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"et quasi flos rosarum in diebus vernis" (Sir. 50,8) 

 

 

 

CELEBRAÇÃO - ANO A

1.º Dom  Advento a 8.ºDom Comum

Quarta-feira de Cinzas a  Páscoa

2.º Dom da Páscoaa Dom de Pentecostes

Santíssima Trindade a 17º Dom Comum

Transfiguração do Senhor a 26.º Dom Comum

27.º Dom Comum a Cristo, Rei

 

Notas Bíblicas – Geraldo Morujão - Santíssima Trindade a 17º Dom Comum

 

Nossa Senhora do Rosário de Fátima

Apocalipse 21, 1-5a

São João 19, 25-27

 

Santíssima Trindade

Êxodo 34, 4b-6.8-9

2 Coríntios 13, 11-13

São João 3, 16-18

 

Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Deuteronómio 8, 2-3.14b-16a

1 Coríntios 10, 16-17

São João 6, 51-58

 

Domingo Comum

Isaías 49, 14-15

1 Coríntios 4, 1-5

São Mateus 6, 24-34

 

Sagrado Coração de Jesus Deuteronómio 7, 6-11

1 São João 4, 7-16

São Mateus 11, 25-30

 

Visitação de Nossa Senhora

Sofonias 3, 14-18

São Lucas 1, 39-56

 

9º Domingo Comum

Deuteronómio 11, 18.26-28.32

Romanos 3, 21-25a.28

São Mateus 7, 21-27

 

10º Domingo Comum

1ª leitura Oseias 6, 3-6

Romanos 4, 18-25

 

Anjo de Portugal

Daniel 10, 2a, 5-6.12-14ab

São Lucas 2, 8-14

 

Santo António de Lisboa

1ª leitura Ben-Sirá 39, 8-14 (gr. 6-10)

São Mateus 5, 13-19

 

11º Domingo Comum

Êxodo 19, 2-6a

Romanos 5, 6-11

São Mateus 9, 36 – 10, 8

 

12.º Domingo Comum

Jeremias 20, 10-13

Romanos 5, 12-15 

São Mateus 10, 26-33

 

Nascimento de S. João Baptista (Missa da vigília)

Jeremias 1, 4-10

1 São Pedro 1, 8-12

São Lucas 1, 5-17

 

Nascimento de S. João Baptista (Missa do dia)

Isaías 49, 1-6

Actos dos Apóstolos13,22-26

São Lucas 1, 57-66.80

 

 

S. Pedro e S. Paulo (Missa da vigília)

Actos dos Apóstolos 3, 1-10

Gálatas 1, 11-20

São João 21, 15-19

 

S. Pedro e S. Paulo (Missa do dia)

Actos dos Apóstolos12, 1-11

2 Timóteo 4, 6-8.17-18

São Mateus 16, 13-19

 

 

14º Domingo Comum

Zacarias 9, 9-10

Romanos 8, 9.11-13

São Mateus 11, 25-30

 

15º Domingo Comum

Isaías 55, 10-11

Romanos 8, 18-23

São Mateus 13, 1-23

 

16º Domingo Comum

Sabedoria 12, 13.16-19

Romanos 8, 26-27

São Mateus 13, 24-43

 

17º Domingo Comum

1 Reis 3, 5.7-12

Romanos 8, 28-30

São Mateus 13, 44-52

 

Imaculado Coração de Maria

Isaías 61, 9-11

São Lucas 2, 41-51

 

Nossa do Carmo 

Zacarias 2, 14-17

São Mateus 12, 46-50

 

13º Domingo Comum

2 Reis 4, 8-11.14-16a

Romanos 6, 3-4.8-11

São Mateus 10, 37-42

 

 in Celebração Litúrgica, 2007-2008  

Nossa Senhora do Rosário de Fátima

Primeira Leitura Apocalipse 21, 1-5a

1Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido, e o mar já não existia. 2Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, bela como noiva adornada para o seu esposo. 3Do trono ouvi uma voz forte que dizia: «Eis a morada de Deus com os homens. Deus habitará com os homens: eles serão o seu povo e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus. 4Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos nunca mais haverá morte, nem luto, nem gemidos, nem dor, porque o mundo antigo desapareceu». 5aDisse então Aquele que estava sentado no trono: «Vou renovar todas as coisas».

 

A leitura corresponde ao início da grandiosa visão final do Apocalipse: uma vez derrotadas todas as forças do mal e própria morte, é o Reino de Deus que aparece em toda a sua plenitude e esplendor. O pano de fundo desta visão é a de Ez 40.

1 “Um novo Céu e uma nova Terra”. Designação de todo o Universo novo, isto é, renovado (isto significa o adjectivo grego original). Esta renovação visa, sem dúvida, o aspecto moral: renovação que indica, primariamente, a supressão do pecado. Não parece estar excluída também uma renovação física, sobretudo tendo em conta o que se diz em 2 Pe 3, 10-13 e Rom 8, 19-22. A expressão é tirada de Is 65, 17; 66, 22. O que se passará com o Universo no fim dos tempos, em concreto, continua sendo um mistério (cfr. Gaudium et Spes, n.º 139). De qualquer modo, a renovação de que se fala é de ordem sobrenatural e misteriosa e não aquela que é fruto dum simples processo evolutivo natural.

2 “A nova Jerusalém”: uma imagem da Igreja, a Esposa do Cordeiro (vv. 9-10): a noiva adornada para o Seu esposo. Também S. Paulo chama a Igreja “a Jerusalém lá do alto, que é nossa Mãe” (Gal 4, 26). Também é frequente, na Tradição cristã, inclusive na Liturgia, como sucede no dia 13 de Maio, acomodar esta simbologia a Nossa Senhora, a Esposa do Espírito Santo, Mãe e modelo da Igreja.

 

Evangelho São João 19, 25-27

25Naquele tempo, estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. 26Ao ver sua Mãe e o discípulo predilecto, Jesus disse a sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho». 27Depois disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe». E, a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa.

 

25-27. Repare-se na solenidade deste relato: é uma cena central entre as cinco relatadas por João no Calvário; a Virgem Maria é mencionada 6 vezes em 3 versículos, e há o recurso a uma fórmula solene de revelação (“ao ver… disse… eis…” ). Isto deixa ver que não se trata dum simples gesto de piedade filial de Jesus para com a sua Mãe a fim de não a deixar ao desamparo – note-se que Jesus começa por Lhe entregar o discípulo! –; o Evangelista atribui-lhe um significado simbólico profundo. Com efeito, chegada a hora de Jesus, é a hora de Ela assumir (cf. Jo 2, 4) o seu papel de nova Eva (cf. Gn 3, 15) na obra redentora. A designação de “Mulher” assume, na boca do Redentor, o novo Adão, o sentido da missão co-redentora de Maria: não é chamada Mãe, mas sim Mulher, como nova Eva, Mãe da nova humanidade, por alusão à “mulher” da profecia messiânica de Gn 3, 15. Por outro lado, Ela é a mulher que simboliza a Igreja (cf. Apoc 12, 1-18), a mãe dos discípulos de Jesus representados no discípulo amado, que “a acolheu como coisa própria”. A tradução mais corrente deste inciso (seguida pela tradução litúrgica) é: “recebeu-a em sua casa”, mas esta forma de tradução empobrece de modo notável o rico sentido originário da expressão grega “élabon eis tà idía”, uma expressão usada mais quatro vezes em S. João, mas nunca neste sentido; com efeito, a expressão tà idía – “as coisas próprias” – significa muito mais do que a própria casa, indica tudo o que é próprio da pessoa, a sua intimidade.

Jesus não aparece a falar às mulheres junto à Cruz que são 4 ou apenas 3 conforme se contam por 2 ou por 1 pessoa a irmã de sua Mãe, Maria, a mulher de Cléofas. S. Mateus fala de muitas mulheres no Calvário, a distância (Mt 27,35-36; cf. Mc 15,40-41; Lc 23,49).

É também de notar que S. João, ao contrário dos restantes Evangelistas, nunca se refere a Nossa Senhora com o nome de Maria; sempre a designa como a Mãe (de Jesus), um indício de ser tratada realmente como mãe; com efeito, ninguém jamais nomeia a própria mãe com o nome dela: para o filho a mãe é simplesmente a mãe!

 

 

Santíssima Trindade

 

1ª leitura Êxodo 34, 4b-6.8-9

4bNaqueles dias, Moisés levantou-se muito cedo e subiu ao monte Sinai, como o Senhor lhe ordenara, levando nas mãos as tábuas de pedra. 5O Senhor desceu na nuvem, ficou junto de Moisés e proclamou o nome do Senhor. 6O Senhor passou diante de Moisés e proclamou: «O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade». 8Moisés caiu de joelhos e prostrou-se em adoração. 9Depois disse: encontrei, Senhor, aceitação a vossos olhos, digne-Se o Senhor caminhar no meio de nós. É certo que se trata de um povo de dura cerviz, mas Vós perdoareis os nossos pecados e iniquidades e fareis de nós a vossa herança.

 

No texto temos a descrição de mais uma teofania, em que Deus se manifesta. Mas, desta vez, não é com a tremenda grandiosidade que faz ressaltar a sua transcendência, como em Ex 19, 16-20. Ele revela-se aqui como um Deus próximo e íntimo: “um Deus clemente e compassivo… cheio de misericórdia e fidelidade”. No entanto, a revelação mosaica, que se centra na Unicidade divina, fica bem longe da revelação de Cristo acerca da Trindade, isto é, acerca do mistério da própria vida de Deus, pois põe em evidência, dum modo maravilhoso e absolutamente impensável, estes atributos divinos: a misericórdia e a fidelidade. Com efeito, a revelação da vida íntima de Deus em três Pessoas é-nos feita num contexto de salvação do homem afundado no pecado, por um amor sem limites e inteiramente gratuito: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigénito” (Jo 3, 16).

4b “As duas tábuas de pedra”. Estas haviam de substituir as primeiras, quebradas por Moisés num acesso de indignação que teve, ao verificar a idolatria em que o povo caíra (Ex 32, 19).

 

2ª leitura 2 Coríntios 13, 11-13

Irmãos: 11Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição, animai-vos uns aos outros, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco. 12Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Todos os santos vos saúdam. 13A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco.

A leitura corresponde às palavras com que S. Paulo termina a 2.ª Epístola aos Coríntios: uma recomendação final (v. 11) e saudações (vv. 12-13). A despedida é feita através de uma fórmula trinitária muito rica, usada por nós como saudação inicial da celebração eucarística. As três Pessoas divinas estão postas em pé de igualdade. Como em tantos outros casos, “Deus” (com artigo, em grego) designa concretamente a Pessoa do Pai, e não apenas a divindade, ou a única natureza divina, comum às três Pessoas divinas (estas não são três indivíduos, como quando falamos de pessoas humanas, mas três hipóstases, ou sujeitos de atribuição, três “eu”).

12 “Todos os santos vos saúdam”. Refere-se aos cristãos da Macedónia, onde a carta foi escrita (cf. 2 Cor 2, 13; 7, 5; 8, 1; 9, 2.4), talvez mesmo em Filipos, provavelmente antes do Pentecostes do ano 57.

 

Evangelho São João 3, 16-18

16Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. 18Quem não acredita n'Ele já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus.

 

Enquadramento do texto: a leitura é extraída do capítulo 3º de São João, que aparece fundamentalmente como um dos grandes discursos de Jesus, redigido bem à maneira joanina – um discurso temático introduzido por um dialogo em que sobressai o mal-entendido do interlocutor (Nicodemos) –, apenas interrompido com mais um testemunho de João Baptista, mas que se enquadra bem no tema do Baptismo cristão, em aparente conflito com o de João (vv. 22-30). O diálogo inicial dá lugar à mensagem de Jesus; mas de facto é praticamente impossível destrinçar aquilo que o evangelista põe na boca de Jesus daquilo que é uma reflexão sua sobre as palavras do Senhor. Costuma-se considerar que, a partir do v. 13, temos uma meditação divinamente inspirada sobre as palavras de Jesus, feita pelo próprio evangelista, que do v. 16 ao 21 tomam a forma do chamado kérigma joanino em toda a sua força e esplendor. Também os versículos 31-36 deste capítulo só na aparência é que são do Baptista; na realidade são o mesmo kérigma joanino.

16 “Deus amou tanto... que entregou o seu Filho Unigénito”. Esta consideração procede do enlevo, do encanto e deslumbramento de quem contempla o rosto de Cristo e o inefável amor de Deus pelas suas criaturas; o mistério da Trindade revela-se-nos num admirável mistério de amor, o da Incarnação e da Redenção! Parece haver na expressão joanina uma alusão ao sacrifício de Isaac (Gn 22, 2-12), que os Padres consideram uma figura do sacrifício de Cristo.

17-18 “Não para condenar o mundo, mas para que mundo seja salvo por Ele”. O judaísmo dos tempos de Jesus concebia o Messias como um juiz que, antes de mais, vinha para julgar e condenar todos os que ficavam fora do reino de Deus ou se lhe opunham. Jesus insiste no amor de Deus ao mundo e no envio do Filho para que este venha a ser salvo e não condenado: o Filho é o Salvador do Mundo (Jo 4, 42). Se é verdade que há quem se condene, isto sucede porque esse se coloca numa situação de condenação ao rejeitar o único que o podia salvar: “porque não acreditou no Nome (na Pessoa) do Filho Unigénito de Deus” (v. 18). “Já está condenado”, visto que o amor de Deus revelado em Jesus é de tal ordem que o ser humano não se pode alhear; a pessoa é colocada perante um tremendo dilema, inevitável e urgente, tendo de assumir toda a responsabilidade que envolve a sua opção; daí que em S. João o juízo de condenação costuma aparecer como algo actual (cf. vv. 36; e 5,24; 12,31).

Breve excurso teológico: O mistério da Santíssima Trindade não é um quebra-cabeças, uma abstracção ou trigonometria divina reservada a sábios especulativos. Como já referi em nota à 1.ª leitura, o mistério da vida íntima de Deus – a Santíssima Trindade – é-nos revelado num contexto salvífico: o Pai que envia o Filho para salvar o mundo; o Filho que nos envia do Pai o Espírito que nos santifica; e é por isso que o mistério da Trindade está no centro da vida cristã, que é uma ascensão progressiva e contínua ao Pai, unidos ao Filho e guiados pelo Espírito Santo. Por outro lado, a revelação deste mistério – segundo o explicita o dogma e a Teologia – permite-nos falar com objectividade acerca da Trindade “ad intra, isto é, acerca do que ela é em si mesma, na sua mesma essência. O Filho procede do Pai, por eterna geração intelectual – gerado, não criado –; Ele é a Sabedoria, o Verbo (cf. Jo 1, 1-3: a palavra que tudo exprime) do Pai, o resplendor da sua glória, a reprodução da sua essência (cf. Hebr 1, 3). O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, como o amor do querer divino, por isso a Liturgia O chama “Fogo, Amor, Unção espiritual”. As três Pessoas são iguais – uma mesma e única divindade –, e distintas: o Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito Santo, o Espírito Santo não é o Pai, mas apenas se distinguem no que a Teologia classificou de “relações opostas de origem”, relações estas que derivam de o Filho proceder do Pai e o Espírito Santo do Pai e do Filho (ou pelo Filho). Em tudo o mais não há a mínima distinção, a tal ponto que tudo o que Deus faz fora do circuito interno de vida eterna é comum às Pessoas divinas, embora nós possamos apropriar de alguma das Pessoas em particular uma determinada acção ou atributo divino: para o Pai, a omnipotência e a criação; para o Filho, a sabedoria e todas as obras da sabedoria divina; para o Espírito Santo, o amor, a santificação do homem, a inspiração da Escritura, etc.

O transcendente mistério da Santíssima Trindade não é algo que afasta o crente de Deus – tão incompreensível Ele é –, mas, pelo contrário, é um mistério fascinante, que exerce nas almas enamoradas de Deus uma espécie de santa vertigem, uma antecipação do Céu: a atracção do abismo da grandeza e misericórdia divinas. Se Deus é quem é – o Ser infinito – tem que ser sumamente amável, ainda que incompreensível. No dogma da Santíssima Trindade não há contradição, pois não é como se disséssemos 1+1+1=3, uma vez que as Pessoas divinas não se somam umas às outras (são a mesma e única substância divina), mas compenetram-se numa mesma torrente de vida eterna, num mesmo abismo de sabedoria e amor, como se disséssemos 1x1x1=1. Mas a verdade é que se avança mais no conhecimento deste mistério pela via mística, do que pelo discurso teológico: assim sucedeu mesmo com pessoas analfabetas, como sucedeu com os pastorinhos de Fátima.

 

Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 

1ª leitura Deuteronómio 8, 2-3.14b-16a

Moisés falou ao povo, dizendo: 2«Recorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto, para te atribular e pôr à prova, a fim de conhecer o íntimo do teu coração e verificar se guardarias ou não os seus mandamentos. 3Atribulou-te e fez-te passar fome, mas deu-te a comer o maná que não conhecias nem teus pais haviam conhecido, para te fazer compreender que o homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor. 14bNão te esqueças do Senhor teu Deus, que te fez sair da terra do Egipto, da casa de escravidão, 15e te conduziu através do imenso e temível deserto, entre serpentes venenosas e escorpiões, terreno árido e sem águas. Foi Ele quem, da rocha dura, fez nascer água para ti 16ae, no deserto, te deu a comer o maná, que teus pais não tinham conhecido».

 

A leitura é tirada da parte central do Deuteronómio, o 2º discurso de Moisés (Dt 4, 44 – 28, 68), na passagem que recorda como Deus forjou a alma do povo com as provações sofridas no deserto, acompanhadas de uma amorosa providência, para o socorrer na fome e na sede.

