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"et quasi flos rosarum in diebus vernis" (Sir. 50,8) 

 

  

EVANGELHO SEGUNDO SÃO MARCOS (Mc)


 

1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11   12   13   14   15   16


1

1 Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.

2 Conforme está escrito na profecia de Isaías: “Eis que envio o Meu mensageiro diante de Ti, o qual preparará o Teu caminho”.

3 Voz do que brada no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as Suas veredas”.

4 Apareceu João Baptista no deserto, pregando o baptismo de penitência para remissão dos pecados.

5 E ia ter com ele toda a região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém, e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

6 Andava João vestido de pêlo de camelo, trazia um cinto de couro atado à volta dos rins e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.

7 E pregava, dizendo: «Depois de mim vem Quem é mais forte do que eu, a Quem eu não sou digno de me inclinar para Lhe desatar as correias das sandálias.

8 Eu tenho-vos baptizado em água, Ele, porém, baptizar-vos-á no Espírito Santo».

9 Ora aconteceu naqueles dias que Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no Jordão.

10 No momento de sair da água, viu os céus abertos e o Espírito Santo que descia sobre Ele em forma de pomba;

11 e ouviu-se dos céus uma voz: «Tu és o Meu Filho amado, em Ti pus as Minhas complacências».

12 Imediatamente o Espírito impeliu Jesus para o deserto.

13 E permaneceu no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos O serviam.

14 Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus

15 e dizendo: «Completou-se o tempo e aproxima-se o reino de Deus; arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

16 Passando junto do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.

17 Jesus disse-lhes: «Vinde após Mim e Eu vos farei pescadores de homens».

18 Imediatamente, deixadas as redes, seguiram-n'O.

19 Prosseguindo um pouco, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam também numa barca a consertar as redes. Chamou-os logo.

20 Eles, tendo deixado na barca seu pai Zebedeu com os jornaleiros, seguiram-n'O.

21 Depois foram a Cafarnaum; e Jesus, tendo entrado no sábado na sinagoga, ensinava.

22 Os ouvintes ficavam admirados com a Sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.

23 Na sinagoga estava um homem possesso dum espírito imundo, que começou a gritar:

24 «Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Sei Quem és, o Santo de Deus».

25 Mas Jesus o ameaçou dizendo: «Cala-te, e sai desse homem!».

26 Então o espírito imundo, agitando-o violentamente e dando um grande grito, saiu dele.

27 Ficaram todos tão admirados, que se interrogavam uns aos outros: «Que é isto? Que nova doutrina é esta? Ele manda com autoridade até nos espíritos imundos, e eles obedecem-Lhe».

28 E divulgou-se logo a Sua fama por toda a região da Galileia.

29 Logo que saíram da sinagoga, foram a casa de Simão e de André, com Tiago e João.

30 A sogra de Simão estava de cama com febre. Falaram-Lhe logo dela.

31 Jesus, aproximando-Se e tomando-a pela mão, levantou-a. Imediatamente a deixou a febre, e ela pôs-se a servi-los.

32 Ao anoitecer, depois do sol-posto, traziam-Lhe todos os enfermos e possessos,

33 e toda a cidade se tinha juntado diante da porta.

34 Curou muitos que se achavam atacados com várias doenças, expulsou muitos demónios, e não permitia que os demónios dissessem quem Ele era.

35 Levantando-Se muito antes de amanhecer, saiu e foi a um lugar solitário e lá fazia oração.

36 Simão e os seus companheiros foram procurá-l'O.

37 Tendo-O encontrado, disseram-Lhe: «Todos Te procuram».

38 Ele respondeu: «Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de que Eu também lá pregue, pois para isso é que Eu vim».

39 E andava pregando nas sinagogas, por toda a Galileia, e expulsava os demónios.

40 Foi ter com Ele um leproso que, suplicando e pondo-se de joelhos, Lhe disse: «Se quiseres podes limpar-me».

41 Jesus, compadecido dele, estendeu a mão e, tocando-o, disse-lhe: «Quero, fica limpo».

42 Imediatamente desapareceu dele a lepra e ficou limpo.

43 E logo mandou-o embora, dizendo-lhe com tom severo:

44 «Guarda-te de o dizer a alguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote, e oferece pela purificação o que Moisés ordenou, para que lhes sirva de testemunho».

45 Ele, porém, retirando-se, começou a contar e a divulgar o sucedido, de modo que Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas ficava fora nos lugares desertos, e de toda a parte vinham ter com Ele.


2

1 Passados alguns dias, Jesus entrou outra vez em Cafarnaum, e soube-se que Ele estava em casa.

2 Juntou-se muita gente, de modo que não se cabia, nem mesmo à porta. E Ele pregava-lhes a Palavra.

3 Nisto chegaram alguns conduzindo um paralítico que era transportado por quatro homens.

4 Como não pudessem levá-lo junto d'Ele por causa da multidão, descobriram o tecto na parte debaixo da qual estava Jesus e, tendo feito uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico.

5 Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, são-te perdoados os pecados».

6 Estavam ali sentados alguns escribas que diziam nos seus corações:

7 «Como é que Ele fala assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão Deus?».

8 Jesus, conhecendo logo no Seu espírito que eles pensavam desta maneira dentro de si, disse-lhes: «Porque pensais isto nos vossos corações?

9 O que é mais fácil dizer ao paralítico: “São-te perdoados os pecados” ou dizer: “Levanta-te, toma o teu leito e anda”?

10 Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar os pecados,

11 - disse ao paralítico -: Eu te ordeno: Levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa».

12 Imediatamente ele se levantou e, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, de maneira que se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa semelhante».

13 Foi outra vez para a beira mar. Todo o povo ia ter com Ele e Ele ensinava-os.

14 Ao passar viu Levi, filho de Alfeu, sentado no banco dos cobradores de impostos, e disse-lhe: «Segue-Me». Ele, levantando-se, seguiu-O.

15 Aconteceu que, estando Jesus sentado à mesa em casa dele, estavam também à mesma mesa com Jesus e os Seus discípulos muitos publicanos e pecadores; porque eram muitos que também O seguiam.

16 Os escribas e fariseus, vendo que Jesus comia com os pecadores e publicanos, diziam aos discípulos: «Porque come e bebe o vosso Mestre com os publicanos e pecadores?».

17 Ouvindo isto, Jesus disse-lhes: «Não têm necessidade de médico os sãos, mas os doentes; Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores».

18 Os discípulos de João e os fariseus estavam a jejuar. Foram ter com Jesus, e disseram-Lhe: «Porque jejuam os discípulos de João e os fariseus, e os Teus discípulos não jejuam?».

19 Jesus respondeu-lhes: «Podem porventura jejuar os companheiros do esposo, enquanto o esposo está com eles? Enquanto têm consigo o esposo não podem jejuar.

20 Mas virão dias em que lhes será tirado o esposo e, então, nesses dias, jejuarão.

21 Ninguém cose um remendo de pano novo num vestido velho; pois o remendo novo arranca parte do velho, e o rasgão torna-se maior.

22 Ninguém deita vinho novo em odres velhos; de contrário, o vinho fará arrebentar os odres, e perder-se-á o vinho e os odres; mas, para vinho novo, odres novos».

23 Sucedeu também que, caminhando Jesus em dia de sábado, por entre campos de trigo, os discípulos começaram a colher espigas, enquanto caminhavam.

24 Os fariseus diziam-Lhe: «Como é que fazem ao sábado o que não é permitido?».

25 Ele respondeu: «Nunca lestes o que fez David, quando se viu necessitado, e teve fome, ele e os que com ele estavam?

26 Como entrou na casa de Deus, sendo sumo sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, dos quais não era permitido comer, senão aos sacerdotes, e deu também aos que o acompanhavam?».

27 E acrescentou: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.

28 Por isso o Filho do Homem é Senhor também do sábado».
 
3

1 Novamente entrou Jesus na sinagoga, e encontrava-se lá um homem que tinha uma das mãos atrofiada.

2 Observavam-n'O a ver se curaria em dia de sábado, para O acusarem.

3 Jesus disse ao homem que tinha a mão atrofiada: «Vem para o meio».

4 Depois disse-lhes: «É lícito em dia de sábado fazer bem ou fazer mal? Salvar a vida a uma pessoa ou tirá-la?». Eles, porém, calaram-se.

5 Então olhando-os com indignação, contristado da cegueira de seus corações, disse ao homem: «Estende a tua mão». Ele estendeu-a, e a mão ficou curada.

6 Mas os fariseus, retirando-se, reuniram-se logo em conselho com os herodianos contra Ele para ver como O haviam de matar.

7 Jesus retirou-Se com Seus discípulos para o mar, e segiu-O uma grande multidão do povo da Galileia; também da Judeia,

8 de Jerusalém, da Idumeia, da Transjordânia e das vizinhanças de Tiro e de Sidónia, tendo ouvido as coisas que fazia, foram em grande multidão ter com Ele.

9 Mandou aos Seus discípulos que Lhe aprontassem uma barca para que a multidão não O apertasse.

10 Porque, como curava muitos, todos os que padeciam algum mal lançavam-se sobre Ele para O tocarem.

11 E os espíritos imundos, quando O viam, prostravam-se diante d'Ele e gritavam: «Tu és o Filho de Deus».

12 Mas Ele ordenava-lhes com severidade que não O manifestassem.

13 Tendo subido a um monte, chamou a Si os que quis, e aproximaram-se d'Ele.

14 Escolheu doze para que andassem com Ele e para os enviar a pregar,

15 com poder de expulsar os demónios:

16 Simão, a quem pôs o nome de Pedro;

17 Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer “filhos do trovão”;

18 e André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu,

19 e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.

