Irmãos: 23Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, 24partiu-o e disse: “Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim”. 25Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim”. 26Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.

 

Temos aqui o relato da última Ceia, o mais antigo dos quatro que aparecem no N. T., escrito apenas uns 25 anos após o acontecimento. São Paulo diz que isto mesmo já o tinha pregado aos cristãos (v. 23) uns quatro anos atrás, durante os 18 meses em que evangelizou a cidade de Corinto, por ocasião da sua segunda viagem.

23 “Recebi do Senhor”: O original grego (com o uso da preposição apó  e não pará) deixa ver que S. Paulo recebeu esta doutrina pela tradição que remonta ao Senhor e não directamente dele, por meio de alguma revelação, como alguém poderia pensar. “Na noite em que ia ser entregue”: celebramos hoje uma dupla entrega do Senhor, a sua entrega às mãos dos seus inimigos, para a morrer pelos nossos pecados e nos ganhar a vida divina, e a entrega no Sacramento da SS. Eucaristia, como alimento desta mesma vida divina. Para o seu amor infinito, é pouco dar-se todo uma só vez por todos; quer dar-se todo a cada um de nós todas as vezes que nos disponhamos a recebê-lo!

24 “Isto é o Meu Corpo”: A expressão de Jesus é categórica e terminante, sem deixar lugar a mal entendidos. Não diz “aqui está o meu corpo” , nem “isto simboliza o meu corpo” , mas sim: “isto é o meu corpo” , como se dissesse “este pão já não é pão, mas é o meu corpo”, equivalendo a “isto sou Eu mesmo” . Todas as tentativas heréticas de entender estas palavras num sentido meramente simbólico, fazem violência ao texto e não têm seriedade. É certo que o verbo “ser”  também pode ter o sentido de “ser como” , “significar” , mas isto é só quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê facilmente como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como é que o pode significar. Atenda-se a que Jesus, com a palavra isto não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; portanto não tem sentido dizer que, com a fracção do pão, o Senhor queria representar o despedaçar do seu corpo por uma morte violenta (o corpo entregue ); Jesus não podia querer dizer tal coisa, pois, se o quisesse dizer, havia de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era um gesto usual do chefe da mesa em todas as refeições, não sendo possível ver um outro sentido; por outro lado, o beber do cálice também não se podia prestar a um tal sentido.

Os Apóstolos vieram a entender as palavras de Jesus no seu verdadeiro realismo, como aparecem no discurso do Pão da Vida (Jo 6, 51-58). Se Jesus não quisesse dar este sentido realista às suas palavras, também os seus discípulos e a primitiva Igreja não lho podiam dar, porque beber o sangue era algo sumamente escandaloso para gente criada no judaísmo, que ia ao ponto de proibir a comida do sangue e até mesmo de animais não sangrados. Se S. Paulo não entendesse estas palavras de Jesus num sentido realista, não teria podido afirmar no v. 27 (omitido na leitura de hoje): “quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor”; e no v. 29 fala de “distinguir o corpo do Senhor”.

Paulo VI, na encíclica Misterium fidei, rejeitou as explicações teológicas (transignificação e transfinalização) que não respeitem suficientemente o realismo da presença real:  “Mas para que, ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera as leis da natureza e constitui o maior dos milagres no seu género, é preciso seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Pois bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no seu corpo e de toda a substância no vinho no seu sangue; conversão admirável e singular à qual a Igreja justamente e com propriedade chama transubstanciação” (atenda-se a que aqui a noção de substância não é a da Física ou da Química, mas a da Metafísica).

24-25 “Fazei isto em memória de Mim”: Com estas palavras, Jesus Cristo entrega aos Apóstolos (e aos seus sucessores) o poder ministerial de celebrar o Mistério Eucarístico; por isso, Quinta-Feira Santa é o dia do sacerdócio e dos sacerdotes.

25 “A Nova Aliança com o meu Sangue”: Jesus compara o seu sangue, que vai derramar na cruz, ao sangue do sacrifício da Aliança do Sinai (cf. Ex 24, 8), como sendo o novo sacrifício com que se ratifica a Nova Aliança de Deus com a Humanidade, aliança anunciada pelos profetas (Jer 31, 31-33). Na Ceia temos o mesmo sacrifício do Calvário antecipado sacramentalmente através das palavras do próprio Jesus. Na Missa temos igualmente o mesmo sacrifício da Cruz renovado e representado sacramentalmente através da dupla consagração feita pelo sacerdote que actua na pessoa e em nome de Cristo, sendo Ele o mesmo oferente principal, a mesma vítima e sendo os merecimentos os mesmos do único Sacrifício redentor a serem aplicados, Sacrifício oferecido de uma vez para sempre (efápax: cf. Hebr 9, 25-28; 10, 10.18).

26 Anunciareis a Morte do Senhor”: No altar já não se derrama o sangue de Cristo, como na Cruz, mas oferece-se, de modo incruento, o mesmo sacrifício; “a Missa é ao mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial sacrificial em que se perpetua o sacrifício da cruz e o banquete sagrado da comunhão do corpo e sangue do Senhor” (Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 12).

 

Evangelho São João 13, 1-15

 

1Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. 2No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, 3Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, 4levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha que pôs à cintura. 5Depois, deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. 6Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: “Senhor, Tu vais lavar-me os pés?” 7Jesus respondeu: “O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde”. 8Pedro insistiu: “Nunca consentirei que me laves os pés”. Jesus respondeu-lhe: “Se não tos lavar, não terás parte comigo”. 9Simão Pedro replicou: “Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça”. 10Jesus respondeu-lhe: “Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos”. 11Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: “Nem todos estais limpos”. 12Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: “Compreendeis o que vos fiz? 13Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. 14Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também”.

 

1. “Antes da festa da Páscoa”: A ceia de que aqui se fala (v. 2) não é descrita como sendo a Ceia Pascal dos Sinópticos (Mt 26, 17-35; Mc 14, 12-31; Lc 22, 7-39), mas não pode ser outra, por se tratar da mesma da noite em que Jesus foi preso. Se S. João se limita a dizer “antes da festa da Páscoa”, sem precisar que era a véspera (a Preparação), é porque ele quer que se entenda a morte de Jesus como a imolação do cordeiro pascal, ao colocá-la no mesmo dia (a Preparação: 19, 31.42) em que no templo eram imolados os cordeiros para a festa; sendo assim, evita intencionalmente o dar à Última Ceia qualquer carácter pascal; e pensamos que esta pode ser uma séria razão para não falar da instituição da Eucaristia, referida no discurso do Pão da Vida (cf. Jo 6, 51-58).

“Amou-os até ao fim”, isto é, até à consumação (19, 30), indicando o seu amor de total entrega, até à morte (cf. 15, 13; 1 Jo 3, 16; Gal 2, 20), embora com esta não termine o seu amor, pois “não só até aqui nos amou quem nos ama sempre e sem fim” (Santo Agostinho); também ver-se aqui uma alusão ao amor revelado na instituição da Eucaristia que S. João não conta, natural­men­te por já lhe ter dedicado todo o capítulo VI e, como já se disse, para evitar dar a esta ceia um carácter pascal. Outra tradução possível: “levou o seu amor por eles até ao extremo” . Jesus não só amou os seus até ao último momento da sua vida terrena, mas não podia amá-los mais: amou-nos até à loucura e da Cruz e da Eucaristia.

3 “Jesus, sabendo...” Lavar os pés era um ofício exclusivo de escravos (1 Sam 25, 41) e os rabinos chegavam a explicitar que só se devia impor esse humilhante serviço a escravos que não fossem da raça hebraica, baseando-se em Lv 25, 39. Jesus, ao sujeitar-se a esse gesto aviltante, não renuncia à sua dignidade de Filho de Deus; a oposição decidida de Pedro mostra o profundo choque causado pela atitude do Senhor. Não se pode estabelecer o momento exacto do lava-pés, pois não estavam previstas lavagens dos pés na Ceia, mas apenas o lavar das mãos; o que Jesus realiza é antes de mais uma acção simbólica, à maneira dos profetas. Talvez a discussão travada na Ceia sobre quem seria o maior dos Apóstolos (cf. Lc 22, 24) tenha levado Jesus a dar-lhes uma lição com o seu gesto: é maior aquele que mais serve. Aparecem assim dois significados no gesto de Jesus: um simbólico e outro de exemplo a imitar. Nos vv. 6-11, aparece mais o valor simbólico: Jesus é quem purifica os seus dos seus pecados e sem isso não se pode ter parte com Ele (v. 8), purificação que é um efeito da sua Morte redentora. Nos vv. 14-15, Jesus propõe o seu exemplo para ser imitado: “Eu vos lavei os pés, sendo Mestre e Senhor, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”, isto é, prestar aos outros todos os serviços, mesmo os mais humildes e humilhantes. Ter autoridade na Igreja (e também na sociedade civil) não é ter à disposição os outros para ser servido, mas é estar à disposição de todos para os servir eficazmente. A vida cristã consiste em imitar o exemplo de Jesus Cristo: 1 Pe 2, 21; 1 Jo 2, 6; Fil 2, 5; 1 Cor 11, 1; Ef 5, 1; 1 Tes 1, 6...