3 “O maná”. É figura e símbolo da Eucaristia (cf. Jo 6, 31-33.49-52), figura muitíssimo expressiva, pois é chamado “pão do céu” (Ex 16, 4), “pão dos Anjos” (Sab 16, 20), “pão dos fortes” (Salm 77, 25), “um pão já pronto, sem trabalho, dado do céu, capaz de produzir todas as delícias e bom para todos os gostos”, segundo a releitura deráxica do autor do livro da Sabedoria (Sab 16, 20-21). Na actualização cristã feita no discurso eucarístico de S. João, temos que, assim como o maná alimentou providencialmente o antigo Povo de Deus na sua penosa travessia pelo deserto a caminho da terra prometida, assim também, com uma Providência mais maravilhosa ainda, é alimentado pela Sagrada Eucaristia o novo Povo de Deus no peregrinar desta vida a caminho do Céu.

“Foi para te fazer compreender...”: Com o maná, Deus não só alimentava o seu povo, como o educava, fazendo-o compreender a especial providência e amor que lhe mostrava; o êxito da nossa vida não depende apenas dos recursos naturais – “nem só de pão vive o homem” (v. 3). O maná não era uma comida que propriamente chovia do céu, mas uma providência divina, com base na própria natureza, pois ainda hoje se podem apanhar no Sinai, de fins de Maio até fins de Julho, umas bolinhas transparentes, com uma tonalidade parda amarelenta, de sabor doce, que os beduínos aproveitam como guloseima. Trata-se duma secreção duma espécie de uma espécie de tamareira (tamarix mannifera), quando picada por um insecto (actualmente em vias extinção); a secreção, com a fresca da noite, coagula em pequenos grãos que podem cair ao chão e se derretem com o calor do dia.

 

2ª leitura 1 Coríntios 10, 16-17

Irmãos: 16Não é o cálice de bênção que abençoamos a comunhão com o Sangue de Cristo? Não é o pão que partimos a comunhão com o Corpo de Cristo? 17Visto que há um só pão, nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo, porque participamos do único pão.

 

Para a perfeita compreensão deste texto, precisamos de ter presente o contexto em que fala S. Paulo. O Apóstolo está a dar resposta à questão posta sobre se podiam comer ou não as carnes de animais que antes tinham sido imoladas nos templos idolátricos e depois comidas em banquetes sacrificiais promovidos pelos devotos, ou vendidas no mercado (1 Cor 8, 1 – 11, 1). Depois de ter exposto os princípios gerais (cap. 8), ilustrados com dois exemplos (o de Paulo e o da história de Israel: 9, 1 – 10, 13), passa a dar soluções práticas para o problema. O nosso texto é um pequeno extracto (vv. 16 e 17) daquela parte (vv. 14-22) em que Paulo apresenta a primeira razão teológica que fundamenta a proibição absoluta de participar nos banquetes sacrificiais, a saber: o culto pagão e o culto cristão são incompatíveis, uma vez que pela comunhão num sacrifício oferecido à divindade fica-se em contacto com a divindade à qual é oferecido esse sacrifício, por isso, “não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demónios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demónios” (v. 21); de facto, “aquilo que os pagãos sacrificam, sacrificam-no aos demónios e não a Deus” (v. 20).

16 “Comunhão com o Sangue de Cristo… com o Corpo de Cristo”. S. Paulo não diz simplesmente “comunhão com Cristo”, o que bastava para a condenação da participação nos banquetes idolátricos, mas, ao fazer menção explícita do Corpo e do Sangue de Cristo, deixa ver que a união que se dá com Jesus na Santíssima Eucaristia não é apenas uma união de tipo moral, espiritual ou mística com o Cristo celeste, mas uma união imediata com Jesus ressuscitado realmente presente entre nós com o seu Corpo e o seu Sangue, isto é, em pessoa, embora de modo sacramental, apenas sensível em sinais, as espécies do pão e do vinho.

“O cálice de bênção que nós abençoamos”: a expressão é uma forma de se referir às palavras da consagração, inseridas já nalgum formulário litúrgico primitivo, em relação com Ceia do Senhor, onde Jesus concluiu a instituição da Eucaristia precisamente com a consagração da terceira taça, assim denominada no hagadá da Páscoa: “o cálice da bênção”.

“O pão que partimos”. Referência à celebração eucarística (cf. Act 2, 42.46; 20, 7.11), pois nela se partia o pão imitando o gesto de Jesus na Última Ceia, gesto que ainda hoje se mantém na fracção da Hóstia, antes da Comunhão.

“Formamos um só corpo, porque participarmos...” A Sagrada Eucaristia não é mero sinal significativo de unidade – todos comem do mesmo pão –, mas é sobretudo um sinal que produz a unidade; precisamente porque contém Jesus Cristo, cimenta a unidade inaugurada no Baptismo.

 

Evangelho São João 6, 51-58

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 51«Eu sou o pão vivo descido do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é a minha Carne pela vida do mundo». 52Os judeus discutiam entre si: «Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?». 53Jesus disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a Carne do Filho do homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós. 54Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia. 55A minha Carne é verdadeira comida e o meu Sangue é verdadeira bebida. 56Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em mim, e Eu nele. 57Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim. 58Este é o pão que desceu do Céu; não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram; quem comer deste pão viverá eternamente».

 

Se os versículos anteriores deste Discurso do Pão do Céu se podem interpretar também no sentido de que Jesus é um alimento espiritual para fé dos que crêem nas suas palavras (assim no v. 35), a verdade é que, a partir deste v. 51, o discurso tem um sentido nítida e indiscutivelmente eucarístico, deixando mesmo de se usar a expressão “pão da vida” (vv. 35.38), para se falar agora do “pão vivo”.

51 “O pão vivo… que eu hei-de dar: este “dar” não é um dar qualquer, mas um oferecimento “pela vida” (salvação) “do mundo”. A referência à morte de Cristo (cf. Jo 3, 15-16) e à instituição da Eucaristia (cf. 1 Cor 11, 24; Lc 22, 19) é fácil de descobrir. O realismo eucarístico das palavras de Jesus não pode ser mais claro: o pão vivo é a “carne” (não simplesmente corpo) de Jesus e simulta­nea­men­te o sangue” que é preciso beber (o que não podia ser mais chocante para a fé e a cultura judaica: cf. Lv 17, 10-14; Act 15, 20); perante o escândalo dos ouvintes (v. 52), Jesus não desfaz um mal-entendido como costumava fazer, não apela para um sentido metafórico, nem suaviza as suas palavras, mas antes as reforça com mais clareza. Por outro lado, nos vv. 54, 56, 57 e 58, emprega-se um verbo que exprime, com realismo, o próprio do acto de comer com os dentes (mastigar – trôgô) e que se traduz bem por “comer realmente”; também o adjectivo “verdadeiro” (v. 55: alêthês) tem em S. João uma força particular, pois equivale a genuíno (o que é verdadeiro, isto é, o que corresponde à sua designação, apesar das aparências). Com efeito, neste Evangelho o adjectivo alêthês distingue-se de alêthinós (cf. Jo 1, 9) que encerra a ideia de exclusividade (o que é real, em oposição a putativo).

52 “Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?” Os ouvintes aparecem como quem entende as palavras de Jesus no sentido próprio e não no sentido figurado de adesão pela fé. De facto, comer a carne de alguém, em sentido figurado, seria, pelo contrário, ter ódio ou perseguir alguém, nunca aderir a alguém! Jesus tem o costume de desfazer equívocos, quando os ouvintes interpretam em sentido próprio o que tinha um sentido figurado (cf. Jo 3, 4-5; Mt 16, 6-12). A insistência de Jesus produz escândalo nos ouvintes, ao afirmar que não se pode conseguir a vida eterna, se não se comer a sua Carne e não se beber o seu Sangue. E é que não se trata apenas de algo já de si simplesmente espantoso, pois beber o sangue era algo proibido pela Lei de Moisés (cf. Lv 17, 10-14) e sumamente repugnante para um judeu (cf. Act 15, 20).

54 “E Eu o ressuscitarei”. Eis o comentário de S. Tomás de Aquino: “O Verbo dá a vida às almas, mas o Verbo feito carne vivifica os corpos. É que, neste Sacramento, não se contém só o Verbo com a sua divindade, mas também com a sua humanidade; portanto, não é só causa da glorificação das almas, mas também dos corpos” (Super Ev. Jo. Lectura).

56-58 A Teologia explicita os efeitos do Sacramento da Eucaristia, aqui indicados, como a “graça sacramental”, concretamente: a) a “graça unitiva” (v. 56); b) a “graça nutritiva e transformativa” (v. 57); c) e o “penhor da vida eterna e da gloriosa ressurreição final” (v. 58).

 

8º Domingo Comum

1.ª Leitura Isaías 49, 14-15

14Sião dizia: «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim». 15Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta e não ter compaixão do filho das suas entranhas? Mas ainda que ela se esquecesse, Eu não te esquecerei.

 

Ao anunciar a restauração de Jerusalém dsstruída (vv. 14-26), o profeta começa por levantar o ânimo do povo abatido e humilhado, apelando para o amor de Deus que é um amor cheio de afecto, ternura e compaixão. É uma das mais belas e expressivas passagens de toda a Sagrada Escritura.

14 Sião”. Era a cidadela da capital, Jerusalém, que aqui, como noutras ocasiões, representa todo o povo. Sião, que significa «lugar seco» era a fortaleza conquistada por David aos Jebuseus, na colina oriental de Jerusalém (Ofel), que se começou a chamar cidade de David, e para onde ele transladou a arca. Quando Salomão construiu o templo, a Norte de Sião, e para lá levou a arca da aliança, também se começa a dar a esse local o nome de Sião. Também o nome de Sião passou a designar toda. a cidade ou todos os seus habitantes (filha de Sião) e por vezes, como aqui, todo o Povo de Israel. Daqui se segue que a Igreja, «o novo Israel de Deus», passa a ser designada também como Sião, tanto na sua fase peregrina (Heb 12, 22), como celeste (Apoc 14, 1). Ora, como a sede da primitiva Igreja de Jerusalém foi o Cenáculo, passou a considerar-se como Monte Sião a colina ocidental onde este se situa. Hoje a Arqueologia desfez esta confusão topográfica e demonstrou cabalmente que a primitiva Sião, cidade de David, é a colina oriental (Ofel), a sul da esplanada do templo.

2.ª Leitura 1 Coríntios 4, 1-5

1Todos nos devem considerar como servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. 2Ora o que se requer nos administradores é que sejam fiéis. 3Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós ou por um tribunal humano; nem sequer me julgo a mim próprio. 4De nada me acusa a consciência, mas não é por isso que estou justificado: quem me julga é o Senhor. 5Portanto, não façais qualquer juízo antes do tempo, até que venha o Senhor, que há-de iluminar o que está oculto nas trevas e manifestar os desígnio dos corações. E então cada um receberá da parte de Deus o louvor que merece.

 

Em face das divisões que havia em Corinto por causa de os cristãos dali pretenderem arvorar os pregadores do Evangelho em protagonistas e representantes de facções diversas, São Paulo procura dar a verdadeira imagem do que é o ministério cristão (1 Cor 3 – 4); tanto Paulo como Apolo são meros servidores (diáconoi – cf. 1 Cor 3, 5) dos fiéis e colaboradores de Deus (synergoi 3, 9), e de modo algum chefes políticos ou representantes de tendências ou simpatias populares.

1-2 Os Apóstolos (e assim todos os detentores de funções jerárquicas) devem ser considerados como aquilo que realmente são: “servos de Cristo” (hypêrétai, um termo grego que designa um empregado subalterno) e “administradores dos mistérios de Deus” (em grego, oikonómoi, gerentes). O administrador não é o seu dono, por isso, a norma de toda a sua conduta tem que ser a fidelidade: fidelidade ao Senhor e à Igreja, procurandoi dar a resposta adequada aos direitos que cada um dos fiéis tem dentro do Povo de Deus (cf. Lc 12, 42-44). A missão da Hierarquia é uma missão de serviço humilde; com estas palavras, São Paulo desautoriza todas as espécies de clericalismo. Os mistérios de Deus, são todos os meios sobrenaturais de salvação, em particular a Pregação e os Sacramentos.

3-4 São Paulo dá o exemplo de não se conduzir ao sabor dos juízos humanos. O discípulo de Cristo, e muito particularmente um seu ministro, não pode ter medo de críticas, de rótulos de qualquer sinal, de criar antipatias, de remar contra a maré, aliás, pôr-se-ia no caminho da infidelidade.

Evangelho São Mateus 6, 24-34

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 24«Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. 25Por isso vos digo: «Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou de beber, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário? 26Olhai para as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; o vosso Pai celeste as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas? 27Quem de entre vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à sua estatura? 28E porque vos inquietais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam; 29mas Eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 30Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? 31Não vos inquieteis, dizendo: ‘Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?’ 32Os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas. Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. 33Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo. 34Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado».

 

Tínhamos começado a ler nos domingos comuns, que se seguiram ao Tempo do Natal, o sermão da montanha, que agora retomamos; neste ano não houve lugar para o 6º e 7º Domingo do Tempo Comum, por isso já estamos a meio do capítulo 6 de S. Mateus,

24 Ninguém pode servir a dois senhores”. O trabalho dum escravo era tão absorvente que não lhe restava tempo para atender a outro senhor que não fosse o seu. Esta realidade bem conhecida por todos é o ponto de partida para Jesus estabelecer um princípio de vida moral: sendo Deus o fim último do homem, nada nem ninguém se pode ocupar o seu lugar. O fim último do homem é Deus, a Quem há que servir e amar sobre todas as coisas, não ficando lugar para quaisquer espécies de ídolos. E aqui temos uma aplicação concreta: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”, em aramaico, “mammona” uma palavra que o 1º Evangelho, dirigido a judeus-cristãos, conserva sem a traduzir para grego; trata-se duma alusão às riquezas, o dinheiro, que aqui aparece como que personificado. «Os bens da terra não são maus; pervertem-se, quando o homem os toma como ídolos e se prostra diante deles; mas tornam-se nobres, quando os converte em instrumentos para alcançar o bem, numa missão de justiça e de caridade. Não podemos correr atrás dos bens económicos como quem procura um tesouro; o nosso tesouro (...) é Cristo e n’EIe se há-de concentrar todo o nosso amor, porque onde está o nosso tesouro, aí está também o nosso coração (cf. Mt 6,21)» (S. Josemaria, Cristo que passa, n.° 35).

25-34 Não vos inquieteis”. Jesus não diz que não nos ocupemos das coisas que se referem ao alimento e ao vestuário, mas que não nos preocupemos com desassossego e perturbação dessas coisas. É como se dissesse: «Não vos preocupeis excessivamente com os bens materiais, ainda que necessários à vida; não estais sobre a terra para aqui viverdes imersos em pensamentos de coisas materiais, sois filhos de Deus, bem superiores às flores do campo e às aves do céu. Deus pensará em vós, mais do que pensa nas outras criaturas e vos dará o necessário» (Bíblia de Vacari).

27 Acrescentar um só côvado…”. O côvado equivalia a 45 cm. Não é a inquietação e a falta de serenidade que leva a aumentar os bens materiais, como também não faz aumentar a duração da vida (antes pelo contrário!), ou melhor (dito com uma certa ironia), a própria estatura, como temos na tradução litúrgica.

32 Os pagãos…”. É próprio deles a inquietação com que se movem na vida. É próprio dos filhos de Deus a serenidade e a confiança no Pai do Céu.

33 Procurai primeiro o Reino de  Deus e a sua justiça”. Esta justiça é a justiça indispensável para entrar no Reino de Deus, isto é, o cumprimento da sua vontade.

“Tudo o mais vos serão dadas por acréscimo”, segundo comenta Santo Agostinho: «não corno um bem no qual devais fixar a vossa atenção, mas como um meio pelo qual possais chegar ao sumo e verdadeiro bem» (Sobre o Sermão da Montanha, 2, 24).

34 Não vos inquieteis com o dia de amanhã”. Trata-se duma sentença comum à sabedoria humana, que aparece também nas literaturas romana, grega, judaica e até egípcia. Mas, na boca de Jesus, tem um sentido novo: não se trata já da resignação e indiferença estóica, ou duma técnica epicurista para saborear em cheio o prazer do momento que passa, mas sim duma atitude de fé viva na Providência divina e de confiança filial no Pai celeste, que conduz à paz e serenidade de espírito. As palavras de Jesus não significam de modo nenhum qualquer apelo à inactividade dum falso piedosismo quietista.

Sagrado Coração de Jesus

 

1ª leitura Deuteronómio 7, 6-11

Moisés falou ao povo nestes termos: 6«Tu és um povo consagrado ao Senhor teu Deus; foi a ti que o Senhor teu Deus escolheu, para seres o seu povo entre todos os povos que estão sobre a face da terra. 7Se o Senhor Se prendeu a vós e vos escolheu, não foi por serdes o mais numeroso de todos os povos, uma vez que sois o menor de todos eles. 8Mas foi porque o Senhor vos ama e quer ser fiel ao juramento feito aos vossos pais, que a sua mão poderosa vos fez sair e vos libertou da casa da escravidão, do poder do Faraó, rei do Egipto. 9Reconhece, portanto, que o Senhor teu Deus é o verdadeiro Deus, um Deus leal, que por mil gerações é fiel à sua aliança e à sua benevolência para com aqueles que amam e observam os seus mandamentos. 10Mas Ele pune directamente os seus inimigos, fazendo-os perecer e infligindo sem demora o castigo merecido àquele que O odeia. 11Guardarás, portanto, os mandamentos, leis e preceitos que hoje te mando pôr em prática».

 

Temos um texto tirado do 2.º discurso deutereronómico, um texto clássico, em que se proclama a gratuita eleição de Israel por Deus. Esta escolha de predilecção faz de Israel “um povo consagrado ao Senhor” (v. 6). Estamos diante dum tema central de todo o Antigo Testamento e em que insiste particularmente o Deuteronómio.

O motivo da escolha é inteiramente gratuito, é uma eleição de puro amor, pois trata-se de “o menor de todos” os povos (v. 7): foi “porque o Senhor vos ama”, com um amor gratuito (v. 8). É assim o amor de Deus para connosco: um amor “fiel à sua aliança” (v. 9). Mas um amor tão grande não pode ser desprezado impunemente (cf. v. 10). A correspondência de amor consiste em guardar os mandamentos, leis e preceitos (v. 11).