20 Depois, foi para casa e de novo acorreu tanta gente, que nem sequer podiam tomar alimento.

21 Quando os Seus parentes ouviram isto, foram para tomar conta d'Ele; porque diziam: «Está louco».

22 Os escribas, que tinham descido de Jerusalém, diziam: «Está possesso de Belzebu, e é pelo poder do príncipe dos demónios que expulsa os demónios».

23 Jesus, tendo-os chamado, dizia-lhes em parábolas: «Como pode Satanás expulsar Satanás?

24 Se um reino está dividido contra si mesmo, tal reino não pode subsistir.

25 E se uma casa está dividida contra si mesma, tal casa não pode subsistir.

26 Se, pois, Satanás se levanta contra si mesmo, o seu reino está dividido e não poderá subsistir, antes está para acabar.

27 Ninguém pode entrar na casa dum homem forte, para roubar os seus bens, se primeiro não o amarrar. Então saqueará a sua casa.

28 Na verdade vos digo que serão perdoados aos filhos dos homens todos os pecados e todas as blasfémias que proferirem;

29 porém, o que blasfemar contra o Espírito Santo, jamais terá perdão; mas será réu de pecado eterno».

30 Jesus falou assim por terem dito: «Está possesso dum espírito imundo».

31 Nisto chegaram Sua mãe e Seus irmãos, os quais, ficando fora, O mandaram chamar.

32 Estava muita gente sentada à volta d'Ele. Disseram-Lhe: «Eis que Tua mãe e Teus irmãos estão lá fora e procuram-Te».

33 Ele respondeu-lhes: «Quem é Minha mãe e quem são Meus irmãos?».

34 E, olhando para os que estavam sentados à volta d'Ele, disse: «Eis Minha mãe e Meus irmãos.

35 Porque quem fizer a vontade de Deus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe».
 
4

1 Começou de novo a ensinar à beira-mar; e juntou-se à Sua volta tão grande multidão que teve de subir para uma barca e sentar-Se dentro dela, no mar, enquanto toda a multidão estava em terra na margem.

2 E ensinava-lhes muitas coisas por meio de parábolas. Dizia-lhes segundo o Seu modo de ensinar:

3 «Ouvi: Eis que o semeador saiu a semear.

4 E ao semear, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, e vieram as aves do céu e comeram-na.

5 Outra parte caiu entre pedregulhos, onde tinha pouca terra, e logo nasceu, por não ter profundidade a terra;

6 mas, quando saiu o sol, foi queimada pelo calor e, como não tinha raíz, secou.

7 Outra parte caiu entre espinhos; e os espinhos cresceram e sufocaram-na e não deu fruto.

8 Outra caiu em terra boa; e deu fruto que vingou e cresceu, e um grão deu trinta, outro sessenta e outro cem».

9 E acrescentava: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça».

10 Quando Se encontrou só, os doze, que estavam com Ele, interrogaram-n'O sobre a parábola.

11 Disse-lhes: «A vós é concedido conhecer o mistério do reino de Deus; porém, aos que são de fora, tudo se lhes propõe em parábolas,

12 para que, olhando não vejam, e ouvindo não entendam; não aconteça que se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados».

13 E acrescentou: «Não entendeis esta parábola? Então como entendereis todas as outras?

14 O que o semeador semeia é a palavra.

15 Uns encontram-se ao longo do caminho onde ela é semeada; mas logo que a ouvem vem Satanás tirar a palavra semeada neles.

16 Outros recebem a semente em terreno pedregoso; ouvem a palavra, logo a recebem com alegria,

17 mas não têm raízes em si mesmos, são inconstantes; depois, levantando-se a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbem imediatamente.

18 Outros recebem a semente entre espinhos; ouvem a palavra,

19 mas os cuidados mundanos, a sedução das riquezas e as outras paixões, entrando, afogam a palavra, e ela fica infrutuosa.

20 Aqueles que recebem a semente em terra boa, são os que ouvem a palavra, recebem-na, e dão fruto, um a trinta, outro a sessenta, e outro a cem por um».

21 Dizia-lhes mais: «Porventura traz-se a lâmpada para se pôr debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não é para ser posta sobre o candelabro?

22 Porque não há coisa alguma escondida que não venha a ser manifesta, nem que seja feita para estar oculta, mas para vir a público.

23 Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça».

24 Dizia-lhes mais: «Atendei ao que ouvis. Com a medida com que medirdes vos medirão a vós, e ainda se vos acrescentará.

25 Porque ao que tem, dar-se-lhe-á ainda mais e ao que não tem, ainda o que tem lhe será tirado».

26 Dizia também: «O reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra.

27 Dorme e se levanta, noite e dia, e a semente germina e cresce sem ele saber como.

28 Porque a terra por si mesma produz, primeiramente a haste, depois a espiga, e por último a espiga cheia de grãos.

29 E, quando o fruto está maduro, mete logo a foice, porque chegou o tempo da ceifa».

30 Dizia mais: «A que coisa compararemos nós o reino de Deus? Com que parábola o representaremos?

31 É como um grão de mostarda que, quando se semeia no campo, é a menor de todas as sementes que há na terra;

32 mas, depois que é semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças, e cria ramos tão grandes que “as aves do céu podem vir abrigar-se à sua sombra”».

33 Assim lhes propunha a palavra com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de compreender.

34 Não lhes falava sem parábolas; porém, em particular explicava tudo aos Seus discípulos.

35 Naquele mesmo dia, ao cair da tarde, disse-lhes: «Passemos à outra margem».

36 Eles, deixando a multidão, levaram-n'O consigo, assim como estava, na barca. Outras embarcações O seguiram.

37 Então levantou-se uma grande tempestade de vento, e as ondas lançavam-se sobre a barca, de tal modo que a barca se enchia de água.

38 Jesus estava na popa a dormir sobre um travesseiro. Acordaram-n'O e disseram-Lhe: «Mestre, não Te importas que pereçamos?».

39 Ele levantou-Se, ameaçou o vento e disse para o mar: «Cala-te, emudece». O vento amainou e seguiu-se uma grande bonança.

40 Depois disse-lhes: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?». Ficaram cheios de grande temor, e diziam uns para os outros:

41 «Quem será Este, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».
 
5

1 Chegaram ao outro lado do mar, ao território dos gerasenos.

2 Ao sair Jesus da barca, foi logo ter com Ele, saindo dos sepulcros, um homem possesso de um espírito imundo.

3 Tinha o seu domicílio nos sepulcros, e já ninguém conseguia segurá-lo com cadeias.

4 Tendo sido preso muitas vezes com grilhões e com cadeias, tinha quebrado as cadeias e despedaçado os grilhões e ninguém o podia dominar.

5 E sempre, dia e noite, andava pelos sepulcros e pelos montes, gritando e ferindo-se com pedras.

6 Ao ver de longe Jesus, correu e prostrou-se diante d'Ele

7 e clamou em alta voz: «Que tens Tu comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Por Deus eu Te conjuro que não me atormentes».

8 Porque Jesus dizia-lhe: «Espírito imundo sai desse homem».

9 Depois perguntou-lhe: «Como te chamas?». Ele respondeu: «O meu nome é Legião, porque somos muitos».

10 E suplicava-Lhe insistentemente que não o expulsasse daquela região.

11 Andava ali, próximo do monte, uma grande vara de porcos a pastar.

12 Os espíritos imundos suplicaram-Lhe: «Manda-nos para os porcos, para nos metermos neles».

13 Jesus consentiu. Então os espíritos imundos saíram e entraram nos porcos, e a vara, que era de cerca de dois mil, precipitou-se por um despenhadeiro no mar onde se afogaram.

14 Os guardadores fugiram e contaram o facto pela cidade e pelos campos. E o povo foi ver o que tinha sucedido.

15 Foram ter com Jesus e viram o que tinha estado possesso do demónio sentado, vestido e são do juízo; ele, que tinha estado possesso de uma legião inteira; e tiveram medo.

16 Os que tinham visto contaram-lhes o que tinha acontecido ao endemoninhado e aos porcos.

17 Então começaram a pedir a Jesus que se retirasse do seu território.

18 Quando Jesus subia para a barca, o que fora possesso do demónio começou a pedir-Lhe que lhe permitisse acompanhá-l'O.

19 Mas Jesus não o permitiu, antes lhe disse: «Vai para tua casa, para os teus, e conta-lhes tudo o que o Senhor te fez, e como teve piedade de ti».

20 Ele retirou-se e começou a proclamar pela Decápole que grandes coisas Jesus lhe tinha feito; e todos se admiravam.

21 Tendo Jesus passado novamente na barca para a outra margem, acorreu a Ele muita gente, e Ele estava junto do mar.

22 Chegou um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo, que, vendo-O, lançou-se a Seus pés,

23 e suplicava-Lhe com insistência: «Minha filha está nas últimas; vem, impõe sobre ela as mãos, para que seja salva e viva».

24 Jesus foi com ele; e uma grande multidão O seguia e O apertava.

25 Então, uma mulher que havia doze anos padecia um fluxo de sangue,

26 e tinha sofrido muito de muitos médicos, e gastara tudo quanto possuía, sem ter sentido melhoras, antes cada vez se achava pior,

27 tendo ouvido falar de Jesus, foi por detrás entre a multidão e tocou o Seu manto.