 

Sexta-Feira Santa (Celebração da Paixão do Senhor)

 

1ª leitura Isaías 52, 13-15 – 53, 1-12

 

13Vede como vai prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á, será exaltado. 14Assim como, à sua vista, muitos se encheram de espanto, tão desfigurado estava o seu rosto que tinha perdido toda a aparência de um ser humano, 15assim se hão-de encher de assombro muitas nações e, diante dele, os reis ficarão calados, porque hão-de ver o que nunca lhes tinham contado e observar o que nunca tinham ouvido. 1Quem acreditou no que ouvimos dizer? A quem se revelou o braço do Senhor? 2O meu servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida, sem distinção nem beleza para atrair o nosso olhar nem aspecto agradável que possa cativar-nos. 3Desprezado e repelido pelos homens, homem de dores, acostumado ao sofrimento, era como aquele de quem se desvia o rosto, pessoa desprezível e sem valor para nós. 4Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas nós víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. 5Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados. 6Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes, cada qual seguia o seu caminho. E o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós. 7Maltratado, humilhou-se voluntariamente e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca. 8Foi eliminado por sentença iníqua, mas, quem se preocupa com a sua sorte? Foi arrancado da terra dos vivos e ferido de morte pelos pecados do meu povo. 9Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios e um túmulo no meio de malfeitores, embora não tivesse cometido injustiça nem se tivesse encontrado mentira na sua boca. 10Aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento. Mas, se oferecer a sua vida como sacrifício de expiação, terá uma descendência duradoira, viverá longos dias e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. 11Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado na sua sabedoria. O justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades. 12Por isso, Eu lhe darei as multidões como prémio e terá parte nos despojos no meio dos poderosos; porque ele próprio entregou a sua vida à morte e foi contado entre os malfeitores, tomou sobre si as culpas das multidões e intercedeu pelos pecadores.

 

Temos aqui o 4.° canto dos Poemas do Servo de Yahwéh, os quais formam no seu conjunto uma grande unidade literária, embora apareçam dispersos pela segunda parte do Livro de Isaías. Todos os quatro cânticos encerram um sentido messiânico e aparecem citados no Novo Testamento como tendo tido a sua realização em Jesus Cristo. Este é o último, o mais longo, mais denso e o mais belo, que chegou a ser chamado o 5º Evangelho, pois nele se pode entrever uma imagem muito pormenorizada da missão redentora de Jesus, através da sua Paixão e glorificação. Compõe-se de três estrofes: 52, 13-15; 53, 1-11a; 53, 11b-12); na primeira e na última, temos Yahwéh a falar-nos do seu servo; na segunda, é o Profeta que toma a palavra. O texto coloca-nos perante um impressionante paradoxo que se verificou em Jesus: do cúmulo da dor e da humilhação o servo chega ao auge do êxito e da exaltação; a sua vida e missão é de molde a encher de espanto e de assombro as multidões e os próprios reis da terra (52, 13-15), porque o que se passa com ele é absolutamente inaudito e humanamente incrível (53, 1). Por outro lado, é a primeira vez que na tradição bíblica aparece a expiação vicária.

53, 2 “Um rebento”: Esta é uma imagem corrente nos profetas para designarem o Messias (cf. Is 11, 10; Jer 23, 5-6; Zac 3, 8; 6, 12).

4-6 A razão de tanta dor e humilhação do “homem de dores” (v. 3) não são culpas próprias, pois é inocente, mas é porque o Senhor fez cair sobre ele as faltas de todos nós: a sua expiação é uma expiação vicária (cf. vv. 5.6.8.11.12); porque ele era inocente e justo e podia oferecer a Deus uma satisfação condigna e obter-nos o perdão.

10-12 O êxito da sua missão expiatória é aqui descrito: uma descendência duradoira (v. 10); verá a luz e ficará saciado (v. 10); justificará multidões de homens (v. 11); terá em posse as multidões como prémio (v. 12; cf. Salm 2, 8). Assim sucede com Jesus, que, através da sua obra redentora consumada no Calvário, alcança para si “um povo adquirido em propriedade” (cf. 1 Pe 2, 9; Ex 19, 5; Is 43, 21), a quem justifica tornando-nos seus filhos, “uma descendência duradoira” (v. 10) de Deus, e chega à luz da glória da Ressurreição.

 

2ª leitura Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9

 

Irmãos: 14Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. 15Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de Se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado. 16Vamos, portanto, cheios de confiança, ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno. 5,7Nos dias da sua vida mortal, Ele dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte, e foi atendido por causa da sua piedade. 8Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento. 9E, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se, para todos os que Lhe obedecem, causa de salvação eterna.

 

A beleza e expressividade deste texto, tão bem adaptado ao dia de hoje dispensa grandes comentários. Corresponde ao início da exposição do tema central da epístola (4, 14 – 7. 28), o sacerdócio de Cristo.

14 “Temos nós um sumo sacerdote”. Jesus não se limita, como o sumo sacerdote dos judeus, a penetrar no Santo dos Santos no Dia da Expiação (Yom Qipur) para expiar os pecados do povo; Ele penetra no próprio Céu e abre-nos o caminho para lá; e faz isto, não com o sangue de animais, mas com o seu próprio sangue (9, 12), com grande sofrimento da sua parte: “com lágrimas” (v. 7), pois, apesar de ser o Filho de Deus, quis experimentar quanto custa obedecer e sofrer (cf. v. 8). Assim, Jesus tem mais um título para se compadecer de nós, das nossas dores e fraquezas: é que possui a experiência concreta de todas as provações a que pode um homem ser sujeito nesta vida, com excepção do pecado (cf. v. 15). Só nos resta ter a fé, a confiança e a humildade de recorrer à sua infinita misericórdia – “trono da graça” (v. 16) – para obter a ajuda de que precisamos.

5, 7-9 Ver supra, notas à 2ª leitura do 5º Domingo da Quaresma.

 

Evangelho São João 18, 1-40; 19, 1-42

 

N Naquele tempo, 1Jesus saiu com os seus discípulos para o outro lado da torrente do Cédron. 2Havia lá um jardim, onde Ele entrou com os seus discípulos. Judas, que O ia entregar, conhecia também o local, porque Jesus Se reunira lá muitas vezes com os discípulos. 3Tomando consigo uma companhia de soldados e alguns guardas, enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos fariseus, Judas chegou ali, com archotes, lanternas e armas. 4Sabendo Jesus tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-Se e perguntou-lhes:

“A quem buscais?”

N 5Eles responderam-Lhe:

R “A Jesus, o Nazareno”.

N Jesus disse-lhes:

“Sou Eu”.

N Judas, que O ia entregar, também estava com eles. 6Quando Jesus lhes disse: “Sou Eu”, recuaram e caíram por terra. 7Jesus perguntou-lhes novamente:

“A quem buscais?”

N Eles responderam:

R “A Jesus, o Nazareno”.

N 8Disse-lhes Jesus:

“Já vos disse que sou Eu. Por isso, se é a Mim que buscais, deixai que estes se retirem”.

N 9Assim se cumpriam as palavras que Ele tinha dito: “Daqueles que Me deste, não perdi nenhum”. 10Então, Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. 11Mas Jesus disse a Pedro:

“Mete a tua espada na bainha. Não hei-de beber o cálice que meu Pai Me deu?”

N 12Então, a companhia de soldados, o oficial e os guardas dos judeus apoderaram-se de Jesus e manietaram-n’O. 13Levaram-n’O primeiro a Anás, por ser sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote nesse ano. 14Caifás é que tinha dado o seguinte conselho aos judeus: “Convém que morra um só homem pelo povo”. 15Entretanto, Simão Pedro seguia Jesus com outro discípulo. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote, 16enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora. Então o outro discípulo, conhecido do sumo sacerdote, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17A porteira disse a Pedro:

R “Tu não és dos discípulos desse homem?”

N Ele respondeu:

R “Não sou”.

N 18Estavam ali presentes os servos e os guardas, que, por causa do frio, tinham acendido um braseiro e se aqueciam. Pedro também se encontrava com eles a aquecer-se. 19Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. 20Jesus respondeu-lhe:

“Falei abertamente ao mundo. Sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. 21Porque Me interrogas? Pergunta aos que Me ouviram o que lhes disse: eles bem sabem aquilo de que lhes falei”.

N 22A estas palavras, um dos guardas que estava ali presente deu uma bofetada a Jesus e disse-Lhe:

R “É assim que respondes ao sumo sacerdote?”

N 23Jesus respondeu-lhe:

“Se falei mal, mostra-Me em quê. Mas, se falei bem, porque Me bates?”

N 24Então Anás mandou Jesus manietado ao sumo sacerdote Caifás. 25Simão Pedro continuava ali a aquecer-se. Disseram-lhe então:

R “Tu não és também um dos seus discípulos?”

N Ele negou, dizendo:

R “Não sou”.

N 26Replicou um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha:

R “Então eu não te vi com Ele no jardim?”

N 27Pedro negou novamente, e logo um galo cantou. 28Depois, levaram Jesus da residência de Caifás ao Pretório. Era de manhã cedo. Eles não entraram no pretório, para não se contaminarem e assim poderem comer a Páscoa. 29Pilatos veio cá fora ter com eles e perguntou-lhes:

R “Que acusação trazeis contra este homem?”

N 30Eles responderam-lhe:

R “Se não fosse malfeitor, não t’O entregávamos”.

N 31Disse-lhes Pilatos:

R “Tomai-O vós próprios e julgai-O segundo a vossa lei”.

N Os judeus responderam:

R “Não nos é permitido dar a morte a ninguém”.

N 32Assim se cumpriam as palavras que Jesus tinha dito, ao indicar de que morte ia morrer. 33Entretanto, Pilatos entrou novamente no pretório, chamou Jesus e perguntou-Lhe:

R “Tu és o Rei dos judeus?”

N 34Jesus respondeu-lhe:

“É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?”

N 35Disse-Lhe Pilatos:

R “Porventura sou eu judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a Mim. Que fizeste?”

N 36Jesus respondeu:

“O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”.

N 37Disse-Lhe Pilatos:

R “Então, Tu és Rei?”

N Jesus respondeu-lhe:

“É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

N 38Disse-Lhe Pilatos:

R “Que é a verdade?”

N Dito isto, saiu novamente para fora e declarou aos judeus:

R “Não encontro neste homem culpa nenhuma. 39Mas vós estais habituados a que eu vos solte alguém pela Páscoa. Quereis que vos solte o Rei dos judeus?”

N 40Eles gritaram de novo:

R “Esse não. Antes Barrabás”.

N Barrabás era um salteador. 1Então Pilatos mandou que levassem Jesus e O açoitassem. 2Os soldados teceram uma coroa de espinhos, colocaram-Lha na cabeça e envolveram Jesus num manto de púrpura. 3Depois aproximavam-se d’Ele e diziam:

R “Salve, Rei dos judeus”.