 

2ª leitura 1 São João 4, 7-16

Caríssimos: 7Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus; e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. 8Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. 11Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros. 12Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e em nós o seu amor é perfeito. 13Nisto conhecemos que estamos n'Ele e Ele em nós: porque nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Se alguém confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16Nós conhecemos o amor que Deus nos tem e acreditámos no seu amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele.

 

Também nesta leitura se fala do amor de Deus, objecto das páginas mais belas do Antigo Testamento (cf. 1ª leitura; e Is 54, 5-10). E fala-se de um amor gratuito: “não fomos nós que amámos a Deus” primeiro, de modo a merecer o seu amor, “mas foi Ele que nos amou” (v. 10) e levou o seu amor por nós até ao ponto de que nos “enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados”. Por isso insiste São João em que “Deus é amor” (vv. 8.16), a mais bela definição do que é Deus e que jamais alguém poderia excogitar.

7 “Nasceu de Deus”, isto é, é filho de Deus, como tanto se insiste nos escritos joaninos: 1 Jo 2, 29; 3, 1-2.9; 5, 1.4.18; Jo 1, 13…

10 “Vítima de expiação”: temos aqui uma linguagem sacrificial do AT (cf. Ex 29, 36-37) que apresenta a morte de Jesus como um sacrifício voluntário, revelador do seu imenso amor (cf. Rom 3, 24-25).

 

Evangelho São Mateus 11, 25-30

25Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. 27Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. 30Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

 

O trecho da leitura é considerado como a jóia dos Sinópticos, com uma impressionante revelação do Coração de Cristo, sendo os vv. 25-27 uma das mais belas orações de Jesus, também registada em Lucas.

25 “Sábios e inteligentes” (prudentes) são os sábios orgulhosos, que confiam apenas na sua sabedoria, auto-suficientes, julgam poder salvar-se com os seus próprios recursos de inteligência e poder. Os “pequeninos” são os humildes, abertos à fé, capazes de visão sobrenatural. A revelação divina só pode ser aceite e captada pela fé: uma ciência soberba impede de aceitar a loucura divina da Cruz (cf. 1 Cor 1, 19-31); os pequeninos são, pois aqueles “que o mundo considera vil e desprezível”, mas “que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa” (ibid. v. 28).

27 Jesus reivindica para si um conhecimento do Pai (Deus) perfeitamente idêntico ao conhecimento que o Pai tem do Filho (Jesus), e isto porque Ele, e só Ele, é o Filho, igual ao Pai, Deus com o Pai.

28-30 Palavras estas maravilhosas, que nos patenteiam os sentimentos do Coração de Cristo. O povo andava “cansado e oprimido” com as minuciosas exigências da lei antiga – que o Sirácida (51, 33) apodava de “jugo” – e das tradições que os fariseus e doutores da lei impunham com todo o rigorismo do seu frio e insuportável legalismo, que oprimia a liberdade interior e roubava a paz ao coração (cf. Act 15, 10). Jesus não nos dispensa de levar o seu “jugo” e a sua “carga”, mas não quer que nos oprima, pois deseja que O sigamos por amor, e, “para quem ama, é suave; pesado, só para quem não ama” (Santo Agostinho, Sermão 30, 10). O mesmo Santo Agostinho comenta esta passagem: “qualquer outra carga te oprime e te incomoda, mas a carga de Cristo alivia-te do peso. Qualquer outra carga tem peso, mas a de Cristo tem asas. Se a uma ave lhe tirares as asas, parece que a alivias do peso, mas, quanto mais lhas tirares, mais esta pesa; restitui-lhe o peso das suas asas, e verás como voa” (Sermão 126, 12).

 

VISITAÇÃO DE NOSSA SENHORA

1ª leitura Sofonias 3, 14-18

Clama jubilosamente, filha de Sião solta brados de alegria, Israel. Exulta, rejubila de todo o coração, filha de Jerusalém. O Senhor revogou a sentença que te condenava, afastou os teus inimigos. O Senhor, Deus de Israel, está no meio de ti e já não temerás nenhum mal. Naquele dia, dir-se-á a Jerusalém: «Não temas, Sião, não desfaleçam as tuas mãos. O Senhor teu Deus está no meio de ti, como poderoso salvador. Por causa de ti, Ele enche-Se de júbilo, renova-te com o seu amor, exulta de alegria por tua causa, como nos dias de festa». Afastei para longe de ti a desventura, a humilhação que te oprimia, Jerusalém.

 

O texto profético visa directamente e em primeiro plano a restauração de Israel (Sof 3, 9-20; cf. Is 54; 60; 62), a partir de um “resto”, humilde e pobre”, que permanece fiel (Sof 3, 12-13; cf. Lc 1, 48, do Evangelho de hoje) e constitui um belíssimo canto de esperança (pouco importa a discussão acerca da época da redacção do texto, se a de Josias – Sof 1, 1 –, se a do terceiro Isaías). A Liturgia, na linha dos Padres da Igreja, aplica este texto à Virgem Maria, pois de ninguém como dela se pode dizer com tanta verdade: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti” (v. 17; cf. Lc 1, 28). E as expressões com que se relata a Anunciação no Evangelho de S. Lucas fazem eco às palavras proféticas: “avè (khaire/alegra-te) = exulta, rejubila ” (Lc 1, 30; Sof 3, 16); “não temas” (Lc 1, 28; Sof 3, 14); = “o Senhor é convosco” = “o Senhor está no meio de ti” (Lc 1, 28; Sof 3, 17). A “Filha de Sião” (v. 14) a personifica os habitantes de Jerusalém, noutros lugares chamada “virgem filha de Sião”, tornou-se uma figura da Virgem Santa Maria.

Evangelho São Lucas 1, 39-56

39Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direcção a uma cidade de Judá. 40Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo 42e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. 43Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? 44Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. 45Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor». 46Maria disse então: «A minha alma glorifica o Senhor 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. 49O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu nome. 50A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. 51Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. 52Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. 53Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. 54Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, 55como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre». 56Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses e depois regressou a sua casa.

 

Os exegetas descobrem neste relato uma série de ressonâncias vétero-testementárias, o que corresponde não apenas ao estilo do hagiógrafo, mas sobretudo à sua intenção teológica de mostrar como na Mãe de Jesus se cumprem as figuras do A.T.: Maria é a verdadeira e nova Arca da Aliança (comparar Lc 1, 43 com 2 Sam 6, 9 e Lc 1, 56 com 2 Sam 6, 11) e a verdadeira salvadora do povo, qual nova Judite (comparar Lc 1, 42 com Jdt 13, 18-19) e qual nova Ester (Lc 1, 52 e Est 1 – 2).

39 «Uma cidade de Judá». A tradição diz que é Ain Karem, uma bela povoação a 6 Km a Oeste da cidade nova de Jerusalém. De qualquer modo, ficaria a uns quatro ou cinco dias de viagem de Nazaré (uns 150 Km). Maria empreende a viagem movida pela caridade e espírito de serviço. A «Mãe do meu Senhor» (v. 43) não fica em casa à espera de que os Anjos e os homens venham servir a sua rainha; e Ela mesma, que se chama «escrava do Senhor» (v. 38), «a sua humilde serva» (v. 48), apressa-se em se fazer a criada da sua prima e de acudir em sua ajuda. Ali permanece, provavelmente, até depois do nascimento de João, uma vez que S. Lucas nos diz que «ficou junto de Isabel cerca de três meses» Se Lucas diz que «regressou a sua casa» antes de relatar o nascimento de João, isso deve-se a uma técnica de composição literária chamada «de eliminação» (arrumar um assunto de vez, antes de passar a outro, independentemente da sucessão real dos factos), do gosto de São Lucas (ver tb. Lc 1, 80 e 2, 7; 3, 20 e 21).

42 «Bendita és Tu entre as mulheres». Superlativo hebraico: a mais bendita de todas as mulheres.

43-44 «A Mãe do meu Senhor». As palavras de Isabel aparecem como proféticas, fruto duma luz sobrenatural que faz ver que o mexer-se do menino no seio (v. 41) não era casual, mas que «exultou de alegria» para saudar o Messias e sua Mãe. É natural que esta reflexão de fé já circulasse nas fontes familiares dos Evangelhos da Infância.

46-55 O cântico de Nossa Senhora, o Magnificat, é um poema de extraordinária beleza poética e elevação religiosa. Dificilmente poderiam ficar mais bem expressos os sentimentos do coração da Virgem Maria – “a mais humilde e a mais sublime das criaturas” (Dante, Paraíso, 33, 2) –, em resposta à saudação mais elogiosa (vv. 42-45) que jamais se viu em toda a Escritura. É como se Maria dissesse que não havia motivo para uma tal felicitação: tudo se deve à benevolência, à misericórdia e à omnipotência de Deus. Sem qualquer referência ao Messias, refulge aqui a alegria messiânica da sua Mãe, num magnífico hino de louvor e de agradecimento. O cântico está todo entretecido de reminiscências bíblicas, sobretudo do cântico de Ana (1 Sam 2, 1-10) e dos Salmos (35, 9; 31, 8; 111, 9; 103, 17; 118, 15; 89, 11; 107, 9; 98, 3); cf. também Hab 3, 18; Gn 29, 32; 30, 13; Ez 21, 31; Si 10, 14; Mi 7, 20. Ao longo dos tempos, muitos e belos comentários se fizeram ao Magnificat, mas também é conhecida a abordagem libertadora, em clave marxista de luta de classes, utópica e de cariz materialista, falsificadora do genuíno sentido bíblico. Apraz registar o comentário do Servo de Deus, João Paulo II na Encíclica Redemptoris Mater, nº 36: “Nestas sublimes palavras… vislumbra-se a experiência pessoal de Maria, o êxtase do seu coração; nelas resplandece um raio do mistério de Deus, a glória da sua santidade inefável, o amor eterno que, como um dom irrevogável, entra na história do homem”.

 

9º DOMINGO COMUM

1ª leitura Deuteronómio 11, 18.26-28.32

Moisés falou ao povo nestes termos: 18«As palavras que eu vos digo, gravai-as no vosso coração e na vossa alma, atai-as à mão como um sinal e sejam como um frontal entre os vossos olhos. 26Ponho hoje diante de vós a bênção e a maldição: 27a bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, que hoje vos prescrevo; 28a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, afastando-vos do caminho que hoje vos indico, para seguirdes outros deuses que não conhecestes. 32Portanto, procurai pôr em prática todos os preceitos e normas que hoje vos proponho».

 

O texto pertence à 2ª parte do Deuteronómio, a parte fundamental, em forma de um longo discurso de Moisés, o segundo (Dt 4, 44 – 28, 68), que precede imediatamente o chamado Código Deuteronómico, ou Aliança de Moab (Dt 12, 1 – 26, 15), adiantando as bênçãos e maldições que serão apresentadas de forma mais desenvolvida a concluir o discurso (Dt 27 e 28).

18 No tempo de Jesus, os fariseus tomavam à letra estas palavras, e atavam com fitas à testa e ao braço as chamadas filactérias, umas caixinhas contendo tiras de pergaminho com certas passagens da Lei, como esta: Dt 11, 13-21; 6, 4-9; Ex 13, 1-16 (cf. Mt 23, 5).

2ª Leitura Romanos 3, 21-25a.28

Irmãos: 21Independentemente da Lei de Moisés, manifestou-se agora a justiça de Deus, de que dão testemunho a Lei e os Profetas; 22porque a justiça de Deus vem pela fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os crentes. De facto não há distinção alguma, 23porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus; 24e todos são justificados de maneira gratuita pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus, 25aque Deus apresentou como vítima de propiciação, mediante a fé, pelo seu sangue, para manifestar a sua justiça. 28Na verdade, estamos convencidos de que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei.

 

Em breves mas densas palavras temos aqui expressa a tese central da Epístola aos Romanos: todos os homens tanto os gentios como os judeus são pecadores e estão privados da graça divina e só são salvos pela obra redentora de Jesus, de modo gratuito, não em virtude de se satisfazer uma série de exigências da Lei mosaica, mas pela sua adesão à salvação oferecida.

21 “Foi sem a Lei do Moisés”. A salvação trazida por Cristo, embora seja “atestada pela Lei e pelos Profetas”, não procede da Lei mosaica, que não tem força para justificar ninguém, mas apenas torna mais patente o pecado. “Manifestou-se agora”, isto é, no tempo presente, após a obra salvadora de Jesus Cristo, “a justiça de Deus”: não é a justiça vindicativa de Deus, chamada ira de Deus nesta epístola (Rom 1, 18 – 3, 20). É, pelo contrário, a acção salvadora de Deus que justifica, santifica o ser humano.

22 “Vem pela fé em Jesus Cristo”. A fé é a condição básica fixada por Deus para que o homem possa aproveitar-se da salvação trazida por Cristo: o mínimo. que Deus pode exigir é que os beneficiários da sua misericórdia reconheçam o valor da morte redentora do seu Filho. “Para todos os crentes sem distinção”, pois a salvação é para todos, não apenas para uns privilegiados, uma raça eleita, o povo de Israel, destinatário da Lei; ela é para todos os homens, com a condição de que sejam crentes, isto é, de que tenham fé (v. 28; cf. Rom 1, 17).

23 “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus”. Aqui trata-se da glória de Deus, enquanto participada pelo homem, uma espécie de revérbero da majestade e presença divina na alma humana, que a Teologia chama .graça santificante. Pelo pecado original toda a humanidade ficou privada da graça e amizade divina (cf. Rom 5, 12-21).

24 “Todos são justificados de maneira gratuita”, isto é, sem méritos antecedentes do pecador, “pela sua graça”, ou seja, unicamente pela benevolência divina, por puro favor, que nenhum esforço humano podia merecer (muitos autores vêem aqui aludido o dom da graça santificante); “por meio da Redenção”: pela obra salvadora de Cristo, que é aqui chamada “redenção”. Pergunta-se se este termo indica um resgate pago, isto é, se o sangue de Cristo deve ser entendido como preço de resgate. Que Cristo nos resgatou com o seu sangue é uma verdade de fé, que não pode estar em questão; no entanto, discute-se se, nesta passagem, se quer exprimir isto mesmo, uma vez que a palavra apolytrôsis não engloba necessariamente a noção de resgate, como é o caso de quando os LXX a referem à libertação do Egipto, e também em Lc 21, 28; Rom 8, 23: 1 Cor 1, 30; Ef 1, 14; 4, 30; Hebr 11, 35). Porém, dada a semelhança desta passagem com tantas outras em que se diz expressamente que os cristãos foram “comprados por um preço” (1 Cor 6, 20; 7, 23; Gal 3, 13; 2 Pe 2, 1; Apoc 5, 9; cf. Mt 20, 28; Mc 10, 45; Act 20, 28; 1 Pe 1, 18), é mais provável que neste versículo se expresse a ideia de resgate. Nesta linha se situa a tradução litúrgica ao empregar a palavra “redenção” e não “libertação”.

25 “Deus apresentou-o como aquele que expia os pecados pelo seu Sangue”, à letra: como o propiciatório. O propiciatório (em grego hilastêrion, em hebraico kapóreth) era a placa de oiro que cobria a arca da aliança e que no dia da festa anual da expiação (o Yiom Kipur) era aspergida com sangue de vítimas pelo sumo sacerdote para a expiação dos pecados do povo (cf. Ex 25; Lv 16). Nesta mesma linha, Jesus seria o novo propiciatório, isto é, o novo meio ou instrumento de expiação, o novo lugar que a misericórdia de Deus nos apresenta e oferece para obtermos o perdão dos pecados. No entanto, a tradução litúrgica preferiu outra interpretação (permitida pelo original grego), a saber, o propiciador: Jesus é, assim, Aquele que expia os pecados. Mas ainda era possível uma terceira tradução: “Deus apresentou-o como um sacrifício expiatório”, (como vítima de expiação, traduzem alguns). Esta última tradução, favorecida pelo contexto, em especial pela referência ao “Sangue derramado”  – isto é, um sangue de sacrifício –, tem a vantagem de pôr em evidência a doutrina da fé segundo a qual a Morte de Cristo foi um verdadeiro sacrifício de propiciação ou expiação dos nossos pecados, doutrina aliás contida claramente no Novo Testamento (cf. Mt 26, 28 par; 1 Cor 11, 24-25; 15, 3; Ef 1, 7; 5, 2; Col 1, 20; Hebr 1, 12-14; 1 Pe 1, 18-19). “Por meio da fé”: Jesus Cristo realizou o que a Teologia chama a redenção objectiva, mas nós somos justificados pessoalmente, fazendo nossa essa mesma expiação (redenção subjectiva ou aplicada), mediante a fé em Cristo.

28 “O homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei”. A tradução litúrgica, por motivo de clareza, explicita: “sem as obras que a Lei de Moisés determina”. A principal obra da Lei, que os cristãos judaizantes queriam impor, como elemento indispensável da justificação, era a circuncisão. Na epístola aos Gálatas o Apóstolo tinha-se insurgido muito energicamente contra estes traficantes do Evangelho; nesta epístola, porém, limita-se a expor serenamente o princípio de que a justificação é puro dom gratuito de Deus, não é um prémio devido a obras especiais (as práticas da Lei mosaica), que só uns tantos privilegiados podiam executar. A salvação é para todos, quer sejam judeus, quer sejam gentios; não tem sentido, pois, judaizar para obter a salvação, que é gratuita e universal. Note-se que Lei de Moisés, ao ter o seu pleno cumprimento em Cristo, perdeu a sua vigência no que tem de ritual ou cultural, não no que se refere à Lei moral, que Cristo não veio abolir, mas explicar e levar à sua perfeição (cf. Mt 5).

Evangelho São Mateus 7, 21-27

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 21«Nem todo aquele que Me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus. 22Muitos Me dirão no dia do Juízo: ‘Senhor, não foi em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos tantos milagres?’ 23Então lhes direi bem alto: ‘Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade’. 24Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. 25Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. 26Mas todo aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é como o homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia. 27Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; ela desmoronou-se e foi grande a sua ruína».