28 Porque dizia: «Se eu tocar, ainda que seja só o Seu manto, ficarei curada».

29 Imediatamente parou o fluxo de sangue e sentiu no seu corpo estar curada do mal.

30 Jesus, conhecendo logo em Si mesmo a força que saíra d'Ele, voltado para a multidão, disse: «Quem tocou os Meus vestidos?».

31 Os Seus discípulos responderam: «Tu vês que a multidão Te comprime, e perguntas: “Quem Me tocou?”».

32 E Jesus olhava em volta para ver quem tinha feito aquilo.

33 Então a mulher, que sabia o que se tinha passado nela, cheia de medo e a tremer, foi prostrar-se diante d'Ele, e disse-Lhe toda a verdade.

34 Jesus disse-lhe: «Filha, a tua fé te salvou; vai em paz e fica curada do teu mal».

35 Ainda Ele falava, quando chegaram da casa do chefe da sinagoga, dizendo: «Tua filha morreu; para que incomodar mais o Mestre?».

36 Porém, Jesus, tendo ouvido o que eles diziam, disse ao chefe da sinagoga: «Não temas; crê somente».

37 E não permitiu que ninguém O acompanhasse, senão Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago.

38 Ao chegarem a casa do chefe da sinagoga, viu Jesus o alvoroço e os que estavam a chorar e a gritar.

39 Tendo entrado, disse-lhes: «Porque vos perturbais e chorais? A menina não está morta, mas dorme».

40 E troçavam d'Ele. Mas Ele, tendo feito sair todos, tomou o pai e a mãe da menina e os que O acompanhavam, e entrou onde a menina estava deitada.

41 Tomando a mão da menina, disse-lhe: «Talitha kum» , que quer dizer: «Menina, Eu te mando, levanta-te».

42 A menina imediatamente levantou-se e andava, pois tinha já doze anos. Ficaram cheios de grande espanto.

43 Jesus ordenou-lhes com insistência que ninguém o soubesse. Depois disse que dessem de comer à menina.
 
6

1 Tendo Jesus partido dali, foi para a Sua terra; e seguiram-n'O os discípulos.

2 Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os Seus numerosos ouvintes admiravam-se e diziam: «Donde vêm a Este todas estas coisas que diz? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada? E como se operam tais maravilhas pelas Suas mãos?

3 Não é Este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós as Suas irmãs?».

4 E estavam perplexos a Seu respeito.

5 Mas Jesus dizia-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa». E não pôde fazer ali milagre algum; apenas curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos.

6 E admirava-Se da incredulidade deles. Depois, andava ensinando pelas aldeias circunvizinhas.

7 Chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos imundos.

8 Ordenou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um bastão; nem alforge, nem pão, nem dinheiro na cintura;

9 mas que fossem calçados de sandálias, e não levassem duas túnicas.

10 E dizia-lhes: «Em qualquer casa onde entrardes, ficai nela até sairdes desse lugar.

11 Onde vos não receberem nem ouvirem, retirando-vos de lá, sacudi o pó dos vossos pés em testemunho contra eles».

12 Tendo partido, pregavam que fizessem penitência.

13 Expulsavam muitos demónios, ungiam com óleo muitos enfermos e curavam-nos.

14 Ora o rei Herodes ouviu falar de Jesus, cujo nome se tinha tornado célebre. Uns diziam: «João Baptista ressuscitou de entre os mortos; é por isso que o poder de fazer milagres se manifesta n'Ele.»

15 Outros, porém, diziam: «É Elias». E outros afirmavam: «É um profeta, como um dos antigos profetas».

16 Herodes, porém, ouvindo isto, dizia: «É João, a quem eu degolei, que ressuscitou».

17 Porque Herodes tinha mandado prender João, e teve-o a ferros numa prisão por causa de Herodíades, mulher de Filipe, seu irmão, com a qual tinha casado.

18 Porque João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter a mulher de teu irmão».

19 Herodíades odiava-o e queria fazê-lo morrer; porém, não podia,

20 porque Herodes, sabendo que João era varão justo e santo, olhava-o com respeito, protegia-o e quando o ouvia ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado.

21 Chegou, porém, um dia oportuno, quando Herodes, no seu aniversário natalício, deu um banquete aos grandes da corte, aos tribunos e aos principais da Galileia.

22 Tendo entrado na sala a filha da mesma Herodíades, dançou e agradou a Herodes e aos seus convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres e eu to darei».

23 E jurou-lhe: «Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja metade do meu reino».

24 Ela, tendo saído, perguntou à mãe: «Que hei-de pedir?». Ela respondeu-lhe: «A cabeça de João Baptista».

25 Tornando logo a entrar apressadamente junto do rei, fez este pedido: «Quero que me dês imediatamente num prato a cabeça de João Baptista».

26 O rei entristeceu-se, mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis desgostá-la.

27 Imediatamente mandou um guarda com ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi degolá-lo no cárcere,

28 levou a sua cabeça num prato, deu-a à jovem, e esta deu-a à mãe.

29 Tendo sabido isto os seus discípulos, foram, tomaram o corpo e o depuseram num sepulcro.

30 Tendo os Apóstolos voltado a Jesus, contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado,

31 e Ele disse-lhes: «Vinde à parte, a um lugar solitário, e descansai um pouco». Porque eram muitos os que iam e vinham e nem sequer tinham tempo para comer.

32 Entrando, pois, numa barca, retiraram-se à parte, a um lugar solitário.

33 Porém, viram-nos partir, e muitos perceberam para onde iam e acorreram lá, a pé, de todas as cidades, e chegaram primeiro que eles.

34 Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas.

35 Fazendo-se tarde chegaram-se a Ele os discípulos, dizendo: «Este lugar é solitário e a hora é já adiantada;

36 despede-os, a fim de que vão às quintas e povoados próximos e comprem alguma coisa para comer».

37 Ele respondeu-lhes: «Dai-lhes vós de comer». Eles disseram: «Iremos, pois, com duzentos denários comprar pão para lhes darmos de comer?».

38 Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes? Ide ver». Depois de se terem informado, disseram-Lhe: «Temos cinco pães e dois peixes».

39 Então mandou-lhes que os fizessem sentar a todos, em grupos, sobre a relva verde.

40 E sentaram-se em grupos de cem e de cinquenta.

41 Jesus, tomando os cinco pães e os dois peixes, elevando os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e os deu a Seus discípulos para que os distribuíssem; igualmente repartiu os dois peixes por todos.

42 Comeram todos e ficaram saciados.

43 E recolheram doze cestos cheios das sobras dos pães e dos peixes.

44 Os que tinham comido dos pães eram cinco mil homens.

45 Imediatamente Jesus obrigou Seus discípulos a embarcar, para chegarem primeiro que Ele à outra margem do lago, a Betsaida, enquanto Ele despedia o povo.

46 Depois de os ter despedido, retirou-Se para um monte a fazer oração.

47 Chegada a noite, encontrava-se a barca no meio do mar, e Ele só em terra.

48 Vendo-os cansados de remar, porque o vento lhes era contrário, cerca da quarta vigília da noite, foi ter com eles andando sobre o mar; e fez menção de lhes passar adiante.

49 Quando eles O viram caminhar sobre o mar, julgaram que era um fantasma e gritaram;

50 porque todos O viram e se assustaram. Mas logo Ele lhes falou e disse: «Tende confiança, sou Eu, não temais».

51 Subiu em seguida para junto deles na barca, e o vento cessou. Ficaram extremamente estupefactos,

52 pois não se tinham dado conta do que se tinha passado com os pães; a sua inteligência estava obscurecida.

53 Tendo passado à outra margem, foram à região de Genesaré, e lá atracaram.

54 Tendo desembarcado, logo O conheceram

55 e, percorrendo toda aquela região, começaram a trazer-Lhe todos os doentes em macas, para onde sabiam que Ele estava.

56 Em qualquer lugar a que chegava, nas aldeias, nas cidades ou nas herdades, punham os enfermos no meio das praças, e pediam-Lhe que, ao menos, os deixasse tocar a orla do Seu vestido. E todos os que O tocavam ficavam curados.
 
7

1 Reuniram-se à volta de Jesus os fariseus e alguns escribas vindos de Jerusalém;

2 e notaram que alguns dos Seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, por lavar;

3 ora os fariseus e todos os judeus aferrados à tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos cuidadosamente;

4 e, quando vêm da praça pública, não comem sem se purificar; e praticam muitas outras observâncias tradicionais, como lavar os copos, os jarros, os vasos de metal, e os leitos.

5 Os fariseus e os escribas interrogaram-n'O: «Porque não se conformam os Teus discípulos com a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?».

6 Ele respondeu-lhes: «Com razão profetizou Isaías de vós, hipócritas, quando escreveu: “Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim.

7 É vão o culto que Me prestam, ensinando doutrinas que são preceitos humanos”.

8 Pondo de lado o mandamento de Deus, observais cuidadosamente a tradição dos homens».

9 Disse-lhes mais: «Vós bem fazeis por destruir o mandamento de Deus, para manter a vossa tradição.

10 Porque Moisés disse: “Honra teu pai e tua mãe. E todo o que amaldiçoar seu pai ou sua mãe, seja punido de morte”.

11 Vós, porém, dizeis: Se alguém disser ao pai ou à mãe, é “qorban”, oferta a Deus, qualquer coisa minha que te possa ser útil,

12 já não lhe deixais fazer nada a favor do pai ou da mãe,

13 anulando assim a palavra de Deus por uma tradição que tendes transmitido de uns aos outros. E fazeis muitas coisas semelhantes a estas».