N E davam-Lhe bofetadas. 4Pilatos saiu novamente para fora e disse:

R “Eu vo-l’O trago aqui fora, para saberdes que não encontro n’Ele culpa nenhuma”.

N 5Jesus saiu, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse-lhes:

R “Eis o homem”.

N 6Quando viram Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os guardas gritaram:

R “Crucifica-O! Crucifica-O!”.

N Disse-lhes Pilatos:

R “Tomai-O vós mesmos e crucificai-O, que eu não encontro n’Ele culpa alguma”.

N 7Responderam-lhe os judeus:

R “Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve morrer, porque Se fez Filho de Deus”.

N 8Quando Pilatos ouviu estas palavras, ficou assustado. 9Voltou a entrar no pretório e perguntou a Jesus:

R “Donde és Tu?”

N Mas Jesus não lhe deu resposta. 10Disse-Lhe então Pilatos:

R “Não me falas? Não sabes que tenho poder para Te soltar e para Te crucificar?”

N Jesus respondeu-lhe:

11”Nenhum poder terias sobre Mim, se não te fosse dado do alto. Por isso, quem Me entregou a ti tem maior pecado”.

N 12A partir de então, Pilatos procurava libertar Jesus. Mas os judeus gritavam:

R “Se O libertares, não és amigo de César: todo aquele que se faz rei é contra César”.

N 13Ao ouvir estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado “Lagedo”, em hebraico “Gabatá”. 14Era a Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Disse então aos judeus:

R “Eis o vosso Rei!”

N 15Mas eles gritaram:

R “À morte, à morte! Crucifica-O!”

N Disse-lhes Pilatos:

R “Hei-de crucificar o vosso Rei?”

N Replicaram-lhe os príncipes dos sacerdotes:

R “Não temos outro rei senão César”.

N 16Entregou-lhes então Jesus, para ser crucificado. E eles apoderaram-se de Jesus. 17Levando a cruz, Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário, que em hebraico se diz Gólgota. 18Ali O crucificaram, e com Ele mais dois: um de cada lado e Jesus no meio. 19Pilatos escreveu ainda um letreiro e colocou-o no alto da cruz; nele estava escrito: “Jesus, o Nazareno, Rei dos judeus”. 20Muitos judeus leram esse letreiro, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado era perto da cidade. Estava escrito em hebraico, grego e latim. 21Diziam então a Pilatos os príncipes dos sacerdotes dos judeus:

R “Não escrevas: ‘Rei dos judeus’, mas que Ele afirmou: ‘Eu sou o Rei dos judeus’”.

N 22Pilatos retorquiu:

R “O que escrevi está escrito”.

N 23Quando crucificaram Jesus, os soldados tomaram as suas vestes, das quais fizeram quatro lotes, um para cada soldado, e ficaram também com a túnica. A túnica não tinha costura: era tecida de alto a baixo como um todo. 24Disseram uns aos outros:

R “Não a rasguemos, mas lancemos sortes, para ver de quem será”.

N Assim se cumpria a Escritura: “Repartiram entre si as minhas vestes e deitaram sortes sobre a minha túnica”. Foi o que fizeram os soldados. 25Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena. 26Ao ver sua Mãe e o discípulo predilecto, Jesus disse a sua Mãe:

“Mulher, eis o teu filho”.

N 27Depois disse ao discípulo:

“Eis a tua Mãe”.

N E a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa. 28Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse:

“Tenho sede”.

N 29Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-Lha à boca. 30Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou:

“Tudo está consumado”.

N E, inclinando a cabeca, expirou.

N 31Por ser a Preparação, e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado, – era um grande dia aquele sábado – os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. 32Os soldados vieram e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com ele. 33Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, 34mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. 35Aquele que viu é que dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis. 36Assim aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: “Nenhum osso Lhe será quebrado”. 37Diz ainda outra passagem da Escritura: “Hão-de olhar para Aquele que trespassaram”. 38Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos judeus, pediu licença a Pilatos para levar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu-lho. José veio então tirar o corpo de Jesus. 39Veio também Nicodemos, aquele que, antes, tinha ido de noite ao encontro de Jesus. Trazia uma mistura de quase cem libras de mirra e aloés. 40Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em ligaduras juntamente com os perfumes, como é costume sepultar entre os judeus. 41No local em que Jesus tinha sido crucificado, havia um jardim e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ainda ninguém fora sepultado. 42Foi aí que, por causa da Preparação dos judeus, porque o sepulcro ficava perto, depositaram Jesus.

 

Os quatro desenvolvidos relatos da Paixão do Senhor que nos propõem todos os quatro evangelistas não são um mero relato. Têm um quê de reflexão e meditação sobre tão assombrosos acontecimentos, à luz do Antigo Testamento. Também nós não devemos passar apressadamente os olhos por estas páginas, mas meditá-las, metermo-nos dentro destas cenas e renovar frequentemente a sua lembrança: quem sofre, quanto sofre, para que sofre e porque sofre, por quem sofre? Esta meditação tem feito muito santos ao longo de todos os tempos, pois não pode deixar ninguém indiferente: um tão grande amor só com amor se paga (sic nos amantem quis non redamaret?).  

É neste relato onde o paralelismo com os Sinópticos é maior, embora apareçam muitos pormenores específicos e sobretudo uma profunda visão teológica muito própria que põe em relevo a serena majestade de Jesus que caminha livremente para a Cruz como para um trono de glória e uma fonte de vida para os seus; mesmo quando é esbofeteado e feito rei de comédia, aparece com toda a dignidade real que Lhe compete; assim, João evita descrever a agonia, embora a não ignore (cf. v. 11; 12, 27-28).

18, 1-2 “A torrente do Cédron” era uma corrente de água invernal; há muitas na Palestina a que os árabes chamam wadi. Só é nomeada aqui em todo o N. T. (cf. 2 Sam 15, 23); corre para o Mar Morto no profundo vale que separa Jerusalém do Monte das Oliveiras, onde ficava a propriedade em que Jesus é preso; só João diz que é um “jardim”, como o lugar onde é sepultado, talvez para se ver uma alusão ao jardim do Éden: onde teve ruína a humanidade aí o novo Adão obtém a salvação. Este “jardim” é o Getsemani, Gath-Xemani, isto é, “lagar de azeite”, (nomeado nos Sinópticos) um sítio venerado de há muito tempo, onde se encontram os restos duma basílica de finais do século IV, e hoje a bela e recolhida “Basílica das Nações”, bem como o “Horto”, com rebentos de oliveiras antiquíssimas a lembrar as que foram testemunhas da Agonia de Jesus.

3-12. Apenas João fala da intervenção de soldados romanos: seria apenas um destacamento duma coorte, pois esta tinha 600 homens. A prisão de Jesus não se deve à violência exercida mas à sua entrega soberana e consciente (Eu Sou!); preso, exige a liberdade dos seus (v. 8). Só João revela os nomes de Pedro e de Malco na cena do golpe de espada.

“Recuaram e caíram por terra”. Jesus, contra o que esperavam os atacantes, entrega-se serenamente. Podemos imaginar que os que iam à frente tenham ficado tão impressionados com a superior dignidade da atitude de Jesus e com a sua serena majestade que, perturbados, recuam instintivamente, tropeçam e caem por terra: a sua agressividade fora desarmada e dominada pela atitude divinamente superior de Jesus. S. João põe o acento neste pormenor para que vejam como o Senhor caminha livremente para a morte. Jesus não padece e morre porque não havia outra saída humana; Jesus padece e morre porque era essa a única saída divina.

11 “O cálice que Meu Pai Me deu…”: Estas palavras de Jesus parecem conter uma discreta alusão de S. João ao cálice da agonia. Mas S. João não quer fixar-se na agonia do horto, por isso não a relata. É que nos quer apresentar Jesus na sua Paixão sempre como vencedor e sem a aparência de vencido: Jesus aparece-nos numa atitude hierática, mesmo quando sofre a maior dor humana. A cruz é um trono donde o Salvador reina salvando os seus, atraindo a si e reconciliando, é o regresso ao Pai, a consumação do sacrifício do novo cordeiro pascal com cujo sangue somos redimidos e libertados (cf. Jo 19, 30.36).

13-14. S. João é o único que nos conta que Jesus foi levado ao influente Anás que fora sumo sacerdote entre os anos 6 e 15 e a quem vieram a suceder cinco dos seus filhos e, nesta data, o seu genro, José Caifás (cf. 11, 49.50).

15-27. O outro discípulo (v. 15) é provavelmente João. O interrogató­rio de Anás (vv. 19ss) versa sobre duas coisas públicas e sabidas: a doutrina e os discípulos de Jesus, mas os inimigos suspeitam de planos secretos e sinistros, por se negarem a ver e a crer (cf. 9, 39-41; 10, 37-38); e uma doutrina do reino e uns discípulos galileus (zelotas?) forneceriam a base da denúncia aos romanos. Jesus defende-se, mas sem perder a serenidade. Note-se como as três negações de Pedro, embora contadas de forma resumida e discreta, assumem um aspecto dramático pelo facto de se introduzir no meio delas (vv. 19-24) o interrogatório de Anás, a quem Jesus declara: “pergunta aos que Me ouviram…” (v. 21), e é mesmo o ouvinte privilegiado de Jesus quem nega, ficando patente o contraste entre a afirmação de Mestre, “Eu sou” (vv. 5.8) e a negação do discípulo,”não sou” (vv. 17.25). Nos Sinópticos as negações são no pátio da casa de Caifás (cf. Mt 26, 57ss; Mc 14, 53ss; Lc 22, 54ss), uma contradição sem importância, talvez só aparente, pois o pátio bem poderia ser comum à casa de ambos. João limita-se a dizer que Jesus foi enviado a Caifás (v. 24), sem relatar a sessão do Sinédrio que na manhã de sexta-feira O condenou (cf. Lc 22, 66-71; Mc 14, 55-64; Mt 26, 59-66); com isto pretenderia sublinhar que a condenação já estava decretada (cf. Jo 11, 47-53). É notável a discrição e delicadeza com que o Discípulo amado relata a tríplice negação do chefe dos Apóstolos. O relato mais pormenorizado do pecado de Pedro que temos nos Sinópticos é o de Marcos; pode dever-se muito bem à tradição oral que procedia do próprio Pedro (recolhida pelo próprio Marcos), que teria a humildade de contar frequentemente as suas negações com todo o realismo.