 

O “Discurso da Montanha” de Mateus (Mt 5 – 7), belamente construído a partir de variados e dispersos ensinamentos de Jesus, com o objectivo nos dar, logo de entrada, uma visão global do que poderíamos chamar o programa do Reino dos Céus, atinge aqui a sua conclusão, encerrando-se com chave de ouro.

21-23 O cerne do Reino do Céus está em fazer a vontade do Pai que está nos Céus, sem o qual tudo, a saber, a própria confissão de fé – “Senhor, Senhor” –, bem como os mais singulares carismas – “profetizar em nome de Jesus, expulsar demónios, fazer prodígios” –, tudo é vão. Notar como Jesus fala com uma autoridade suprema, muito superior à dos Profetas, ao apresentar-se como o próprio Juiz dos homens, o que implica uma autoridade suprema e exclusiva de Deus.

24-27 A parábola do homem que constrói a sua “casa sobre a rocha” chama a atenção para a segurança que dão os ensinamentos de Jesus a quem se esforça por pô-los em prática: nada o poderá abalar, nem mesmo as mais fortes tribulações, contradições, ou perseguições; pelo contrário, tentar construir a sua vida fora, ou à margem de Jesus, é “construir sobre a areia”, é estar votado ao fracasso e a uma desastrosa ruína final.

 

10º DOMINGO COMUM

1ª leitura Oseias 6, 3-6

3Procuremos conhecer o Senhor. A sua vinda é certa como a aurora. Virá a nós como aguaceiro de Outono, como a chuva da Primavera sobre a face da terra. 4«Que farei por ti Efraim? Que farei por ti Judá?» – diz o Senhor «O vosso amor é como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada que logo se evapora. 5Por isso vos castiguei por meio dos Profetas e vos matei com palavras da minha boca; e o meu direito resplandece como a luz. 6Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos».

 

O texto da leitura é tirado da 2ª parte do livro do profeta Oseias (4, 1 – 11, 11), em que aparecem agrupados uma série de exortações e oráculos a denunciar os pecados de Israel. “Efraim e Judá” são os nomes das duas principais tribos de Israel com que se costumam designar, especialmente nos escritos proféticos, os dois reinos, o do Norte e o do Sul.

4-6 Neste texto, Oseias, profeta do reino do Norte durante a conturbada época que precedeu, no século 8º a. C., a queda de Samaria e o fim deste reino (721), censura o povo que se volta para o Senhor só durante “a sua aflição” (v. 3b), não sendo constante o seu amor, pois é “como a nuvem matinal, como o orvalho que em breve se dissipa”. Também a sua piedade é superficial e ritualista, quando o que Deus pretende é o coração do homem: o “amor” (piedade filial) e o “conhecimento de Deus” (em especial, o reconhecimento dos seus benefícios). O texto foi escolhido em função do Evangelho, que cita o v. 6.

2ª Leitura Romanos 4, 18-25

Irmãos: 18Contra toda a esperança, Abraão acreditou que havia de tornar-se pai de muitas nações, como tinha sido anunciado: «Assim será a tua descendência». 19Sem vacilar na fé, não tomou em consideração nem a falta de vigor do seu corpo, pois tinha quase cem anos, nem a falta de vitalidade do seio materno de Sara. 20Perante a promessa de Deus, não se deixou abalar pela desconfiança, antes se fortaleceu na fé, dando glória a Deus, 21plenamente convencido de que Deus era capaz de cumprir o que tinha prometido. 22Por este motivo é que isto «lhe foi atribuído à conta de justiça». 23Não é só por causa dele que está escrito «isto foi-lhe atribuído», 24mas também por causa de nós, que acreditamos n'Aquele que ressuscitou dos mortos, Jesus, Nosso Senhor, 25que foi entregue à morte por causa das nossas faltas e ressuscitou para nossa justificação.

 

S. Paulo, para documentar que o homem se torna justo, não pelas práticas da lei judaica, mas pela fé, apela para a fé de Abraão na palavra de Deus, insistindo em que foi esta que o tornou grato a Deus (v. 22).

19-20 “Sem vacilar na fé… Não hesitou”. São Paulo interpreta as palavras e o riso de Abraão de que se fala em Gn 17, não como uma expressão de dúvida, mas de admiração perante o poder divino que transcendia a incapacidade humana, de um modo tão extraordinário; “e deu glória a Deus”. O acto de fé, que pressupõe o sujeitar da razão e da vontade a Deus, sendo assim uma homenagem a Deus, à sua veracidade, sabedoria e poder. Por isso não pode haver fé sem humildade, sem que o homem se ponha no seu lugar de criatura e de dependência de Deus.

21-22 A atitude de fé de Abraão foi-lhe creditada na conta de justiça: “foi-lhe atribuída como justiça”. “E isto foi escrito… também por nossa causa”: é que nós não somos justificados por observâncias legais (da Lei de Moisés), mas sim pela fé em Deus, a qual é idêntica à de Abraão não só pela atitude interior que pressupõe, como também se assemelha à dele quanto ao seu objecto; com efeito, ele acreditou que Deus lhe faria suscitar um filho, a ele já morto para a geração; e nós cremos que Deus fez ressuscitar a Jesus, morto pelos nossos pecados. (Note-se esta maneira paulina de argumentar, tipicamente rabínica, um pouco estranha para o nosso modo ocidental de discorrer e raciocinar: basta-lhe algum tipo de semelhança para ter força o seu argumento).

Evangelho São Mateus 9, 9-13

Naquele tempo, 9Jesus ia a passar, quando viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança dos impostos, e disse-lhe: «Segue-Me». Ele levantou-se e seguiu Jesus. 10Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram sentar-se com ele e os seus discípulos. 11Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos: «Por que motivo é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?» 12Jesus ouviu-os e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico mas sim os doentes. 13Ide aprender o que significa: 'Prefiro a misericórdia ao sacrifício'. Porque Eu não vim chamar os justos mas os pecadores».

 

São Marcos e São Lucas também contam este mesmo episódio (Mc 2, 13-17: Lc 5, 27-32); não dão, porém, à personagem o nome de Mateus, mas sim o de Levi. É provável que Marcos e Lucas usem outro nome da mesma pessoa para evitar que o nome de um Apóstolo fique ligado a um passado tão infamante. De facto, nas listas que dão dos Doze, ambos lhe põem o nome de Mateus, e não o de Levi. “Publicano” era sinónimo de pecador, pois geralmente extor­quiam somas acima do que tinha que se pagar, para proveito próprio; também eram detestados por serem colaboradores da dominação romana. S. Mateus usa aqui do seu nome mais conhecido, apresentando-se como publicano, não só por humildade, mas também para que se veja que um passado de pecado e miséria não é obstáculo à conversão e a seguir de perto a Cristo. Assim, ninguém tem que se escandalizar nunca, como os fariseus (v. 11) – um escândalo farisaico – por um pecador se converter, pois todos somos pecadores e capazes das maiores baixezas, se Deus nos retira a sua graça.

13 “Eu quero misericórdia e não sacrifício”. É uma frase que temos na 1ª leitura de hoje. Não significa propriamente que Deus não queira os sacrifícios que Lhe são oferecidos com amor e sinceridade. É uma espécie de hipérbole, ao jeito semítico, um modo radical de se exprimir, que se poderia traduzir na nossa linguagem do seguinte modo: “antes quero a misericórdia do que o sacrifício”.

 

 

Anjo de Portugal

 

1ª leitura Daniel 10, 2a, 5-6.12-14ab

2aNaqueles dias, 5ergui os olhos e vi um homem vestido de linho, com um cinturão de ouro puro. 6O seu corpo era semelhante ao topázio e o rosto tinha o fulgor do relâmpago; os olhos eram como fachos ardentes, os braços e as pernas eram brilhantes como o bronze polido e o som das suas palavras era como o rumor duma multidão. 12Ele disse-me: «Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração para compreender e te humilhaste diante do teu Deus, as tuas palavras foram ouvidas. É por causa das tuas palavras que eu venho. 13O chefe do reino da Pérsia resistiu-me durante vinte e um dias. Então Miguel, um dos chefes principais, veio em meu auxílio. Eu estive lá, a fazer frente ao chefe dos reis da Pérsia, 14abe vim para te explicar o que vai suceder ao teu povo, no fim dos tempos».

 

A leitura está respigada dos sonhos e visões de Daniel (2ª parte do livro: 7, 1 – 12, 13), onde, na última visão, uma figura excelsa explica o que irá suceder nas guerras do séc. II a. C. entre os selêucidas e os lágidas, e como uma personalidade abominável (Antíoco IV da Síria) virá trazer grandes desgraças ao povo, mas acabará por ser derrotado, graças à intervenção libertadora de Miguel (este nome hebraico – mi-ka-el – significa: quem como Deus?). A leitura foi escolhida para a festa de hoje certamente pela descrição da figura angélica da aparição nos vv. 5-6, que evoca a visão dos Pastorinhos de Fátima.

 

Evangelho São Lucas 2, 8-14

Naquele tempo, 8havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 9O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. 10Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 13Imediatamente juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: 14«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

 

Também o texto escolhido nos fala dos Anjos do Natal. A glória de Deus que em Israel se manifestava no templo, manifesta-se agora no campo dos pastores. Deus manifesta-se aos simples e humildes e no meio dos seus afazeres mais correntes.

(Ver notas para o dia de Natal).

 

SANTO ANTÓNIO DE LISBOA

1ª leitura Ben-Sirá 39, 8-14 (gr. 6-10)

6Aquele que medita na lei do Altíssimo, se for do agrado do Senhor omnipotente, será cheio do espírito de inteligência. Então ele derramará, como chuva, as suas palavras de sabedoria e na sua oração louvará o Senhor. 7Adquirirá a rectidão do julgamento e da ciência e reflectirá nos mistérios de Deus. 8Fará brilhar a instrução que recebeu e a sua glória estará na lei da aliança do Senhor. 9Muitos louvarão a sua inteligência, que jamais será esquecida. Não desaparecerá a sua memória e o seu nome viverá de geração em geração. 10As nações proclamarão a sua sabedoria e a assembleia celebrará os seus louvores.

 

O autor sagrado faz o elogio do escriba sábio. São palavras que a liturgia aplica aos Santos Doutores da Igreja.

 

Evangelho São Mateus 5, 13-19

Naquele tempo, 13disse Jesus aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. 14Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte 15nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa. 16Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus. 17Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas não vim revogar, mas completar. 18Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. 19Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus».

 

13 “O sal” preserva da corrupção e dá gosto aos alimentos, mas sem chamar a atenção com a sua presença. Assim o cristão tem de preservar o mundo da corrupção com a sua acção apostólica despretensiosa, agradável e cheia de naturalidade, mas sem deixar nunca de estar actuante; esta força vem-lhe da sua união a Cristo, da sua preocupação de santidade pessoal. Por outro lado, o sal, usado nos sacrifício do A. T., também significava a perpetuidade e a inviolabilidade da aliança com Deus: cf. Lv 2, 13 e Nm 18, 19.

16 “Glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus”. O cristão tem de ser “luz” para iluminar, mas com grande rectidão de intenção: ao fazer apostolado não deve buscar o seu prestígio pessoal, mas ter plena consciência de que a luz maravilhosa da doutrina evangélica não é sua e de que “as suas boas obras” não as faz principalmente pelas suas próprias forças; actua como instrumento nas mãos do artista divino; tem de brilhar, mas não com luz própria, mas reflectindo a luz de Cristo.

 

 

11º Domingo Comum

 

1ª leitura Êxodo 19, 2-6a

Naqueles dias, 2os filhos de Israel partiram de Refidim e chegaram ao deserto do Sinai, onde acamparam, em frente da montanha. 3Moisés subiu à presença de Deus. O Senhor chamou-o da montanha e disse-lhe: «Assim falarás à casa de Jacob, isto dirás aos filhos de Israel: 4'Vistes o que Eu fiz ao Egipto, como vos transportei sobre asas de águia e vos trouxe até Mim. 5Agora, se ouvirdes a minha voz, se guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade especial entre todos os povos. Porque toda a terra Me pertence; 6amas vós sereis para Mim um reino de sacerdotes, uma nação santa'».

 

No capítulo 19 começa a 2ª parte do livro do Êxodo, em que se narram os acontecimentos no Sinai, tendo como centro a Aliança. Logo de princípio aparece dado por Deus o sentido da Aliança.

2 “Refidim” é um lugar que está identificado, a sudoeste da península do Sinai. Ali é situada a vitória sobre os Amalecitas (cf. Ex 17, 8-16).

5-6 Pela aliança, aquele povo vai tornar-se “propriedade especial de Deus” e “um reino de sacerdotes”. Israel, libertado por Deus, é por este título especial seu “domínio pessoal” (v. 5), por isso todo este “reino” está de modo particular dedicado ao culto de Yahwéh, daí a designação de reino de sacerdotes. Também nisto o antigo povo de Deus figurava o novo povo de Deus, em que todos participamos do sacerdócio de Cristo, o sacerdócio comum dos fiéis, pelo qual devemos fazer de toda a nossa vida do dia a dia uma oblação agradável a Deus (cf. 1 Pe 2, 5.9).

 

2ª leitura Romanos 5, 6-11

Irmãos: 6Quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios no tempo determinado. 7Por um justo, dificilmente alguém morrerá; por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer. 8Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. 9E agora, que fomos justificados pelo seu sangue, com muito mais razão seremos por Ele salvos da ira divina. 10Se, na verdade, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razão, depois de reconciliados, seremos salvos pela sua vida. 11Mais ainda: também nos gloriamos em Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem alcançámos agora a reconciliação.

 

São Paulo neste capítulo 5º de Romanos pretende fazer ver que o amor de Deus garante ao homem justificado a firmeza da esperança da salvação eterna. Esta esperança é certa, não ilusória. Eis o raciocínio do Apóstolo: Se “quando éramos ainda pecadores” (v. 8) e “inimigos” de Deus (v. 10) – antes da conversão –, recebemos a graça da justificação, como é que não havemos de estar seguros “agora que fomos justificados pelo seu Sangue” (v. 9) e “reconciliados com Deus” (v. 10)? Com muito mais razão (vv. 9 e 10) “seremos, por Ele, salvos da ira divina” – no dia do juízo –, quando a ira divina castigar os pecadores. “Havemos, pois, de ser salvos pela sua vida” (v. 10), isto é, em virtude da vida de Cristo nos Céus, quando aparecermos diante dele como santos, reconciliados e redimidos por Ele.

 

Evangelho São Mateus 9, 36 – 10, 8

Naquele tempo, Jesus, 36ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. 37Jesus disse então aos seus discípulos: «A seara é grande mas os trabalhadores são poucos. 38Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara». 10, 1Depois chamou a Si os seus Doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades. 2São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; 3Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou. 5Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções: «Não sigais o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. 7Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel. Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. 8Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça».

 

Este trecho do Evangelho ajuda-nos a entrar dentro dos sentimentos mais profundos do Coração de Cristo, do próprio Coração de Deus feito homem; o próprio sintagma verbal – “encheu-se de compaixão” (v. 36) – é muitíssimo expressivo; traduzido a letra seria: “comoveram-se-lhe as entranhas”. Jesus comovia-se pela falta de bons pastores para o povo, numa alusão e actualização da Palavra de Deus através do Profeta Ezequiel (cf. Ez 34). Esta situação de carência mantém-se, pelo que tem plena actualidade o pedido do Senhor para que peçamos, como no v. 38, “trabalhadores para a sua seara”.

10, 2 “Apóstolos”. Um momento importante da fundação da Igreja é a escolha dos Doze Apóstolos. A legítima Igreja de Cristo é apostólica, aquela onde se dá a sucessão ininterrupta do Colégio Apostólico, presidido por Pedro. Apóstolo significa “enviado”, pois Jesus enviou-os a pregar o seu Reino e a sua doutrina.

6 “Ide antes às ovelhas perdidas da Casa de Israel”. Só mais tarde, depois da Res­surreição, os Apóstolos são mandados a todo o mundo (Mt 28, 19). Com esta espécie de “estágio”, Jesus preparava os Apóstolos para a sua missão universal e atendia ao plano divino que tinha estabelecido o povo judaico como o primeiro a ser chamado à salvação, o povo depositário das promessas divinas, o povo da primeira Aliança. A conservação desta ordem de Jesus na redacção do Evangelho é um grande indício do valor histórico do Evangelho, pois está em descontinuidade do que era a prática da Igreja, logo nos seus primórdios, que cedo começou a evangelizar os gentios.

7 “Proclamai que está perto o reino dos Céus”. O Evangelho de S. Mateus, como se dirigia imediatamente a cristãos vindos do judaísmo, tem o cuidado de, à boa maneira judaica, evitar respeitosamente o pronunciar o nome inefável de Deus, por isso não diz “reino de Deus”. Proclamar que este reino está perto não quer dizer que Jesus estava iludido quanto à sua chegada final como algo imediato, mas era, por um lado, uma forma de inculcar a urgência da pregação da Boa Nova e a necessidade de estar desprendido das coisas da terra – “recebestes de graça, dai de graça” – (vv. 8-10); por outro lado, com o presença de Jesus, o Reino dos Céus não podia mesmo estar mais perto (cf. Lc 17, 20-21)

 

12.º Domingo do Tempo comum

 

1º Leitura  Jeremias 20, 10-13

Disse Jeremias: 10«Eu ouvia as invectivas da multidão: 'Terror por toda a parte! Denunciai-o, vamos denunciá-lo!' Todos os meus amigos esperavam que eu desse um passo em falso: 'Talvez ele se deixe enganar e assim o poderemos dominar e nos vingaremos dele'. 11Mas o Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos. Ficarão cheios de vergonha pelo seu fracasso, ignomínia eterna que não será esquecida. 12Senhor do Universo, que sondais o justo e perscrutais os rins e o coração, possa eu ver o castigo que dareis a essa gente, pois a Vós confiei a minha causa. 13Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, que salvou a vida do pobre das mãos dos perversos».