14 Convocando novamente o povo, dizia-lhes: «Ouvi-Me todos e entendei:

15 não há coisas fora do homem que, entrando nele, o possam manchar; mas as que saem do homem, essas são as que tornam o homem impuro.

16 Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça».

17 Tendo entrado em casa, deixada a multidão, os Seus discípulos interrogaram-n'O sobre esta parábola.

18 Ele respondeu-lhes: «Também vós sois ignorantes? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar,

19 porque não entra no seu coração, mas vai ter ao ventre e lança-se num lugar escuso?». Com isto declarava puros todos os alimentos.

20 E acrescentava: «O que sai do homem, isso é que mancha o homem.

21 Porque do interior, do coração do homem, é que procedem os maus pensamentos, os furtos, as fornicações, os homicídios,

22 os adultérios, as avarezas, as perversidades, as fraudes, as libertinagens, a inveja, a maledicência, a soberba, a insensatez.

23 Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem».

24 Partindo dali, foi Jesus para os confins de Tiro e de Sidónia. Tendo entrado numa casa, não queria que ninguém o soubesse, mas não pôde ocultar-Se,

25 pois logo uma mulher, cuja filha estava possessa do espírito imundo, logo que ouviu falar d'Ele, foi lançar-se a Seus pés.

26 Era uma mulher gentia, de origem sirofenícia. Suplicava-lhe que expulsasse da sua filha o demónio.

27 Jesus disse-lhe: «Deixa que primeiro sejam fartos os filhos, porque não está certo tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães».

28 Mas ela respondeu-Lhe: «Assim é, Senhor, mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, das migalhas que caem dos filhos».

29 Ele disse-lhe: «Por esta palavra que disseste, vai, que o demónio saiu da tua filha».

30 Voltando para casa, encontrou a menina deitada na cama, e o demónio tinha saído dela.

31 Jesus, deixando o território de Tiro, foi novamente por Sidónia para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole.

32 Trouxeram-Lhe um surdo-mudo, e pediam-Lhe que lhe impusesse as mãos.

33 Então, Jesus, tomando-o à parte de entre a multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos, e tocou-lhe com saliva a língua.

34 Depois, levantando os olhos ao céu, deu um suspiro e disse-lhe: «Effathá», que quer dizer «abre-te».

35 Imediatamente se lhe abriram os ouvidos, se lhe soltou a prisão da língua e falava claramente.

36 Ordenou-lhes que a ninguém o dissessem. Porém, quanto mais lho proibia mais o divulgavam.

37 E admiravam-se sobremaneira, dizendo: «Tudo fez bem! Faz ouvir os surdos e falar os mudos!».
 
8

1 Naqueles dias, havendo novamente grande multidão e não tendo de comer, chamando os discípulos disse-lhes:

2 «Tenho compaixão deste povo, porque há já três dias que não se afastam de Mim e não têm que comer.

3 Se os despedir em jejum para as suas casas desfalecerão no caminho, e alguns deles vieram de longe».

4 Os discípulos responderam-Lhe: «Como poderá alguém saciá-los de pão aqui num deserto?».

5 Jesus perguntou: «Quantos pães tendes?». Responderam: «Sete».

6 Então ordenou ao povo que se sentasse no chão. Depois, tomando os sete pães, deu graças, partiu-os e dava-os a Seus discípulos para que os distribuíssem; e eles os distribuíram pelo povo.

7 Tinham também alguns peixinhos. Ele os abençou e mandou que fossem distribuidos.

8 Comeram, ficaram saciados e dos pedaços que sobejaram recolheram sete cestos.

9 Ora os que comeram eram cerca de quatro mil. Em seguida Jesus despediu-os.

10 Entrando logo na barca com os discípulos, passou ao território de Dalmanuta.

11 Apareceram os fariseus, e começaram a discutir com Ele, pedindo-Lhe, para O tentarem, um sinal do céu.

12 Porém, Jesus, suspirando profundamente, disse: «Porque pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo que a esta geração não será dado sinal algum».

13 Depois, deixando-os, entrou novamente na barca e passou à outra margem.

14 Ora os discípulos esqueceram-se de levar pães; e não tinham consigo na barca mais do que um.

15 Jesus advertia-os dizendo: «Evitai com cuidado o fermento dos fariseus e o fermento de Herodes».

16 E eles comentavam entre si: «É que não temos pão».

17 Conhecendo isto, Jesus disse-lhes: «Porque estais a discutir que não tendes pão? Ainda não reflectistes nem entendestes? Ainda tendes a vossa inteligência obscurecida?

18 Tendes olhos e não vedes, e tendes ouvidos e não ouvis? Já não vos lembrais?

19 Quando parti os cinco pães para cinco mil homens, quantos cestos cheios de pedaços recolhestes?». Eles responderam: «Doze».

20 «E quando parti sete pães para quatro mil, quantos cestos de pedaços recolhestes?». Responderam: «Sete».

21 E dizia-lhes: «Como é que ainda não entendeis?».

22 Chegaram a Betsaida. Trouxeram-Lhe um cego e suplicavam-Lhe que o tocasse.

23 Tomando o cego pela mão, conduziu-o para fora da aldeia, pôs-lhe saliva sobre os olhos e, impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: «Vês alguma coisa?».

24 Ele, levantando os olhos, disse: «Vejo os homens que me parecem árvores que andam».

25 Depois, Jesus impôs-lhe novamente as mãos sobre os olhos e ele começou a ver claramente. Ficou curado e distinguia tudo, nitidamente, de longe.

26 Então Jesus mandou-o para casa, dizendo: «Não entres na aldeia».

27 Saiu Jesus com os Seus discípulos pelas aldeias de Cesareia de Filipe. Pelo caminho, interrogou os discípulos: «Quem dizem os homens que Eu sou?».

28 Eles responderam-Lhe: «Uns dizem que João Baptista, outros que Elias, e outros que algum dos profetas».

29 Então perguntou-lhes: «E vós quem dizeis que Eu sou?». Pedro respondeu: «Tu és o Cristo».

30 Então Jesus ordenou-lhes severamente que não dissessem isto d'Ele a ninguém.

31 E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem padecesse muito, que fosse rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, que fosse morto, e que ressuscitasse depois de três dias.

32 E falava destas coisas claramente. Pedro, tomando-O à parte, começou a repreendê-l'O.

33 Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os Seus discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Retira-te daqui, Satanás, que não aprecias as coisas de Deus, mas sim as dos homens».

34 Depois, chamando a Si o povo com os Seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quer seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.

35 Porque quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a vida por amor de Mim e do Evangelho, salvá-la-á.

36 Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma?

37 Ou que dará o homem em troco da sua alma?

38 No meio desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar de Mim e das Minhas palavras, também o Filho do Homem Se envergonhará dele, quando vier na glória de Seu Pai, com os santos anjos».
 
9

1 E dizia-lhes: «Em verdade vos digo que alguns dos que aqui se encontram não morrerão sem terem visto antes o reino de Deus vir com poder».

2 Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e conduziu-os sós, à parte, a um monte alto, e transfigurou-Se diante deles.

3 As Suas vestes tornaram-se resplandecentes, de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra os poderia tornar tão brancos.

4 Depois apareceu-lhes Elias com Moisés, que estavam a falar com Jesus.

5 Pedro tomando a palavra disse a Jesus: «Rabi, que bom é nós estarmos aqui; façamos três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias».

6 Não sabia o que dizia, pois estavam atónitos de medo.

7 E formou-se uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem saíu uma voz que dizia: «Este é o meu Filho muito amado, ouvi-O».

8 Olhando logo à volta de si, não viram mais ninguém com eles senão Jesus.

9 Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do Homem ter ressuscitado dos mortos.

10 Observaram esta ordem, mas perguntavam-se o que queria dizer “quando tiver ressuscitado dos mortos”.

11 Interrogaram-n'O dizendo: «Porque dizem os escribas que Elias deve vir primeiro?».

12 Jesus respondeu-lhes: «Elias efectivamente há-de vir primeiro e pôr tudo em ordem. Mas como é que está escrito acerca do Filho do Homem, que terá que sofrer muito e ser desprezado?

13 Pois, Eu digo-vos que Elias já veio, e fizeram dele quanto quiseram, como está escrito dele».

14 Chegando junto dos discípulos, viu uma grande multidão em volta, e os escribas a discutirem com eles.

15 E logo toda aquela multidão supreendida por ver Jesus, correu para O saudar.

16 Perguntou-lhes: «Que estais a discutir entre vós?».

17 Um de entre a multidão respondeu-Lhe: «Mestre, eu trouxe-Te meu filho que está possesso de um espírito mudo,

18 que, onde quer que se apodere dele, o lança por terra, e o menino espuma, range com os dentes, e fica rígido. Pedi aos Teus discípulos que o expulsassem e não puderam».

19 Jesus respondeu-lhes: «Ó geração incrédula! Até quando hei-de estar convosco? Até quando vos hei-de suportar? Trazei-Mo cá».

20 Trouxeram-Lho. Tendo visto Jesus, imediatamente o espírito o agitou com violência e, caído por terra, revolvia-se espumando.