28ss. S. João dá ao processo diante de Pilatos uma grande importância; a narrativa põe em contraste a serenidade e a segurança de Jesus com a agitação e ansiedade dos inimigos; é um relato em sete cenas que se desenrolam alternada­men­te no exterior e na sede do governador romano, o “pretório”, pois os acusadores evitam entrar em casa dum gentio para não contraírem uma impureza legal que os obrigaria a adiar a celebração da ceia pascal; com efeito, os príncipes dos sacerdotes, o único grupo a ser nomeado (18, 35; 19, 6.15.21) no processo de Jesus, eram do partido dos saduceus, que naquele ano atrasaram um dia a celebração da Páscoa. As actas do processo de Jesus ainda se conservariam nos arquivos do império por meados do século II, pois S. Justino, escrevendo ao imperador Antonino Pio, apela para as Actas de Pilatos para verificar a inocência de Jesus (I Apologia 35, 9; 48, 3).

“E poderem comer a Páscoa” (v. 28): Jesus tinha comido a Páscoa, ou cordeiro pascal, mas seguindo um calendário diferente (sobre esta divergência de datas há muitas tentativas de solução, mas nenhuma definitiva). Entrar em casa dum gentio (o pretório) era contrair uma impureza e, contraída no dia em que pertencia celebrar a ceia pascal, levava a ter de se adiar a sua celebração para o mesmo dia do mês seguinte, o que normalmente ninguém desejava. Note-se o cúmulo do formalismo hipócrita: tem-se escrúpulo de entrar em casa dum gentio, mas não se receia condenar o inocente à morte!

18, 28 – 19, 16 O processo de Jesus diante Pilatos é descrito mais detidamente e com todo o pormenor em S. João: Jesus é trazido a Pilatos, que este não se convence da culpa de Jesus (33-38a); o primeiro expediente de Pilatos, para evitar tomar a decisão que lhe competia, é entregar o poder de julgar aos acusadores, que preferem Barrabás (38b-40); o expediente da flagelação, para ver se os inimigos de Jesus ficavam satisfeitos no seu ódio (19 1-7); um segundo interrogatório (8-11); Pilatos dá a sentença de morte (12-16a). S. João apenas não conta outro expediente relatado no Evangelho de S. Lucas, que foi o de enviar Jesus a Herodes, e que teria sido o primeiro recurso de que o procurador romano lançou mão.

33-37. As razões para eliminarem Jesus eram de natureza religiosa, mas é denunciado à autoridade romana como um conspirador político: “rei dos judeus”. A resposta de Jesus com uma pergunta (v. 34) não é um subterfúgio, mas um meio de esclarecer qual o ponto de vista para falar de Si como rei; descartado o ponto de vista pagão (v. 35), Jesus, que não podia negar a sua realeza, distancia-se igualmente da expectativa nacionalista judaica, afirmando o carácter transcen­den­te do seu reino (cf. Rom 14, 17), o que colocava a sua missão ao abrigo de qualquer suspeita: não é deste mundo (v. 36) e visa manifestar a verdade (v. 37).

19, 1-7 “E O açoitassem”: a flagelação era uma das penas mais duras previstas no Direito e jamais aplicável a um cidadão romano; os golpes, sem conta prevista, eram aplicados nas costas nuas da vítima atada a uma coluna, com chicotes de tiras de couro munidas de peças de metal ou osso nas extremidades, uma tortura suficiente para causar a morte. Em Mateus e Marcos a flagelação aparece depois da sentença de condenação, como habitual­men­te sucedia, para debilitar as forças dos condenados à cruz; em Lucas é anunciada como um castigo prévio; em João, que parece reproduzir com mais rigor o que se passou na realidade, tem o carácter de mais um expediente para evitar a sentença de morte contra um inocente: um rei tão abatido e esfacelado não constituía perigo para ninguém. No ecce homo, a troça não poderia ser mais humilhante, mas o Evangelista quer que o leitor descubra o verdadeiro Messias-Rei, o mistério de quem é esse homem (cf. Jo 5, 12). A contemplação deste mistério doloroso não pode deixar de nos tocar a alma profundamente.

7 “Porque se fez Filho de Deus”: Como observa F. Dreyfus, trata-se do único caso, em toda a história do povo hebreu, em que uma pessoa foi acusada e condenada por se fazer filho de Deus! A blasfémia era suficiente para se aplicar a pena de morte, segundo o Levítico 24, 16.

9 “Donde és Tu?” A pergunta de Pilatos assustado não é sobre a naturalidade de Jesus (já antes o mandara a Herodes: Lc 23,2-6), mas sobre a sua verdadeira natureza: acusado de se dizer Filho de Deus, não será ele um ser divino? Esta questão sobre a origem de Jesus é fulcral e inevitável, também para o leitor (cf. Jo 7, 27-28; 8, 14; 9, 29-30). “Mas Jesus não lhe deu resposta”, não para se esquivar, mas é que o céptico Pilatos (18, 38) não busca a verdade; falta-lhe rectidão.

13.       “Sentou-se no tribunal”: O texto grego permite outra tradução: Pilatos trouxe Jesus para fora e fê-lo sentar numa tribuna; com efeito, não parece que S. João queira dizer que foi Pilatos que se sentou, pois a cena passa-se no exterior do tribunal e não há uma sentença. Esta ambiguidade parece intencional, para exprimir que o prefeito romano só na aparência é que é juiz, pois o que ele faz é entronizar Jesus, que é quem faz o decisivo julgamento (cf. Jo 12, 31). Há quem pense que esta entronização visava pôr a ridículo as autoridades judaicas (vv. 14.19-22), coisa bem ao jeito de Pôncio Pilatos, que não perdia qualquer ocasião para humilhar os judeus. “Gabbatá” significa antes lugar elevado, mais provavelmente na Torre Antónia (um pavimento de pedra identificado arqueologicamente), embora outros considerem que ficaria na zona do palácio de Herodes, na cidade alta.

14        “Por volta do meio dia”, era o final da hora terceira dos romanos (nomeada em Mc 15, 25) e o início da hora sexta (o meio dia).

17-18 “Levando a cruz”: só João diz claramente que Jesus carrega a cruz às costas (possível alusão – o chamado rémez a Gn 22, 6  tão usado na exegese deráxica dos rabinos – a Isaac carregando a lenha do sacrifício), sem falar do Cireneu, para o lugar do “Calvário”, uma palavra latina que traduz a hebraica: Golgotá, isto é, caveira ou crânio, pela forma que tinha o penhasco; não era propriamente um monte, mas uma elevação rochosa já fora dos muros de então, a uns 400 metros a oeste do adro do Templo, uma pedreira identificada pela Arqueologia.

18 “E lá O crucificaram”. A crucifixão era o suplício mais doloroso e o mais infamante. Por isso se empenhavam os inimigos de Jesus em que tivesse este género de morte. Era a melhor maneira de acabar com a memória de Jesus na gente que O seguia, a maior prova de falsidade do seu messianismo! Ninguém mais se atreveria a falar dum messias tão miseravelmente derrotado e tendo sofrido a morte dos maiores criminosos. Cícero testemunha a infâmia deste horrendo suplício: “Que um cidadão romano seja atado é um abuso; que seja golpeado, é um delito; que se lhe dê morte, é um quase um parricídio; que direi eu, então, se é suspenso numa cruz? A uma coisa tão horrível como esta não se pode aplicar de modo algum um apelativo suficientemente adequado!” (In Verrem, II, 5, 66). A morte dum crucificado sobrevinha após uma dolorosíssima agonia, com uma sede terrível, consequência da perda de sangue pelas feridas abertas, com dolorosas cãibras  que provocavam o horrível estertor duma asfixia lenta.

19-22 “Esse letreiro”, o títulum do Direito Romano, era o resumo da acta da sentença a ser enviada para os arquivos do tribunal de César, por isso já não podia ser modificada depois de ditada e executada a sentença, apesar das insistências dos judeus, que consideravam este letreiro mais um vexame do procurador romano ao povo. João, ao sublinhar que estava “escrito em hebraico, latim e grego”, parece querer indicar a realeza universal de Jesus.

23-24 “Tomaram as suas vestes”: A divisão da roupa pelos soldados era um facto banal e corrente, um direito reconhecido aos carrascos; esta só ficou referida em virtude do seu significado, pois assim  se cumpriam as Escrituras (cf. Salm 22, 19) citadas explicita­­men­te apenas por João, que fala das vestes divididas em quatro lotes; as roupas de Jesus, mesmo sem excluir a túnica, não podiam dar quatro lotes, mas disto não há que concluir que se trata duma mera criação literário-teológica, pois havia as roupas de mais dois condenados, que no conjunto fariam os quatro lotes. Também era supérfluo dizer que não rasgaram a túnica, pois não iriam inutilizá-la e, com o que já estava dito, as Escrituras apareciam plenamente cumpridas; por isso, há exegetas que, partindo da norma de o sumo sacerdote usar uma túnica sem costura, vêem na insistência neste pormenor (v. 23) a intenção de apresentar Jesus como o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, e o seu despojamento simbolizaria a abolição do sacerdócio antigo. Os Padres vão ainda mais longe e chegam a ver na túnica sem costura uma imagem da unidade da Igreja.