 

Este texto é uma parte duma das chamadas “confissões de Jeremias”, as dolorosas lamentações do Profeta numa situação tremendamente dramática, após a morte do rei Josias; prisioneiro da paixão por Deus, que o leva ao cumprimento fiel da sua espinhosa missão profética, ele sente a repugnância instintiva do sofrimento que este desempenho lhe causa, pois isto era o pretexto para os seus adversários o acusarem de ser ele o culpado de todas as desgraças que desabavam sobre o povo, desgraças que haviam de culminar na conquista e destruição de Jerusalém por Nabucodonosor em 587 a. C. e no exílio de Babilónia. Jeremias chega ao ponto de, em dolorosos desabafos, amaldiçoar a sua vida, mas, ao mesmo tempo, mostrando uma inquebrantável confiança em Deus. Deixou-nos os mais belos textos literários que exprimem o drama da dor humana de um homem de fé. A sua notável obra encontra-se muito desordenada, sem uma sequência natural, em parte por ter sido mandada queimar pelo rei Joaquim; os seus oráculos, postos por escrito pelo seu secretário Baruc, foram recolhidos de modo muito disperso, como é fácil de verificar. As confissões de Jeremias encontram-se em: Jer 11, 18 – 12, 6; 15, 10-21; 17, 14-18; 18, 18-23; 20, 7-18.

12 “Experimentais o justo”: Deus, ao permitir que caiam males sobre os seus amigos, não quer o mal deles e nunca os abandona; mas prova-os, a fim de os purificar ainda mais, de os encher de méritos e de os tornar mais santos.

 

2ª leitura Romanos 5, 12-15

Irmãos: 12Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. 13De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. 14Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d'Aquele que havia de vir. 15Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens.

 

Estamos diante dum texto da máxima importância para a Teologia e para a vida cristã. As controvérsias doutrinais contribuíram para que o ponto central das afirmações de Paulo se tenha feito deslocar da justificação pela graça para o pecado, e da obra salvadora de Cristo para o obra demolidora de Adão. É certo que não faria sentido falar da libertação por Cristo do pecado, da condenação e da morte, sem que estes males tivessem entrado de forma poderosa no mundo. Mas Adão não passa duma figura, por antítese, de Cristo, em virtude duma argumentação a fortiori de tipo rabínico (o chamado qal wa-hómer). Mas, ainda que, como pensam muitos exegetas, Paulo não trate directa e expressamente do tema do pecado original (só indirectamente), este texto não deixa de oferecer uma base legítima e sólida para a doutrina proposta pelo Magistério da Igreja, assim resumida no Catecismo da Igreja Católica, nº 403: “Depois de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o facto de ele nos transmitir um pecado de que todos nascemos infectados e que é a ‘morte da alma’. A partir desta certeza de fé, a Igreja concede o Baptismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal”.

 

Evangelho São Mateus 10, 26-33

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: 26«Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se. 27O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados. 28Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo. 29Não se vendem dois passarinhos por uma moeda? E nem um deles cairá por terra sem consentimento do vosso Pai. 30Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. 31Portanto, não temais: valeis muito mais do que os passarinhos. 32A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus. 33Mas àquele que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus».

 

Continuamos hoje a ter uma série de instruções e advertências de Jesus aos Apóstolos para a sua missão, que se aplicam a todos os discípulos de Cristo. As exortações desta secção (vv. 26-33) aparecem condensadas logo na frase inicial: “Não tenhais medo!”, que era um lema proposto pelo inesquecível Papa João Paulo II.

26 “Não tenhais receio dos homens”. Jesus ensina-nos que não devemos temer o que os homens digam de nós, murmuração ou calúnia (cf. v. 25), pois chegará um dia em que tudo vem a descobrir-se.

27 “Dizei-o em plena luz”. Se o Senhor falava aos seus particularmente, isso era para vir a ser anunciado. Por sábia pedagogia divina assim actuava o Senhor, especialmente para evitar agitações populares. Mas Jesus manda que os seus Apóstolos preguem a verdade do Evangelho abertamente e a todos, com clareza e sem ambiguidades, pondo de parte uma falsa prudência humana.

28 “A perdição da alma e do corpo no Inferno”. O Inferno é uma verdade de fé claramente ensinada por Jesus Cristo (cf. Mt 5, 22-29; 18, 9; Mc 9, 43.45.47; Lc 15, 5; etc.), uma verdade que a doutrina da Igreja sempre tem lembrado. O Inferno existe, um castigo eterno para os que mor­rem em estado de pecado mortal, de deliberada rejeição de Deus. E não é isto um sinal de menos misericórdia de Deus, pois os condenados não são capazes de arrependimento para pedir o perdão e a misericórdia divina. O Inferno é uma realidade misteriosa e é a prova da liberdade humana e de como Deus a respeita e a toma a sério.

 

Nascimento de S. João Baptista (Missa da vigília)

 

1ª Leitura Jeremias 1, 4-10

 

4No tempo de Josias, rei de Judá, o Senhor dirigiu-me a palavra, dizendo: 5«Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações». 6Então eu disse: «Ah, Senhor Deus, mas eu não sei falar, porque sou uma criança». 7O Senhor respondeu-me: «Não digas: ‘Sou uma criança’, porque irás ao encontro daqueles a quem Eu te enviar e dirás tudo quanto Eu te mandar dizer. 8Não tenhas receio diante deles, porque Eu estou contigo, para te salvar – diz o Senhor». 9Depois o Senhor estendeu a mão, tocou-me na boca e disse-me: «Eu ponho as minhas palavras na tua boca. 10Hoje dou-te poder sobre os povos e os reinos, para arrancar e destruir, para arruinar e demolir, para edificar e plantar».

 

Não é casual a escolha desta leitura que relata a vocação do Profeta Jeremias. Foi escolhida pela alusão que se quer ver à santificação de João no ventre materno: “antes que saísses do seio da tua mãe, Eu te consagrei” (cf. Lc 1, 44).

6 “Mas eu não sei falar”. É a reacção habitual do homem, quando se enfrenta com a vocação divina, a chamada a uma missão que exige a entrega de toda a vida a Deus para O servir numa missão que transcende a nossa limitação e franqueza. Mas a uma primeira reacção de medo segue-se uma certeza, segurança e serenidade que Deus infunde: “Eu estarei contigo!” (v. 8).

 

2ª Leitura 1 São Pedro 1, 8-12

 

Caríssimos: 8Vós amais Cristo Jesus sem O terdes visto, acreditais n’Ele sem O verdes ainda. Isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa, 9porque conseguis o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas. 10Esta salvação foi objecto das investigações e meditações dos Profetas que predisseram a graça a vós destinada. 11Procuraram descobrir a que tempos e circunstâncias se referia o Espírito de Cristo que estava neles, quando predizia os sofrimentos de Cristo e as glórias que se lhes haviam de seguir. 12Foi-lhes revelado que não era para eles, mas para vós, que no seu ministério transmitiam essa mensagem. É essa mensagem que agora vos anunciam aqueles que, movidos pelo Espírito Santo enviado do Céu, vos pregam o Evangelho, a qual os próprios Anjos desejam contemplar.

 

8-9 “Vós amais Cristo Jesus... acreditais nele...” Estes cristãos da Ásia Menor a quem S. Pedro se dirige, como também nós, já não conheceram Jesus na sua vida mortal, mas exactamente como nós hoje e os cristãos de todos os tempos acreditavam em Jesus Cristo e amavam apaixonadamente a sua pessoa adorável como alguém que está vivo e actuante, enchendo-nos daquela alegria inefável que procede de saber­mos que a nossa fé vai desembocar na visão da glória, o fim da nossa fé, a salvação das nossas almas.

10 “Os profetas”, mais provavelmente os do Antigo Testamento.

12 Os Anjos, ao tomarem conhecimento do plano de salvação da humanidade, extasiam-se a contemplá-lo com atenção na vida da igreja (cf. Ef 3, 10).

 

Evangelho São Lucas 1, 5-17

 

5Nos dias de Herodes, rei da Judeia, vivia um sacerdote chamado Zacarias, da classe de Abias, cuja esposa era descendente de Aarão e se chamava Isabel. 6Eram ambos justos aos olhos de Deus e cumpriam irrepreensivelmente todos os mandamentos e leis do Senhor. 7Não tinham filhos, porque Isabel era estéril e os dois eram de idade avançada. 8Quando Zacarias exercia as funções sacerdotais diante de Deus, no turno da sua classe, 9coube-lhe em sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor para oferecer o incenso. 10Toda a assembleia do povo, durante a oblação do incenso, estava cá fora em oração. 11Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. 12Ao vê-lo, Zacarias ficou perturbado e encheu-se de temor. 13Mas o Anjo disse-lhe: «Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, dar-te-á um filho, ao qual porás o nome de João. 14Será para ti motivo de grande alegria e muitos hão-de alegrar-se com o seu nascimento, 15porque será grande aos olhos do Senhor. Não beberá vinho nem bebida alcoólica será cheio do Espírito Santo desde o seio materno 16e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. 17Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor».

 

A leitura corresponde ao início do chamado Evangelho da Infância de Lucas. O teólogo genial que é S. Lucas, não prescinde do seu génio de historiador e começa por situar na História o acontecimento: “Nos dias de Herodes, rei da Judeia” (v. 5). “Zacarias”, era um nome corrente entre judeus, que significa “Yahwéh recordou-se ”. Isabel, Elixabet, era o nome da mulher de Aarão (Êx 6, 23) e significa “Deus é a plenitude”, ou “Deus jurou”. Zacarias pertencia à turma de Abias, isto é, ao oitavo turno semanal ao serviço do Templo (cf. 1 Par 24, 10). Segundo conta o historiador Flávio José, os 24 turnos semanais estavam em pleno funcionamento nesta data.

6 “Ambos justos aos olhos de Deus”. A sua santidade não era meramente externa e legal. Justo equivale a fiel cumpridor de toda a vontade de Deus, pessoa que ajusta todo o seu pensar e actuar à lei do Senhor. Então, como hoje, é de pais justos e santos que procedem os grandes homens, os grandes santos.

9-10 “Para oferecer o incenso”. Um sacrifício que se repetia duas vezes ao dia e às 3 horas da tarde. O sacerdote eleito desta vez foi Zacarias, talvez a única vez na vida que lhe coube tamanha honra, segundo as instruções de Mixná. Então pôde penetrar no Santuário, na primeira câmara chamada “o Santo”, onde se encontravam os 12 pães da proposição que representavam as 12 tribos de Israel na presença do Senhor, bem como o candelabro de 7 braços, a menoráh. Zacarias, totalmente só e no máximo recolhimento, ao sinal da trombeta, tinha de deitar incenso sobre as brasas que estavam sobre o pequeno altar de oiro, enquanto o povo espalhado pelos átrios, o dos israelitas e o das mulheres, fazia subir as suas preces até Deus: a nuvem do fumo do incenso que se erguia do altar dos perfumes era a imagem bem expressiva da oração, segundo as palavras do Salmo 141(140), 2. A afluência dos fiéis costumava ser grande, a fim de rezar neste preciso momento, sobretudo na oferenda da tarde.

14-17 “Terás alegria…” Logo a seguir são apontados os motivos de tamanha alegria: a grandeza e santidade excepcionais do filho (v. 15), cheio de Espírito Santo (santificado no ventre materno, segundo a exegese habitual, ou dotado do carisma profético): será instrumento para a salvação de muitos (v. 16): preparará a vinda do Messias (v. 17). É interessante notar como o Evangelista, apesar de saber que João preparou a vinda de Jesus, o Messias, não instrumentaliza um relato que se move num ambiente e perspectiva “pré-cristã” e numa lingua­gem vétero-testamentária; é mais um indício da fidelidade de Lucas às suas fontes (aqui talvez um relato de família, conservado em círculos afectos ao Baptista). É por isso que não diz: “irá à frente do Messias” (como seria de esperar), mas “irá à frente de Yahwéh”.

 

Nascimento de S. João Baptista (Missa do dia)

 

1ª Leitura Isaías 49, 1-6

 

1Terras de Além-Mar, escutai-me povos de longe, prestai atenção. O Senhor chamou-me desde o ventre materno, disse o meu nome desde o seio de minha mãe. 2Fez da minha boca uma espada afiada, abrigou-me à sombra da sua mão. Tornou-me semelhante a uma seta aguda, guardou-me na sua aljava. 3E disse-me: «Tu és o meu servo, Israel, por quem manifestarei a minha glória». 4E eu dizia: «Cansei-me inutilmente, em vão e por nada gastei as minhas forças». 5Mas o meu direito está no Senhor e a minha recompensa está no meu Deus. E agora o Senhor falou-me, Ele que me formou desde o seio materno, para fazer de mim o seu servo, a fim de Lhe restaurar as tribos de Jacob e reconduzir os sobreviventes de Israel. Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor e Deus é a minha força. 6Ele disse-me então: «Não basta que sejas meu servo, para restaurares as tribos de Jacob e reconduzires os sobreviventes de Israel. Farei de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».

 

Este texto é o II Cântico do Servo de Yahwéh. O sentido profundo desta passagem visa o Messias, Luz das nações (v. 6; cf. Lc 2, 32). No entanto, temos aqui, como tantas vezes na Liturgia, uma adaptação deste texto a outra figura que não é o Messias, mas o seu Precursor, João Baptista. Joga-se, portanto, com o sentido acomodatício, que não é um sentido propriamente bíblico; é um sentido que nós pomos na Sagrada Escritura, tendo em conta uma certa semelhança de fundo ou meramente verbal. Aqui trata-se suma “acomodação real ou por extensão”, pois há uma grande semelhança de fundo entre o texto e o que realmente se passou com o Baptista: v. 1b – Chamado antes do nascimento (cf. Lc 1, 13-17); v. 1b – Santificado no ventre materno (cf. Lc 1, 15.41-44); Chamado antes do nascimento (cf. Lc 1, 13-17); 1b – Santificado no ventre materno (cf. Lc 1, 15.41-44); 2 – Pregador intrépido das exigências divinas (cf. Mt 3, 7-10; 14, 4); 5-6 – Reconduz Israel a Deus e restaura o Povo (cf. Lc 1, 16-17; 3, 1-20.

 

2ª leitura Actos dos Apóstolos 13, 22-26

 

Naqueles dias, Paulo falou deste modo: 22«Deus concedeu aos filhos de Israel David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’. 23Da sua descendência, como prometera, Deus fez nascer Jesus, o Salvador de Israel. 24João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. 25Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’. 26Irmãos, descendentes de Abraão e todos vós que temeis a Deus: a nós é que foi dirigida esta palavra de salvação».

 

A leitura é tirada do discurso de São Paulo em Antioquia da Pisídia, por ocasião da primeira grande viagem, o primeiro discurso querigmático do Apóstolo a ser registado nos Actos dos Apóstolos. Corresponde a um modelo primitivo, mas a redacção de Lucas tem presente certamente os seus leitores, a quem se dirige ao redigir a sua obra.

24-25 “João dizia”. Breve referência à substância da pregação do Baptista: a preparação do povo para receber bem o Messias que ele anunciava. Mas a santidade de João era tão grande e impressionante que ele precisou de deixar bem claro que “eu não sou aquilo que julgais”, pois o tinham como o Messias (cf. Jo 1, 20-30; 3, 25-30).

 

Evangelho São Lucas 1, 57-66.80

 

Naquele tempo, 57chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho. 58Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício e congratularam-se com ela. 59Oito dias depois, vieram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60Mas a mãe interveio e disse: «Não, Ele vai chamar-se João». 61Disseram-lhe: «Não há ninguém da tua família que tenha esse nome». 62Perguntaram então ao pai, por meio de sinais, como queria que o menino se chamasse. 63O pai pediu uma tábua e escreveu: «O seu nome é João». Todos ficaram admirados. 64Imediatamente se lhe abriu a boca e se lhe soltou a língua e começou a falar, bendizendo a Deus. 65Todos os vizinhos se encheram de temor e por toda a região montanhosa da Judeia se divulgaram estes factos. 66Quantos os ouviam contar guardavam-nos em seu coração e diziam: «Quem virá a ser este menino?». Na verdade, a mão do Senhor estava com ele. 80O menino ia crescendo e o seu espírito fortalecia-se. E foi habitar no deserto até ao dia em que se manifestou a Israel.

 

A leitura de hoje apresenta-nos o relato do nascimento do Precursor bem como da imposição do nome e circuncisão. Na vigília já se leu o anúncio do nascimento.

63 “O seu nome é João”. Com grande surpresa para toda a família, o menino não recebe o nome do pai, ou, como era mais frequente, o do avô paterno, mas o nome anunciado pelo Arcanjo Gabriel: João, que quer dizer “Yahwéh concedeu uma graça”. Do versículo anterior deduz-se que Zacarias estava mudo e surdo, pois lhe “perguntaram por sinais” (v. 62).

80 “E foi habitar no deserto”. Não é crível que João tenha ido para o deserto ainda menino muito pequeno, como dizem os apócrifos, nem apenas pouco tempo antes da vida pública de Cristo. O facto de Lucas dizer logo neste momento que João foi para o deserto, corresponde a uma técnica da composição lucana, chamada técnica de eliminação: antes de passar a outro assunto, avança com coisas que se referem à pessoa de que está a falar, eliminando o que entrementes sucedeu, sem se preocupar da cronologia; assim se explica que a Virgem Maria não apareça no nascimento do Baptista, etc. João, tendo à sua frente uma carreira brilhante, pois era da classe sacerdotal, renuncia a ela, para levar uma vida recolhida e penitente, vida que havia de conferir grande autenticidade e autoridade à sua futura pregação. Não foi para um deserto arenoso, mas para uma zona pobre e árida, provavelmente a Noroeste do Mar Morto. Por ali se fixaram os essénios, concretamente a seita de Qumrã, dirigida pelos sacerdotes sadoquitas dissidentes do sacerdócio oficial de Jerusalém. Até que ponto manteve João contacto com estes essénios é coisa para nós desconhecida, ainda que provável.