21 Jesus perguntou ao pai dele: «Há quanto tempo lhe sucede isto?». Ele respondeu: «Desde a infância.

22 O demónio tem-no lançado muitas vezes no fogo e na água, para o matar; porém Tu, se podes alguma coisa, ajuda-nos, tem compaixão de nós».

23 Jesus disse-lhe: «Se podes...! Tudo é possivel a quem crê».

24 Imediatamente o pai do menino exclamou: «Eu creio! Auxilia a minha falta de fé».

25 Jesus, vendo aumentar a multidão, ameaçou o espírito imundo, dizendo-lhe: «Espírito mudo e surdo, Eu te mando, sai desse menino e não voltes a entrar nele!».

26 Então, dando gritos e agitando-se com violência, saiu dele, e o menino ficou como morto, tanto que muitos diziam: «Está morto».

27 Porém, Jesus, tomando-o pela mão, levantou-o, e ele pôs-se em pé.

28 Depois de ter entrado em casa, Seus discípulos perguntaram-Lhe em particular: «Porque o não pudemos nós expulsar?».

29 Respondeu-lhes: «Esta casta de demónios não se pode expulsar senão mediante a oração».

30 Tendo partido dali, atravessaram a Galileia; e Jesus não queria que se soubesse.

31 Ia instruindo os Seus discípulos e dizia-lhes: «O Filho do Homem vai ser entregue às mãos dos homens e Lhe darão a morte, mas ressuscitará ao terceiro dia depois da Sua morte».

32 Mas eles não compreendiam estas palavras e temiam interrogá-l'O.

33 Nisto chegaram a Cafarnaum. Quando estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: «De que discutíeis pelo caminho?».

34 Eles, porém, calaram-se, porque no caminho tinham discutido entre si qual deles era o maior.

35 Então, sentando-Se, chamou os doze e disse-lhes: «Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos».

36 Em seguida, tomando uma criança, pô-la no meio deles e, depois de a abraçar, disse-lhes:

37 «Todo aquele que receber uma destas crianças em Meu nome, a Mim recebe, e todo aquele que Me receber a Mim, não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

38 João disse-lhe: «Mestre, vimos um homem, que não anda connosco, expulsar os demónios em Teu nome e nós lho proibimos porque não nos segue».

39 Jesus, porém, respondeu: «Não lho proibais, porque não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e que possa logo dizer mal de Mim.

40 Porque quem não é contra nós, está connosco.

41 «Quem vos der um copo de água, porque sois de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.

42 «Quem escandalizar um destes pequeninos que crêem em Mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó que um asno faz girar, e que o lançassem ao mar.

43 Se a tua mão é para ti ocasião de pecado, corta-a; melhor te é entrar na vida eterna mutilado, do que, tendo as duas mãos, ir para a Geena, para o fogo inextinguível.

44 Omitido pela Neo-Vulgata.

45 Se o teu pé é para ti ocasião de pecado, corta-o; melhor te é entrar na vida eterna coxo, do que, tendo os dois pés, ser lançado na Geena.

46 Omitido pela Neo-Vulgata.

47 Se o teu olho é para ti ocasião de pecado, lança-o fora; melhor te é entrar no reino de Deus sem um olho do que, tendo dois, ser lançado na Geena,

48 “onde o seu verme não morre e o seu fogo não se apaga”.

49 Todo o homem será salgado no fogo.

50 O sal é uma coisa boa; porém, se se tornar insípido, com que haveis de lhe dar o sabor? Tende sal em vós, e tende paz uns com os outros».
 
10

1 Saindo dali, foi Jesus para o território da Judeia, e além Jordão. Novamente as multidões se juntaram à volta d'Ele, e de novo as ensinava, segundo o Seu costume.

2 Aproximando-se os fariseus, perguntavam-Lhe para O tentarem: «É lícito ao marido repudiar a mulher?».

3 Ele respondeu-lhes: «Que vos mandou Moisés?».

4 Eles responderam: «Moisés permitiu escrever libelo de repúdio e separar-se dela».

5 Jesus disse-lhes: «Por causa da dureza do vosso coração é que ele vos deu essa lei.

6 Porém, no princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher.

7 Por isso deixará o homem pai e mãe, e se juntará à sua mulher;

8 e os dois serão uma só carne. Assim não mais são dois, mas uma só carne.

9 Portanto, não separe o homem o que Deus juntou».

10 Depois, em casa, os discípulos interrogaram-n'O novamente sobre o mesmo assunto.

11 Ele disse-lhes: «Quem repudiar a mulher e se casar com outra comete adultério contra a primeira;

12 e se a mulher repudiar o marido e se casar com outro comete adultério».

13 Apresentavam-Lhe umas criancinhas para que as tocasse mas os discípulos repreendiam os que as apresentavam.

14 Vendo isto, Jesus ficou muito desgostoso e disse-lhes: «Deixai vir a Mim as crianças, não as estorveis, porque dos que são como elas é o reino de Deus.

15 Em verdade vos digo: quem não receber o reino de Deus como uma criança, não entrará nele».

16 Depois, abraçou-as e, impondo-lhes as mãos, as abençoava.

17 Tendo saido para Se pôr a caminho, veio um homem a correr e, ajoelhando-se diante d'Ele, perguntou-Lhe: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?».

18 Jesus disse-lhe: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus.

19 Tu conheces os mandamentos: “Não mates, não cometas adultério, não roubes, não digas falso testemunho, não cometas fraudes, honra teu pai e tua mãe”».

20 Ele respondeu: «Mestre, todas estas coisas tenho observado desde a minha mocidade».

21 Jesus olhou para ele com afecto, e disse-lhe: «Uma coisa te falta: vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-Me».

22 Mas ele, entristecido por estas palavras, retirou-se desgostoso, porque tinha muitos bens.

23 Jesus, olhando em volta, disse aos discípulos: «Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!».

24 Os discípulos ficaram atónitos com estas palavras. Mas, Jesus de novo lhes disse: «Meus filhos, como é difícil entrarem no reino de Deus os que confiam nas riquezas!

25 Mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus».

26 Eles, cada vez mais admirados, diziam uns para os outros: «Então quem pode salvar-se?».

27 Jesus, olhando para eles, disse: «Para os homens isto é impossível, mas não para Deus, porque a Deus tudo é possível».

28 Pedro começou a dizer-Lhe: «Eis que deixámos tudo e Te seguimos».

29 Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: Ninguém há que tenha deixado a casa, os irmãos, as irmãs, o pai, a mãe, os filhos, ou as terras, por causa de Mim e do Evangelho,

30 que não receba o cêntuplo, mesmo nesta vida, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, e terras, juntamente com as perseguições, e no tempo futuro a vida eterna.

31 Porém, muitos dos primeiros serão os últimos, e os últimos serão os primeiros».

32 Iam em viagem para subir a Jerusalém; Jesus ia diante deles. E iam perturbados e seguiam-n'O com medo. Tomando novamente à parte os doze, começou a dizer-lhes o que tinha de Lhe acontecer:

33 «Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas; eles O condenarão à morte e O entregarão aos gentios;

34 e O escarnecerão, Lhe cuspirão, O açoitarão, e Lhe tirarão a vida. Mas ao terceiro dia ressuscitará».

35 Então aproximaram-se d'Ele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: «Mestre, queremos que nos concedas o que Te vamos pedir».

36 Ele disse-lhes: «Que quereis que vos conceda?».

37 Eles responderam: «Concede-nos que, na Tua glória, um de nós se sente à Tua direita e outro à Tua esquerda».

38 Mas Jesus disse-lhes: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber, ou ser baptizados no baptismo com que Eu vou ser baptizado?».

39 Eles disseram-Lhe: «Podemos». Jesus disse-lhes: «Efectivamente haveis de beber o cálice que Eu vou beber e haveis de ser baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado;

40 mas, quanto a estardes sentados à Minha direita ou à Minha esquerda, não pertence a Mim concedê-lo, mas é para aqueles para quem está preparado».

41 Ouvindo isto, os dez começaram a indignar-se com Tiago e João.

42 Mas Jesus, chamando-os, disse-lhes: «Vós sabeis que aqueles que são reconhecidos como chefes das nações as dominam e que os seus príncipes têm poder sobre elas.

43 Porém, entre vós não deve ser assim, mas o que quiser ser o maior, será o vosso servo,

44 e o que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.

45 Porque também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida para redenção de todos».

46 Chegaram a Jericó. Ao sair Jesus de Jericó, com os Seus discípulos e grande multidão, Bartimeu, mendigo cego, filho de Timeu, estava sentado junto ao caminho.

47 Quando ouviu dizer que era Jesus Nazareno, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim!».

48 Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele cada vez gritava mais forte: «Filho de David, tem piedade de mim!».

49 Jesus, parando, disse: «Chamai-o». Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Tem confiança, levanta-te, Ele chama-te».

50 Ele, lançando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus.

51 Tomando Jesus a palavra, disse-lhe: «Que queres que te faça?». O cego respondeu: «Rabboni, que eu veja!».

52 Então Jesus disse-lhe: «Vai, a tua fé te salvou». No mesmo instante recuperou a vista, e seguia-O no caminho.
 
 11

1 Quando estavam já perto de Jerusalém, nas proximidades de Betfagé e de Betânia, perto do monte das Oliveiras, enviou dois dos Seus discípulos,

2 e disse-lhes: «Ide à aldeia que está diante de vós. Logo que entrardes nela, encontrareis preso um jumentinho, em que ainda não montou homem algum; soltai-o e trazei-o.

