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"et quasi flos rosarum in diebus vernis" (Sir. 50,8) 

 

  

 

JOÃO O BAPTISTA, PROFETA DO ALTÍSSIMO

 

Comentário do Pe. Raniero Cantalamessa


II Domingo de Advento (ciclo C)
Baruc, 5, 1-9; Filipenses 1, 4-6.8-11, Lucas 3, 1-6


O Evangelho deste domingo se ocupa por inteiro da figura de João Batista. Desde o momento de seu nascimento, João Batista foi saudado por seu pai Zacarias como profeta: «E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois irás adiante do Senhor para preparar seus caminhos» (Lc 1, 76).
 


O que fez o Precursor para ser definido como um profeta, e mais, «o maior dos profetas» (Lc 7, 28)? Antes de tudo, seguindo os passos dos antigos profetas de Israel, pregou contra a opressão e a injustiça social. No Evangelho do próximo domingo, nós o ouviremos dizer: «Quem tiver duas túnicas, que as reparta com o que não tem; quem tiver o que comer, que faça o mesmo». Aos publicanos [arrecadadores de impostos, ndt.], que tão freqüentemente desagravam os pobres com requerimentos arbitrários, lhes diz: «Não exijais mais do que vos está fixado». Aos soldados, inclinados à violência: «Não façais extorsão a ninguém, não façais denúncias falsas» (Lc 3, 11-14). Também as palavras sobre os vales que serão aterrados, as montanhas e colinas que serão rebaixadas e as passagens tortuosas que ficarão retas, poderíamos entendê-las assim: «Toda injusta diferença social entre riquíssimos (as montanhas) e paupérrimos (os vales) deve ser eliminada, ou ao menos reduzida; as passagens tortuosas da corrupção e do engano devem ficar retas».
 


Até aqui reconhecemos facilmente a idéia que atualmente temos do profeta: alguém que impulsiona à mudança; que denuncia as deformações do sistema, que aponta seu dedo contra o poder em todas suas formas -- religioso, econômico, militar -- e se atreve a gritar na cara do tirano: «Não te é lícito!» (Mt 14, 4).
 


Mas João Batista faz também uma segunda coisa: dá ao povo o «conhecimento de salvação pelo perdão de seus pecados» (Lc 1, 77). Onde está, poderíamos perguntar-nos, a profecia neste caso? Os profetas anunciavam uma salvação futura; mas João Batista não anuncia uma salvação futura; indica uma que está presente. Ele é quem aponta seu dedo para uma pessoa e grita: «Aqui está!» (João 1, 29). «Aquilo que se esperou durante séculos e séculos está aqui, é Ele!». Que estremecimento deveu percorrer aquele dia o corpo dos presentes que o ouviram falar assim!.
 


Os profetas tradicionais ajudavam seus contemporâneos a superar o muro do tempo e olhar o futuro; mas ele ajuda a superar o muro, ainda mais grosso, das aparências contrárias, e permite descobrir o Messias oculto por trás do aspecto de um homem como os demais. O Batista inaugurava assim a nova profecia cristã, que não consiste em anunciar uma salvação futura («nos últimos tempos»), mas em revelar a presença escondida de Cristo no mundo.
 


O que tudo isto tem a nos dizer? Que também devemos manter juntos estes dois aspectos do ministério profético: compromisso pela justiça social por uma parte, e anúncio do Evangelho por outra. Não podemos partir pela metade esta tarefa, nem em um sentido nem em outro. Um anúncio de Cristo, sem o acompanhamento do esforço pela promoção humana, resultaria desencarnado e pouco crível; um compromisso pela justiça, privado do anúncio de fé e do contato regenerador com a palavra de Deus, se esgotaria logo, ou acabaria em estéril contestação.
 


Ele nos diz também que o anúncio do Evangelho e a luta pela justiça não devem ficar como coisas justapostas, sem vínculo entre si. Deve ser precisamente o Evangelho de Cristo o que nos impulsiona a lutar pelo respeito do homem, de forma que seja possível a todo homem «ver a salvação de Deus». João Batista não pregava contra os abusos como agitador social, mas como arauto do Evangelho, «para preparar ao Senhor um povo bem disposto» (Lc 1, 17).
 


[Tradução realizada por Zenit]