25-27 Repare-se na solenidade deste relato: por um lado, é uma cena central entre as cinco passadas no Calvário; por um lado, a Virgem Maria é mencionada 5 vezes em 3 versículos; por outro lado, há o recurso a uma fórmula solene de revelação (ao ver… disse… eis… ). Isto deixa ver que não se trata dum simples gesto de piedade filial de Jesus para com sua Mãe para não a deixar ao desamparo, mas que o Evangelista lhe atribui um significado simbólico profundo: chegada a hora de Jesus, é a hora de Ela assumir (cf. Jo 2, 4) o seu papel de nova Eva (cf. Gn 3, 15) na obra redentora; mais ainda, Ela é a mulher que simboliza a Igreja (cf. Apoc 12, 1-18), a mãe dos discípulos de Jesus representados no discípulo amado, o qual a acolheu como coisa sua. Preferimos esta tradução à mais corrente: acolheu-a em sua casa, pois a expressão grega, usada mais quatro vezes em S. João, nunca aparece neste Evangelho com esse sentido. Notar que Jesus não se dirige às mulheres junto à Cruz, que são 4, ou apenas 3 conforme se contar por duas ou por uma pessoa a irmã de sua Mãe, Maria, a mulher de Cléofas. S. Mateus fala de muitas mulheres no Calvário, à distância, como era regulamentar (Mt 27, 35-36; cf. Mc 15, 40-41; Lc 23, 49).

28-30 “Tenho sede!”: Aquele que viera para nos matar a sede (Jo 4, 14; 7, 37) queixa-se de sede! Deveria ser um dos grandes tormentos de Jesus, sem sangue, cansado, sem tomar alimento... Mas sempre se tem visto nesta sede de Jesus algo mais: a sua ânsia pela salvação do mundo. João omite o grito de Mt 27, 46 e Mc 15, 34, referindo uma exclamação mais de acordo com a imagem de serena majestade do Senhor da vida e com o seu gosto pelos paradoxos (cf. Jo 4, 14; 7, 37) e em que parece ver também o cumprimento do Salm 22, 16. O vinagre diluído em água era um refresco, a posca romana, usado pela gente humilde e pelos soldados; os três Sinópticos também falam deste vinagre dos soldados (Mt 27, 48; Mc 15, 36; Lc 23, 36), além do vinho com mirra (Mc 15, 23), de efeito analgésico e oferecido antes da crucifixão; Mt 27, 34 dá-lhe o nome de vinho com fel para o leitor ter mais facilidade em recordar o Salmo segundo a versão dos LXX (Salm  68) que então se cumpria e que todos se dispensaram de citar (cf. Salm 69, 22).  Pode-se ver no “ramo de hissopo” uma alusão ao sacrifício do novo cordeiro pascal (cf. Ex 12, 22, onde se diz que era com um ramo de hissopo que as portas dos hebreus deviam ser tingidas com o sangue do cordeiro); como o ramo deste arbusto, de folhas bastas, é curto e parece demasiado flexível para fixar a “esponja” (que serviria de tampa à vasilha do refresco), há autores que pensam ter havido uma corrupção do texto original (a palavra hyssopos, seria a corrupção de hyssós: “dardo”, o que não tem qualquer espécie de apoio textual) e traduzem, como fez a tradução litúrgica, simplesmente por vara, empobrecendo o profundo significado teológico da passagem.

30 “Tudo está consumado” corresponde a um verbo grego que encerra a ideia da perfeição que atinge algo realizado: “cumprido e finalizado com toda a perfeição”. “Inclinando a cabeça”: um gesto que João refere, certamente pela impressionante imagem que lhe ficou gravada para sempre, mas também por querer sublinhar o perfeito domínio de si (cf. Jo 10, 18) com que Jesus se entrega até ao fim, ao empregar a forma activa do verbo, quando era de esperar a forma média ou passiva, pois um crucificado, ao morrer, não inclina a cabeça, mas esta é que se lhe inclina… Por outro lado, “entregou o espírito” (a tradução litúrgica adoptou uma versão mais pobre: “expirou”) é uma fórmula que nunca se usa para dizer que alguém expirou; por isso, pode ver-se aqui sugerido o Espírito Santo como dom de Jesus, fruto da árvore da Cruz (cf. Jo 7, 39; 16, 6).

33-34 “Não quebraram as pernas” a Jesus, por estar já morto; tratava-se do chamado crurifrágio aplicado aos ladrões e destinado a apressar-lhes a morte, que se dava por asfixia lenta: estes, ao não poderem apoiar-se nas pernas, deixavam-se asfixiar mais rapidamente. O golpe da lança dado a Jesus, com que se cumpria a profecia de Zacarias 12, 10, confirma a morte real do Senhor. Mas João, no golpe da lança, vê muito mais do que uma confirmação da morte de Jesus; ele contempla o cumprimento das Escrituras e o sacrifício do verdadeiro cordeiro pascal (cf. Ex 12, 46; Nm 9, 12; Salm 34, 21; Zac 12, 10; Apoc 1, 7) e parece insinuar, para além do dom da vida eterna (o sangue: cf. Jo 6, 53-54) e do Espírito Santo (a água: cf. Jo 4, 14; 7, 38-39; 3, 5), os Sacramentos da iniciação cristã, a Eucaristia (o sangue) o Baptismo (a água), a própria Igreja, a nossa Mãe na ordem da graça (cf. Gal 4, 26), a nova Eva, a sair do lado novo Adão (cf. Gn 2, 22); estes ricos simbolismos já eram vistos pelos Padres da Igreja. “E logo saiu sangue e água”, um facto incontestável, mais provavelmente de ordem natural: a água que seria soro do pericárdio, ou exsudação pleural; de qualquer modo, como Jesus estava morto, não seria um derramamento abundante.

35 “E ele sabe que diz a verdade”: há quem queira ver aqui uma espécie de juramento, a saber, o apelo a uma segunda testemunha abonatória, o próprio Cristo glorioso, ou mesmo o Pai (que sabe que o evangelista diz a verdade), não faltando quem pense numa glosa. De qualquer modo, uma afirmação tão solene faz apelo a factos reais, que excluem uma simbologia desvinculada da história. E, de facto, uma história como a da Paixão e Morte do Senhor não se inventa, é mesmo verdadeira. A testemunha privilegiada foi certamente o discípulo amado de Jesus, que garante a verdade dos factos narrados.

38 “José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos judeus, “homem rico” (Mt 27, 57), “membro do Sinédrio” (Mc 15, 43), “pessoa recta e justa, que não estava de acordo com a decisão e o procedimento dos outros” (Lc 23, 50-51). A sua grande coragem, dedicação e lealdade levam-no a que, quando as circunstâncias o exigem, apesar de estas serem as mais infamantes e delicadas, ali esteja pronto para cumprir o seu dever de piedade para com o Mestre, na hora da fuga e do estonteamento dos próprios Apóstolos.

39 As 100 libras eram 32,7 Kg de matéria aromática: resina de “mirra e aloés” moído, em tal quantidade que fica patente, não só a generosidade daqueles amigos escondidos que não receiam declarar-se quando é preciso, mas também a Ressurreição como algo fora do horizonte de todos, pois estes produtos usavam-se para abafar os maus odores da putrefacção que se previa para o cadáver. Não fora a decisão e a coragem destes homens notáveis, o corpo de Jesus teria ido parar a uma vala comum. Ver Jo 3, 1; 7, 50.

40 “Segundo o costume dos judeus”, os panos de linho da mortalha incluíam um lençol mortuário (em grego síndone: Mt 27, 49 par.) que envolvia todo o corpo, umas faixas para ligar os braços e as pernas e aconchegar o lençol, e um lenço, ou sudário propriamente dito, para envolver a cabeça.

 

 

Páscoa da Ressurreição do Senhor - Missa da Vigília

 

Última leitura Romanos 6, 3-11

 

Irmãos: 3Todos nós que fomos baptizados em Cristo fomos baptizados na sua morte. 4Fomos sepultados com Ele pelo Baptismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova. 5Se, na verdade, estamos totalmente unidos a Cristo por morte semelhante à sua, também o estaremos por uma ressurreição semelhante à sua. 6Bem sabemos que o nosso homem velho foi crucificado com Cristo, para que fosse destruído o corpo do pecado e não mais fôssemos escravos dele. 7Quem morreu está livre do pecado. 8Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, 9sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer, a morte já não tem domínio sobre Ele. 10Porque na morte que sofreu, Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre; mas a sua vida é uma vida para Deus. 11Assim vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus.

 

Esta leitura resume o tema central da Vigília Pascal: a passagem da morte à vida em Cristo e em nós pelo Baptismo. A nossa Páscoa é a transposição deste mistério da Morte e Ressurreição de Cristo para a nossa própria vida.

3-4 S. Paulo faz apelo à simbologia do Baptismo por imersão: o facto de ser imergido para dentro da água representa a morte e sepultura; o emergir da água, já tornado “nova criatura” , significa a ressurreição, a nova vida divina. S. Paulo, ao dizer que nós “fomos baptizados na sua morte”, quer dizer que, pelo Baptismo, nos unimos tão intimamente à morte de Cristo, destruidora de todo o pecado, que também nós morremos para o pecado, a tal ponto que este já não deve dominar mais a nossa vida. A nossa vida tem que ser uma vida de ressuscitados: “vivos para Deus, em Cristo Jesus” (v. 11). Mas nós não somos uns meros beneficiários, estranhos ao mistério pascal de Cristo: a nossa nova vida é uma vida em Cristo Jesus, pois estamos incorporados nele pela fé e pelo amor, feitos membros do seu Corpo, sendo Ele a Cabeça.

 

Evangelho São Marcos 16, 1-7

 

1Depois de passar o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para irem embalsamar Jesus. 2E no primeiro dia da semana, partindo muito cedo, chegaram ao sepulcro ao nascer do sol. 3Diziam umas às outras: «Quem nos irá revolver a pedra da entrada do sepulcro?» 4Mas, olhando, viram que a pedra já fora revolvida; e era muito grande. 5Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado do lado direito, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas. 6Mas ele disse-lhes: «Não vos assusteis. Procurais a Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ressuscitou: não está aqui. Vede o lugar onde O tinham depositado. 7Agora ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele vai adiante de vós para a Galileia. Lá O vereis, como vos disse».