3 Se alguém vos disser: “Porque fazeis isto?”, dizei-lhe: “O Senhor tem necessidade dele”; e logo o deixará trazer».

4 Indo eles, encontraram o jumentinho preso fora da porta, numa encruzilhada; e soltaram-no.

5 Alguns dos que estavam ali disseram-lhes: «Que fazeis a desatar o jumentinho?».

6 Eles responderam-lhes como Jesus tinha mandado, e deixaram-no levar.

7 Levaram o jumentinho a Jesus, puseram sobre ele os mantos, e Jesus montou em cima.

8 Muitos estenderam os seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos das árvores nos campos e juncavam com eles a estrada.

9 Os que iam adiante, e os que seguiam atrás, clamavam, dizendo: «Hossana! Bendito O que vem em nome do Senhor!

10 Bendito o reino do nosso pai David que vem! Hossana no mais alto dos céus!».

11 Entrou em Jerusalém, no templo, e, tendo observado tudo, como fosse já tarde, foi para Betânia com os doze.

12 Ao outro dia, depois de sairem de Betânia, teve fome.

13 Vendo ao longe uma figueira que tinha folhas, foi lá ver se encontrava nela algum fruto. Aproximando-Se, nada encontrou senão folhas, porque não era tempo de figos.

14 Então disse à figueira: «Nunca mais alguém coma fruto de ti». Os discípulos ouviram-n'O.

15 Chegaram a Jerusalém. Tendo entrado no templo, começou a expulsar os que vendiam e compravam no templo e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam as pombas.

16 E não consentia que ninguém transportasse nenhum objecto pelo templo;

17 e os ensinava dizendo: «Porventura não está escrito: “A minha casa será chamada casa de oração por todas as gentes”? Mas vós fizestes dela “um covil de ladrões”».

18 Ouvindo isto os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam o modo de O matar; porque O temiam, visto todo o povo admirar a Sua doutrina.

19 Quando se fez tarde, sairam da cidade.

20 No outro dia pela manhã, ao passarem, viram a figueira seca até às raízes.

21 Então Pedro, recordando-se, disse-Lhe: «Olha, Mestre, como se secou a figueira que amaldiçoaste».

22 Jesus, respondendo-lhe, disse-lhes: «Tende fé em Deus.

23 Em verdade vos digo que todo aquele que disser a este monte: “Tira-te daí e lança-te no mar”, e não hesitar no seu coração, mas tiver fé de que tudo o que disse será feito, assim acontecerá.

24 Por isso vos digo: Tudo o que pedirdes na oração, crede que o haveis de conseguir e o obtereis.

25 Quando estiverdes a orar, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai-lhe, para que também vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe os vossos pecados.

26 Porque, se vós não perdoardes, também o vosso Pai que está nos céus, não perdoará os vossos pecados».

27 Voltaram a Jerusalém. E, andando Jesus pelo templo, aproximaram-se d'Ele os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos,

28 e disseram-Lhe: «Com que autoridade fazes Tu estas coisas? E quem Te deu o direito de as fazer?».

29 Jesus disse-lhes: «Eu também vos farei uma pergunta; respondei-Me e Eu vos direi com que autoridade faço estas coisas.

30 O baptismo de João era do céu ou dos homens? Respondei-Me».

31 Mas eles discorriam entre si: «Se respondermos que era do céu, Ele dirá: “Porque razão, então, não crestes nele?”.

32 Responderemos que é dos homens?...». Temiam o povo, porque todos tinham a João como um verdadeiro profeta.

33 Então responderam a Jesus: «Não sabemos». E Jesus disse-lhes: «Pois nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas».
 
12

1 E começou a falar-lhes por parábolas: «Um homem plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, edificou uma torre e arrendou-a a uns vinhateiros, e ausentou-se daquele país.

2 Chegado o tempo, enviou aos vinhateiros um servo para receber deles a sua parte dos frutos da vinha.

3 Mas eles, apanhando-o, bateram-lhe, e mandaram-no embora de mãos vazias.

4 Enviou-lhes de novo outro servo, e também a este o feriram na cabeça, e o carregaram de injúrias.

5 Enviou de novo outro, e mataram-no. Assim fizeram a muitos outros, dos quais bateram nuns e mataram outros.

6 «Tendo ainda um filho muito amado, também o enviou por último, dizendo: “Respeitarão o meu filho”.

7 Porém, aqueles vinhateiros disseram uns para os outros: “Este é o herdeiro, vinde, matêmo-lo e será nossa a herança”.

8 Pegaram nele, mataram-no, e lançaram-no fora da vinha.

9 «Que fará, pois, o senhor da vinha? Virá, exterminará os vinhateiros e dará a vinha a outros.

10 Vós nunca lestes este passo da Escritura: “A pedra que fora rejeitada pelos que edificavam, tornou-se pedra angular.

11 Pelo Senhor foi feito isto, e é coisa maravilhosa aos nossos olhos”».

12 Procuravam apoderar-se d'Ele, mas temeram o povo. Tinham compreendido bem que dissera esta parábola contra eles. E, deixando-O, retiraram-se.

13 Enviaram-Lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que O apanhassem em alguma palavra.

14 Chegando eles, disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és verdadeiro, que não atendes a respeitos humanos; porque não consideras o exterior dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade: É lícito pagar o tributo a César, ou não? Devemos pagar ou não?».

15 Jesus, reconhecendo a sua hipocrisia, disse-lhes: «Porque Me tentais? Trazei-Me um denário para Eu ver».

16 Eles o trouxeram. Então disse-lhes: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Responderam-Lhe: «De César».

17 Então Jesus disse-lhes: «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus». E admiravam-n'O.

18 Foram ter com Ele os saduceus, que negam a ressurreição, e interrogaram-n'O, dizendo:

19 «Mestre, Moisés deixou-nos escrito que, se morrer o irmão de alguém e deixar a mulher sem filhos, seu irmão tome a mulher dele e dê descendência a seu irmão.

20 Ora havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu sem deixar filhos.

21 O segundo casou com a viúva e morreu também sem deixar filhos. Do mesmo modo o terceiro.

22 Nenhum dos sete deixou filhos. Depois deles todos, morreu também a mulher.

23 Na ressurreição, pois, quando tornarem a viver, de qual deles será ela mulher? Porque os sete a tiveram por mulher».

24 Jesus respondeu-lhes: «Não andareis vós em erro, porque não compreendeis as Escrituras, nem o poder de Deus?

25 Quando ressuscitarem de entre os mortos, nem os homens tomarão mulheres, nem as mulheres maridos, mas todos serão como anjos do céu.

26 Relativamente à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés, como Deus lhe falou sobre a sarça, dizendo: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob”?

27 Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos. Logo vós estais num grande erro».

28 Então aproximou-se um dos escribas, que os tinha ouvido discutir. Vendo que Jesus lhes tinha respondido bem, perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?».

29 Jesus respondeu-lhe: «O primeiro de todos os mandamentos é este: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor.

30 Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”.

31 O segundo é este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não há outro mandamento maior do que estes».

32 Então o esriba disse-Lhe: «Mestre, disseste bem e com verdade que Deus é um só, e que não há outro fora d'Ele;

33 e que amá-l'O com todo o coração, com todo o entendimento, com toda a alma, e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios».

34 Vendo Jesus que tinha respondido sabiamente, disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». Desde então ninguém mais ousava interrogá-l'O.

35 Continuando a ensinar no templo, Jesus tomou a palavra e disse: «Como dizem os escribas que o Cristo é filho de David?

36 O mesmo David inspirado pelo Espírito Santo diz: “Disse o Senhor ao Meu Senhor: Senta-Te à Minha direita, até que Eu ponha os Teus inimigos debaixo dos Teus pés”.

37 O própio David, portanto, chama-Lhe Senhor; como é Ele, pois, seu filho?». A numerosa multidão ouvia-O com gosto.

38 Dizia-lhes ainda nos Seus ensinamentos: «Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com roupas largas, de serem saudados nas praças

39 e de ocuparem as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes,

40 que devoram as casas das viúvas, sob o pretexto de longas orações. Serão julgados com maior rigor».

41 Estando Jesus sentado defronte do cofre das esmolas, observava como o povo deitava ali dinheiro. Muitos ricos deitavam em abundância.

42 Tendo chegado uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, que valem um quarto de um asse.

43 Chamando os Seus discípulos, disse-lhes: «Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais que todos os outros que deitaram no cofre,

44 porque todos os outros deitaram do que lhes sobrava, ela porém deitou do seu necessário tudo o que possuía, tudo o que tinha para viver».
 
13

1 Quando saía do templo, disse-Lhe um dos Seus discípulos: «Olha, Mestre, que pedras e que construções!».

2 Jesus disse-lhe: «Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada».

3 Estando sentado no monte das Oliveiras, defronte do templo, Pedro, Tiago, João e André interrogaram-n'O à parte:

4 «Diz-nos, quando sucederão estas coisas e que sinal haverá de que tudo isto está para se cumprir».

5 Então, Jesus começou a dizer-lhes: «Vede que ninguém vos engane.

6 Virão muitos em Meu nome, dizendo: “Sou eu”; e enganarão muitos.

7 Quando ouvirdes falar de guerras e de rumores de guerras, não temais; porque importa que estas coisas aconteçam, mas não será ainda o fim.

8 Levantar-se-á nação contra nação e reino contra reino. Haverá terramotos em diversas partes e fomes. Estas coisas serão o princípio das dores.