 

 

S. Pedro e S. Paulo (Missa da vigília)

 

1ª leitura Actos dos Apóstolos 3, 1-10

 

Naqueles dias, 1Pedro e João subiam ao templo para a oração das três horas da tarde. 2Trouxeram então um homem, coxo de nascença, que colocavam todos os dias à porta do templo, chamada Porta Formosa, para pedir esmola aos que entravam. 3Ao ver Pedro e João, que iam a entrar no templo, pediu-lhes esmola. 4Pedro, juntamente com João, olhou fixamente para ele e disse-lhe: «Olha para nós». 5O coxo olhava atentamente para Pedro e João, esperando receber deles alguma coisa. 6Pedro disse-lhe: «Não tenho ouro nem prata, mas dou-te o que tenho: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda». 7E, tomando-lhe a mão direita, levantou-o. Nesse instante fortaleceram-se-lhe os pés e os tornozelos, 8levantou-se de um salto, pôs-se de pé e começou a andar depois entrou com eles no templo, caminhando, saltando e louvando a Deus. 9Toda a gente o viu caminhar e louvar a Deus 10e, sabendo que era aquele que costumava estar sentado, a mendigar, à Porta Formosa do templo, ficaram cheios de admiração e assombro pelo que lhe tinha acontecido.

 

Temos aqui o relato da cura do coxo de nascença, o primeiro milagre realizado por Pedro, com que se inicia mais uma unidade literária de Actos (Act 3, 1 – 5, 42) que refere a primeira actividade apostólica em Jerusalém, após o Pentecostes.

1 “Para a oração das 3 horas de tarde” (hora nona), a hora em que começavam no Templo as cerimónias do sacrifício vespertino que se prolongavam até ao cair da tarde; então se oferecia um cordeiro em sacrifício, como também de manhã, segundo Ex 12, 6.

2 “Porta Formosa”, porta assim chamada pelos seus ricos adornos, que dava do átrio dos gentios para o átrio das mulheres, em frente do pórtico de Salomão (v. 11), que rodeava a zona do templo do lado Leste.

6 “Em nome de Jesus…” Os prodígios operados pelos Apóstolos não eram feitos em nome próprio, como Jesus fazia, revelando a sua divindade ao não precisar dum poder alheio para os realizar, como é o caso de Pedro.

 

2ª leitura Gálatas 1, 11-20

 

11Eu vos declaro, irmãos: O Evangelho anunciado por mim não é de inspiração humana, 12porque não o recebi ou aprendi de nenhum homem, mas por uma revelação de Jesus Cristo. 13Certamente ouvistes falar do meu proceder outrora no judaísmo e como perseguia terrivelmente a Igreja de Deus e procurava destruí-la. 14Fazia mais progressos no judaísmo do que muitos dos meus compatriotas da mesma idade, por ser extremamente zeloso das tradições dos meus pais. 15Mas quando Aquele que me destinou desde o seio materno e me chamou pela sua graça, 16Se dignou revelar em mim o seu Filho para que eu O anunciasse aos gentios, decididamente não consultei a carne e o sangue, 17nem subi a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim mas retirei-me para a Arábia e depois voltei novamente a Damasco. 18Três anos mais tarde, subi a Jerusalém para ir conhecer Pedro e fiquei junto dele quinze dias. 19Não vi mais nenhum dos Apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor. 20– O que vos escrevo, diante de Deus o afirmo: não estou a mentir.

 

S. Paulo escreve aos cristãos da Galácia, mais provavelmente da Galácia do Norte, na Turquia actual. Eram cristãos na maior parte convertidos de tribos pagãs originárias da Gália, que estavam a ser perturbados por pregadores cristãos de tendência judaizante, que os intimidavam dizendo-lhes que, para se salvarem, não bastava o Baptismo e a fé cristã, mas que necessitavam de ser circuncidados. Para imporem a sua teoria, tentavam desacreditar a pessoa de S. Paulo, afirmando que ele não era um verdadeiro Apóstolo, pois não tinha recebido a sua missão directamente de Jesus. Nesta carta o Apóstolo começa por declarar e explicitar como foi o próprio Senhor que lhe revelou o Evangelho – os principais mistérios – que ele pregava. Sendo assim, logo após a conversão, não teve necessidade de vir imediatamente a Jerusalém para ouvir os Apóstolos, retirou-se para a Arábia (o reino nabateu, a sul de Damasco) e só ao fim de três anos é que foi estar com os Apóstolos. Pergunta-se, então, que fez S. Paulo durante esses três anos? Uns pensam que foram anos de pregação, outros que teria sido um tempo de retiro espiritual, em que ele assenta ideias, confrontando a revelação que teve com os dados do Antigo Testa­mento e da fé dos primeiros cristãos.

19 “Só vi Tiago”. A forma de falar não significa necessariamente que este irmão do Senhor fosse um dos 12 Apóstolos. Para que tenha sentido a frase, basta que se trate duma figura proeminente da igreja jerosolimitana; para isto bastaria o simples título de “irmão (parente) do Senhor” e a participação da missão apostólica. Por isso, hoje, muitos exegetas entendem que este Tiago é distinto do apóstolo, “filho de Alfeu.”, o “São Tiago Menor. Não se pode tratar de Tiago, irmão de João, pois, segundo o testemunho de Flávio José, foi martirizado por Herodes Agripa I, pelos anos 42-43 (cf. Act 12, 2).

 

Evangelho São João 21, 15-19

 

Quando Jesus Se manifestou aos seus discípulos junto ao mar de Tiberíades, 15depois de comerem, perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?». Ele respondeu-Lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta os meus cordeiros». 16Voltou a perguntar-lhe segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-Me?». Ele respondeu-Lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas». 17Perguntou-lhe pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu amas-Me?». Pedro entristeceu-se por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez se O amava e respondeu-Lhe: «Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo». Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas. 18Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias mas quando fores mais velho, estenderás a mão e outro te cingirá e te levará para onde não queres». 19Jesus disse isto para indicar o género de morte com que Pedro havia de dar glória a Deus. Dito isto, acrescentou: «Segue-Me».

 

É fácil de ver na tripla confissão de amor de Pedro uma reparação da sua tripla negação (Jo 18, 17.25-27); na redacção do texto grego, pode ver-se também um jogo de palavras muito expressivo, pois na 1ª e 2ª pergunta Jesus interroga Pedro com um verbo de amor mais divino, profundo e intelectual (amas-Me? – agapâs me), ao passo que Pedro responde com um verbo de simples afeição e amizade (sou teu amigo – filô se); à 3ª vez, aparece Jesus condescendendo com Pedro, ao usar este segundo verbo, e Pedro ficou triste por pensar que esta mudança de Jesus se devia à imperfeição do seu amor. Toda a Tradição católica viu neste encargo de pastorear todo o rebanho de Cristo (cordeiros e ovelhas) o cumprimento da promessa do ministério petrino (Mt 16, 17-19 e Lc 22, 31-32; cf. 1 Pe 5, 2.4). Recorde-se, a propósito, o que diz o Concílio Vaticano II, LG, 22: “O colégio ou corpo episcopal não tem autoridade a não ser em união com o Pontífice Romano, sucessor de Pedro, entendido como sua cabeça, permanecendo inteiro o poder do seu primado sobre todos, quer pastores, quer fiéis. Pois o Romano Pontífice, em virtude do seu cargo de Vigário de Cristo e Pastor de toda a Igreja, nela tem pleno, supremo e universal poder, que pode sempre exercer livremente­”.

18-19 “Estenderás as mãos... Segue-Me”. Pedro havia de seguir a Cristo até ao ponto de vir a morrer crucificado em Roma, na perseguição de Nero (64-68), segundo a tradição documentada já por S. Clemente, no século I. Também se diz que, por humildade, pediu para ser crucificado de cabeça para baixo.

21-22. Jesus não satisfaz curiosidades inúteis, mas apela à fidelidade: “segue-me”. Tendo em conta que Pedro já morrera havia uns 40 anos, não deixa de impressionar a ligação tão íntima entre o discípulo amado e Pedro, aparecendo este sempre numa posição de superioridade (cf. Jo 13, 24; 18, 15-16; 20, 1-8; 21, 1-12.15.20-23); há quem veja nisto um apelo a um critério a seguir nas relações entre as comunidades joaninas da Ásia Menor e a Igreja de Roma.

 

S. Pedro e S. Paulo (Missa do dia)

 

1ª leitura Actos dos Apóstolos 12, 1-11

 

1Naqueles dias, o rei Herodes começou a perseguir alguns membros da Igreja. 2Mandou matar à espada Tiago, irmão de João, 3e, vendo que tal procedimento agradava aos judeus, mandou prender também Pedro. Era nos dias dos Ázimos. 4Mandou-o prender e meter na cadeia, entregando-o à guarda de quatro piquetes de quatro soldados cada um, com a intenção de o fazer comparecer perante o povo, depois das festas da Páscoa. Enquanto 5Pedro era guardado na prisão, a Igreja orava instantemente a Deus por ele. 6Na noite anterior ao dia em que Herodes pensava fazê-lo comparecer, Pedro dormia entre dois soldados, preso a duas correntes, enquanto as sentinelas, à porta, guardavam a prisão. 7De repente, apareceu o Anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela da cadeia. 8O Anjo acordou Pedro, tocando-lhe no ombro, e disse-lhe: «Levanta-te depressa». E as correntes caíram-lhe das mãos. Então o Anjo disse-lhe: «Põe o cinto e calça as sandálias». Ele assim fez. Depois acrescentou: «Envolve-te no teu manto e segue-me». 9Pedro saiu e foi-o seguindo, sem perceber a realidade do que estava a acontecer por meio do Anjo julgava que era uma visão. 10Depois de atravessarem o primeiro e o segundo posto da guarda, chegaram à porta de ferro, que dá para a cidade, e a porta abriu-se por si mesma diante deles. Saíram, avançando por uma rua, e subitamente o Anjo desapareceu. 11Então Pedro, voltando a si, exclamou: «Agora sei realmente que o Senhor enviou o seu Anjo e me libertou das mãos de Herodes e de toda a expectativa do povo judeu».

 

1-2 “Herodes”: é Herodes Agripa I, o terceiro monarca do mesmo nome a ser nomeado no NT; era filho da Aristóbulo e sobrinho de Herodes Antipas (o que mandara matar o Baptista) e neto de Herodes, o Grande (o da construção do Templo e da matança dos inocentes). Depois de uma vida libertina em Roma, obteve o favor de Calígula, vindo a poder usar o título de rei dum território quase tão grande como o do avô, apresentando-se muito zeloso da religiosidade judaica. “Tiago é o filho de Zebedeu e Salomé, irmão do Apóstolo João evangelista. O seu martírio deve ter sido um ano ou dois após a tomada de posse de Herodes, a qual se deu no ano 41.

4-6 “Guarda de 4 piquetes de 4 soldados”: note-se o contraste entre a severidade da segurança e a serenidade de Pedro que dorme; cada piquete correspondia a uma das quatro vigílias da noite; Pedro “dormia entre dois soldados”, com uma das mãos atada à mão de um soldado e a outra à do outro, enquanto “a Igreja orava instantemente a Deus por ele” (belo fundamento bíblico da oração assídua pelo Papa).

7-10 A intervenção libertadora do “Anjo do Senhor” já tinha sido assinalada em semelhante circunstância (cf. Act 5, 18-19); esta está na linha da fé da Igreja na protecção dos anjos da guarda, conforme lembra o Catecismo da Igreja Católica, nº 336: “Desde a infância até à morte, a vida humana é acompanhada pela sua assistência e intercessão…”.

 

leitura 2 Timóteo 4, 6-8.17-18

 

Caríssimo: 6Eu já estou oferecido em libação e o tempo da minha partida está iminente. 7Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. 8E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me há-de dar naquele dia e não só a mim, mas a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda. 17O Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todos os pagãos a ouvissem e eu fui libertado da boca do leão. 18O Senhor me livrará de todo o mal e me dará a salvação no seu reino celeste. Glória a Ele pelos séculos dos séculos. Amen.

 

A leitura é um extracto da parte final da Carta, em que o Paulo, pressentindo a morte iminente, faz como que um balanço da sua vida toda devotada à causa da Boa Nova. Consideramos o escrito dotado de autenticidade criticamente segura, não obstante uma certa tendência negativa mesmo entre diversos autores católicos. De facto aqui, como em muitos outros pontos das Cartas Pastorais, observam-se pormenores biográficos de tal maneira vivos, concretos e coerentes, que não se podem atribuir a um falsário. Há quem pense na intervenção dum secretário diferente dos habituais, que muito bem poderia ter sido o seu discípulo e companheiro (cf. v. 11) no segundo cativeiro romano, Lucas (Spicq).

6-7 “Já estou oferecido em libação”, isto é, “sinto que a morte se avizinha”; é uma linguagem que bem pode proceder do costume, referido por Tácito, de se fazerem libações por ocasião da morte de alguém. “Combati o bom combate”: São Paulo sempre gostou de comparar a vida cristã e as lides apostólicas a lutas desportivas, pugilismo, corridas... (cf. Filp 2, 16; 3, 12-14; 1 Cor 9, 24-26; Gal 2, 2); “terminei a minha carreira”, à letra, corrida.

17 “A mensagem... fosse proclamada a todos…” Pensa-se haver aqui uma referência a algum testemunho público nalguma audiência do tribunal perante grande multidão. “Fui libertado da boca do leão”, o que não significa forçosamente que estivesse para ser lançado às feras, mas simplesmente o adiamento da condenação à pena capital, talvez para se proceder a melhor estudo da causa, em face do surpreendente testemunho do heróico pregador do Evangelho, que teria deixado os seus juízes perplexos…

 

Evangelho São Mateus 16, 13-19

 

Naquele tempo, 13Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?». 14Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas». Jesus perguntou: 15«E vós, quem dizeis que Eu sou?». 16Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». 17Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. 18Também Eu te digo: Tu és Pedro sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».

 

O texto da leitura consta de duas partes distintas, mas intimamente ligadas: a confissão de fé de Pedro (vv. 13-16), comum a Marcos 8, 27-30 e a Lucas 9, 18-21 (cf. Jo 6, 67-71), e a promessa feita a Pedro (vv. 17-19), exclusiva de Mateus (cf. Jo 21, 15, 23).

13 “Cesareia de Filipe” era a cidade construída por Filipe, filho de Herodes, o Grande, em honra do César romano, nas faldas do Monte Hermon, a uns 40 quilómetros a Nordeste do Lago de Genesaré.

13-17 “Quem dizem os homens… E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que, em face de Jesus – uma pessoa tão singular, surpreendente e apaixonante –, não pode deixar de ser feita em todos os tempos. As respostas podem ser variadas e até contraditórias, mas só uma é a certa, a resposta de Pedro, a resposta esclarecida da fé, resposta que Jesus aprova: “Feliz de ti, Simão” (v. 17). “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (v. 16): Messias é a forma hebraica da palavra do texto original grego, Cristo, que quer dizer ungido (os reis eram ungidos com azeite na cabeça ao serem investidos). Jesus é o Rei (ungido) anunciado pelos Profetas e esperado pelo povo. Quando se diz Jesus Cristo é como confessar a mesma fé de Pedro, reconhecer que Jesus é o Cristo, isto é, o Messias, mas num sentido mais denso e profundo, a saber, o Filho de Deus, num sentido que ultrapassa o corrente e que só o dom divino da fé pode fazer descobrir, segundo as palavras de Jesus a Pedro: “Não foram a carne e o sangue que to revelaram” (v. 17). A fé de Pedro, como a nossa, não pode proceder dum mero raciocínio humano, da sagacidade natural, mas da luz, da certeza e da firmeza, que procede da revelação de Deus. “A carne e o sangue” é uma forma semítica de designar o homem enquanto ser débil e exposto ao erro e ao pecado.

18 “Tu és Pedro”. É significativo que o texto grego não tenha conservado a palavra aramaica “kêphá”, aliás usada noutras passagens do N. T. sem ser traduzida, como é habitual com os patronímicos. Aqui o evangelista teve o cuidado de usar o nome correntemente dado ao Apóstolo Simão: Pedro. É expressivo o trocadilho, com efeito Pedro é a pedra sobre a qual assenta a solidez de toda a Igreja do Senhor. Note-se que o apelido de Pedro = Pedra não existia na época, nem em aramaico (Kêphá), nem em grego (Pétros), nem em latim (Petrus), uma circunstância que reforça o seu significado e originalidade. Além disso, este apelido também não era apto para caracterizar o temperamento ou o carácter do Apóstolo, pois aquilo que distingue a sua personalidade não é precisamente a dureza ou firmeza da pedra, mas antes a debilidade, mobilidade e até inconstância (cf. Mt 14, 28-31; 26, 33-35.69-75; Gal 2, 11-14). Se Jesus assim o chama, é em razão da função ou cargo em que há-de investi-lo.