 

O relato de Marcos, muito semelhante ao de Mateus, é dotado de mais frescor e espontaneidade. As pequenas divergências não envolvem contradição, antes põem em evidência a peculiaridade de cada evangelista e as suas próprias perspectivas. O facto de não se tratar dum texto unificado joga a favor da autenticidade. Caso não correspondesse à verdade dos factos, uma “mentira” tão monstruosa teria de ter sido mais bem urdida, para se impor, além de que não se lembrariam de apresentar as mulheres como testemunhas, quando entre os judeus o seu testemunho não tinha valor. Marcos diz que as Santas Mulheres “não disseram nada a ninguém, porque tinham medo” (v. 8b, suprimido na leitura), ao passo que Mateus afirma que “elas saíram à pressa do sepulcro com medo e com grande alegria e correram a dar a notícia aos discípulos” (Mt 28, 8), o que parece ser uma generalização que tem em conta a aparição de Jesus a elas, logo a seguir (Mt, 28, 9; cf. Mc 16, 9-11). Com efeito, é evidente que os evangelistas não pretenderam dar-nos um filme do que aconteceu naquela primeira manhã de Páscoa. A espontaneidade e a liberdade ao referir o acontecimento é mais um apreciável sinal de historicidade.

1 “Depois de passar o sábado”: Embora a unção do cadáver não fosse coisa proibida em dia de sábado, já não era assim a compra dos perfumes e uma caminhada de mais de mil passos, o que deve ter levado a adiar este obséquio para o primeiro dia da semana.

7 “Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro”. A referência particular a Pedro dever-se-á, mais do que à sua preponderância entre os companheiros, a uma delicadeza de Jesus para com o discípulo que O negara e que não cessaria de chorar amargamente o seu pecado (cf. Mc 14, 72). Não deixa de ser interessante que só Marcos refira este pormenor; o “intérprete de Pedro” fixou-o certamente por lho ouvir contar como algo que o terá impressionado vivamente; e isto tem tanto mais valor, quanto é certo  que Marcos costuma omitir os pormenores honrosos para Pedro, que por humildade ele omitiria na sua pregação.

N.B. – No domingo de Páscoa podem ver-se mais comentários sobre a Ressurreição, especialmente nas notas ao Evangelho.

 

Páscoa da Ressurreição do Senhor (Missa do Dia)

 

1ª Leitura Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43

 

Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra e disse: 37“Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. 39Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. 40Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, 41não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. 42Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. 43É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados”.

 

O texto faz parte do corpo do discurso de Pedro em Cesareia na casa do centurião Cornélio, o qual tinha mandado chamar Pedro a Jope, ilustrado por uma visão (cf. Act 10, 1-33). Este discurso tem um carácter mais catequético e apologético do que propriamente missionário, como seria de esperar num primeiro anúncio da fé a um pagão (embora se tratasse dum “temente a Deus”: v. 2). Lucas redige este discurso a pensar mais nos leitores da sua obra, do que com a preocupação de reconstruir exactamente a cena originária e as mesmas palavras pronunciadas naquela circunstância; com efeito, começa por fazer referência ao Evangelho já antes pregado aos ouvintes: “vós sabeis o que aconteceu…”, e também parece que dá por suposta a fé no valor salvífico da Cruz (cf. v. 39b) e não termina, como seria de esperar, com um apelo explícito à conversão. Assim, Lucas nos deixou mais uma bela síntese do que era o Evangelho pregado pela Igreja primitiva.

38 “Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus”. Esta nova tradução litúrgica desfez a hendíadis tão própria da estilística hebraica (ungiu de Espírito Santo e de fortaleza), recorrendo, por motivo de clareza, a uma equivalência dinâmica, (a força que é o Espírito Santo). Deus (o Pai) concedeu à natureza humana de Jesus todos os dons do Espírito Santo, que Lhe competiam a partir do momento da Incarnação; estes dons manifestam-se visivelmente nos milagres de Jesus, nas teofanias do Baptismo e da Transfiguração e muito particularmente na Ressurreição. A unção era o rito que constituía os reis e os sacerdotes na sua função: a união hipostática em Jesus aparece como a unção da natureza humana de Jesus, “que passou fazendo o bem e curando a todos” (maravilho­so resumo da vida de Jesus, bem ao sabor do Evangelista da bondade).

41 “Não a todo o povo”: Jesus não se mostra a todos depois de ressuscitado, não só para não violentar a liberdade das pessoas, mas também porque está nos planos divinos conduzir o mundo à salvação mediante o ministério dos seus discípulos (testemunhas de antemão designadas por Deus) e mediante a fé, que é meritória (cf. Rom 1, 16-17). Note-se o acento que se põe no testemunho acerca da Ressurreição: não estamos apenas perante uns simples pregadores (cf. v. 42a) duma mensagem salvadora, mas diante de verdadeiras testemunhas (cf. v. 42b) que dão testemunho (o verbo grego tem um matiz forense) capaz de fazer fé em tribunal; a ideia de testemunho é fortemente acentuada neste breve texto, não só por ser repetida quatro vezes (vv. 39.41.42.43), mas por se tratar de testemunhas escolhidas por Deus para esta missão (v. 41), que conviveram com o Ressuscitado, comendo e bebendo com Ele, o que exclui logo à partida a hipótese de se tratar de mera fantasia (Lucas mostra especial sensibilidade a este problema: cf. Lc 24, 37-43).

 

2ª Leitura Colossenses 3, 1-4  (de manhã)

 

Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. 2Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. 3Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.

 

Com estas palavras é introduzida a parte final da Carta, uma série de exortações morais para que os fiéis tenham um modo de viver coerente com a fé cristã. A sua conduta moral é uma consequência natural da profunda união com Cristo ressuscitado produzida pelo Baptismo recebido.

1 “Aspirai às coisas do alto” corresponde ao mesmo incitamento que, na Santa Missa, a Igreja sempre nos repete: (Sursum corda! Corações ao alto!).

3-4 “Vós morrestes”. Cf. Rom 6: a nossa união a Cristo pressupõe a morte para o pecado, que não pode reinar mais em nós. Com Cristo morto pelos nossos pecados, morremos para o pecado; com Cristo ressuscitado, vivemos vida de ressuscitados. É a “vida” da graça, uma vida toda interior, “escondida” no centro da alma, vida que ninguém pode arrebatar, vida que é toda feita de presença de Deus e de visão sobrenatural, levando-nos a santificar todos os afazeres diários, trabalhando com os pés bem firmes na terra, mas o coração e o olhar fixo no Céu.

 

2ª leitura 1 Coríntios 5, 6b-8  (de tarde)

 

Irmãos: 6bNão sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? 7Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. 8Celebremos a festa, não com fermento velho nem com fermento de malícia, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.

 

Parece haver aqui (v. 6b) uma referência ao incestuoso de que acaba de falar (vv. 1-5): um mau exemplo é um mau fermento. Mas S. Paulo faz imediatamente uma aplicação mais vasta da ideia de mau fermento, e isto talvez pela proximidade da festa da Páscoa, que já então, pelo ano 55, os cristãos celebravam em Corinto como festa da Ressurreição do Senhor, segundo o que se lê no v. 8: “celebremos pois a festa”. Na exortação do Apóstolo há uma alusão ao costume judeu, que ainda hoje se conserva, de limpar escrupulosamente as casas de todo o fermento e pão fermentado durante os sete dias que duravam as festas pascais. Nós os cristãos, para celebrarmos a Páscoa – “Cristo, nosso Cordeiro pascal” (v. 7) –, temos que o fazer sem o fermento (o princípio corruptor) da malícia e da perversidade, mas “com os pães ázimos da pureza e da verdade”, isto é, da sinceridade de vida. Poderia haver, nesta referência a Cristo como “cordeiro imolado”, uma alusão à própria celebração da Eucaristia.

 

Evangelho São João 20, 1-9   (de manhã)

 

1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. 2Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”. 3Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. 4Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão 7e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. 8Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. 9Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

 

Nenhum dos quatro Evangelhos narra o facto da Ressurreição de Jesus, pois não foi presenciado por testemunhas; era um facto sobrenatural que, de si mesmo, escapava à experiência humana. E isto só vem dar credibilidade ao facto da Ressurreição, pois, se tratasse duma ficção, era de esperar que se dessem os seus pormenores. S. João começa com a verificação do túmulo vazio feita pela Madalena, mas vão ser os dois discípulos, que vão fazer o reconhecimento do local e que verificam indícios eloquentes aptos para levarem à fé na Ressurreição de Jesus.

2 “Não sabemos…”. Este plural parece aludir à tradição sinóptica que conhece a ida de mais mulheres ao sepulcro. É evidente que não houve a mínima preocupação de harmonizar os diferentes relatos evangélicos do sepulcro vazio e das aparições, o que é um forte motivo de credibilidade a favor da realidade da ressurreição, facto misterioso, que é a base de toda a fé cristã (cf. 1 Cor 15, 12-19).

7-8 “Viu e acreditou”. Porque começou a crer o discípulo? A explicação habitual é que um ladrão não deixaria ficar os panos, e muito menos em ordem. Mas há mais dados a ter em conta: porque é que o Evangelista atribui tanta importância à diferente posição dos panos? É que as ligaduras e o lençol estavam espalmados no chão da pedra tumular, ao passo que o pano que envolvera a cabeça do Senhor não estava espalmado no chão, mas mantinha a forma da cabeça que envolvera (cf. a nossa tradução na Nova Bíblia da Difusora Bíblica). Não sabemos se Pedro partilhou da fé do Discípulo Amado, mas S. Lucas diz que ficou maravilhado (cf. Lc 24,12). Os panos com que Jesus foi amortalhado eram com toda a probabilidade: 1) um lençol mortuário (síndone), tecido largo e comprido que envolvia todo o corpo; 2) um lenço (sudário) que cobria a cabeça e caia sobre o rosto (e ajudaria a manter a boca fechada); 3) várias ligaduras que não só serviam para manter apertados os pés um contra o outro e as mãos unidas ao corpo, mas também que poderiam ajudar a aconchegar a  síndone ao corpo. S. João não fala especificamente desta síndone,  mas deve englobá-la na designação genérica de “ligaduras” (em grego, othónia). 