9 Estai alerta! Hão-de vos entregar aos tribunais, sereis açoitados nas sinagogas, por Minha causa sereis levados diante dos governadores e dos reis, para dar testemunho de Mim diante deles.

10 Mas, antes, deve ser pregado o Evangelho a todas as nações.

11 Quando, pois, vos levarem para vos entregar, não premediteis no que haveis de dizer, mas dizei o que vos for inspirado nessa hora, porque não sois vós que falais, mas sim o Espírito Santo.

12 Então o irmão entregará à morte o seu irmão, o pai o filho; os filhos levantar-se-ão contra os pais e lhes darão a morte.

13 Sereis odiados por todos, por causa do Meu nome. Mas o que perseverar até ao fim, esse será salvo.

14 «Quando, pois, virdes a abominação da desolação posta onde não devia estar -leitor, atende bem!- então os que estiverem na Judeia fujam para os montes,

15 quem estiver sobre o telhado, não desça nem entre para levar coisa alguma da sua casa;

16 e quem se encontrar no campo, não volte atrás a buscar o seu manto.

17 Ai das mulheres grávidas e das que tiverem crianças de peito naqueles dias!

18 Rogai, pois, que não suceda isto no Inverno.

19 Porque, naqueles dias, haverá tribulações, como não houve desde o principio do mundo que Deus criou, até agora, nem haverá mais.

20 E se o Senhor não abreviasse aqueles dias, nenhuma pessoa se salvaria; mas Ele os abreviou, em atenção aos eleitos que escolheu.

21 «Então se alguém vos disser: “Eis aqui está o Cristo, ei-l'O acolá”, não deis crédito.

22 Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, e farão milagres e prodígios para enganarem, se fosse possível, até os escolhidos.

23 Estai, pois, de sobreaviso, eis que Eu vos predisse tudo.

24 Naqueles dias, depois daquela tribulação, o sol escurecer-se-á e a lua não dará a sua claridade,

25 e as estrelas cairão do céu e as potestades que estão nos céus serão abaladas.

26 Então verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória.

27 E enviará logo os Seus anjos e juntará os Seus escolhidos dos quatro ventos, desde a extremidade da terra até à extremidade do céu.

28 Ouvi uma comparação tirada da figueira: Quando os seus ramos estão já tenros e as folhas brotam, sabeis que está perto o Verão;

29 assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que está perto, às portas.

30 Na verdade vos digo que não passará esta geração sem que se cumpram toda estas coisas.

31 Passarão o céu e a terra, mas as Minhas palavras não hão-de passar.

32 «A respeito, porém, desse dia ou dessa hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai.

33 Estai de sobreaviso, vigiai, porque não sabeis quando será o momento.

34 Será como um homem que, empreendendo uma viagem, deixou a sua casa, delegou a autoridade aos seus servos, indicando a cada um a sua tarefa, e ordenou ao porteiro que estivesse vigilante.

35 Vigiai, pois, visto que não sabeis quando virá o senhor da casa, se de tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã;

36 para que, vindo de repente, não vos encontre a dormir.

37 O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!»
 
14

1 Dali a dois dias era a Páscoa e os Ázimos; os príncipes dos sacerdotes e os escribas andavam buscando o modo de O prender à traição, para O matar.

2 Porém, diziam: «Não convém que isto se faça no dia da festa, para que não se levante nenhum motim entre o povo».

3 Estando Jesus em Betânia, em casa de Simão o leproso, enquanto estava à mesa, veio uma mulher trazendo um frasco de alabastro cheio de um perfume feito de verdadeiro nardo, de um grande valor e, quebrando o frasco, derramou-Lho sobre a cabeça.

4 Alguns dos que estavam presentes indignaram-se e diziam entre si: «Para que foi este desperdício de perfume?

5 Pois podia-se vender por mais de trezentos denários e dá-los aos pobres». E irritavam-se contra ela.

6 Mas Jesus disse: «Deixai-a. Porque a molestais? Ela fez-Me uma boa obra,

7 porque pobres sempre os tereis convosco, e quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem; porém a Mim, não Me tereis sempre.

8 Ela fez o que podia: ungiu com antecipação o Meu corpo para a sepultura.

9 Em verdade vos digo: Onde quer que for pregado este Evangelho por todo o mundo, será também contado, para sua memória, o que ela fez».

10 Então, Judas Iscariotes, um dos doze, foi ter com os príncipes dos sacerdotes para lhes entregar Jesus.

11 Eles ouvindo-o, alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro. E ele procurava ocasião oportuna para O entregar.

12 No primeiro dia dos Ázimos, quando imolavam a Páscoa, os discípulos perguntaram-Lhe: «Onde queres que vamos preparar-Te a refeição da Páscoa?».

13 Então, Ele enviou dois dos Seus discípulos e disse-lhes: «Ide à cidade e encontrareis um homem levando uma bilha de água; ide atrás dele,

14 e, onde entrar, dizei ao dono da casa: “O Mestre manda dizer: Onde está a Minha sala onde hei-de comer a Páscoa com os Meus discípulos?”.

15 E ele vos mostrará uma sala superior, grande, mobilada e já pronta. Preparai-nos lá o que é preciso».

16 Os discípulos partiram e chegaram à cidade; encontraram tudo como Ele lhes tinha dito, e prepararam a Páscoa.

17 Chegada a tarde, foi Jesus com os doze.

18 Quando estavam à mesa e comiam, disse Jesus: «Em verdade vos digo que um de vós, que come comigo, Me há-de entregar».

19 Então começaram a entristecer-se, e a dizer-Lhe um por um: «Porventura sou eu?».

20 Ele disse-lhes: «É um dos doze que se serve comigo do mesmo prato.

21 O Filho do Homem vai, segundo está escrito d'Ele, mas, ai daquele homem por quem for entregue o Filho do Homem! Melhor fora a esse homem não ter nascido».

22 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciada a bênção, partiu-o, deu-lho e disse: «Tomai, isto é o Meu corpo».

23 Em seguida, tendo tomado o cálice, dando graças, deu-lho, e todos beberam dele.

24 E disse-lhes: «Isto é o Meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por todos.

25 Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da videira, até àquele dia em que o beberei novo no reino de Deus».

26 Cantados os salmos, foram para o monte das Oliveiras.

27 Então Jesus, disse-lhes: «Todos vós vos escandalizareis, pois está escrito: “Ferirei o pastor, e as ovelhas se dispersarão”.

28 Mas, depois de Eu ressuscitar, preceder-vos-ei na Galileia».

29 Pedro, porém, disse-Lhe: «Ainda que todos se escandalizem a Teu respeito, eu não».

30 Jesus disse-lhe: «Em verdade te digo que hoje, nesta mesma noite, antes que o galo cante a segunda vez, Me negarás três vezes».

31 Porém, ele insistia ainda mais: «Ainda que seja preciso morrer contigo, não Te negarei». E todos diziam o mesmo.

32 Chegando a uma herdade, chamada Getsemani, Jesus disse aos Seus discípulos: «Sentai-vos aqui enquanto vou orar».

33 Levou consigo Pedro, Tiago e João; e começou a sentir pavor e angústia.

34 E disse-lhes: «A Minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui e vigiai».

35 Tendo-Se adiantado um pouco, prostrou-Se por terra e pedia que, se era possível, se afastasse d'Ele aquela hora.

36 Dizia: «Abba, Pai, todas as coisas Te são possíveis; afasta de Mim este cálice; porém, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres».

37 Depois, voltou e encontrou-os a dormir, e disse a Pedro: «Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora?

38 Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito, na verdade, está pronto mas a carne é fraca».

39 Tendo-Se retirado novamente, pôs-Se a orar, repetindo as mesmas palavras.

40 Voltando, encontrou-os outra vez a dormir, porque tinham os olhos pesados pelo sono. Não sabiam que responder-Lhe.

41 Voltou terceira vez, e disse-lhes: «Dormi agora e descansai. Basta!, é chegada a hora; eis que o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores.

42 Levantai-vos, vamos; eis que se aproxima o que Me há-de entregar».

43 Ainda falava, quando chega Judas Iscariotes, um dos doze, e com ele muita gente armada de espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes, pelos escribas e pelos anciãos.

44 O traidor tinha-lhes dado um sinal dizendo: «Aquele a quem eu beijar, é esse; prendei-O e levai-O com cuidado».

45 Logo que chegou, aproximando-se imediatamente de Jesus, disse-Lhe: «Mestre!», e beijou-O.

46 Então eles lançaram-Lhe as mãos e prenderam-n'O.

47 Um dos presentes, tirando a espada, feriu um servo do sumo sacerdote e cortou-lhe uma orelha.

48 Jesus tomando a palavra, disse-lhes: «Como se Eu fosse um ladrão viestes prender-Me com espadas e varapaus?

49 Todos os dias estava entre vós ensinando no templo e não Me prendestes. Mas isto acontece para que se cumpram as Escrituras».

50 Então, os discípulos, abandonando-O, fugiram todos.

51 Um jovem seguia Jesus coberto somente com um lençol e prenderam-no.

52 Mas ele, largando o lençol, escapou-se-lhes nu.

53 Levaram Jesus ao sumo sacerdote e juntaram-se todos os príncipes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas.

54 Pedro foi-O seguindo de longe, até dentro do pátio do sumo sacerdote. Estava sentado ao fogo com os criados, e aquecia-se.