“Edificarei a minha Igreja”. Jesus, ao dizer a minha, significa que tem intenção de fundar algo de novo, uma nova comunidade de Yahwéh. “Ekklêsía” é a tradução grega corrente dos LXX para a designação hebraica da Comunidade de (qehal) Yahwéh, isto é, “o povo escolhido de Deus reunido para o culto de Yahwéh” (cf. Dt 23, 2-4.9). Não é, portanto, a Igreja uma seita dentro do judaísmo, é uma realidade nova e independente. “Jesus pôde dizer minha, porque Ele a salva, Ele a adquire com o seu sangue, Ele a convoca, Ele realiza nela a presença divina, a aliança, o sacrifício”. “As portas do inferno não prevalecerão”. Esta linguagem tipicamente bíblica (Is 38, 10; Sab 16, 13; cf. Job 38, 17; Salm 9, 14) é uma sinédoque com que se designa a parte pelo todo. Inferno tanto pode designar a destruição e a morte (xeol=inferi=os infernos), como Satanás e os poderes hostis a Deus. Por ocasião da eleição do Papa Bento XVI viu-se bem como estes poderes hostis à verdadeira Igreja de Cristo mais uma vez se assanharam…

19 “Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus”. Os poderes conferidos a Pedro não são para ele vir a exercer no Céu, mas aqui neste mundo, onde a Igreja, o Reino de Deus em começo e em construção, tem de ser edificada. No judaísmo e no Antigo Testamento (cf. Is 22, 22), lidar com as chaves é uma atribuição de quem representa o próprio dono, significa adminis­trar a casa. Ligar-desligar significa tomar decisões com tal autoridade e poder supremo que serão consideradas válidas por Deus, “nos Céus”. É de notar que Jesus diz a todos os Apóstolos esta mesma frase (Mt 18, 18), mas sem que seja tirada qualquer força à autoridade suprema de Pedro, a quem é dado um especial poder de “ligar e desligar” na Igreja, enquanto pedra fundamental e pastor supremo a ser investido após a Ressurreição (Jo 21, 15-17). Este primado de Pedro sobre toda a Igreja – que hoje se designa por ministério petrino – não é conferido apenas a ele, mas a todos os seus sucessores; com efeito Jesus fala a Pedro na qualidade de chefe duma edificação estável e perene, a Igreja; se o edifício é perene também o será a pedra fundamental. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, nº 882, “o Papa, Bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, «é princípio perpétuo e visível, e fundamento da unidade que liga, entre si, todos os bispos com a multidão dos fiéis» (LG 23). Em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, o pontífice romano tem sobre a mesma Igreja um poder pleno, supremo e universal, que pode sempre livremente exercer” (LG 22). Este é um dos pontos cruciais do diálogo ecuménico, que terá uma saída feliz quando todos os que se consideram cristãos compreenderem que o carisma petrino, por vontade de Cristo, é o indispensável instrumento de união e unidade na legítima diversidade.

 

 

14º Domingo Comum

 

1ª leitura Zacarias 9, 9-10

Eis o que diz o Senhor: 9«Exulta de alegria, filha de Sião, solta brados de júbilo, filha de Jerusalém. Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta. 10Destruirá os carros de combate de Efraim e os cavalos de guerra de Jerusalém; e será quebrado o arco de guerra. Anunciará a paz às nações: o seu domínio irá de um mar ao outro mar e do Rio até aos confins da terra».

 

A leitura é tirada da 2.ª parte do livro de Zacarias, onde se fala do triunfo definitivo de Deus e do seu reino universal. Este texto foi escolhido para hoje em função do Evangelho, em que Jesus se apresenta como “manso e humilde de coração”. É um texto messiânico, que Mateus apresenta como cumprido em Jesus (cf. Mt 21, 4-5).

9 “Filha de Sião, ou filha de Jerusalém” são hebraísmos para designar os habitantes de Jerusalém. O Messias será um “rei justo e triunfante”, mas “humilde” e pacífico rei universal (v. 10): não aparecerá montado num veloz corcel de guerra, mas num manso “jumento”.

 

2ª leitura Romanos 8, 9.11-13

Irmãos: 9Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. 11Mas se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence. Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós. 12Assim, irmãos, não somos devedores à carne, para vivermos segundo a carne. 13Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis.

 

Este pequenino trecho é tirado de Rom 8, que constitui o ponto culminante da carta e a sua mais bela profunda síntese. No centro deste genial capítulo está a presença e a acção do Espírito Santo, a quem se atribui a vida nova em Cristo. Esta é uma “vida sob o domínio do Espírito”, a antítese perfeita da “vida sob o domínio da carne” (v. 9). Aqui a carne não é uma categoria platónica para designar a parte material do ser humano, nem é a “simples natureza” humana com a conotação de fraqueza e precariedade (sentido frequente no AT e noutros textos paulinos, por ex., em Rom 3, 20; 1 Cor 1, 29; Gal 3, 16); trata-se antes da natureza humana ferida pelo pecado e infectada pela concupiscência, o homem enquanto dominado pelos apetites e paixões desordenadas.

 11-13 A vida nova “por meio do Espírito” de Cristo é radicalmente inconciliável com a vida segundo a carne, pois o Apóstolo adverte: “se viverdes de acordo com a carne, haveis de morrer” (v. 13). As obras da carne são as obras pecaminosas, ditadas pelos apetites desordenados em geral, não apenas pelo apetite sexual, como na nossa linguagem actual. O sentido positivo da mortificação cristã está aqui bem explícito: “haveis de viver”.

 

Evangelho São Mateus 11, 25-30

Naquele tempo, Jesus exclamou: 25«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 27Tudo me foi entregue por meu Pai. E ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. 30Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

 

Ver notas atrás, no Evangelho da solenidade do Sagrado Coração de Jesus.

 

15º Domingo Comum

 

1ª leitura Isaías 55, 10-11

Eis o que diz o Senhor: 10«Assim como a chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, 11assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão».

 

Esta leitura, tirada do final do Segundo Isaías, foi escolhida em função do Evangelho de hoje (Mt 13, 1-23). Deus acaba de anunciar, através do profeta, todos os bens que tem preparados para os repatriados no seu regresso do exílio de Babilónia. A “palavra que sai da minha boca” (v. 11) é o anúncio do Profeta, como personificado; esta palavra não é uma mera palavra de ânimo, mas é dotada de eficácia e terá pleno cumprimento; para quem é o Todo-Poderoso, o dizer equivale ao fazer: Deus disse e tudo foi feito, como se lê no 1º capítulo do Génesis.

 

2ª leitura Romanos 8, 18-23

Irmãos: 18Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não tem comparação com a glória que se há-de manifestar em nós. 19Na verdade, as criaturas esperam ansiosamente a revelação dos filhos de Deus. 20Elas estão sujeitas à vã situação do mundo, não por sua vontade, mas por vontade d'Aquele que as submeteu, com a esperança de que as mesmas criaturas 21sejam também libertadas da corrupção que escraviza, para receberem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. 22Sabemos que toda a criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. 23E não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adopção filial e a libertação do nosso corpo.

 

Temos vindo nestes domingos a respigar alguns dos mais expressivos textos da epístola aos Romanos. Este é um dos textos de difícil interpretação, sobre a qual não há pleno acordo entre os exegetas.

19 “As criaturas esperam ansiosamente...” S. Paulo, lançando mão duma empolgante prosopopeia, associa o conjunto das criaturas irracionais à esperança e anelos do homem redimido por Cristo.

20 “Elas estão sujeitas à vã situação do mundo” (à letra, «à vaidade»). Esta situação vã do mundo é a obra da criação sujeita à destruição, podendo ver-se aqui uma alusão a Gn 3, 17, o rompimento da harmonia da criação como consequência do pecado do homem. Esta situação da criação deve-se “a quem a sujeitou”, mas o original grego não explicita o sujeito (a tradução litúrgica traduziu por Deus); podemos pensar ou no mau uso que os homens fazem das criaturas, que o homem tem o poder de dominar (cf. Gn 1, 28-29), ou então em que Deus, após o pecado, dispôs a natureza de forma esta punir o homem pecador, a quem ela naturalmente devia servir (cf. Gn 3, 17-19). Em ambos os casos, temos a harmonia inicial da criação transtornada, devido ao pecado.

21 “As mesmas criaturas seriam também libertadas da corrupção que escraviza” (à letra, da escravidão da corrupção). A que libertação se refere o texto sagrado não se pode saber com certeza. Designará a glorificação dos corpos depois da ressurreição, a qual redundará em glória para toda a natureza irracional, uma vez que o homem “mikrokósmos”, é uma síntese de todo o Universo? Ou aludirá a uma restauração física de todo o Universo, coisa que não parece estar na perspectiva paulina, mas que se poderia deduzir de Apoc 21, 1 e 2 Pe 3, 13, entendendo à letra estes textos simbólicos, pertencentes ao género apocalíptico? Pode tratar-se simplesmente da referência à libertação da maldição que o pecado trouxe às criaturas (cf. Gn 3, 17-19], sem se explicitar mais. Seja como for, podemos fazer uma leitura espiritual deste misterioso texto do modo seguinte: na medida em que os filhos de Deus santificarem o mundo, isto é, todas as realidades terrenas, ordenando-as segundo o espírito do Evangelho, nessa medida estão a libertá-las da escravidão do pecado, pois deixam de ser objecto do mau uso que delas faz o homem pecador; e, desta maneira, também elas participam da salvação: “para receberem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (no original grego não há verbo nenhum), isto é, participam da “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”, à letra, “da liberdade da glória dos filhos de Deus”, uma glória que liberta, em paralelismo com a “corrupção que escraviza”, de que se fala no v. 21.

22-23 “Toda a criatura tem gemido e tem sofrido as dores da maternidade” O Apóstolo usa uma arrojada prosopopeia para apresentar toda a criação a suspirar juntamente com os cristãos, que já são filhos de Deus (v. 15), mas que esperam a plenitude desta filiação na vida eterna (cf. 1 Cor 13, 12; 1 Jo 3, 2).

 

Evangelho Forma longa: São Mateus 13, 1-23  Forma breve: São Mateus 13, 1-9

1Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar. 2Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e sentar-Se, enquanto a multidão ficava na margem. 3Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos: «Saiu o semeador a semear. 4Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. 5Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram porque a terra era pouco profunda; 6mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz. 7Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e afogaram-nas. 8Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um. 9Quem tem ouvidos, oiça».

[10Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Porque lhes falas em parábolas?». 11Jesus respondeu-lhes: «Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus, mas a eles não. 12Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. 13É por isso que lhes falo em parábolas, porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender. 14Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz: 'Ouvindo ouvireis, mas sem compreender; olhando olhareis, mas não vereis. 15Porque o coração deste povo tornou-se duro: endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para não acontecer que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos e compreendendo com o coração, se convertam e Eu os cure'. 16Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem! 17Em verdade vos digo: muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes e não viram e ouvir o que vós ouvis e não ouviram. 18Vós, portanto, escutai o que significa a parábola do semeador: 19Quando um homem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. 20Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento, 21mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo. 22Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto. 23E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».]

 

O texto do Evangelho corresponde ao início do chamado discurso das parábolas, onde em São Mateus Jesus apresenta a natureza do Reino de Deus: “Falou-lhes de muitas coisas em parábolas”. Como de costume, este evangelista deve ter agrupado aqui, neste capítulo 13, sete parábolas, com toda a probabilidade contadas por Jesus em diferentes ocasiões. Parábola é uma comparação prolongada; isto significa o próprio termo grego (parabolê). Distingue-se da fábula, pois é verosímil; é uma narração viva e atraente, tirada das coisas da natureza e da vida diária. Também é diferente da alegoria, pois esta está toda carregada de simbolismo e todos os seus elementos encerram algum significado especial, ao passo que a parábola, de mais simples interpretação, vai direita a uma ideia central que se quer inculcar, sem que os seus elementos secundários tenham, em geral, qualquer significado especial, sendo meros elementos de adorno. Em S. João, que não recorre a parábolas, temos a célebre alegoria da videira (Jo 15). Também há parábolas com elementos alegóricos, podendo mesmo este simbolismo ser captado apenas a partir da vida da Igreja (por ex., em Mt 25, 5, na parábola das 10 virgens, a demora do esposo passa a simbolizar a demora da parusía. A parábola do semeador, que hoje temos, também nos aparece misturada de alegoria, pois não se limita a expor uma ideia central: a eficácia extraordinária e sobrenatural da sementeira divina, da acção de Deus no mundo, na Igreja e nas almas (100, 60, 30 por um). Nesta parábola cada um dos terrenos tem um significado simbólico particular, significado que é atribuído por Cristo na explicação posterior. Mas, ao fim e ao cabo, a parábola do semeador encerra uma exortação implícita a converter-se em boa terra para receber a Palavra de Deus e a confiar na sua eficácia.

10-13 “Porque lhes falas em parábolas?” Jesus, segundo os costumes orientais, não explicava imediatamente uma parábola e deixava que ela ficasse a bailar no espírito dos ouvintes como uma espécie de enigma (o maxal hebraico correspondia tanto à comparação, como a uma máxima, sentença sábia, alegoria, ou mesmo a um enigma ou adivinha). Assim despertava Jesus o interesse dos ouvintes: as almas rectas e amantes da verdade podiam depois procurar aprofundar o ensinamento; as pessoas superficiais, materialistas e desinteressadas da verdade, deixavam que tudo se lhes escapasse, por isso diz Jesus que “a eles não lhes é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus” (v. 11). “Àquele que tem dar-se-á...”, aos que têm boas disposições, estas são-lhe aumentadas com as luzes da pregação de Jesus; ao passo que aos mal dispostos pelo mau uso da sua liberdade, até as luzes que tinham (particularmente as recebidas com a revelação do Antigo Testamento) acabam por perdê-las. A citação da “profecia de Isaías” contém um anúncio do endurecimento dos ouvintes da pregação profética, que é entendida como consequência e castigo da resistência à graça. Deus não quer este endurecimento do coração, mas permite-o, porque quer respeitar a liberdade humana; mas o homem tem a grave responsabilidade de ser fiel a Deus e de fazer frutificar os dons recebidos; “não fossem ver…, ouvir…, entender… e converter-se… e Eu os curasse” (v. 15) é uma linguagem para nós demasiado dura, por dar a entender que é Deus quem endurece o coração do pecador, mas, na linguagem bíblica, é frequente não distinguir o que Deus permite daquilo que Deus faz, atribuindo frequentemente a Deus, a Causa Primeira, aquilo que é fruto das causas segundas. “Se lhes falo em parábola, é porque vêem sem ver...” Em Mateus o ensino em parábolas aparece como um acto de condescendência de Jesus, como uma forma de tornar acessíveis os ensinamentos de Jesus sobre os elevados mistérios do Reino, mas que ficam incompreensíveis para as almas fechadas à luz da verdade.

 

16º Domingo Comum

 

1ª leitura Sabedoria 12, 13.16-19

13Não há Deus, além de Vós, que tenha cuidado de todas as coisas; a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente. 16O vosso poder é o princípio da justiça e o vosso domínio soberano torna-Vos indulgente para com todos. 17Mostrais a vossa força aos que não acreditam na vossa omnipotência e confundis a audácia daqueles que a conhecem. 18Mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade e governais-nos com muita indulgência, porque sempre podeis usar da força quando quiserdes. 19Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo que o justo deve ser humano e aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.

 

A leitura, extraída da terceira e última parte do livro da Sabedoria (Sab 10 –19), em que se descreve a presença da Sabedoria na história do povo de Israel, deixa ver como Deus, que é justo, mostra tanto a sua justiça punindo os maus (aqui trata-se dos egípcios – cap. 11– e dos cananeus – cap. 12), como também mostra a sua “indulgência” (v. 18), ao inspirar, após o pecado, a contrição (v. 19).

 

2ª leitura Romanos 8, 26-27

Irmãos: 26O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. 27E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, sabe que Ele intercede pelos santos em conformidade com Deus.

 

O dois versículos da leitura põem em evidência o papel do Espírito Santo na alma do fiel, vindo em auxílio da nossa fraqueza: Ele sabe da nossa incapacidade para nos dirigirmos a Deus; habitando na alma justificada. suscita e facilita gemidos inefáveis – “gemidos que se não podem descrever” –, que constituem a vida de oração das almas contemplativas. Ele conduz a alma, de modo misterioso mas eficaz, pelo caminho da perfeita identificação com “a vontade de Deus”.

 

Evangelho Forma Longa: São Mateus 13, 24-43   Forma breve: São Mateus 13, 24-30

Naquele tempo, 24Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. 26Quando o trigo cresceu e deu fruto, apareceu também o joio. 27Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?' 28Ele respondeu-lhes: 'Foi um inimigo que fez isso'. Disseram-lhe os servos: 'Queres que vamos arrancar o joio?' 29'Não! – disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. 30Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro'».

[31Jesus disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. 32Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as hortaliças e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». 33Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado». 34Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia, 35a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas e proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo». 36Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se d'Ele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo». 37Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem 38e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do Maligno 39e o inimigo que o semeou é o Demónio. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os Anjos. 40Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: 41o Filho do homem enviará os seus Anjos, que tirarão do seu reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade, 42e hão-de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes. 43Então, os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça».]

 

Continuamos hoje com a leitura do discurso das parábolas no capítulo 13 de S. Mateus. A parábola do trigo e do joio envolve tanto a denúncia da intolerância como a do relativismo; o mal e o erro existem, mas a verdade e o bem acabarão por prevalecer.

25 “Joio” era uma planta muito parecida com o trigo, com que facilmente se confunde antes de brotar a espiga. Misturado em certa quantidade, envenena o pão e produz graves náuseas e enjoos. Semear cizânia entre o trigo era um caso de vingança pessoal não rara então, um crime previsto e punido pelo Direito Romano.

29-30 A resposta do dono do campo encerra a lição da parábola: “deixai-os ambos crescer ambos até à ceifa”. Deus permite o mal no mundo e dentro do campo da própria Igreja, mas há-de suprimi-lo definitivamente. Ninguém se escandalize, pois, com a existência do mal, pois com o juízo divino, depois da morte (a ceifa), os que praticaram o bem (trigo) irão para o Céu (simbolizado no celeiro) e os que praticaram o mal (joio) irão para o Inferno (simbolizado no fogo).

31-32 O “grão de mostarda” – uma pequenina semente que mal se vê – é a pregação do Evangelho e a Igreja. Um homem é Jesus; o seu campo é o mundo. A Igreja (Reino dos Céus) tem uns começos muito modestos, mas em breve se estende pelo mundo todo. A Igreja é católica, universal, destina-se a todos os homens de todas as raças, classes, culturas, de todas as latitudes e de todos os tempos. A mostarda (sinapis nigra) é um arbusto ainda hoje muito abundante na Palestina e que pode chegar a atingir 3 ou 4 metros de altura.

33 A parábola do “fermento” mostra como o Evangelho vai transformando todo o mundo – “a massa” – de modo invisível, lento mas progressivo; deixa ver como a Igreja vai convertendo à fé todos os povos. O fermento é também uma expressiva imagem do que o cristão tem de ser no mundo: sem se deixar dessorar, deve ir conquistando com o seu exemplo e com a sua palavra os que o rodeiam para Cristo, e ir imbuindo do espírito de Cristo todas as realidades humanas, a cultura e as próprias estruturas da sociedade, sem as instrumentalizar nem clericalizar.