9 “Ainda não tinham entendido a Escritura”. Os discípulos não estavam psicologicamente predispostos a admitir a Ressurreição para que esta pudesse ser fruto de uma alucinação; com efeito, só depois de confrontados com a realidade da ressurreição de Jesus é que se recordaram das Escrituras (cf. 1 Cor 15, 4; Act 2, 24-32; Jo 2, 22) e as entenderam. A ressurreição era uma realidade só admissível para o fim do mundo (cf. Jo 11, 24), pois, apesar de Jesus ter anunciado a sua ressurreição ao terceiro dia, este só poderia ser o dia final, de acordo com o a profecia de Oseias (Os 6, 2). Diante do sepulcro vazio, só pensam num roubo (vv. 2.13.15) e não dão crédito a quaisquer notícias das aparições (cf. Mc 6, 11.13; Lc 24, 21-24; Jo 20, 25).

 

Em vez deste Evangelho, pode ler-se o que se leu na Vigília da Noite Santa.

 

(Nas missas vespertinas pode ler-se o Evangelho de Lc 24, 13-35)

 

São Lucas 24, 13-35   (de tarde)

 

13Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. 14Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. 15Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. 16Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. 17Ele perguntou-lhes: “Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?” Pararam, com ar muito triste, 18e um deles, chamado Cléofas, respondeu: “Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias”. 19E Ele perguntou: “Que foi?” Responderam-Lhe: “O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. 21Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, 23não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. 24Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram”. Então Jesus disse-lhes: 25“Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?” 27Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. 29Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: “Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite”. Jesus entrou e ficou com eles. 30E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. 31Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram então um para o outro: “Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” 33Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, 34que diziam: “Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. 35E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

 

Temos aqui uma das mais belas páginas do Evangelho: um  relato cheio de vivacidade, de finura e de psicologia, em que acompanhamos o erguer daquelas almas desde a mais amarga frustração até às alturas da fé e da descoberta de Jesus ressuscitado. A crítica bíblica procura distinguir neste relato os elementos de tradição e os elementos redaccionais; podem identificar-se muitos elementos de tradição neste relato, mas não dispomos de meios para classificar como meramente redaccionais  todos os restantes, pois não são do nosso conhecimento todas as fontes de que Lucas dispôs; a própria crítica admite “fontes especiais” para a redacção de Lucas. Um facto indiscutível é que Lucas é um teólogo e um catequista, não é um jornalista e não se limita a contar a seco umas aparições, mas não temos elementos suficientes para definir em que medida reelaborou as suas fontes.

13  “Emaús”: uma povoação a 60 estádios (duas léguas), uns 11 quilómetros e meio de Jerusalém. Há duas leituras variantes nos manuscritos gregos do Evangelho de Lucas: a imensa maioria deles regista 60 estádios. Alguns poucos têm 160 (o que equivale a uns 30 Km). Também não existe completo acordo sobre a sua localização, sendo indicados vários locais na tradição cristã; El-Qubeibe é o de maior aceitação, a  uns 12 Km a Noroeste da Cidade Santa.

16 “Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem”. Não é que não vissem a Jesus, ou que Jesus se quisesse ocultar, mas eles é que estavam obcecados pelo seu extremo desalento. E fica-nos a lição: para que se possa reconhecer a Jesus ressuscitado é indispensável o olhar da fé.

18 “Cléofas” parece ser diferente do marido de Maria, mãe de Tiago e José (Jo 19, 25); embora alguns o identifiquem, a grafia é diferente: Kleopás.

22-24 “É verdade que algumas mulheres… Alguns dos nossos”. Aqui se resume o que foi relatado antes com mais pormenor (Lc 23, 56b – 24, 9) e correspondente à tradição sinóptica e joanina. Certamente que os nossos são “Pedro e o outro discípulo” (certamente João, cf. v. 12 e Jo 20, 1-10). “Mas a Ele não O viram”: se não se trata dum pormenor meramente redaccional, temos que admitir que ainda não lhes constava da aparição de Jesus a Pedro referida adiante, no v. 34; (cf. 1 Cor 15, 5).

28-30 “Jesus fez menção de seguir para diante”. Lucas volta a aludir ao “caminho de Jesus” (no v. 15 já tinha usado o mesmo verbo grego que significa caminhar). R. J. Dillon (From eye-witnesses to ministers of the word) pensa que este pormenor lucano insinua que a presença de Jesus no meio dos seus através da Eucaristia (a fracção do pão do v. 30) constitui o momento cume do seu caminhar  pelo caminho da salvação. Enternece o leitor ver como Jesus ressuscitado se torna o companheiro de caminho (recorde-se como Lucas gosta de focar a vida cristã como um caminho e um seguimento de Jesus): depois de se fazer encontrado, agora faz-se rogado. Isto sucede-nos muitas vezes na vida cristã: Ele vem ao nosso encontro sem O procurarmos e, outras vezes, quer dar-nos o ensejo de O convidarmos a ficar connosco e de praticarmos a caridade com os outros, que são Ele (cf. Mt 25, 40). Mas aqui o convite feito a Jesus não é um simples acto de caridade e de cortesia; com efeito, parece que a narrativa nos leva a pensar que quem faz este pedido é toda a comunidade cristã, que se reúne para celebrar a Eucaristia e anseia estabelecer uma comunhão íntima com Jesus ressuscitado (ibid.). Todos estão de acordo em ver a estreita relação da refeição descrita com a multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia.

31 “Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele desapareceu da sua presença”: É na Eucaristia que se abrem os olhos para a fé, para captar o que é invisível, mas real.  Impressiona muito o relato ao unir o aparecimento com o desaparecimento, sem se dizer para onde é que Jesus se retirou. Desta maneira fica sugerida uma nova presença, a de Jesus glorioso e ressuscitado: uma ausência que é presença.

32 “Não ardia cá dentro o nosso coração?”. Quando lemos a Escritura guiados por Jesus, presente na Igreja, inflama-se o nosso coração e sentimo-nos urgidos a mostrar aos que nos rodeiam, com as nossas vidas, pela palavra e pelo exemplo, que Cristo vive, que a Ressurreição é uma realidade. O episódio constitui um apelo a fazermos o mesmo papel do Ressuscitado junto dos desiludidos da vida e sem esperança e a comunicar-lhes a nossa experiência de fé. No relato também se põe em evidência a união do pão e da palavra na vida da Igreja.

 

Algumas reflexões sobre o valor dos testemunhos acerca da Ressurreição de Jesus

 

A Ressurreição de Jesus é proclamada pelos discípulos que O tinham seguido, não como uma simples ideia religiosa, mas como um facto sucedido ao terceiro dia: “E nós somos testemunhas” (cfr 1ª leitura da Páscoa: Act 10, 39.44).

Paremos um pouco para considerar de que testemunhas se trata e de que ressurreição se fala. Não são falsas, nem duvidosas as testemunhas, e também não é de um ressuscitar moral ou espiritual que elas falam. É a Ressurreição do Senhor! Um grande mistério! Um mistério, porém, não quer dizer uma coisa vaga e indefinida, pouco clara e confusa, mas sim um acontecimento transcendente. E, porque transcendente, a Ressurreição não se pode analisar como ela sucedeu fisicamente; além de que ninguém a observou e nenhum Evangelista a descreve. Também é por isso que o Santo Sudário, por mais autêntico que se possa considerar, nunca poderá constituir prova científica do mistério da Ressurreição de Jesus, quando muito, apenas um indício.

A Ressurreição não foi uma ressuscitação, um retorno à vida terrena. Isso seria um grande milagre, sobretudo por se tratar de um morto dessangrado e de coração aberto por uma lança. Mas então não seria um mistério propriamente dito. “Cristo ressuscitado dos mortos já não morre, a morte não tem domínio sobre Ele!” exclama S. Paulo (Rom 6, 9). É que o seu corpo passa do estado de morte para uma outra vida que está para além dos limites do tempo e do espaço. Cristo tornou-se um “homem celeste” (1 Cor 15, 35-50), o seu corpo deixou de ser terreno, tem os dotes de corpo glorioso. Ele já não entra no convívio das pessoas, mas manifesta-se a quem e quando quer e das formas mais variadas, a ponto de não reconhecido pelos que tinham co­nvivido com Ele, e aparece no meio deles sem se deslocar.

No entanto, o mistério transcendente da Ressurreição de Cristo teve manifestações historicamente comprovadas. Não se pode falar do túmulo vazio de modo simplista. O sepulcro vazio, não sendo uma prova directa, pois até leva a própria Madalena a pensar no roubo do corpo (Jo 20, 2.13), não deixa de ser um sinal essencial, como se depreende da própria leitura do Evangelho da Páscoa (Jo 20, 1-9). Com efeito, segundo expõe o Catecismo da Igreja Católica, “o discípulo que Jesus amava afirma que, ao entrar no sepulcro vazio e ao descobrir as ligaduras no chão (Jo 20, 6), viu e acreditou (Jo 20, 8). Isto pressupõe que verificou, no estado do sepulcro vazio (Jo 20, 5-7), que a ausência do corpo de Jesus não tinha podido ser obra humana e que Jesus não tinha voltado simplesmente a uma vida terrena como tinha sido o caso de Lázaro (cfr Jo 11, 44)”.

E Jesus aparece primeiramente a Maria Madalena e às Santas Mulheres, que iam embalsamar o corpo de Jesus, sepultado à pressa na tarde de Sexta-feira, quando começava a urgir o descanso sabático. Elas, que tinham tido a coragem de acompanhar o Senhor até ao fim, bem mereceram esta atenção. E apareceu a Pedro, que O negara e chorava a sua vil cobardia, e só depois aos restantes discípulos (1 Cor 15, 3-5: Lc 24, 34). Todos se transformam em testemunhas da Res­surreição.