55 Os príncipes dos sacerdotes e todo o conselho buscavam algum testemunho contra Jesus, para O fazerem morrer, e não o encontravam.

56 Muitos depunham falsamente contra Ele, mas não concordavam os seus depoimentos.

57 Levantaram-se uns que depunham falsamente contra Ele, dizendo:

58 «Nós ouvimo-l'O dizer: “Destruirei este templo, feito pela mão do homem, e em três dias edificarei outro, que não será feito pela mão do homem”».

59 Porém, nem estes testemunhos eram concordes.

60 Então, levantando-se do meio da assembleia o sumo sacerdote, interrogou Jesus, dizendo: «Não respondes nada ao que estes depõem contra Ti?».

61 Ele, porém, estava em silêncio e nada respondeu. Interrogou-O de novo o sumo sacerdote e disse-Lhe: «És Tu o Cristo, o Filho de Deus bendito?».

62 Jesus respondeu: «Eu sou, e vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, e vir sobre as nuvens do céu».

63 Então, o sumo sacerdote, rasgando as suas vestes, disse: «Que necessidade temos de mais testemunhas?

64 Ouvistes a blasfémia. Que vos parece?». E todos O condenaram como réu de morte.

65 Então começaram alguns a cuspir-Lhe, a cobrir-Lhe o rosto e a dar-Lhe murros, dizendo-Lhe: «Profetiza!». Os criados receberam-n'O a bofetadas.

66 Entretanto, estando Pedro em baixo no átrio, chegou uma das criadas do sumo sacerdote.

67 Vendo Pedro, que se aquecia, encarando-o disse: «Tu também estavas com Jesus Nazareno».

68 Mas ele negou: «Não sei, nem compreendo o que dizes». E saiu para fora, para a entrada do pátio, e o galo cantou.

69 Tendo-o visto a criada, começou novamente a dizer aos que estavam presentes: «Este é daqueles».

70 Mas ele o negou de novo. Pouco depois, os que ali estavam presentes diziam de novo a Pedro: «Verdadeiramente tu és um deles, porque também és galileu».

71 Ele começou a fazer imprecações e a jurar: «Não conheço esse homem de quem falais».

72 Imediatamente cantou o galo segunda vez. Pedro lembrou-se da palavra que Jesus tinha dito: «Antes que o galo cante duas vezes, Me negarás três». E começou a chorar.
 
15

1 Logo pela manhã, os príncipes dos sacerdotes tiveram conselho com os anciãos, os escribas e todo o Sinédrio. Manietando Jesus, O levaram e entregaram a Pilatos.

2 Pilatos perguntou-Lhe: «Tu és o Rei dos Judeus?». Ele respondeu: «Tu o dizes».

3 Os príncipes dos sacerdotes acusavam-n'O de muitas coisas.

4 Pilatos interrogou-O novamente: «Não respondes coisa alguma? Vê de quantas coisas Te acusam».

5 Mas Jesus não respondeu mais nada, de forma que Pilatos estava admirado.

6 Ora ele costumava, pela Páscoa, soltar-lhes um dos presos que eles pedissem.

7 Havia um, chamado Barrabás - que estava preso com outros sediciosos - que, num motim, tinha cometido um homicídio.

8 Juntando-se o povo começou a pedir o indulto que sempre lhes concedia.

9 Pilatos respondeu-lhes: «Quereis que vos solte o Rei dos Judeus?».

10 Porque sabia que os príncipes dos sacerdotes O tinham entregue por inveja.

11 Porém, os príncipes dos sacerdotes incitaram o povo a que pedisse antes a liberdade de Barrabás.

12 Pilatos falando outra vez, disse-lhes: «Que hei-de fazer, então, d'Aquele que vós chamais o Rei dos Judeus?».

13 Eles tornaram a gritar: «Crucifica-O!».

14 Pilatos, porém, dizia-lhes: «Que mal fez Ele?». Mas eles cada vez gritavam mais: «Crucifica-O!».

15 Então Pilatos, querendo satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás. Depois de fazer açoitar Jesus, entregou-O para ser crucificado.

16 Os soldados conduziram-n'O ao interior do átrio, isto é, o Pretório, e ali juntaram toda a coorte.

17 Revestiram-n'O de púrpura e cingiram-Lhe a cabeça com uma coroa entretecida de espinhos.

18 E começaram a saudá-l'O: «Salve, Rei dos Judeus!».

19 E davam-Lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe no rosto, e, pondo-se de joelhos, faziam-Lhe reverências.

20 Depois de O terem escarnecido, despojaram-n'O da púrpura, vestiram-Lhe os Seus vestidos e levaram-n'O para O crucificar.

21 Obrigaram um certo homem que ia a passar, Simão de Cirene, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo, a levar a cruz.

22 Conduziram-n'O ao lugar do Gólgota, que quer dizer lugar do Crânio.

23 Davam-Lhe a beber vinho misturado com mirra, mas Ele não o tomou.

24 Tendo-O crucificado, dividiram os Seus vestidos, lançando sortes sobre eles, para ver que parte cada um levaria.

25 Era a hora tércia quando O crucificaram.

26 A causa da Sua condenação estava escrita nesta inscrição: «O Rei dos Judeus».

27 Com Ele crucificaram dois ladrões, um à direita, e outro à esquerda.

28 Omitido pela Neo-Vulgata.

29 Os que passavam blasfemavam, abanando a cabeça e dizendo: «Ah! Tu, que destróis o templo de Deus e o reedificas em três dias,

30 salva-Te a Ti mesmo descendo da cruz».

31 Do mesmo modo, escarnecendo-O os príncipes dos sacerdotes e os escribas, diziam entre si: «Salvou os outros, e não Se pode salvar a Si mesmo.

32 O Cristo, o Rei de Israel, desça agora da cruz para que vejamos e acreditemos». Também os que tinham sido crucificados com Ele O insultavam.

33 Chegando a hora sexta, toda a terra se cobriu de trevas até à hora nona.

34 E, à hora nona, exclamou Jesus em alta voz: «Eli, Eli, lemá sabachtani?». Que quer dizer: «Meu Deus, Meu Deus, porque me desamparaste?».

35 Ouvindo isto, alguns dos presentes diziam: «Eis que chama por Elias».

36 Correndo um e ensopando uma esponja em vinagre e atando-a a uma cana, dava-Lhe de beber, dizendo: «Deixai, vejamos se Elias vem tirá-l'O».

37 Mas Jesus, dando um grande brado, expirou.

38 O véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo.

39 O centurião, que estava em frente d'Ele, vendo que Jesus expirara dando este brado, disse: «Verdadeiramente este homem era Filho de Deus».

40 Encontravam-se ali também algumas mulheres olhando de longe, entre as quais estava Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé,

41 as quais já O seguiam e serviam quando Ele estava na Galileia, e muitas outras que, juntamente com Ele, tinham subido a Jerusalém.

42 Ao cair da tarde, pois era a Preparação, isto é, a véspera do sábado,

43 chegou José de Arimateia, membro ilustre do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus. Apresentou-se corajosamente a Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus.

44 Pilatos admirou-se que já estivesse morto; mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se já estava morto.

45 Informado pelo centurião, deu o corpo a José.

46 José, tendo comprado um lençol e tirando-O da cruz, envolveu-O no lençol, depositou-O num sepulcro, que estava aberto na rocha, e rolou uma pedra para diante da entrada do sepulcro.

47 Entretanto Maria Madalena e Maria, mãe de José, estavam observando onde era depositado.
 
16

1 Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para irem embalsamar Jesus.

2 Partindo no primeiro dia da semana, de manhã cedo, chegaram ao sepulcro quando o sol já era nascido.

3 Diziam entre si: «Quem nos há-de retirar a pedra da entrada do sepulcro?».

4 Mas, olhando, viram removida a pedra, que era muito grande.

5 Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado do lado direito, vestido de uma túnica branca e ficaram assustadas.

6 Ele disse-lhes: «Não vos assusteis. Buscais a Jesus Nazareno, o crucificado? Ressuscitou, não está aqui. Eis o lugar onde O depositaram.

7 Mas ide, dizei a Seus discípulos e a Pedro que Ele vai diante de vós para a Galileia; lá O vereis, como Ele vos disse».

8 Elas, saindo do sepulcro, fugiram, porque as tinha assaltado o temor e estavam como que fora de si. Não disseram nada a ninguém, tal era o medo que tinham.

9 Jesus, tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demónios.

10 Ela foi noticiá-lo aos que tinham andado com Ele, os quais estavam tristes e chorosos.

11 Tendo eles ouvido dizer que Jesus estava vivo e que fora visto por ela, não acreditaram.

12 Depois disto, mostrou-Se de outra forma a dois deles, enquanto iam para a aldeia;

13 os quais foram anunciar aos outros, que também a estes não deram crédito.

14 Finalmente, apareceu aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a sua incredulidade e dureza de coração, por não terem dado crédito aos que O tinham visto ressuscitado.

15 E disse-lhes: «Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda a criatura.

16 Quem crer e for baptizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado.

17 Eis os milagres que acompanharão os que crerem: Expulsarão os demónios em Meu nome, falarão novas línguas,

18 pegarão em serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; imporão as mãos sobre os doentes, e serão curados».

19 O Senhor, depois de assim lhes ter falado, elevou-Se ao céu e foi sentar-Se à direita do Pai.

20 Eles, tendo partido, pregaram por toda a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os milagres que a acompanhavam