 

17º Domingo Comum

 

1ª leitura 1 Reis 3, 5.7-12

Naqueles dias, 5O Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe: «Pede o que quiseres». 7Salomão respondeu: «Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder. 8Este vosso servo está no meio do povo escolhido, um povo imenso, inumerável, que não se pode contar nem calcular. 9Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente, para saber distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?» 10Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe: 11«Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, 12vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti».

 

A leitura é tirada do 1° Livro dos Reis, cuja figura central dos primeiros capítulos é Salomão, o rei sábio (3, 1 – 5, 15), construtor (5, 15 – 9, 25) e comerciante (9, 26 – 10, 29). A glória de Salomão, em especial a sua sabedoria, é-nos apresentada aqui como recompensa divina para a sua piedade e desprendimento: “agradou ao Senhor que Salomão tivesse feito este pedido” (v. 10).

5 “Gábaon”. Localidade a cerca de onze quilómetros a Noroeste de Jerusalém (hoje. el-Gib) onde se encontrava o mais importante “lugar alto” (santuário situado no cimo dum monte). Ver 2 Cron 1, 3.

7 “Sou muito novo e não sei como proceder”, à letra, sou um menino pequeno que não sabe sair nem entrar, isto é, tratar de negócios, governar. Sair e entrar é um hebraísmo muito corrente, uma forma figurada de falar, tirada da vida pastoril, em que o pastor mostra a sua capacidade saindo e entrando bem como todo o rebanho.

 

2ª leitura Romanos 8, 28-30

Irmãos: 28Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. 29Porque os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. 29E àqueles que predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou.

 

Estas breves e incisivas palavras são das mais belas sínteses paulinas e estão na linha dos ensinamentos centrais de Romanos: a confiança mais absoluta em Deus, que há-de levar a cabo a obra já começada de salvar os seus fiéis. É certo que S. Paulo admite noutras passagens a possibilidade de que estes não se venham a salvar; mas, se isso vier a suceder, não pode ser por uma falha de Deus, mas apenas por uma atitude plenamente deliberada do homem resgatado. A nossa esperança é firmíssima (cf. Rom 5, 5.10), porque temos dentro de nós o próprio Espírito Santo, que vem em ajuda da nossa fraqueza, intercedendo por nós com gemidos inefáveis (cf. Rom 8, 26), e Deus Pai ouve esta intercessão, porque está plenamente conforme com Ele mesmo (v. 27). Além disso, por uma Providência amorosíssima, “Deus concorre, em tudo para o bem daqueles que O amam” (v. 28), o que também corresponde ao aforismo popular: “Deus escreve direito por linhas tortas”.

29-30 O desígnio salvador de Deus é aqui explicitado em cinco etapas (já explicitadas noutras passagens): Deus “conheceu-nos de antemão”, isto é, olhou-nos com amor; “predestinou-nos para sermos conformes à imagem do seu Filho”, sendo um só com Cristo; “chamou-nos”; “justificou-nos”; “glorificou-nos”. É certo que ainda não estamos na plena posse da glória que nos está garantida (cf. vv. 17-18), mas a verdade é que já a podemos considerar adquirida, dada a nossa intima união a Cristo ressuscitado na sua glória; é por isso que os gramáticos consideram esta forma verbal do passado – glorificou-nos – como um “aoristo proléptico” (são frequentes em S. Paulo as figuras da prolepse).

 

Evangelho Forma longa: São Mateus 13, 44-52 Forma breve: São Mateus 13, 44-46

Naquele tempo, disse Jesus às multidões: 44«O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. 45O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. 46Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola.

[47O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. 48Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. 49Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos 50e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. 51Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». 52Disse-lhes então Jesus: Por isso, todo o escriba instruído sobre o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas».]

 

Nesta leitura podemos distinguir três unidades: as parábolas do tesouro e da pérola (vv. 44-46); a parábola da rede (w. 47-50); e a conclusão final do discurso das parábolas (vv. 51-52). As duas primeiras parábolas são equivalentes e a da rede é paralela à do trigo e do joio (vv. 36-43).

44-46 As parábolas do tesouro escondido e da pérola rara deixam ver, antes de mais, que o Reino dos Céus é o maior bem que o homem pode chegar a conseguir; tudo o resto é relativo. Também parece significativo que tanto o pobre jornaleiro, como o negociante (este rico certamente) entregam tudo o que têm para chegarem à posse do tão precioso bem almejado. No entanto, cada uma das duas parábolas põe o acento num aspecto particular do Reino: o tesouro foca a abundância dos seus bens; a pérola, a sua beleza. Não parece que os pormenores em que ambas as parábolas divergem sejam didacticamente significativos, pois devem ser meros pormenores narrativos: assim a casualidade da descoberta do tesouro e o achado da pérola após longa procura; o tesouro está escondido e a pérola é apresentada. Também não é significativo o facto de que o homem que acha o tesouro o esconda, pois seria a aprovação dum expediente fraudulento; com efeito, o ensinamento da parábola não versa sobre isto: o que interessa, como lição, é a atitude do homem que se desprende de tudo para obter o tesouro escondido.

52 O longo discurso das parábolas termina com o elogio do escriba cristão, que se faz discípulo: “o escriba instruído sobre o Reino dos Céus”. Este, como um senhor endinheirado, “tira do seu tesouro coisas novas e velhas”, isto é, administra toda a riqueza da Antiga Aliança (que Cristo não rejeitou: cf. Mt 5, 17) e toda a riqueza da novidade evangélica. O discípulo de Cristo não possui só para si a riqueza do tesouro do Evangelho, mas tira do seu tesouro, para tornar os homens, seus irmãos, participantes de tão grande bem.

  

 

Imaculado Coração de Maria

 

1ª leitura Isaías 61, 9-11

 

A linhagem do povo de Deus será conhecida entre os povos e a sua descendência no meio das nações. Quantos os virem terão de os reconhecer como linhagem que o Senhor abençoou.

Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de justiça, como noivo que cinge a fronte com o diadema e a noiva que se adorna com as suas jóias. Como a terra faz brotar os germes e o jardim germinar as sementes, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor diante das nações.

 

O Terceiro Isaías (Is 56 – 66) não se cansa de cantar as glórias de Jerusalém, em especial nos capítulos 60 a 64, donde é extraído o trecho da leitura. Jerusalém é uma figura da Igreja e a Liturgia, como acontece frequentemente aplica a Virgem Maria o que se diz da Igreja de quem ela é Mãe, modelo e tipo (cf. LG 53).

10 “A minha alma rejubila… com as vestes da salvação”. O capítulo 61 de Isaías canta as alegrias do regresso do exílio, mas com um profundo sentido messiânico, como consta do discurso de Jesus na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4, 16-22). É por isso que os Padres gostavam de identificar estas “vestes da salvação” com o manto de Sol da Mulher do Apocalipse (cf. Apoc 12, 1): Cristo é o Sol da Justiça que purifica de toda a mancha a sua Mãe desde o primeiro instante da sua concepção (cf. o artigo de Karol Wojtyla na obra colectiva: “Im Gewande des Heils”, Essen, 1979).

 

Evangelho São Lucas 2, 41-51

 

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-no no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». 49Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. 51Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração.

 

Segundo a Mixnáh (Niddáh, V, 6), depois dos 13 anos, o rapaz israelita começava a ser “bar-hamitswáh”, “filho-da-lei”, isto é, passava ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém, mas os pais piedosos costumavam antecipar um ano ou dois o cumprimento deste dever. Os judeus tinham por hábito deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, podendo as crianças fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. Para o leitor, a atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? Mas não faz sentido buscar a explicação do episódio relatado numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. “Jerusalém” não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino “a caminho de Jerusalém” (Lc 9, 51 – 19, 27), onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas “o Mestre”, Ele é “o Profeta”, e, por isso mesmo, não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através dos seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O “Menino perdido” não aparece como um simples menino, é apresentado como um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: “Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?”. Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, em Jerusalém, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – “aflitos à tua procura” (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é “elevar-se” ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51).

41 “Os pais de Jesus. Teu pai” (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 “Eu devia estar na Casa de Meu Pai”. A tradução de tá toû Patrós mou pode significar tanto “a casa de meu Pai”, como “as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai”. A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: “Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai” (e que, por isso mesmo, me deveria encontrar aqui no Templo)?

50 “Eles não entenderam”. A resposta do Menino envolve um sentido muito profundo que ultrapassa uma simples justificação da sua “independência”. O evangelista sublinha que não alcançam ver até onde poderia ir este “estar nas coisas do Pai”, mas também deixa ver que não se atrevem a fazer mais perguntas, o que evidencia a sua extrema delicadeza e reverência, ditada por uma profunda fé. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus, perante mais um “sinal” e mais uma “espada” (cf. Lc 2, 34-35).

 

Nossa do Carmo 

 

1ª leitura Zac 2, 14-17

 

Este trecho do profeta Malaquias, um dos profetas do tempo do regresso do desterro de Babilónia e um dos mais citados e aludidos no N. T., é extraído da parte final da terceira visão (vv. 2-17). Convida o povo – “a filha de Sião” – à alegria, porque o Senhor vem “habitar no meio de ti”. Estas palavras fazem lembrar a saudação do Anjo à Virgem Maria – “alegra-te!” (Lc 1, 28) –, por outro lado, a designação de “filha de Sião” (cf. Sof 3, 14) costuma ser considerada uma prefiguração da SS. Virgem, pois a Ela se aplica de modo eminente a expressão “eis que venho habitar no meio de ti”, pelo mistério da Incarnação do Verbo. Também o contexto da libertação do exílio (vv. 10-13) se presta a simbolizar a libertação das almas do Purgatório, um favor atribuído à intercessão da Virgem Maria, com o título de Nossa Senhora do Carmo.

 

Evangelho Mt 12, 46-50

 

Esta perícope põe em evidência quem é a verdadeira família de Jesus, mas sem pôr em causa o amor de Jesus a sua  Mãe. Ele deixa ver que os laços espirituais que nos unem a Deus são superiores e têm direitos e exigências mais urgentes que os laços de sangue (cf. Lc 8, 19). Poderíamos dizer que Jesus ama sua  Mãe, mais do que pelos vínculos de sangue, pelos da graça; mas a própria maternidade de Maria já é uma graça, a maior de todas e a fonte de todas as outras graças.

46 “Seus Irmãos”. Cf. Mt 13, 55-56 onde se nomeiam Tiago, José, Simão e Judas; os dois primeiros eram filhos de uma mulher chamada Maria, distinta da SS.ma Virgem (cf. Mt 27, 56). Não é admissível que os “irmãos” de Jesus fossem filhos de Nossa Senhora, pois a Igreja sempre defendeu a sua  perpétua virgindade. Também não é provável que fossem filhos de S. José. O uso da palavra “irmão” entre os semitas, cujo vocabulário era pobre e reduzido, indica­va não apenas os irmãos de sangue, mas também outros graus de parentesco e até todos aqueles que pertenciam à mesma família, clã ou tribo (cf. Gn 13, 8; 14, 14.16; 29, 15; Tb 7, 9-11).

 

13º Domingo comum  (Este ano 2008 não se celebra, pois dá lugar  à solenidade de S. Pedro e S. Paulo)

1ª leitura 2 Reis 4, 8-11.14-16a

Certo dia, o profeta Eliseu passou por Sunam. 8Vivia lá uma distinta senhora, que o convidou com insistência a comer em sua casa. A partir de então, sempre que por ali passava, era em sua casa que ia tomar a refeição. 9A senhora disse ao marido: «Estou convencida de que este homem, que passa frequentemente pela nossa casa, é um santo homem de Deus. 10Mandemos-lhe fazer no terraço um pequeno quarto com paredes de tijolo, com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada. Quando ele vier a nossa casa, poderá lá ficar». 11Um dia, chegou Eliseu e recolheu-se ao quarto para descansar. 14Depois perguntou ao seu servo Giezi: «Que podemos fazer por esta senhora?». Giezi respondeu: «Na verdade, ela não tem filhos o seu marido é de idade avançada». 15«Chama-a» – disse Eliseu. O servo foi chamá-la e ela apareceu à porta. 16aDisse-lhe o profeta: «No próximo ano, por esta época, terás um filho nos braços»

 

A leitura tirada do chamado «ciclo de Eliseu» (2 Re 2, 2-13,21) fala-nos da recompensa dada à mulher sunamita (habitante de Xunem, na planície de Jezrael, na Galileia). Foi o prémio de ter acolhido um profeta por ele ser profeta, “um santo homem de Deus” (v. 9). Foi escolhida para hoje esta leitura com o fim de documentar as palavras de Jesus no Evangelho (Mt 10, 41). A mulher não queria acreditar que viesse a conceber, mas o prodígio veio dar-se (v. 17). A criança havia de vir a morrer e o mesmo profeta havia de, laboriosamente, a fazer regressar à vida (vv. 18-37).

 

2ª leitura Romanos 6, 3-4.8-11

Irmãos: 3Todos nós que fomos baptizados em Jesus Cristo fomos baptizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele na sua morte, 4para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, para glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova. 8Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, 9sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer; a morte já não tem domínio sobre Ele. 10Porque na morte que sofreu, Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre; mas a sua vida, é uma vida para Deus. 11Assim, vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus.

 

A ideia central da leitura é que, pelo Baptismo, o cristão rompeu com o pecado. S. Paulo, porém, não baseia a sua argumentação nas promessas e renúncias então feitas, mas vai mais o fundo, apelando para uma razão ontológica, a genuína antropologia cristã: pelo Baptismo deu-se uma união tão profunda com Cristo, que já não faz mais sentido o pecado na vida do cristão, como falsamente alguém poderia deduzir das afirmações anteriores – “uma vez que o pecado se multiplicou, superabundou a graça” (Rom 5, 20) – se, quanto mais se pecar, maior é a graça do perdão, então porque não continuar a pecar? A 1.ª parte de Rom 6 (vv. 1-11) é uma fundamentação teológica da vida em graça e a 2.ª parte (vv. 12-23) é uma veemente exortação a uma decidida renúncia ao pecado e a uma entrega à santificação.

3 “Baptizados em Cristo”. A palavra grega, baptizar, significa imergir, mergulhar. O Baptismo por imersão que aqueles primeiros cristãos tinham recebido era um rito que lhes falava muito; o terem sido mergulhados na água do Baptismo era coisa que lhes ficava muito viva na memória. É para isto que S. Paulo apela: tinham sido mergulhados em Cristo; a preposição grega, “eis”, significa, de preferência “para dentro de Cristo”, isto é, para fazerem um só ser com Ele, para viverem a sua vida. “Baptizados na sua morte”: podemos perguntar por que é que, ao sermos mergulhados em Cristo, foi precisamente na sua Morte que fomos imersos? A razão é-nos dada no v. 10: é que, “pela morte que sofreu, Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre”, isto é, morrendo pelos nossos pecados, liquidou definitivamente as contas com o pecado, não tendo que estar mais sujeito às consequências do pecado (sofrimento e morte), nem tendo ainda de o continuar a expiar. Ora o Baptismo, além de nos aplicar a eficácia salvífica da morte de Cristo, tem que representar também para nós uma morte definitiva para o pecado: “sepultámo-nos com Ele, pelo Baptismo, na morte” (v. 4).

4 “Assim como Cristo ressuscitou... também nós caminharemos numa vida nova”. No rito do Baptismo por imersão, imediatamente após a imersão na água – gesto que significava a sepultura de Cristo e a morte para o pecado – havia a emersão que por sua vez, significava a saída de Cristo glorioso do túmulo e a ressurreição ou vida nova do cristão; daqui a consequência prática que S. Paulo tira para a nossa vida – “caminharemos numa vida nova”. Esta consequência – “considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus” (v. 11) vai servir ao Apóstolo de base para uma veemente exortação à luta contra o pecado, a partir do v. 12

 

Evangelho São Mateus 10, 37-42

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: 37«Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. 38Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. 39Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. 40Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. 41Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. 42E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa».

 

O texto evangélico de hoje pertence ao final de uma série de instruções aos discípulos para o exercício da sua missão apostólica (Mt 10, 16-42); nestes versículos sobressaem a radicalidade no seguimento sem meias tintas (vv. 37-39) e a identificação com o Mestre (vv. 40-42)

37 “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim...” Note-se que Jesus não se coloca simplesmente no plano de qualquer rabi seu contemporâneo a exigir dos seus discípulos (talmidîm) os mesmos serviços que se deviam prestar aos pais, ou ainda mais. As palavras de Jesus apelam para uma radicalidade de um amor que só é devido a Deus, mais acentuada ainda no texto paralelo de Lucas (14, 26-27). Só um homem que é Deus poderia falar assim com verdade. De qualquer modo, não existe nenhuma oposição entre o amor a Deus e à família, entre o primeiro e o quarto mandamento. O que Jesus exige é uma recta ordem no amor; por isso, não é licito pôr o amor dos pais e dos filhos antes ou acima do amor de Deus.

38-39 “Quem não toma a sua cruz para Me seguir”. A cruz era um suplicio mortal. Tomar a cruz significa renunciar à vida, uma renúncia total como a daquele que voluntariamente caminha para a morte, para o sacrifício total. A sua cruz significa a cruz – exigências e renúncias – que Deus pede concretamente a cada um, pois a uns exige mais do que a outros, porque também lhes dá mais. Mas a renúncia cristã não é algo negativo, é exigência libertadora, uma condição – “para Me seguir” ˚– para “encontrar a vida”, uma forma semítica de dizer que, por oposição a “perder a vida”, significa garantir a vida, salvá-la. Quem quiser salvar a todo o custo a sua vida terrena, negando a Cristo ou satisfazendo os seus gostos à margem da vontade de Deus. esse perderá a vida eterna; pelo contrário, quem sacrificar a sua vida terrena por Cristo tem garantida a vida eterna. Esta bem-aventurança dirige-se num sentido eminente aos mártires, mas também é para todos os que, no dia a dia, se esquecem de si e entregam a sua vida, servindo a Deus e ao próximo por amor de Deus.