Vejamos agora o valor deste testemunho. Não passaria pela cabeça de ninguém apresentar como tes­temunhas da Ressurreição as mulhe­res, pois estas não podiam testemunhar num tribunal judeu. Se os Evan­gelhos dão tanta importância às mulheres na Ressurreição, é porque pretendem contar o que realmente aconteceu e não propor umas lendas sagradas destituídas de credibilidade logo à partida. A situação psicológica em que se encontravam os discípulos de Jesus após a sua Paixão e Morte não era de modo nenhum a de exal­tação mística, mas sim a de sensação de derrota e fracasso total, com todas as esperanças perdidas (cfr Lc 24, 11.17; Jo 20, 19; Mc 16, 11.13). Na tarde da Ressurreição, Jesus lança-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração por não terem crido em quem O tinha visto ressuscitado (Mc 16, 14). A sua mudança interior não se pode explicar pres­cindindo do facto histórico das apari­ções do Senhor.

Também não se pode demons­trar que estas aparições se reduzam a meras experiências místicas inte­riores que tenham tomado corpo em formas narrativas mais ou menos dramatizadas. Não é crível que tenham sido tão fracos dramatiza­do­res, pois, uma vez postos a dramatizar, não lhes era difícil mostrarem-se mais verosímeis, mais concordantes. Por outro lado, à hora da redacção dos Evangelhos, os Evangelistas, se não estivessem condicionados pela verdade dos relatos históricos, sentir-se-iam mais à vontade para levarem a cabo o seu trabalho redaccional recorrendo facilmente à harmonização dos textos, uma coisa que se lhes impunha para mais facilmente fazerem passar o que queriam.

Para não me alongar em mais considerações, termino chamando a atenção para um aspecto muito importante do mistério da Ressurreição e nunca suficientemente meditado: a Ressurreição de Jesus não é uma  teoria, mas é um mistério de vida que nos toca e compromete a vida de cada um de nós, como comprometeu a vida dos primeiros Apóstolos e dos primeiros cristãos em ordem a uma entrega total e sem reservas ao amor de Deus e ao trabalho na difusão do seu Reino. Não crê na Ressurreição quem não se dispõe a viver uma vida de ressuscitado com Cristo e a ser uma testemunha da sua Ressurreição. Vale a pena! Vale a pena dar-se de todo a quem deu a Vida por nós, a quem nos dá a Vida. Vale a pena deixar de vez tanta mesquinhez, tanto cálculo terreno... “Uma vez que ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do Alto, onde Cristo se encontra” (2ª leitura da Páscoa: Col 3, 1).

 

S. José, esposo da Virgem Maria

 

1ª Leitura 2 Samuel  7, 4-5a.12-14a.16

 

4Naqueles dias, o Senhor falou a Natã, dizendo: 5a“Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: 12Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com os teus pais, estabelecerei em teu lugar um descendente que nascerá de ti e consolidarei a tua realeza. 13Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. 14aSerei para ele um pai e Ele será para Mim um filho. 16A tua casa e o teu reino permanecerão diante de Mim eternamente e o teu trono será firme para sempre”.

 

Este texto, respigado da célebre profecia dinástica do profeta Natã, em que se garante a estabilidade da descendência de David à frente do povo de Israel – “o teu trono será firme para sempre” (v. 16) –, irá alimentar a esperança de restauração messiânica, após o desterro de Babilónia e justifica o título de “Filho de David” dado a Jesus ao longo do Novo Testamento (cf. Mt 1, 1; 9, 27; 12, 23; 15, 22; 20, 30-31; 21, 9; 22, 42; Act 2, 30; 13, 22-23; Rom 1, 3; 2 Tim 2, 8; Apoc 5, 5; 22, 16). O texto é escolhido para a solenidade de S. José, por ser ele quem garante a Jesus a sua descendência de David (Mt 1, 1; Lc 1, 31-33: “reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reino não terá fim”); com efeito, segundo a lei, José era pai de Jesus, um dado suficiente para Ele ser considerado descendente de David, embora também Maria devesse ser descendente de David, dado o costume de os casamentos se fazerem dentro da parentela.

4 “Naqueles dias”, isto é, na mesma noite em que o profeta Natã tinha apoiado a resolução do rei David de vir a construir uma casa digna para a arca da aliança que substituísse o modesto tabernáculo feito de cortinados. A mensagem divina para David é que não vai ser ele a conseguir uma casa (templo) para Deus, mas vai ser o próprio Deus a erguer-lhe uma casa (descendência) que permanecerá eternamente. O profeta joga com o duplo sentido da palavra hebraica “báyit”, casa e dinastia (v. 11-12).

 

2ª Leitura Romanos 4, 13.16-18.22

 

Irmãos: 13Não foi por meio da Lei, mas pela justiça da fé, que se fez a Abraão ou à sua descendência a promessa de que receberia o mundo como herança. 16Portanto a herança vem pela fé, para que seja dom gratuito de Deus e a promessa seja válida para toda a descendência, não só para a descendência segundo a Lei, mas também para a descendência segundo a fé de Abraão. 17Ele é o pai de todos nós, como está escrito: “Fiz de ti o pai de muitos povos”. Ele é o nosso pai diante d’Aquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. 18Esperando contra toda a esperança, Abraão acreditou, tornando-se pai de muitos povos, como lhe tinha sido dito: 22“Assim será a tua descendência”. Por este motivo é que isto “lhe foi atribuído como justiça”.

 

Se na 1.ª leitura se falava de David, ascendente de S. José, nesta fala-se de outro ascendente mais longínquo, Abraão, o primeiro Patriarca do antigo povo de Deus. S. José é o Santo Patriarca do novo Povo de Deus, pois tem sobre Jesus os direitos legais de pai. 22Assim como Abraão foi pai de muitas nações (v. 17) também o Patriarca S. José é Pai e Patrono da Igreja de Cristo.

 

Evangelho São Mateus 1, 16.18-21.24a

 

16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados”. 24aQuando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

 

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: “Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David” (v. 1). Como a linha genealógica passava pelo marido, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes, obedecendo a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim o número 14, reforçado pela sua tripla repetição – “catorze gerações” – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+ [D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é logo anunciada na genealogia, pois para todos os seus elos se diz “gerou”, quando para o último elo se diz “José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus” (v. 16).

18 “Antes de terem vivido em comum”: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

“Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo”: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se “por virtude do Espírito Santo”, não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra “espírito” (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera, Deus cria. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos, coisa totalmente contrária à verdade da Revelação divina.

19 “Mas José, seu esposo…”. Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. Não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois, em face dos dados das suas fontes, nem sequer disso precisava. Maria nada teria revelado a José do mistério que nela se passava e José ao saber da gravidez de Maria, não a denuncia como adúltera; sendo um santo, “justo”, não a condena, pois conhecia a santidade singular de Maria; não admite qualquer suspeita, mas pressente que está perante algo de sobrenatural e não quer intrometer-se num mistério que o ultrapassava. É assim que “resolveu repudiá-la em segredo”, evitando, assim, “difamá-la” (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente “tornar público” (“deigmatísai”) o mistério messiânico. A sua delicadeza extrema levava-o a não pedir explicações a Maria. Ela também não falou de algo tão extraordinário e inaudito. Maria calava, sofria também, deixando nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da sua concepção, podia igualmente vir a revelá-lo a José.

20 “Não temas receber Maria, tua esposa”. O Anjo não diz: “não desconfies”, mas: “não temas”. Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia; julgando-se indigno de Maria, decide não se imiscuir num mistério que o transcende; “tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, quis deixá-la ocultamente... José tinha-se, por indigno...” (S. Bernardo). Zerwick pensa que o texto poderia mesmo traduzir-se: “embora o que nela foi gerado seja do Espírito Santo, Ela dar(-te-)á à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus”, exercendo assim para Ele a missão de pai”. O Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: “A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus”.

23 “Será chamado Emanuel”. No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqar’at referido a virgem, que é quem põe o nome = “e ela chamará”). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: “e chamarão”), um plural de generaliza­ção, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai “legal” de Jesus (era ao pai que pertencia pôr o nome, não à mãe). Mateus não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa, muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Note-se que esta técnica de actualização (o deraxe) não é arbitrária, pois se baseia na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey (“não leias”), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de “não ler” as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular da forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqar’at – “e tu chamarás”), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqar’ata “e tu chamarás” – lembrar que em hebraico há formas diferentes para o masculino e feminino das 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, “com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: “e (tu, José) o chamarás”. Assim, S. João Crisóstomo parafraseia: “Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer” (Homil. in Mt, 4).

25 “E não a tinha conhecido...” S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração (“não a conhecia”) em vez do chamado aoristo complexívo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). Uma tradução mais à letra seria “até que Ela deu à luz”, em vez de: “quando Ela deu à luz”; uma afirmação que não significa necessariamente que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera (assim é também em Jo 9, 18).

 

Evangelho alternativo São Lucas 2, 41-51a

 

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: “Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura”. 49Jesus respondeu-lhes: “Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?”. 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

 

Quando faziam 12 anos, os rapazes israelitas começavam a ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém. Os judeus costumavam deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, as crianças podiam fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. A atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? O que não faz sentido é buscar a explicação do sucedido numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. “Jerusalém” não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino “a caminho de Jerusalém”, onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas “o Mestre”, Ele é “o Profeta”, e, por isso mesmo, não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através dos seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O “Menino perdido” – já não é tão menino, pois é um jovem no pleno uso dos seus direitos como judeu – é um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: “Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?” Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, “em Jerusalém”, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – “aflitos à tua procura” (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é “elevar-se” ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51).

41 “Os pais de Jesus”. “Teu pai” (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 “Eu devia estar na Casa de Meu Pai”. A tradução de “tá toû Patrós mou” pode significar tanto “a casa de meu Pai”, como “as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai”. A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: “Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai” (e que, por isso, me deveria encontrar aqui no Templo)?

50 “Eles não entenderam”. A resposta do Menino envolvia um sentido muito profundo que ultrapassava uma simples justificação da sua “independência”. Não alcançam ver até onde iria este “estar nas coisas do Pai”, mas também não se atrevem a fazer mais perguntas. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus; é mais um “sinal” e mais uma “espada” (cf. Lc 2, 34-35).